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na
esteira do Poeta Cego!!!
tentativa de visão global
em manhã de nevoeiro denso claro noite dia mesmo
ali ao pé do mar que todo o tempo bramia e falava
sem parar...
e que cantava e contava contos lendas de encantar que aos
mais pareciam feras mas pra outros eram belas falando sempre
a gritar rebentando junto às pedras ondas de espuma
no ar que mais pareciam estrelas a brilhar só um
momento pra logo se desfazerem como levadas pelo vento...
ou então falava manso beijando abraçando a
areia todo terno a espreguiçar a fúria das
ondas altas...
olhando um pouco mais longe ei-lo o mar a ondular levantando
e abaixando o seu dorso cor de chumbo como monstro a resfolgar
e vendo as ondas correndo agora já perto da praia
rebentam em branca espuma enrolando-se enrolando em toda
a roda do mundo um colar de espuma branca até se
irem desfazer morrer na areia nas rochas ou então
de encontro à costa que se levanta em escarpas e
então nessas muralhas ele bate em fúria dobrada
minando cavernas fundas furnas buracos abismos como se a
quisesse abrir abraçar e possuir até mesmo
a destruir..
foi aí nesse lugar nesse tempo em manhã de
nevoeiro que era noite e era dia mas não era dia
ou noite...
nesse preciso momento qu'era espaço de encantar sem
ser tempo nem lugar
eu vi o sol a brilhar e dentro do sol um brilho que era
um ponto pequenino mas dum tamanho infinito e nesse espaço
pequeno tão grande que era sem fim vi tudo o que
tinha o mundo para ver e para mostrar mesmo sem o poder
ver e ele sem poder mostrar...
campos cidades e casas gentes de todas as raças doutras
eras já passadas e futuras que hão-de vir
e guerras de muitas formas e paz de muitos feitios e lá
muito longe bem perto as estrelas do infinito espaço
e tempo fundidos girando em tal velocidade que tudo ali
num segundo era falso e verdadeiro era feio era bonito era
assim e mais ou menos tal como é a eternidade e o
espaço sem fim o cosmos o universo que queremos crer
mas não cremos nem podemos entender...
nada se via era tudo que ali estava girando no céu
e no mar imenso tão manso que era temido que parado
se agitava e logo parava tímido superfície
lisa e calma azul verde prateada e por baixo a fervilhar
de mil vidas mil abismos mil mistérios e mil perigos
maravilhas e terrores quimeras e furacões mil fascínios
mil desgraças coisas que desconhecemos e no alto
ali espelhado sem saber onde era o céu mar e céu
tudo trocado sem saber onde começa ou acaba um ou
outro e naquele mar naquele sol que era um ponto irrelevante
dum tamanho impressionante que eu não podia medir
mas via todo num ponto...
lá no alto ali em baixo as estrelas a brilhar luminosas
e distantes a milhares de anos luz a mostrar nesse momento
a luz que foi há mil anos tudo ali no mesmo instante
a ver agora presente o que sucedeu há séculos
e nunca por nós foi visto nem veremos algum dia mas
estamos ora vendo como num mágico espelho as mentiras
que a história sempre nos foi repetindo contando
a verdade toda de reis de senhores e povos que fizeram desfizeram
e viveram e se foram vivendo um tempo sem tempo que foi
um tempo passado...
e lá de longe bem perto essas estrelas brilhantes
talvez já sem terem brilho a rir-se vêem aquilo
que já foi ou que vai ser vendo aquilo que foi no
instante em que lá estão a brilhar a cintilar
e aquilo que vai passar suceder acontecer daqui a milhares
de anos que é o tempo que elas brilham e é
um tempo sem tempo diferente do tempo inventado para entendermos
o tempo!!!
um dia havemos de ir lá e ligar os aparelhos secretos
sem ter segredos por nós nem imaginados e ver duma
vez tout court o passado e o presente o que foi e
é futuro estando lá e estando cá e
ver o longe e o perto e o aqui e o além tudo num
mesmo só ponto tudo no mesmo momento...
o fascínio e o espanto o encantamento o encanto o
delírio o desespero a orgia e o prazer o amargo da
doçura e a dor da alegria e o mal e o bem e o bem
mal o mal bem e coisa e tal o mais ou menos sim ou não
o sim não mas não que é sim o verdadeiro
e o falso e o verdadeiro que é falso e o falso verdadeiro
o positivo ou negativo que é positivo negativo mais
negativo positivo o claro escuro a penumbra o dia a noite
e a aurora o pôr do sol e o depois e a madrugada e
o antes e a noite com a luz da lua o dia sem luz do sol
e a magia das horas do tempo que nunca passa ou então
passa veloz sem sequer darmos por nada por darmos conta
de tudo quando o tudo não é nada...
a verdade e a mentira a mentira verdadeira a ciência
a ignorância a cultura a incultura e a ciência
ignorante e a ignorância sabida mais sábia
que a ciência...
a guerra e paz juntamente de mãos dadas como irmãs
a náusea e agitação a revolução
e a calma a paz podre a podridão ainda em decomposição
numa morte repelente que faz nascer outras vidas e assim
fica aparecida a vida vinda da morte e a morte mais parecida
com a vida que gerou...
e assim tudo é fantasia afinal realidade e ali à
beira do mar vendo as pessoas passar em dia de nevoeiro
não são gente são fantasmas que se
movem e não andam que falam não articulam
que escutam mas não ouvem como se fossem imagens
doutros tempos e paragens e o navio que além passa
por cima ao longe nas águas não sabemos se
navega sulcando as águas do mar ou se ele voa no
ar cortando as nuvens do céu e se as aves e aviões
navegam as ondas bravas dum mar que escalou o alto e virou
tudo ao contrário...
e agora ali além no meio do nevoeiro naquele ponto
mais aberto mais claro à nossa visão que percebemos
mais perto surge espuma branca suja como baba como esperma
que vomita ou que defeca lixos restos algas crude conchas
líquenes salvados tudo o que o mar vomita vomitando
o vomitado que quiseram vomitar para dele se libertar...
mas de repente um espanto...
no meio do nevoeiro surgem ninfas e sereias das águas
mortas mas vivas e é todo um reino de mitos de mil
reais fantasias que são mentiras verdades e parecem
ilusão por estranhos à VISÃO.
e
de repente o sol abre e que vejo eu então através
através dessa VISÃO a mesma que tinha há
pouco? aquilo que já lá estava e nunca lá
estivera porque afinal é a luz que escurece e apaga
e nos perturba a VISÃO.
afinal
aquilo ali era uma praia qualquer não praia da CEE
como a CEE as quer embrulhada em celofane limpinha e arranjadinha
para ter direito a bandeira a cheirar bem a lavado a lixívia
e detergente com barracas alinhadas e letreiros bem pintados
com banheiros e banheiras salvadores e salvadoras polícias
e vigilantes bóias sinalizadoras tudo enfim um paraíso
como a CEE o quer não dos tempos do Noé do
paraíso perdido dos nossos primeiros pais Adão
e Eva e seus filhos mas paraíso riscado em folhas
de arquitecto e não no mar e na terra com as curvas
que tem ao certo...
aquilo
era uma simples praia feita de areia e de pedras com algas
e com malhões malhões de todas as formas de
todas as cores e tons e com riscas mais ou menos direitas
a desenhar mil coisas que não existem e nós
queremos ver lá... era uma praia de mar como são
o mar as praias... ali havia de tudo de tudo um pouco afinal
que vinha da CEE muito limpa e arranjada... havia lixo e
petróleo crude plástico alcatrão daquele
que é indestrutível restos de redes e fios
de canas que o não são bidões vazios
e cheios garrafas grandes pequenas barrotes e tábuas
podres restos de barcos e velas bocados de coisas diversas
que eram merda merda merda e merda já reciclada pelos
ventos e marés...
havia mais: algas limos carcaças de bichos vários
rastos de gente pegadas marcas de bichos e aves muito bem
reconhecíveis e outros desconhecidos talvez de monstros
do mar...
e
havia também o mar o mar e as sua ondas e a música
do mar e todo o seu turbilhar e uns momentos de silêncio
um silêncio momentâneo entre dois rebentamentos
que se ouvia e que feria inda mais que o marulhar constante
das vagas que rolam umas sobre as outras à vez e
nos dava a impressão a ilusão momentânea
de que tudo ia parar de que tudo ia acabar... mas voltava
novamente todo aquele marulhar e havia som melodia que sem
parar repetia o estrondo o ribombar das vagas a rebentar
um barulho sempre igual qual mortal monotonia das ondas
sempre a bater que afinal é sinfonia sempre igual
sempre diferente daquele mar que se levanta mesmo sem se
levantar como um deus que está dormindo e se põe
a respirar e se levanta e se abaixa e as ondas a correr
a correr a rebentar enquanto a outra se forma já
outra se enrola e quebra e bate de encontro à outra
que se ia mesmo a formar a cantar e a correr arrasta e bate
na rocha nas fragas e nos penedos também a bater
na areia que esfrega estende e enrola e deixa lisa moldada
a cantar de arrepiada de se ver assim beijada por tão
potente senhor e depois a vem lamber arrastar e enrolar
a atirar com os malhões que também rolam se
enrolam se misturam e se mudam cantando batendo palmas dançando
uns sobre os outros em festas de delirar e fazendo construções
de mil formas e feitios para logo se mudarem...
e tudo isto em movimento parecendo quedo e mudo sem sair
do seu lugar!
e o mar torna a voltar a mudar tudo outra vez a rolar e
a enrolar faz agora uma muralha de pedra bem arrumada mas
já na outra maré de novo tudo desfaz tudo
espalha e esborralha e a praia que é a mesma mas
já é uma outra praia já passou a maré
cheia já se não vêem pegadas já
são outras as pegadas que agora estão marcadas
rastos de gente de bichos rastos de monstros marinhos que
vieram e se foram...
e
ali no mesmo espaço tudo se junta num tempo que já
veio e que se foi e que há-de voltar ainda para de
novo partir...
era
gente e eram peixes era lixo e eram pedras era areia e eram
algas eram limos eram bichos eram cães e eram aves
eram rastos eram restos de gente que passou a correr ou
passou tão só a andar até muito devagar
ou gente que esteve ali parada a olhar o mar ou simplesmente
parada...
alguma a andar parada sozinha por o querer estar ou sozinha
a procurar algum par a companhia que a fizesse sonhar...
passam pares de mãos dadas grupos grandes de folgar
gente descalça e calçada vestida ou quase
despida outros vestidos de nada nua vestida de ar e mar
a correr a mergulhar ou então deitada na areia ou
sobre a água a boiar no mar...
meio a dormir acordada acordada e a sonhar a ouvir mil sons
dispersos ou a ouvir o silêncio daquelas falas do
mar que fala com sons esquivos e com gestos esquisitos calado
a querer dizer muito dos segredos mais profundos guardados
nas profundezas dos abismos infinitos que há no fundo
do mar mas sem dizer ou falar que nós não
o entendemos sem dizer nada nos termos que podemos decifrar...
e ali ficamos parados a ver a água parada num movimento
constante sempre sempre a ondular sempre sempre a mesma
cor que é de todas as cores e a onda que vai e vem
e volta e se ergue no ar com uma fúria dobrada como
que a ameaçar vem feroz e logo mansa a deixar-se
penetrar um passo atrás um em frente um mergulho
a perfurar aquela fúria tremenda que se rende e ali
fica enternecida a rolar embalando uma criança que
bóia feliz no mar...
a onda passa quebrou e fica uma linha imensa de brancura
imaculada a desenhar mil carícias de espuma mole
e macia a mostrar a quem quer ver que o mar não é
o mar...
é a mar é feminina pois o nome que é
mar em muitas línguas do mundo como la mer e la mar
é mulher é mãe é água
é fecunda e criadora é fêmea fome fecunda
que se compraz em criar... e ali está fechada a deixar-se
penetrar aberta para os que ousam no seu ventre mergulhar
e de lá sair morrendo renascendo dessas águas
que refrescam e renovam e dão frio e dão calor
tornando feliz o medo de ter medo de a afrontar um medo
que atrai e repele seduz e chama e afasta e se mostra calmo
e doce e logo encrespado hostil e por vez é transparente
limpo calmo e sedutor e logo fica turvado ocultando mil
ardis e escondendo mil perigos que escondem por sua vez
quem sabe se mil tesouros mil encantos preciosos porque
o mar é A MAR
e talvez seja AMAR.
e
foi assim de repente no meio da escuridão que era
dia luminoso que nada deixava ver para poder tudo ver mesmo
a clara ilusão de ver tudo o que não via
que pude enfim entender com a luz que não se via
que o tudo era nada e que o nada era tudo e que o mesmo
era a sorte que era morte ou era vida e que o tempo o não
era o mesmo a hora o segundo os anos séculos e eras
eram um tempo fictício que passava lentamente ou
em fracções de segundo os lustros a eternidade
o minuto era infinito e finito diminuto a mentira era verdade
os factos eram ficção o real imaginado realidade
invenção o princípio era o final de
algo já começado e o fim era o princípio
de algo que se começa e que ser deus e ser homem
ser mulher e ser criança conceber e procriar ser
livre e estar prisioneiro criar algo ou destruí-lo
morrer matar ou viver o amar o odiar o fingir e o mentir
e dizer o que é verdade... qual?... de quem?... o
quê?... ter esperança e não a ter querer
crer e não poder e crer querer e não o querer
e até querer fazer tudo sem ser capaz de o fazer...
o dia a noite o bem e mal a luz e sombra o claro escuro
tudo vem do que é total do nada que não existe
do tudo que não existe se o nada o não sustem...
afinal
se virmos bem tudo é obra do diabo onde encarna todo
o mal para o nosso entendimento e tudo é obra de
deus onde existe todo o bem que podemos conceber... tudo
vem do mal do bem do princípio que é o fim
da vida que vem da morte da morte que gera a vida e é
o fim do princípio
e afinal
o ponto final
é o fim que principia outra obra outro ser que nasce
e vai acabar...
e
agora no final
desta VISÃO ensombrada
para se ser coerente
tudo volta a começar
como um regresso ao futuro que nunca foi começado...
ou para ter um fim feliz
vou infeliz procurando
o amor que já perdi
para o poder encontrar
nas profundezas da mar
no mistério que é AMAR.
cego de gota serena
1ª versão - Verão de 1989
2ª versão - Outono de 1989
3ª versão - Outono de 1993
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