Portuguese José d´A Mar
A MAR
Vanguardia
Editorial: Ediciones El Universal
ISBN 950-502-602-5

Como el agua de las fuentes y de los ríos, las VIDAS corren hacia EL MAR… LA MAR… AMAR… En estos poemas con influencia de Camões, Torga y Borges, se proclama una subversión: ¡EL MAR es LA MAR!

Como a água das fontes e dos rios, as VIDAS, correm SEMPRE para O MAR… A MAR… AMAR… Nestes poemas com a influência de Camões, Torga e Borges, é proclamada a subversão: O MAR é A MAR!).

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mar amar a mar

 

VISÕES

VISÃO sem ver...

cego de gota serena

 

 

na esteira do Poeta Cego!!!
tentativa de visão global

em manhã de nevoeiro denso claro noite dia mesmo ali ao pé do mar que todo o tempo bramia e falava sem parar...
e que cantava e contava contos lendas de encantar que aos mais pareciam feras mas pra outros eram belas falando sempre a gritar rebentando junto às pedras ondas de espuma no ar que mais pareciam estrelas a brilhar só um momento pra logo se desfazerem como levadas pelo vento...
ou então falava manso beijando abraçando a areia todo terno a espreguiçar a fúria das ondas altas...
olhando um pouco mais longe ei-lo o mar a ondular levantando e abaixando o seu dorso cor de chumbo como monstro a resfolgar e vendo as ondas correndo agora já perto da praia rebentam em branca espuma enrolando-se enrolando em toda a roda do mundo um colar de espuma branca até se irem desfazer morrer na areia nas rochas ou então de encontro à costa que se levanta em escarpas e então nessas muralhas ele bate em fúria dobrada minando cavernas fundas furnas buracos abismos como se a quisesse abrir abraçar e possuir até mesmo a destruir..
foi aí nesse lugar nesse tempo em manhã de nevoeiro que era noite e era dia mas não era dia ou noite...
nesse preciso momento qu'era espaço de encantar sem ser tempo nem lugar
eu vi o sol a brilhar e dentro do sol um brilho que era um ponto pequenino mas dum tamanho infinito e nesse espaço pequeno tão grande que era sem fim vi tudo o que tinha o mundo para ver e para mostrar mesmo sem o poder ver e ele sem poder mostrar...
campos cidades e casas gentes de todas as raças doutras eras já passadas e futuras que hão-de vir e guerras de muitas formas e paz de muitos feitios e lá muito longe bem perto as estrelas do infinito espaço e tempo fundidos girando em tal velocidade que tudo ali num segundo era falso e verdadeiro era feio era bonito era assim e mais ou menos tal como é a eternidade e o espaço sem fim o cosmos o universo que queremos crer mas não cremos nem podemos entender...
nada se via era tudo que ali estava girando no céu e no mar imenso tão manso que era temido que parado se agitava e logo parava tímido superfície lisa e calma azul verde prateada e por baixo a fervilhar de mil vidas mil abismos mil mistérios e mil perigos maravilhas e terrores quimeras e furacões mil fascínios mil desgraças coisas que desconhecemos e no alto ali espelhado sem saber onde era o céu mar e céu tudo trocado sem saber onde começa ou acaba um ou outro e naquele mar naquele sol que era um ponto irrelevante dum tamanho impressionante que eu não podia medir mas via todo num ponto...
lá no alto ali em baixo as estrelas a brilhar luminosas e distantes a milhares de anos luz a mostrar nesse momento a luz que foi há mil anos tudo ali no mesmo instante a ver agora presente o que sucedeu há séculos e nunca por nós foi visto nem veremos algum dia mas estamos ora vendo como num mágico espelho as mentiras que a história sempre nos foi repetindo contando a verdade toda de reis de senhores e povos que fizeram desfizeram e viveram e se foram vivendo um tempo sem tempo que foi um tempo passado...
e lá de longe bem perto essas estrelas brilhantes talvez já sem terem brilho a rir-se vêem aquilo que já foi ou que vai ser vendo aquilo que foi no instante em que lá estão a brilhar a cintilar e aquilo que vai passar suceder acontecer daqui a milhares de anos que é o tempo que elas brilham e é um tempo sem tempo diferente do tempo inventado para entendermos o tempo!!!
um dia havemos de ir lá e ligar os aparelhos secretos sem ter segredos por nós nem imaginados e ver duma vez tout court o passado e o presente o que foi e é futuro estando lá e estando cá e ver o longe e o perto e o aqui e o além tudo num mesmo só ponto tudo no mesmo momento...
o fascínio e o espanto o encantamento o encanto o delírio o desespero a orgia e o prazer o amargo da doçura e a dor da alegria e o mal e o bem e o bem mal o mal bem e coisa e tal o mais ou menos sim ou não o sim não mas não que é sim o verdadeiro e o falso e o verdadeiro que é falso e o falso verdadeiro o positivo ou negativo que é positivo negativo mais negativo positivo o claro escuro a penumbra o dia a noite e a aurora o pôr do sol e o depois e a madrugada e o antes e a noite com a luz da lua o dia sem luz do sol
e a magia das horas do tempo que nunca passa ou então passa veloz sem sequer darmos por nada por darmos conta de tudo quando o tudo não é nada...
a verdade e a mentira a mentira verdadeira a ciência a ignorância a cultura a incultura e a ciência ignorante e a ignorância sabida mais sábia que a ciência...
a guerra e paz juntamente de mãos dadas como irmãs a náusea e agitação a revolução e a calma a paz podre a podridão ainda em decomposição numa morte repelente que faz nascer outras vidas e assim fica aparecida a vida vinda da morte e a morte mais parecida com a vida que gerou...
e assim tudo é fantasia afinal realidade e ali à beira do mar vendo as pessoas passar em dia de nevoeiro não são gente são fantasmas que se movem e não andam que falam não articulam que escutam mas não ouvem como se fossem imagens doutros tempos e paragens e o navio que além passa por cima ao longe nas águas não sabemos se navega sulcando as águas do mar ou se ele voa no ar cortando as nuvens do céu e se as aves e aviões navegam as ondas bravas dum mar que escalou o alto e virou tudo ao contrário...
e agora ali além no meio do nevoeiro naquele ponto mais aberto mais claro à nossa visão que percebemos mais perto surge espuma branca suja como baba como esperma que vomita ou que defeca lixos restos algas crude conchas líquenes salvados tudo o que o mar vomita vomitando o vomitado que quiseram vomitar para dele se libertar...
mas de repente um espanto...
no meio do nevoeiro surgem ninfas e sereias das águas mortas mas vivas e é todo um reino de mitos de mil reais fantasias que são mentiras verdades e parecem ilusão por estranhos à VISÃO.

e de repente o sol abre e que vejo eu então através através dessa VISÃO a mesma que tinha há pouco? aquilo que já lá estava e nunca lá estivera porque afinal é a luz que escurece e apaga e nos perturba a VISÃO.

afinal aquilo ali era uma praia qualquer não praia da CEE como a CEE as quer embrulhada em celofane limpinha e arranjadinha para ter direito a bandeira a cheirar bem a lavado a lixívia e detergente com barracas alinhadas e letreiros bem pintados com banheiros e banheiras salvadores e salvadoras polícias e vigilantes bóias sinalizadoras tudo enfim um paraíso como a CEE o quer não dos tempos do Noé do paraíso perdido dos nossos primeiros pais Adão e Eva e seus filhos mas paraíso riscado em folhas de arquitecto e não no mar e na terra com as curvas que tem ao certo...

aquilo era uma simples praia feita de areia e de pedras com algas e com malhões malhões de todas as formas de todas as cores e tons e com riscas mais ou menos direitas a desenhar mil coisas que não existem e nós queremos ver lá... era uma praia de mar como são o mar as praias... ali havia de tudo de tudo um pouco afinal que vinha da CEE muito limpa e arranjada... havia lixo e petróleo crude plástico alcatrão daquele que é indestrutível restos de redes e fios de canas que o não são bidões vazios e cheios garrafas grandes pequenas barrotes e tábuas podres restos de barcos e velas bocados de coisas diversas que eram merda merda merda e merda já reciclada pelos ventos e marés...
havia mais: algas limos carcaças de bichos vários rastos de gente pegadas marcas de bichos e aves muito bem reconhecíveis e outros desconhecidos talvez de monstros do mar...

e havia também o mar o mar e as sua ondas e a música do mar e todo o seu turbilhar e uns momentos de silêncio um silêncio momentâneo entre dois rebentamentos que se ouvia e que feria inda mais que o marulhar constante das vagas que rolam umas sobre as outras à vez e nos dava a impressão a ilusão momentânea de que tudo ia parar de que tudo ia acabar... mas voltava novamente todo aquele marulhar e havia som melodia que sem parar repetia o estrondo o ribombar das vagas a rebentar um barulho sempre igual qual mortal monotonia das ondas sempre a bater que afinal é sinfonia sempre igual sempre diferente daquele mar que se levanta mesmo sem se levantar como um deus que está dormindo e se põe a respirar e se levanta e se abaixa e as ondas a correr a correr a rebentar enquanto a outra se forma já outra se enrola e quebra e bate de encontro à outra que se ia mesmo a formar a cantar e a correr arrasta e bate na rocha nas fragas e nos penedos também a bater na areia que esfrega estende e enrola e deixa lisa moldada a cantar de arrepiada de se ver assim beijada por tão potente senhor e depois a vem lamber arrastar e enrolar a atirar com os malhões que também rolam se enrolam se misturam e se mudam cantando batendo palmas dançando uns sobre os outros em festas de delirar e fazendo construções de mil formas e feitios para logo se mudarem...
e tudo isto em movimento parecendo quedo e mudo sem sair do seu lugar!
e o mar torna a voltar a mudar tudo outra vez a rolar e a enrolar faz agora uma muralha de pedra bem arrumada mas já na outra maré de novo tudo desfaz tudo espalha e esborralha e a praia que é a mesma mas já é uma outra praia já passou a maré cheia já se não vêem pegadas já são outras as pegadas que agora estão marcadas rastos de gente de bichos rastos de monstros marinhos que vieram e se foram...

e ali no mesmo espaço tudo se junta num tempo que já veio e que se foi e que há-de voltar ainda para de novo partir...

era gente e eram peixes era lixo e eram pedras era areia e eram algas eram limos eram bichos eram cães e eram aves eram rastos eram restos de gente que passou a correr ou passou tão só a andar até muito devagar ou gente que esteve ali parada a olhar o mar ou simplesmente parada...
alguma a andar parada sozinha por o querer estar ou sozinha a procurar algum par a companhia que a fizesse sonhar... passam pares de mãos dadas grupos grandes de folgar gente descalça e calçada vestida ou quase despida outros vestidos de nada nua vestida de ar e mar a correr a mergulhar ou então deitada na areia ou sobre a água a boiar no mar...
meio a dormir acordada acordada e a sonhar a ouvir mil sons dispersos ou a ouvir o silêncio daquelas falas do mar que fala com sons esquivos e com gestos esquisitos calado a querer dizer muito dos segredos mais profundos guardados nas profundezas dos abismos infinitos que há no fundo do mar mas sem dizer ou falar que nós não o entendemos sem dizer nada nos termos que podemos decifrar... e ali ficamos parados a ver a água parada num movimento constante sempre sempre a ondular sempre sempre a mesma cor que é de todas as cores e a onda que vai e vem e volta e se ergue no ar com uma fúria dobrada como que a ameaçar vem feroz e logo mansa a deixar-se penetrar um passo atrás um em frente um mergulho a perfurar aquela fúria tremenda que se rende e ali fica enternecida a rolar embalando uma criança que bóia feliz no mar...
a onda passa quebrou e fica uma linha imensa de brancura imaculada a desenhar mil carícias de espuma mole e macia a mostrar a quem quer ver que o mar não é o mar...
é a mar é feminina pois o nome que é mar em muitas línguas do mundo como la mer e la mar é mulher é mãe é água é fecunda e criadora é fêmea fome fecunda que se compraz em criar... e ali está fechada a deixar-se penetrar aberta para os que ousam no seu ventre mergulhar e de lá sair morrendo renascendo dessas águas que refrescam e renovam e dão frio e dão calor tornando feliz o medo de ter medo de a afrontar um medo que atrai e repele seduz e chama e afasta e se mostra calmo e doce e logo encrespado hostil e por vez é transparente limpo calmo e sedutor e logo fica turvado ocultando mil ardis e escondendo mil perigos que escondem por sua vez quem sabe se mil tesouros mil encantos preciosos porque o mar é A MAR
e talvez seja AMAR.

e foi assim de repente no meio da escuridão que era dia luminoso que nada deixava ver para poder tudo ver mesmo a clara ilusão de ver tudo o que não via
que pude enfim entender com a luz que não se via que o tudo era nada e que o nada era tudo e que o mesmo era a sorte que era morte ou era vida e que o tempo o não era o mesmo a hora o segundo os anos séculos e eras eram um tempo fictício que passava lentamente ou em fracções de segundo os lustros a eternidade o minuto era infinito e finito diminuto a mentira era verdade os factos eram ficção o real imaginado realidade invenção o princípio era o final de algo já começado e o fim era o princípio de algo que se começa e que ser deus e ser homem ser mulher e ser criança conceber e procriar ser livre e estar prisioneiro criar algo ou destruí-lo morrer matar ou viver o amar o odiar o fingir e o mentir e dizer o que é verdade... qual?... de quem?... o quê?... ter esperança e não a ter querer crer e não poder e crer querer e não o querer e até querer fazer tudo sem ser capaz de o fazer... o dia a noite o bem e mal a luz e sombra o claro escuro tudo vem do que é total do nada que não existe do tudo que não existe se o nada o não sustem...

afinal se virmos bem tudo é obra do diabo onde encarna todo o mal para o nosso entendimento e tudo é obra de deus onde existe todo o bem que podemos conceber... tudo vem do mal do bem do princípio que é o fim da vida que vem da morte da morte que gera a vida e é o fim do princípio
e afinal
o ponto final
é o fim que principia outra obra outro ser que nasce e vai acabar...

e agora no final
desta VISÃO ensombrada
para se ser coerente
tudo volta a começar
como um regresso ao futuro que nunca foi começado...
ou para ter um fim feliz
vou infeliz procurando
o amor que já perdi
para o poder encontrar
nas profundezas da mar
no mistério que é AMAR.


cego de gota serena
1ª versão - Verão de 1989
2ª versão - Outono de 1989
3ª versão - Outono de 1993

 

 

 

 

 

 

 

 

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