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ANDANÇAS
– notas complementares… levantamentos diversos
Ficha Técnica:
Título:
ANDANÇAS PARA A LIBERDADE – Vol I – 1946 - 1961
Autor/es:
Texto
– CAMILO MORTÁGUA
Prefácio
– LUÍS REIS TORGAL
Contextualização
– HELOÍSA PAULO
Iconografia
– ANÍBAL LEMOS
Editora
– ESFERA DO CAOS
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1.
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NARRADOR/es
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1
2
3
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2.
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NARRATÁRIO/s
|
?
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3.
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Personage/m/ns
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PRINCIPAL
SECUNDÁRIAS
1
SECUNDÁRIAS
2
INDIVIDUAIS
/ COLECTIVOS
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4.
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TEMPO
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O
TEMPO
– encadeado (encaixe – alternado)
-
DA HISTÓRIA
(cronológico) –
-
DO DISCURSO
(encadeado, ou com analepses
e prolepses… elipses… isocronias (nos diálogos e cenas)
… com resumos ou sínteses…
-
PSICOLÓGICO…
|
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5.
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ESPAÇO
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O/s
ESPAÇO/s – FÍSICO – SOCIAL – PSICOLÓGICO… e notas sobre
o "visualismo"...
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6.
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MODELO
ACTANCIAL
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Adjuvantes
– Sujeito – Opositores
Destinador/es
- OBJECTIVO –
Destinatário/s
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7.
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ANÁLISE
Estrutural SEQUENCIAL:
SEQUÊNCIAS
de rotura
/ ruptura / que determinam a avanço da história…
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Sequências
encadeadas…
-
alternadas…
-
inseridas…
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8.
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DESCRIÇÃO
Catálises
-
INFORMANTES
-
INDÍCIOS / ÍNDICES – …
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INFORMANTES
INDÍCIOS
/ ÍNDICES
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9.
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Elementos
de enriquecimento Literário… FIGURAS DE ESTILO…
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Oralidade
e VISUALISMO…
sons… cores… movimento… cinestesia…
e sinestesia…
FIGURAS
DE ESTILO
-
de sintaxe
-
de pensamento
-
Tropos ou imagens
-
Onomatopeias
– palavras imitativas… … Aliterações
-
A ironia contida à beira do cinismo e do sarcasmo…
-
A adjectivação…
justa… por vezes dupla… e a hipálage…
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10.
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Intertextualidade
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Autores
e obras referidos e ou citados…
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11.
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Género
literário
Género
literário – entre a auto-biografia – memórias... comentários…
com laivos de e o histórico… décadas… crónicas… quase a
aspirar a romance histórico… com alguma poesia e cenas de
pendor marcadamente dramático… teatral…
-
Qualidades: Clareza, correcção, pureza, harmonia… (leitura
elegante) …
Fuga
a galicismos e estrangeirismos apesar da formação dispersa…
“com
simples e claras palavras”…
-
Naturalidade e originalidade...
|
–
Estilo simples…
(sem ornatos…) linguagem denotativa…
-
Estilo médio
temperado… expressão apurada com uso moderado de ornatos…
denotativa com conotativa…
-
Estilo sublime.
Solene e majestosa… sentimentos e conceitos elevados… com
elegância, eloquência e abundante emprego de ornatos… predominância
da linguagem conotativa…
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01 - Notas sobre o Autor: Camilo
Mortágua
(orelha
lado direita da Capa) –
Entre
os inimigos de Salazar que lutaram de armas na mão contra o Estado
Novo destacam-se dois homens: Camilo Mortágua e Hermínio da Palma
Inácio
– os últimos revolucionários românticos. A eles se devem os golpes
mais espectaculares que abalaram a ditadura. Mas a história da acção
directa contra o regime há-de reservar a Camilo Mortágua um capítulo
muito especial: participou na Operação
Dulcineia, em Janeiro de 1961, comandada pelo capitão Henrique Galvão
e inspirada pelo general Humberto Delgado – o desvio do paquete
português «Santa Maria», que seria o primeiro acto de pirataria
dos tempos modernos. Mais tarde, com Palma Inácio
e outros companheiros, fundaria a LUAR.
Nos
últimos anos tem trabalhado na concepção e implementação de programas
e projectos de desenvolvimento local, assim como na mobilização
de pessoas e grupos socialmente desprotegidos e na animação e organização
de comunidades em risco de exclusão.
Presidente
da DELOS
Constellation, Association International
pour le Developpement Local Soutenable (1994- -2002).
Presidente
da APURE,
Associação para as Universidades Rurais Europeias.
Grande
Oficial
da Ordem
da Liberdade da República Portuguesa.
na
cCapa
ANDANÇAS
DE DESESPERO E ESPERANÇA, E ALGUMAS DAS ESTÓRIAS DOS COMBATES CONTRA
A DITADURA, NUM INESPERADO CONTRIBUTO PARA A HISTÓRIA DA LUTA DOS
PORTUGUESES PELA LIBERDADE E PELA DEMOCRACIA.
Partindo
de uma aldeia portuguesa da Beira litoral, estas “Andanças” atravessarão
mares e continentes, em viagens de ida e volta. Nos
dois volumes desta obra dá-se conta, nomeadamente: (I) do derrube
da ditadura venezuelana e das solidariedades com a revolução cubana;
da concepção, preparação e execução do assalto ao Santa Maria;
(2)
da ascensão e queda de Jânio Quadros e da implantação da ditadura
militar no Brasil; do assalto ao quartel de Beja e da campanha de
Humberto Delgado para a Presidência da República; de certos «mistérios»
relacionados com os primórdios da guerra colonial; da preparação
e execução da operação VAGÓ (desvio do avião da TAP a partir de
Marrocos); das misérias e dos desânimos de quem não se conformava,
e das traições entre militantes; da oposição do PCP à luta armada;
da preparação e execução do assalto ao Banco da Figueira da Foz
e do subsequente aparecimento da LUAR; dos percursos de muitos dos
nossos “líderes” de hoje nesses tempos de Medo e Resistência…
“Estas
«Andanças» de Camilo Mortágua, para além de nos oferecerem uma visão
global dos tempos da Ditadura Salazarista, remetem-nos para três
valências (3Ms) que no contexto da obra assumem especial relevância:
1) A Metáfora das raízes: não há cultura válida sem ligação às origens;
2) A Mestria da arte de contar: pelo expressivo visualismo que se
traduz numa escrita feita de oralidade; 3) O Mito das utopias: daquelas
que afinal se tornam possíveis e realizáveis…”
José
Rabaça Gaspar leitor atento e empenhado
1.
Verificar a original trilogia do NARRADOR:
-
Além
de o autor lançar dois NARRADORES (homodiegéticos secundários, com
visão parcial…): a Maria Peixeira – infância – e o Tó Xarela – puberdade
/ adolescência – o NARRADOR AUTODIEGÉTICO – personagem principal,
com visão omnisciente, afinal são TRÊS – o seu CAAC – Comité de
Auto Análise Comportamental, que, além da omnisciência dos factos
narrados, domina os estados de espírito, as dúvidas, hesitações,
e intervém nas decisões certas ou erradas do Personagem Principal!!!
Intervenção
C.A.A.C. – a estranhíssima
trindade do
Camilo
Mortágua o
Comité
de
Auto
Análise
Comportamental
“Os
PERSONAGENS meus ESTRUTURANTES COGNOSCITIVOS”… “OS SACERDOTES COGNITIVOS”…
---
Esta
TRINDADE, por vezes, são mais:
Vai
afinal marcar (as sequências encadeadas…) a evolução progressiva
destas andanças… no espaço… viagens e trabalhos… no tempo… à medida
que cresce física e psicologicamente… até à consciência revolucionária
após a falhada viagem de lambreta… !!!!
Lista:
Camilinho – Come-e-cala
– Batata – Zé Ninguém - Pé-ligeiro – Zé-entre-Zés –
Manuel – José – Carlos… e, finalmente?!, Camilo Mortágua!!!
-
o empresário da “Bomba da Merda”,
como oficial de canalizações… que sonhava ser “oficial da Marinha”…
114 o Batata de Salreu… «Nesta “unidade
artesanal de panificação”, como era designada no cerro pelos metidos
a intelectuais quando queriam armar ao polimento, o nosso padeiro
faz tudo! …
115
«“el
muchacho de los dulces”, como ficou a ser conhecido no
cerro (CATIA),
124
Uma reunião significativa da ESTRANHÍSSIMA TRINDADE!!!
«Ao Zé
Ninguém opunham-se, sem grande convicção, e até com ares de
alguma cumplicidade: o Come e Cala de Santiago de Riba Ul e, com muito mais firmeza, o
Batata de Salreu em memória do
austero Salça.
Cada
um com as suas razões, alimentavam o grande debate sobre os caminhos
a percorrer, e eu, preso à dinâmica das argumentações, balançava
alternadamente entre uns e outros, sem me decidir sobre o rumo a
tomar. O mais fácil era não decidir, ouvir o herói da Flandres,
ir por onde a vida me levasse… se possível, algum dia… de retorno
a Lisboa, feito “Zé Alguém”! …
125
«Salvo o Come e Cala, tanto o Batata como o Zé Ninguém batiam-me
na consciência a cada momento de diálogo do meu “Colectivo de Auto-Análise
Comportamental”.» …
…
«“Parasita das públicas meninas”,
“chulo platónico”, “romântico das putas”, eram alguns desses nomes! E eu, após algum tempo
de frequência normal, tinha adquirido um estatuto de privilegiado
junto de algumas das meninas de diferentes casas que disputavam
as minhas visitas, dispensando-me das retribuições financeiras correspondentes.
Não pagava, nem cobrava,
daí a tal afirmação pouco adequada de “chulo platónico”.
1.
NARRADOR/ES:
-
Maria Peixeira que vendia
pão e foi a 1ª nuvem… 1ª Narradora… de nome oficial Maria Soares
da Silva… 88 anos bem contados!... (teria andado com o Camilo à
cabeça, com 12, 13 anso…p. 54
-
O Tó Xarela… Outro narrador
da fase da figura marcante do Tio António Salça – o procurador –
procurado por causas… que o “menino” passou a assessorar…
?
Zé CARACÓIS –
o companheiro de Lisboa de fora do PÁTIO! É mais interlocutor ou
pretexto para o relato de cenas mais delicadas…
85
«O Zé
Caracóis, assim chamado por ter o cabelo ruivo e encaracolado, foi
o meu grande companheiro desses anos de Lisboa.» Não morava no Pátio.
Encarregado pelo pai de o levar à ginástica… para passar a ser Homem!!!»
2.
NARRATÁRIO/S? – (Não
leitor ou ouvinte) mas os destinatários, que o Narrador / Autor
tem em mente no acto da narração… que existe sempre, mas muitas
vezes não é expresso…
Logo
a abrir o Capítulo primeiro - As Origens:
VER:
p.53
"1. E assim vos conto os primeiros anos do "Come
e Cala""
- Quem o diz? (Maria Peixeira?)
- Quem são estes VOS? E o EU
do "vos conto"?
Comparar com palavras da apresentação antes da "estória"na
"Antevisão prospectiva
das "andanças"":
p. 21 "Aspiramos a contar-vos
estas acontecidas "andanças" por palavras simples
de imediatos e claros significados, palavras que possam ser absorvíveis
como gotas de fresca e cristalina água brotando de rara fonte,
em terrenos e tempos de secura!
Se o conseguirmos, será
essa mais uma das razões do nosso contentamento." e
o NÓS? Do "aspiramos a"?
VER
ENTRETANTO possíveis NARRATÁRIOS interpelados em geral: EX. a propósito
dos esquecimentos e elipses… e a possível subjectividade na tentativa
da objectividade narrativa… citando a teoria da cebola de Günter
Grass…
105
«Por
isso preferimos ser fiéis ao que recordamos,
como recordamos, sem pretensões a sermos o único “pintor
destes quadros”, tornando-os, como agora se diz,
interactivos à memória de quem os puder e quiser completar.
3.
Personagens
-
Personagem Principal – CM + composto pela CAAC +
-
secundários/ (principais)
– com forte presença:
-
o primo “pouco paciente”… “Come e Cala, Camilinho”… que enfiava a
comida pela boca abaixo…
-
evocação do avô Aureliano
Tavares que morreu na prisão…
-
o Dr Figueiredo – que o fez sair a ferros na madrugada fria de 29.01.1934…
-
uns “senhores de chapéu e gabardina”…
-
a avó Joaquina – a “raposinha” que mandava na Casa dos Mortágua…
-
Tio António Salça (irmão da avó Joaquina, onde foi morar com a irmã Ana,
quando os pais decidiram ir para Lisboa, tentar governar a vida…)
– o procurador… sem filhos que foi o “pai”… ali “Morreu o come e
Cala e nasceu o Batata… 6/7 anos… a escola primária…
65
«A vida
em casa dos Salça, naquela casa de esquina onde a rua do ribeiro
vira para a ladeira, embora muito regrada e de alguma austeridade,
tinha a vantagem de espargir sobre quem lá morava algum do prestígio
e autoridade de que gozava o patriarca da casa, o Procurador, como
às vezes lhe chamavam aquelas pessoas que sem saber ler nem escrever
vinham a casa do António Salça para que este as aconselhasse, lhes
tratasse dos papéis e lhes pagasse as décimas. Logo que aprendeu
a ler e escrever, aí por volta dos seus oito anitos, já o (65) Batata dava uma mãozinha
ao tio (era por tio que o tratava) nestas questões das escritas
e leituras.
68
- «O velho Salça, sem o ostentar, tinha o seu orgulho no menino
Batata. Sem filhos, o Batata era o seu menino. Discretamente procurava
incentivar o rapaz a aprender, a estudar para ser alguém, de preferência
Doutor ou Padre.»
59
- o Padre Gomes – cabeça de cimento… 59
59
- A ti Maria do Jampais… e o Zé Jampais… 59
62-
As “Meninas da Ladeira” as mestras… p.
62 «“as meninas” da Ladeira,
as mestras e donas da sua escola primária.»
-
O “Zé Máximo” o barbeiro “amigo das cegonhas”… efabulador…e o seu guarda-chuva
de 90 varetas…
64
«O ti
Zé Máximo, exímio contador de histórias para entreter os clientes…
72
– As Mondadeiras…espanto relato de Sinestesia (5 sentidos) e Cinestesia (movimento… com
cor, som, a aproximação gradativa do regresso do trabalho…
-
a “Tia Micas Leiteira”
é a mãe… ver na Biblioteca de sabão
(82)!!! 85 «…minha mãe distribuía leite, era leiteira, a ti Micas
leiteira como a chamavam.»
89
«Minha
mãe, mais sensível aos meus problemas, prestava alguma atenção às
minhas angústias, dando-me a oportunidade de pouco a pouco tentar
convencer meu pai a deixar-me estudar. – ESCOLA Afonso Domingues…
queria ser marinheiro…»
-
o PAI –
82
«Padeiro
de profissão, escolarização e instrução bloqueadas ao nível do ensino
primário, sem formação cívica geradora de apetências culturais,
vivia com grande empenho para tentar alimentar a família – desde
que o estômago estivesse satisfeito, o resto era secundário.» -
ver na Biblioteca de sabão!!! 84 – os negócios do pai… 88 «…como
meu pai dizia: “eu também não estudei e governo a vida!”»
O
Zé Caracóis” – companheiro dos anos de Lx… de fora do “Prédio da nossa
vergonha”… os bordéis… “as idas à ginástica”… o “aperto”…”os esfreganços”…
85
«O Zé
Caracóis, assim chamado por ter o cabelo ruivo e encaracolado, foi
o meu grande companheiro desses anos de Lisboa. Não morava no Pátio.»
-
o “Nove Dedos” – agente
da Intendência para fiscalizar o pão…
85
«O grande
perseguidor da época era um agente da Intendência de quem fugíamos
como rato do gato, chamado Nove Dedos.»
-
o “Senhor Almirante” – dava explicações de Geografia e Matemática…
85/86
«Durante
algum tempo, ia de tarde às explicações com o “Senhor Almirante”
– era assim que lhe chamávamos, um oficial da Marinha reformado
que morava na Rua D. Estefânia e que dava explicações de geografia
e matemática. Confesso que não consigo lembrar-me do objectivo destas
explicações, a menos que fossem preparatórias para a minha admissão
na Escola Industrial Afonso Domingues.» … que veio a falhar… meningite…
-
a “Madame Gertrudes Phfeifer… os “Rolas” e os “Violas”
87
« Por
algum tempo, talvez um a dois anos, fui empregado de escritório
numa empresa de agenciamento de cargas chamada “Douro Expresso”.
Era dona da empresa uma judia alemã, penso que refugiada, chamada
Madame Gertrudes Phfeifer, vivendo com um português que lhe deve
ter assegurado a permanência legal no país.»
-
O LIBERTO
87
«Apreciava sobretudo acompanhar um determinado camião cujo condutor,
o Liberto, assim se chamava, era um exímio caçador.»
Dr.
Francisco Martins a
doença (90) meningite…
90
«o Dr.
Francisco Martins, assim se chamava o “salvador”, entendeu que eu
eras um caso de estudo…»
-
o “Mestre Constantino” e a biblioteca de mais de 300 livros… e o “Jardim
Constantino”? – o “Jardim dos Paneleiros”… que foi a sala de leitura…
93
«Mestre Constantino, homem dos seus 50 à época, arranjou maneira
de me ensinar muitas outras coisas. Dele já vos contarei outras
belas recordações.» ver 94…
-
o conterrâneo esquecido?!… o tio
Zé Maria…
O
Januário… e o primeiro patrão…
104
Capítulo quarto – 34 «O
Januário, um dos companheiros de viagem, o mais animado e folgazão
de todos, baixinho e ruivo, braços compridos quase até aos tornozelos,
dando saltinhos que mais o faziam parecer macaco, dedo indicador
em riste, começou logo a exclamar: “Eu bem dizia… eu conheço-o,
tás fodido, não veio ninguém, nem tio nem Zé nem Maria, …»
O CONHECIDO de nome esquecido…
104
«Entre
os portugueses companheiros de viagem, cinco ou seis eram conterrâneos
de Salreu! Logo um se adiantou, solícito e risonho: “Não te preocupes,
vais comigo para Caracas e dou-te trabalho até que o teu tio apareça.
Bem sabes que ficas entre amigos. Conheço a tua família lá da terra
e cá longe temos de ser uns para os outros…” Era verdade, de nome
eu conhecia o sujeito… afinal a distância parecia influenciar o
comportamento das pessoas, para melhor!» …
104…
«O bom “conterrâneo”
(como então resolvi chamar-lhe) …
105
«Finalmente
verificou-se que o Januário
tinha razão, como ele dizia: “Nem tio, nem Zé, nem Maria – ninguém!”
Estava entregue ao “bom conterrâneo”.
106
«O
“bom conterrâneo”, testemunha compreensiva do meu absorvente encantamento,
daquela minha “bebedeira” de desconhecido, manteve-se respeitoso
do meu silêncio durante toda a viagem de quase três horas, de La Guaira até ao hotel Benfica.»
110
– o primeiro patrão (nome
tb esquecido) dos 4 dias e depois para CATIA…
Rodrigo e da Clarinda, donos do
hotel… em Caracas…
112
- Agarrei
na mala, deitei um último olhar à camarata, despedi-me do Rodrigo
e da Clarinda, donos do hotel, e lá fomos nós para Catia.» …
O TIO ZÉ MARIA… a ESPOSA e a “dengosa mulata”…
114
o Tio Zé Maria vai aparecendo. Não estava à espera por estar «…preso
nos braços de uma “dengosa cabocla mulata” com quem ele se ressarcia…
«Sem
tio nem dinheiro... valeram-me na situação os companheiros de viagem,
alguns voltando pela segunda ou terceira vez, já com conhecimentos
e até com negócios estabelecidos. A mais insistente das ajudas vem
de alguém originário da mesma terra que, evocando grande amizade
com meu pai, em nome dessa especial amizade, e depois de saber que
o Batata tinha aprendido as artes dum bom padeiro durante a sua
preparação para a aventura venezuelana, me convida para a “grande oportunidade de ser o encarregado e único empregado”
da sua padaria no Cerro de Catia!» …
ESPOSA do tio Zé Maria…
…das
austeras, parcas e agrestes carícias da mulher que tinha ficado
lá na terra; mulher de “rija têmpera” e punho firme no arado, boa
parideira e melhor mãe que esposa.»
119
– As MENINAS do Bairro de CATIA… que faziam das “meias portas” (onde
havia um BURACO) saia… onde era preciso estar à altura, do BURACO!!!
AS
PÚBLICAS MENINAS… protector…
OS
AMIGOS POLÍCIAS!!!
-
os três de lambreta… e os “encontros” das possíveis “mulheres”… Amor?
e Diabo!!!?
130
«A viagem
seria feita por mim, mais um jovem venezuelano de dezanove anos,
Felipe Muñoz Mendoza
de seu nome, e um mecânico italiano a trabalhar para o representante
nas oficinas da marca em Caracas, chamado Marcelo
Tomaricchio» …
132 A
família que nos acolhia…
Nos ANDES… em
EL PASTO : «A família que nos acolhia era composta por um casal dos seus
40 anos e duas filhas entre os 14 e os 16.
Eu
e o Felipe (assim se chamava o companheiro venezuelano) entretínhamo-nos
e éramos entretidos pelas filhas que, como manda a tradição e os
costumes locais, apesar da tenra idade, já desfrutavam de actividade
hormonal intensa.
Elas
ensinavam-nos a montar “em pelo” e a cair dos cavalos; nós, ensinávamos
as jovens amazonas a fazer acrobacias com as lambretas, os nossos
cavalos.»…
Com
as cenas de SEDUÇÃO… no banho das cochoeiras!!! … nos lençóis… e
a intervenção lúcida do CAAC!!!
Os Otavalos
138
«Mais ou menos
uns oito a dez dias depois de sair de Lima, consegui chegar
a um dos tais sítios a que queria voltar… a cidade equatoriana de
Ibarra, a tal cidade branca junto da fronteira com a Colômbia, para
mim capital dos Otavalos.
Os Otavalos tinham-me deixado
uma grande impressão positiva e ao mesmo
tempo um enorme interesse em aprofundar a compreensão dos modos
de vida e de organização social deste povo de exímios artesãos e
artistas. Afáveis em extremo, de todos e em todas as circunstâncias
recebendo sempre um sorriso acompanhado de um muito atencioso –
“Buenos dias senhorito” – despertaram a minha atenção por só ver
mulheres a cuidar dos campos.» …
142
A
MÁRCIA de el Bordo… as jovens conquistadoras… Fugindo ao Amor
144
A MÓNICA – da fotografia e autógrafo na Colômbia… e os acompanhantes…
ESCAPANDO AO DIABO… IBAGUÉ … “Hacienda de las Fuentes” …
Em
analepse… «Entre os muitos pedidos de autógrafos, um reteve a minha
atenção. Uma jovem morena, de rosto oval, grandes olhos negros e
cabelos castanhos até aos ombros, vestida com um poncho azul, blusa
branca com flores azuis, saia escura comprida com duas linhas verticais
amarelas de cada lado,
veio até mim. Sorrindo e com ar desafiador
estendeu-me um postal com uma fotografia dela e foi dizendo: “este
és para ti, aí tienes mi direccion, aguardo que vengas firmar el
tuyo”.»…
149
- O Senhor GOMES … o empresário que afiançou as emissões nas rádios locais…
mesmo depois de perder o emprego
PERSONAGENS
da LUTA na VENEZUELA e República Dominicana…GALERIA…
PERSONAGENS
dos contactos com CUBA… GALERIA….
-
Fidel em Caracas e antes os encontros com…
PERSONAGENS
envolvidas na preparação e realização do assalto, desavenças e diferentes
critérios… o GRUPO que se preparou e participou… GALERIA…
-
a Junta Patriótica Portuguesa…
-
Mário Mendes da Fonseca…
-
Major Calafate…
-
Henrique Galvão – Humberto Delgado…
…
4.
O TEMPO
– encadeado (encaixe – alternado)
DA
HISTÓRIA (cronológico) –
DO
DISCURSO (encadeado, ou com analepses e prolepses… elipses… isocronias (nos diálogos
e cenas)… com resumos ou sínteses… - PSICOLÓGICO.
Tempo
sequencial cronológico – encadeado - com por vezes uma ou outra
ANALEPSE… as “elipses” (saltos no tempo…) assumidas pelo narrador…
A
seguir à morte do Salça – final do NARRADOR Tó Xarela:
79
«Para trás ficaram todas as coisas que já vos contaram e mais
algumas que por razões diversas só eu posso recordar.
No
último ano da escola primária, durante quase dois meses fui transportado
para a escola pelo criado Joaquim, em
carrinho de mão, o mesmo que se usava para levar o estrume para
o aido.» …
TEMPO
e INFORMANTES precisos…
97
PARTIDA em Lisboa: «Por
volta das três da tarde desse 7 de Maio de 1951» …
98
«A viagem
que estava anunciada para demorar catorze dias, prolongou-se por
vinte e um, terminando a 29 de Maio!»
101
Chegada à Venezuela: «
La Guaira.. .! “Llegamos!”
102
«Naquela manhã de terça-feira do dia 29 de Maio de 1951, com dezassete
anos e quatro meses de idade, ébrio de ilusões e curiosidade, desembarquei
em La Guaira assessorado
pelo meu “Comité de Auto-Análise Comportamental – C.A.A.C.”, e confortado
pelos 27$50 (na época, aproximadamente um dólar) que sobravam dumas
“suecadas”
em
que tinha perdido uns trocos, pronto para o que desse e viesse e
que mais adiante se contará.) …
AS
ELIPSES (saltos no tempo) assumidos e explicados… com as teorias
da cebola do G. GRASS, a propósito do “bom conterrâneo» que o salvou
de ser recambiado e esqueceu o nome…
105
«Sem razão aparente, surgem-me nitidamente ínfimos detalhes vividos
em lapsos instantâneos de tempo, coisas sem importância nenhuma
como a cor de um botão ou a tonalidade de um entardecer, e não encontro
o registo de longos períodos com importantes e decisivos momentos
que sei terem existido, mas a memória perdeu! … por isso, a narrativa
deste tempo não é o relato quotidiano das aventuras de umas quantas
vidas, ou de uma vida só; é a tentativa de reposição daquilo que
a caprichosa memória do autor reteve.» …
ANALEPSE
que vai explicar a riqueza da segunda parte da viagem falahada…
137
«Durante a preparação da viagem tinha aproveitado para me informar
o mais possível sobre os países que iríamos atravessar. Embora nessa
altura o assunto não fizesse parte das minhas preocupações, sabia
que na maioria dos países da América do Sul dessa época, existiam
regimes ditatoriais governados por militares: Pérez Gimenez na Venezuela;
Rojas Pinilha na Colômbia; Velasco Ibarra no Equador; o general
Odria no Peru; o general Aramburu na Argentina e ainda outro general
no Chile, o general Ibañez, embora este à frente de um governo de
cariz democrático. No Brasil, o suicídio de Getúlio Vargas tinha
guindado ao poder Café Filho. (137) Tinha-me interessado pela
história e pelos locais de maior nomeada e relevância cultural,
em particular por tudo que dissesse respeito aos Incas e sua civilização.»
…
5.
O/s ESPAÇO/s – FÍSICO – SOCIAL – PSICOLÓGICO…
Ver
as raízes e o visualismo… para os 5 sentidos… SINESTESIA com CINESTESIA…
EXEMPLO
80
«A grande desilusão, ou mais que isso, foi a de ver a “casa” onde
íamos morar. No pátio do nº 26 da rua Luís Monteiro, ao Alto Pina,
encostado à quinta da Curraleira, com vista para as traseiras do
cemitério do Alto S. João, onde vi pela primeira vez as iluminações
azuis dos fogos-fátuos, o “passeio nocturno dos candeeiros das almas”,
como se dizia lá no pátio.» VER TODA a DESCRIÇÃO…
88 A
COVA FUNDA «… (pequenos compartimentos sem luz nem janelas
onde os clientes jogavam às cartas e queimavam provisórios e definitivos
sem parar, em ambiente de partilha colectiva da espessa fumaça),
do outro a mercearia, meu pai entendeu que o meu futuro era aturar
bêbados, servir copos de três e uns cálices de aguardente e ilustrar-me
com as conversas de alto nível cultural da clientela copofónica.»
129
O ITINERÁRIO DA VIAGEM DE 20.000 KM…
«A
fábrica de Itália autoriza o representante local a apoiar a iniciativa
e começam as negociações para definir condições e itinerários:
Caracas,
Maracay, Valência, Barquisimeto, Guanare, Mérida e S. Cristobal,
na Venezuela; Cucuta,
Bucaramanga, Bogotá, Arménia, Tulua, Cali, Popayan, Pasto, na Colômbia; Ibarra, Quito, Guayquil, Cajamarca, Arequipa, no
Equador; Arica, Sta. Maria de Iquique, Santiago, Cristo de los
Andes, no Chile; e daí,
atravessando a cordilheira, até Bariloche, Buenos Aires, Montevideo,
Rio Grande do Sul, S. Paulo e Rio de Janeiro.» …
134
«Do Vale del
Cauca até à fronteira equatoriana, retomam-se alturas andinas.
Em poucas horas tão depressa estamos abaixo
do nível do mar como a dois ou três mil metros de altitude.
A estrada, qual monstruosa
serpente, vai-se colando às montanhas, desafiando os abismos sobre
os quais se mantém em equilíbrio.»
6.
MODELO ACTANCIAL:
7.
Estrutura SEQUENCIAL:
SEQUÊNCIAS
de rotura / ruptura
/ que determinam a avanço da história… :
53
«1. E assim vos conto os primeiros anos do “Come e Cala”
-
com 3 anos a mudança para a casa dos Mortágua e a Figura “paternal
/ patriarcal de António Salça…
55
« Assim
foi que um dia, se a memória não me falha lá por volta dos seus
três anos, a “sagrada família”, menino e pais, com todos os seus
haveres, seguiu estrada fora, numa carroça puxada por dois cavalos,
à maneira do Oeste, pela velha Estrada Nacional 1 (à época chamada
de estrada real), a caminho da casa dos avós paternos, os Mortáguas,
situada no Ribeiro da Ladeira-Salreu-Estarreja.» …
-
A noite do ciclone de 1941… “foi aí que saiu mais Homem…
p.
62 «Do sótão, após mais de duas horas de luta, desceram os três,
sem chapéu, mas o Batata muito mais “homem”!»
“Inverno
revelador da coragem necessária para lutar pela vida…”
-
A Morte do Salça…
77
«16.
A morte do Salça
«Não
o vi chorar, mas acho que este seu primeiro encontro com a morte,
matou nele o menino… cá p’ra mim morreu nesse dia o Batata.» relato
de Tó Xarela!
-
a ida para Lisboa – a desilusão…
(ver
81 – o Pátio… o Porto Funileiro… a biblioteca de sabão!!!)
79
Capítulo segundo 17 «Cá
vamos nós! Mas é preciso ter azar. “Nós” sou eu e meus pais, vindos
para o funeral do tio Salça. De mim falarei mais tarde, por agora
vou contar-vos esta minha primeira viagem de comboio num dia do
Verão de 1946 à tão sonhada Capital.»
80
« Não guardo nenhuma recordação especial dessa chegada à Capital!
A grande desilusão, ou mais que isso, foi a de ver a “casa” onde
íamos morar. No pátio do nº 26 da rua Luís Monteiro, ao Alto Pina,
encostado à quinta da Curraleira, com vista para as traseiras do
cemitério do Alto S. João, onde vi pela primeira vez as iluminações
azuis dos fogos-fátuos, o “passeio
nocturno dos candeeiros das almas”, como se dizia lá no pátio.
-
A COVA FUNDA - o curso violento do pátio de pormiscuidades e da tasca
da léxico copofónico…
91
«Sem poder
estudar, sem nada de concreto a que pudesse deitar mão, os dias
voltavam a ser sombrios, vegetava-se, era preciso encontrar maneira
de contornar os obstáculos do destino. Com
dezasseis anos feitos, acabava a década de 40. Lá fora, nessa
Lisboa e nesse país a mergulhar aceleradamente na intolerância
e na repressão de tudo o que fosse novo e criativo, não havia
espaço nem oportunidades para sair do pátio, para saltar a barreira
social.» e reflexões seguintes… «Para mim, face a este colectivo
baixar de braços (as informações da existência de combatentes não
chegavam ao Pátio), …»
…
«partir para onde?»… na Venezuela, um tio padeiro… as padarias eram
dos portugueses… tenho de aprender padeiro…» …«A fábrica da Sociedade
de Padarias Castanheira de Moura… «No Martim Moniz aprendi a padeiro
e não só. Mestre Constantino, homem dos seus 50 à época, arranjou
maneira de me ensinar muitas outras coisas. Dele já vos contarei
outras belas recordações.»
-
a 1ª viagem transatlântica… (capítulo terceiro - o mais curto!!!?):
97
1ª Viagem transatlântica: «Por volta das três da tarde desse 7 de
Maio de 1951, … no cais de Alcântara» a despedida!!! E o Zé Ninguém
“as leitarias ambulantes” - vacas a domicílio… em Tenerife:
99
«De manhã,
colei-me cheio de espanto
e curiosidade ao sistema local de distribuição de leite.»
-
o susto da chegada… e os compatriotas… o Tio Zé Maria…
105
«Finalmente
verificou-se que o Januário
tinha razão, como ele dizia: “Nem tio, nem Zé, nem Maria – ninguém!”
Estava entregue ao “bom conterrâneo”.
…
A alternativa era ser entregue
aos serviços e emigração e voltar!!!
110
«Com
a constatação da facilidade em compreender a língua, regressei ao
hotel Benfica a esperar pelo conterrâneo (birras da memória, perdi
o rasto ao nome deste personagem) que me iria levar para o meu primeiro
dia de trabalho como emigrante.»
…
«―
Vamos para Roca Tarpeya…» …
«A actividade
deu para entreter os dias que ali passei, não muitos, apenas quatro,
e ganhar os meus primeiros bolívares: sessenta!» …
110
/ 111 «Que na segunda-feira seguinte iria levar-me
para a sua padaria situada no Cerro de Catia (ver indício e prolepse…) onde
eu poderia aproveitar melhor as minhas competências como padeiro,
que o meu tio não tinha dado sinais de vida, que se ele demorasse
em aparecer, um dia iríamos procurá-lo a
La Victória , uma cidadezinha a uns oitenta quilómetros
de Caracas, a caminho de Maracay.» …
114
«Foi aí, no coração deste imenso formigueiro humano pleno de vidas
frenéticas de esperança e
desilusão, que me foi dado exercer, durante o mês de Julho do
ano de 1951, as competências de jovem padeiro, que tinha por despertador a “alma da massa”!
Reunidos pela primeira vez desde a chegada,
o Come e Cala, o Batata e o Zé Ninguém, notei que só o Batata
mantinha intacta a fé de voltarmos ricos, de ultrapassar as dificuldades,
o espírito do bom emigrante; os outros, pressenti-os meios frustrados
com a situação. Era tal a convicção do Batata que decidiram que,
naquele “cerro”, eu próprio me deveria chamar Batata – o Batata
de Salreu.» …
116
«Sem explicações nem desculpas, o tio Zé Maria disse-me:
―
Agora ficas aqui a tomar conta da padaria. Tens que ter muito
cuidado para não te deixares enganar nem roubar. Durante a noite
tens que controlar a hora de chegada dos padeiros e fornecer tudo
o que é necessário para a laboração.» … E MAIS instruções…
Depois
o tio vende o negócio e acaba…
118
«Passados
alguns dias, recebi a visita
do tio que me vinha buscar para ir tomar conta duma lanchonete-frutaria
que tinha comprado na Avenida principal de Catia. Era um pequeno
negócio que vendia um leque bastante variado de produtos: gelados,
batidos de fruta, fruta fresca, refrescos, alguns legumes, cigarros,
etc. A clientela era pouca e, por mais que me esforçasse, as vendas
não aumentavam significativamente.» … mais 6 meses…
120
No final da descoberta degradante do Bairro das MENINAS de CATIA:
«Para
o jovem que eu era, ainda crente na bondade deste mundo, foi um
forte empurrão para a urgência de lutar por outro mundo diferente…
foi a grande noite do reconhecimento da relativa “riqueza” da minha própria
condição na sociedade.
Um
tal choque adiou a solução dos meus próprios problemas, fazendo
desaparecer todas as motivações que ali me tinham levado, reforçando a convicção que então se me impunha, de que não é pela
sua sexualidade que a humanidade se pode distinguir dos outros animais.
-
por conta própria… motos… Harley 3??? roubadas… AJS e lambreta…
121
«Numa sexta-feira do início de Fevereiro de 1953,
sensivelmente ano e meio depois de ter chegado à Venezuela, com
dezanove anos feitos em Janeiro desse ano, fiquei inteiramente por
minha conta. O tio anunciou-me
que tinha vendido a frutaria e que estava disposto
a ajudar-me a comprar um “reparto” de pão para eu poder seguir a
minha vida. …
Passado
pouco tempo, andava eu a distribuir (vender) pão por toda a Caracas
e arredores, montado numa
moto Harley Davidson de 1200 cc, com uma caixa atrelada.
(com
analepse para comparar
com os tempos de Lisboa… e a distribuição do pão pelas ruas do intendente…)
123 / 124 «dezoito anos, uma enorme
ambição de ser alguém, autonomia plena, algum dinheiro no bolso
a tilintar» …
…
«ainda sou muito jovem…
tenho tempo… aproveitemos o tempo para (124) conhecer
coisas novas, para dar sentido e reconhecimento à vida, fazendo coisas que nem todos ousam fazer.” (Também INDÍCIO?
pré-anúncio da aventura de lambreta…)
126
«Dados os grandes potenciais físicos próprios da idade, e os inebriantes
apelos dos prazeres novos, as energias foram sendo dirigidas preferencialmente
para a actividade da mútua satisfação minha e das meninas, em prejuízo
das responsabilidades e cuidados a ter com o negócio.
Como
o corpo, apesar de jovem, não era de ferro… sem descanso, a vida
começou a mostrar as suas leis.» …
126
« Para tentar recuperar a situação económica, troquei o trabalho
dos bordéis, pelo trabalho como padeiro.
Passei
a trabalhar na padaria da meia-noite às cinco da manhã, a fabricar
o pão. A essa hora carregava e ia para o meu reparto até às duas
ou três da tarde. Depois de almoço, entre as cinco e as dez ou onze
horas, dormia. (127) Seguindo um princípio muito
caro ao Batata (ensinamento do tio Salça: “temos
que estar sempre dispostos a pagar o preço dos erros que cometemos”),
este novo ritmo de trabalho deu os seus frutos e, em poucos meses,
o barco reequilibrou!»
128
depois de mais uma ou duas motos (uma AJS)… mais duas ou três padarias…
dos amigos polícias… «Três anos após a chegada… riqueza nem vê-la,
e projectos aliciantes e fiáveis para o futuro também não… aqui
começa a impor-se-me a ideia de assumir ser “um emigrante falhado”!»
129
PADEIRO SEM “REPASTO”… DE NOVO OPERÁRIO…
«Agora
ando de lambreta… passeio por Caracas nas horas que posso…os conterrâneos
já começam a abanar a cabeça cada vez que me vêem passar, como quem
diz: “aquele está perdido, rapazes novos não têm juízo, perdem-se
por cá, é o que é”. Lá para a sua maneira de pensar e ver as coisas,
têm razão. Eu é que não vou por aí!
-
De Lambreta pela América do Sul… fugindo ao amor… escapando ao diabo…

Sou muito novo e o mundo
é grande. Assim pensando… outro projecto nasce.
129
«Propor ao representante as motorizadas lambreta, na Venezuela,
uma viagem de promoção da
motorizada, de Caracas ao Rio de Janeiro, através da América
do Sul.»
130
«De Caracas a Barquicimeto, a viagem decorreu normalmente…»
«A caminho
do pico Bolívar, com os seus
4980 metros
de altura, e de Mérida, capital
dos Andes Venezuelanos, por uma pista em muito mau estado, por vezes
inexistente, chamada de “transandina”, as dificuldades e
a verdadeira dimensão do arrojo da aventura começaram a evidenciar-se.
A
viagem de Lambreta…??? Os OTAVALOS…
130
«Pouco
tempo antes da data escolhida para a partida, salvo erro 10 de Outubro, os companheiros desistiram!
Durante
algumas semanas o projecto esteve comprometido, mas, à última da
hora encontrou-se uma solução híbrida, que
viria a (130) revelar-se
fatal, comprometendo irremediavelmente a possibilidade de alcançar
o objectivo traçado.
«A
viagem seria feita por mim, mais um jovem venezuelano de dezanove
anos, Felipe Muñoz Mendoza de seu nome, e um mecânico italiano a
trabalhar para o representante nas oficinas da marca em Caracas,
chamado Marcelo Tomaricchio» …
130
«De Caracas a Barquicimeto, a viagem decorreu normalmente…»
«A caminho
do pico Bolívar, com os seus
4980 metros
de altura, e de Mérida, capital
dos Andes Venezuelanos, por uma pista em muito mau estado, por vezes
inexistente, chamada de “transandina”, as dificuldades e
a verdadeira dimensão do arrojo da aventura começaram a evidenciar-se.
132
«Entre
a cidade de Popayan e Pasto, numa pequena
povoação chamada El Bordo, numa região denominada Valle del
Cauca, partiu-se a forquilha
de direcção da moto do italiano.» … as aventuras platónicas com
as “moças”. Mazonas!!! …
133
«Quando finalmente a nova peça chegou, após longas e sentidas
despedidas, fizemo-nos de novo à estrada.» …
134
«Assim, tínhamos concluído que, de uma forma ou de outra, o êxito
da viagem estava comprometido… e era necessário pensar numa solução.
Ao rolar pelas altas paragens e os desfiladeiros profundos e desertos
dos páramos andinos, vieram-nos à mente as mesmas ideias, por subentendidos
recíprocos, mas apenas explicitadas entre nós os dois, poucos quilómetros
antes da fronteira.
“Havia que dar um empurrão
ao obstáculo”, fazer com que o Marcelo
voasse através das nuvens cavalgando a sua lambreta alada.
135
«…e chegámos os três sãos
e salvos à Capital dos Índios Otavalos, a muito bonita e branca cidade equatoriana de Ibarra. Tão tacitamente como
em relação à decisão inicial, fomos aceitando a ideia cada vez mais
evidente de que o objectivo não seria atingido, porque tal fim não
podia justificar os meios extremos.
A
viagem continuou, até que em
princípios de Dezembro o italiano nos anunciou que o dinheiro estava a acabar e que tinha de pedir reforço a Caracas.
Como sempre duvidámos que, chegado esse momento, a nossa viagem
pudesse continuar, com alguma expectativa, mas sem grandes esperanças,
começámos a analisar os cenários da pós-interrupção.
Estávamos
aproximando-nos da capital do Peru. Tínhamos percorrido sensivelmente
metade da distância, a metade mais difícil.» …
FIM DA VIAGEM DE LAMBRETA…
«Ao
chegar a Lima, após os festejos da grande recepção oficial que
nos foi oferecida com grande cobertura mediática, tudo
ficou resolvido…» …
AGORA
À BOLEIA… PARA “VER”…
137…
«Desta
vez com o acordo unânime dos membros do meu C.A.A.C. decidi que
não havia pressa em retornar a Caracas e que a oportunidade de ir
ver, pelo menos uma boa parte daquilo que os livros me tinham descrito,
não podia ser perdida.» …
«Quis
começar por subir aos
3400 metros
de Cuzco… Templo do sol…
inacessível… só quem fosse
reconhecido e revelado como descendente de Manco Kapac…»
«…de
seguida alcançar o mítico Machu Pichu (ou Maxu Pixu)… Maxu Pixu é um lugar por onde não se pode simplesmente passar… assim o
senti!» …

138
«Mais ou menos
uns oito a dez dias depois de sair de Lima, consegui chegar
a um dos tais sítios a que queria voltar… a cidade equatoriana de
Ibarra, a tal cidade branca junto da fronteira com a Colômbia, para
mim capital dos Otavalos.
Os Otavalos tinham-me deixado
uma grande impressão positiva e ao mesmo
tempo um enorme interesse em aprofundar a compreensão dos modos
de vida e de organização social deste povo de exímios artesãos e
artistas. Afáveis em extremo, de todos e em todas as circunstâncias
recebendo sempre um sorriso acompanhado de um muito atencioso –
“Buenos dias senhorito” – despertaram a minha atenção por só ver
mulheres a cuidar dos campos.» …
139…
a passagem para a Colômbia… com os porcos capazes de andar 4 horas…
Na
COLÔMBIA – RETRATO da época e…
140
- «Que
a aventura, por muito que pareça irresponsável, faz parte do amor
à Liberdade!” (por vezes o Zé Ninguém revelava-se filósofo).» …
Fugindo ao AMOR… a Márcia!!!
142 «Ao chegar a El Bordo, ao
albergue onde tínhamos estacionado…
…Tanto
a Márcia como os pais
pareceram-me muito satisfeitos e contentes por me verem de volta…
Sob pressão, apressei a partida. … na tarde desse dia cheguei a
Cali a bordo de um camião carregado de novilhos … ver O CONDUTOR!!!
Que contou a vida…
143
Sem diminuição
das minhas escassas reservas financeiras, fiquei super bem instalado
nessa noite de Cali (no HOTEL de LUXO… à borla…
ESCAPANDO ao DIABO… a Márcia!!!
(ANALEPSE) – recorda o encontro
de um mês antes…)
A
MÓNICA DA FOTOGRAFIA… os acompanhantes…
146
– o ROJAS afinal REINALDO
«(Rojas das Plumas. Rojas, pelas bochechas bem coradas pelos frios
ventos das madrugadas a caminho do mercado e os litritos de rum
com que tapava as veias do medo; das plumas, por negociar com “plumas”
(penas).
)» e as galinhas… a boleia para IBAGUÉ… e a galinha de oferta… para ganhar
uma refeição na tenda…
.
Quem
sabe se ainda não me torno “fazendeiro”?!... mas logo depois do
galináceoa…
.
Era preciso começar a procurar a “Hacienda de las Fuentes”. … depois
2 taxista e a dona da tenda onde tinha almoçado…
―
Vaya-se señor! olvide esa niña del diablo! y vaya-se pronto antes
que los hombres de D. Antonio lo encuentren.
148
«― Aqui tem… quatrocentos pesos (pelos 5 que faltam) …e vamos embora
já. Adeus Mónica, adeus “Hacienda de las Fuentes”, adeus rico fazendeiro
e filha única.»
149
«Vendi
o passaporte, …
-
forneiro de “lata d’água”…(uma forma original de acordar para o trabalho)… A
VIRAGEM… depois da VIAGEM…
149
«Aproximava-se o Natal. Estávamos no final de 1954, quase três anos
após a minha chegada à Venezuela. …
combinei
com o Senhor Gomes (não
me lembro do nome completo), proprietário da padaria El Faro, ali
bem próxima da Praça da Candelária e da pensão, começar a trabalhar
a cinco de Janeiro, véspera de Reis, como forneiro. …
151
« Dessa constatação resultou a minha decisão de comprar uma hora
de tempo numa das mais importantes emissoras de Caracas, Rádio Rumbos
…. um programa misto de música (com discos emprestados) e noticiário
desportivo, chamado “Ecos de Portugal”. … o Sr Gomes responsável…
mais anúncios dos bares… êxito observado…
152
O sucesso do radialista tinha que interferir com as responsabilidades
do forneiro. … para acordar sem precisarem de subir ao terraço…
a lata d’água de 20 litros… até que um dia, depois de meter o pão
ficou a dormir em pé… a pão em carvão…
― Vai tratar da tua vida. Não te preocupes que eu continuo a manter
a fiança.
153
Olhando retrospectivamente para estas minhas andanças, tenho que
chegar à conclusão que, sem o saber, ao iniciar a minha actividade
de “comunicador social” estava traçando o rumo futuro da minha actividade
política! Foi por aí que tudo começou a definir-se
Aos
programas iniciais, foram-se sucedendo outros e, desde a segunda
metade do ano 55, Ecos de Portugal transformou-se na única empresa
de Comunicação Social da colónia portuguesa da…
A
aventura da Rádio… 5 programas…
O
comunicador social… o político… o empresário dos ECOS de PORTUGAL…
o melhor jornal… programa de televisão quinzenal… o Silva Freitas…
o jovem Filipe Dias… 154 o grande veículo
dinamizador das iniciativas sociais e culturais dos portugueses
da Venezuela. … O
Daniel Morais sócio do Ecos… Sérgio Alves Moreira… livraria e Instituto
Português de Cultura…
o
Sérgio e o Daniel…
155 A
empresa Ecos de Portugal foi a real plataforma de lançamento para
a natureza das minhas andanças futuras. …
(Associativismo)
Club Desportivo Português, que chegou pela primeira vez em 1958 a Campeão da Venezuela
em futebol. … no ciclismo o
valente Joaquim Amorim …
156
As jovens portuguesas naturalmente começaram a assediar o jovem
apresentador dos programas de rádio, nessa altura com 22 anos de
idade. … dando por si já casado… e disposto a pagar o preço pela
precipitação…
A
mudança da ideia de imigração???
Completamente
impreparado para tal situação e já totalmente decidido a ser solidário
com as lutas de todos os privados de Liberdade, em primeiro lugar
com os portugueses vítimas dessa privação, nem por instantes podia
admitir que nada me desviasse desse rumo. … as desculpas à família
e… filhos…
O ano de 1957 é decisivo
para o regime então vigente na Venezuela. …
O
Partido comunista Venezuelano na clandestinidade… o Mos. Árias Blanco…
Gabriel Garcia Marques (então em Caracas)…
158 a
constituição da Junta Patrótica… o plebiscito de 15 de Dezembro…
159
Os últimos dias desse ano, e os primeiros vinte do novo ano, foram,
para mim e para muitos dos meus companheiros de trabalho e de conspiração,
dias sem sono. ...a ligação entre as células de Agosto a Novembro…
… de motorizada… a destreza… rogando aos santos que nenhuma porta
se abrisse…as acções contra os portugueses… amigos do ditador…
162
Após infinitas negociações, pareceu-me ter-se chegado a um consenso:
não haveria acções militares, não se recorreria à violência das
armas, o povo daria a sua lição ao ditador e ao Mundo. Embora nunca
se tivesse utilizado esse slogan, ali começou para mim a demonstração
prática do significado das palavras que só muito mais tarde viria
a escutar em contextos semelhantes: O POVO
UNIDO… etc.
Desde
Agosto desse ano que vinha a colaborar discretamente com os preparativos
da organização de um levantamento popular contra a ditadura.
“a
ditadura lá – cá onde estava – e lá (cá) em Portugal… “dias sem
sono” 23 de Janeiro de 1958…
-
Ecos de Portugal… Rádio… Revolução e Revoluções…
163 HOJE, 23 DE
JANEIRO DE 1958, HONRAMOS BOLÍVAR E A NOSSA HISTÓRIA,
164
Segundo diziam as rádios, o país inteiro estava em festa! O grande
novelista colombiano Gabriel
García Márques, autor de Cem anos de solidão,
então a viver em Caracas ao serviço da revista Momento, viu “as
lutas de rua à sombra do enorme edifício do Governo na Plaza del
Silencio, A
fuga para a República Doninicana… Movimento 14 de Junho” e a 25
de Novembro de 1960 assassinar as irmãs Mirabal: Pátria, Maria Teresa
e Minerva. Este assassinato e o advento da revolução cubana marcam
o prenúncio do seu próprio assassínio a 30 de Maio 1 Texto publicado
por Norman Gall. Origem: Argumento, nº 4, 1973.
Andanças para a Liberdade
165
de
1961, sendo voz corrente que a própria CIA, com a conivência de
círculos ligados à Igreja Católica dominicana, teria estado envolvida.
Por
sua vez, Pérez Gimenez cedo percebeu que aquele também não era um
lugar seguro. Era preciso sair da América Central, onde o seu nome
estimulava sentimentos perigosos… mas onde encontrar gente que dele
gostasse?
O
retorno de muitos emigrantes assaltados… Para PARAR as PERSEGUIÇÕES…
As
autoridades da Junta de Governo, tudo fizeram para travar essa possibilidade,
nomeadamente através de campanhas públicas na televisão, jornais
e rádios, e inundando Caracas e outras cidades do país de cartazes
com o slogan: “Não importa onde se nasce… o que importa é onde se
luta!”
166 A
Junta de Governo que tinha sido nomeada logo a seguir à vitória
da revolta era presidida pelo meu conhecido almirante Wolfgan Larrazábal.
Os
outros membros eram: o coronel Carlos Luís Araque, Pedro José Quevedo,
Roberto Casanova e Abel Romero Villate. Já no dia 23 ao ser conhecida
a composição da Junta, os venezuelanos protestaram contra a presença
de Casanova e Villate, que tinham colaborado com o Governo deposto
aquando do acontecido no dia 1 de Janeiro. …
O
jornalista Fabrício Ojeda foi confirmado como seu presidente.
167
APOIO A CUBA O entusiasmo
provocado pela conquista da democracia, impulsionou rapidamente
um grande movimento popular de auxílio solidário
Fidel Castro.
O
BATATA – estamos na mesma…
168
― Afinal de contas, não vale de nada estarmos
aqui a dar palpites, porque vivemos em ditadura encerrados num corpo
cuja vontade não dominamos!
O
SOLANO e o apoio a CUBA…
169 Lídia, a companheira de Solano…o MORALES… compartilhar os ideais
de liberdade… as reuniões e diálogos até de madrugada…179
180
– 25 anos … no país como que da Revolução Francesa…Fidel em Caracas…
183
os companheiros dominicanos…
184
Politicamente falando, o “menino de coro” que eu era, entrou nessa
ocasião pela primeira vez numa “paróquia política”: A Junta Patriótica
Portuguesa!
Ao
entrar na Junta Patriótica Portuguesa, fazia o meu baptismo de militante
político…
Embora
todos falássemos em Democracia, cada “paroquiano”, obedecendo ao
seu “bispo ou papa” defendia e proclamava a sua maneira de querer
conquistar a “Liberdade”. …
185
Quando por alturas de Setembro-Outubro desse ano de 1959 se começou
a falar na próxima vinda à “nossa paróquia” dos verdadeiros “Papas”
da oposição política à Portuguesa, pensei cá para comigo... já agora…
aguenta aí, vamos lá a ver se isto “à portuguesa” e a nível de cúpula,
é mais interessante!
186
Como vos vinha dizendo, na Junta Patriótica “oficiava-se” a doutrina
do “socialismo científico”. A Direcção estava entregue a gente de
confiança com provas dadas em outras paragens, com experiência mais
do que suficiente para enquadrar e “conduzir”, pela “via justa”,
os recém-tocados pela “febre revolucionária” que agitava corações
e mentes das juventudes dessa época histórica.
Com
a chegada de Henrique Galvão,
as condições alteraram-se…
187
Na dúvida… achei que essa coisa da “acção directa” tinha mais a
ver comigo do que as discussões sobre o teor dos discursos e comunicados
a que nos tínhamos dedicado até então. …
«…
instala-se a guerrilha entre a Junta e o pequeno grupo que tinha
decidido acompanhar Henrique Galvão, grupo do qual eu fazia parte
e que incluía, entre dois a três companheiros mais de quem não guardei
memória, o Engenheiro Júlio Cid da Costa Mota e o José Frias de
Oliveira.» …
188
«Com todas as expectativas intactas, chegou o general Delgado.
Por
entraves diplomáticos relacionados com a obtenção do seu passaporte,
Henrique Galvão só conseguiu chegar na véspera da partida do general,
que tinha passagem marcada para Londres via Nova Iorque. …
189
«Mas, o imprevisível aconteceu: a sua irredutível
posição anticomunista iria provocar inevitável divisionismo nas
fileiras dos exilados antifascistas, com reflexos fatais na confiança
que até agora tínhamos conquistado aos nossos anfitriões (…).”
…
189
«Orquestrada pelos membros da Direcção da Junta Patriótica, desencadeou-se
então uma ofensiva destinada a isolar o capitão Galvão e o seu grupo
dos contactos com as autoridades venezuelanas, de forma a coarctar-lhes
toda a possibilidade de acção e até de sobrevivência. …
190
«Esta primeira experiência de fractura entre comunistas e não comunistas,
viria a repetir-se indefinidamente ao longo dos tempos que trabalhei
lealmente com Henrique Galvão. Era assunto incontornável e sem inflexão
possível. …
191
«tínhamos que ser nós a encontrar as soluções para poder atacar.
Da nossa imaginação
e
arte, dos nossos paupérrimos recursos, materiais e humanos, do nosso
sangue e cérebro teria que sair a energia para o combate, sem ilusões!
… «Calados e discretos, façamos de conta que não ouvimos “o ladrar
dos cães”. …
191
«Aqui chegados, um esclarecimento
se impõe:
Ao
começar a “andar” com as ditas e tantas vezes auto-proclamadas “altas
individualidades políticas”, a apreciação destas “andanças”deve
ter em consideração que aquilo que vos conto não
pretende ser a narrativa de “uma qualquer verdade histórica”
destes tempos e acontecimentos. Longe disso. Não pretendo transmitir-vos
resultados de pesquisas realizadas ou de sistemática e ponderada
análise às inter-relações do conjunto dos factos narrados. Não
sou historiador. Tenho-me
a mim mesmo como um razoável contador de histórias vividas.
192
«Mas é, ao mesmo tempo, a afirmação de que a
nenhum outro protagonista, nem sequer a Henrique Galvão, companheiro
de algumas das próximas “andanças”, reconheço
o direito de reivindicar para si o privilégio a uma qualquer verdade
incontestável. … Lamento não dispor de meios e oportunidade
para relembrar as muitas centenas de
anónimos “dadores de sangue” à causa da luta pela LIBERDADE encontrados
ao longo destas “andanças”.
«O
que daqui para a frente for dito, repito, não deve ser tomado como
pretensão a julgar as/os combatentes com quem me fui cruzando, tão
só e apenas, dar e pedir testemunhos de diferentes visões dos acontecimentos
relatados, coisa que não foi possível obter na quantidade e diversidade
desejadas para este primeiro volume das “andanças”, mas que espero
conseguir para o próximo. …
193
«54. Mário Mendes da Fonseca…
«Seja como for, para nós,
membros do grupo que preparava as acções directas a levar a cabo
sob o comando do capitão Galvão (que muito poucos sabiam quais seriam),
este homem estava ao serviço
da PIDE… e pronto, não se falava mais nisso.
149 «55.
O major Calafate
196
«Com católicos e comunistas juntos, estaria feita a unidade que
emprestaria força à oposição. … Mesmo depois do seu regresso, sempre
acreditei na sinceridade deste homem. Um
homem sem máscaras. …
197
CAPÍTULO QUINTO «56. Génese e
preparação do assalto ao Santa Maria:
Empolar
a adjectivação de situações extremas, mas mais ou menos genéricas,
sem as tentar descrever nos pormenores mais ilustrativos da sua
densidade dramatúrgica, trágica ou cómica, não se coaduna com a
narrativa destas andanças.
Porque,
as nossas, são simples “andanças”
de andar e dançar, de ir e vir, de passar para lá e para cá,
procurando caminhos, umas vezes sérios, outras vezes parecendo que
não. Preferimos ater-nos a falar daqueles raros momentos em que
fomos capazes de rir de nós próprios… acreditando
que o riso espanta o medo e, sem medo… a liberdade é possível!
(Coisa que tínhamos compreendido muito antes do Umberto
Eco o escrever.)
199
«Há quem pense que a primeiríssima e única acção do Directório Revolucionário
Ibérico de Libertação (DRIL), nascido por alturas da (Andanças para a Liberdade 199)
celebração
da morte e ressurreição do
Senhor desse ano de 1960, foi a operação DULCINEIA.
Poucos eram aqueles que sabiam do sacrifício supremo dos companheiros
espanhóis enviados … as artimanhas para angariar fundos… o “rapto”
de um irmão do… para extorquir… a “venda” de informações à própria
Embaixada de Portugal…
201
«Esses dias, semanas e meses, de meados do ano 60 até Janeiro de
61, pareceram largos anos… O DISCURSO preparado por UM «Começava
assim:
“Abaixo
os dez putas (déspútas),
abaixo os «monolópios»
do capital… etc., etc.”
«Quando
pela primeira vez se logrou reunir uma dezena de “guerrilheiros”
(era esse o termo usado, influências guevaristas) num local dito
de treino, uma espécie de colónia de férias denominada Los Caracas,
junto ao mar, nas fraldas da montanha que faz de Caracas a sucursal
do Céu, a umas dezenas de quilómetros do porto de
La Guaira , os nossos problemas multiplicaram-se,
principalmente os meus.
202
O SEGREDO só conhecido de 3 ou 4: «verdadeiro
objectivo: Galvão, eu, o Costa Mota e o Frias.)
203
«Para cúmulo das dificuldades, o Santa Maria só passava um dia por
mês. Quando por falta de recursos falhámos a primeira passagem programada,
foi preciso resistir mais um mês.
«Vejam
bem… “o descascar da cebola”
da memória, como se de coisa autêntica se tratasse, faz lacrimejar
e esvanecer a nitidez de certas recordações… creio terem-se passado
mais dois ou três meses a ver passar o nosso barco, sem poder reunir
forças e meios para dele fazer a nossa “Bastilha”.
205
«57. Santa Maria: o embarque
Foi
numa sexta-feira do mês de Janeiro
de 1960, dia 20. …
«Pessoalmente,
deveria encarregar-me de levar para bordo as armas e munições dos
quatro companheiros que viajariam de avião para Curaçao, Galvão
incluído.
208
as peripécias do embarque… «O
bilhete tinha desaparecido. Com estas “andanças” atribuladas,
estava perdido… o bilhete, e eu também! Ao
arrepio tremido e frio seguido dum enevoamento fugaz que me
toldou a visão, sucedeu uma grande acalmia!…
O CAAC sempre a intervir…
Sábado, 21 de Janeiro.
Da minha primeira noite a bordo nada consta no “disco rígido da
memória”. …
«Aproveitar
todos os momentos possíveis para desligar do consciente, sempre
foi uma das minhas regras de conduta ao longo das “andanças”. A
melhor maneira de permanecer acordado é dormir enquanto se pode!
…
209
«Por volta das nove horas, saí para ir ao encontro do Galvão no
hotel onde se tinha hospedado na noite anterior. Após um breve relatório
do sucedido até então, deu-se
início a uma prevista reunião com o Sotomayor, o Velo Mosquera,
o Romara e, se bem recordo, o Fernandez, em representação da parte
espanhola; o Galvão, eu, o Frias de Oliveira e… aviva-te memória…
alguém mais que não recordo, pela parte portuguesa. … problema:
diferentes maneiras
de atacar a PONTE DE COMANADO!!!…
210
«para minha inquietação, fui nomeado “oficial de ligação”, como
se aqueles dois precisassem de outra coisa para além de mais bom
senso e menos orgulhos injustificáveis e inadequados à situação.
«Aí
às zero horas e trinta minutos desse domingo 22 de Janeiro de 1961,
(PROLEPSE) se o navio largasse do
Curaçao à hora marcada, devíamos estar no ponto ideal para mudar
de rumo e sair do mar das Caraíbas…
211
«O que tinha sido planeado para a meia hora do dia 22 de
Janeiro, veio a dar-se bem mais tarde….
«Porquê este atraso? Porque os nossos comandantes,
chegados ao ponto de concentração, puseram-se a contar as estrelas,
… foi necessário que dos
subordinados saísse uma iniciativa – ou vinha a ordem ou dispersávamos
(não sei para onde) – para que o nó se desatasse e enfim partíssemos
para a acção.
«Quando
se ouviram os primeiros tiros, deu-me vontade de não estar ali.
…
212
«Disseram-me que havia um ferido que eu não vi e iniciaram-se as
negociações entre o Galvão
e o Comandante Maia, já relatadas em muitas outras ocasiões.
Pronto, para já, o Santa Maria estava sob nosso controle… e agora?
… «A mim coube-me a responsabilidade
de instalar os nossos homens em camarotes contíguos de forma a poder
garantir o seu sono em segurança com um só companheiro de guarda,
e distribuir “as forças” pelos pontos vitais do navio, assegurando
que uma parte pudesse descansar para substituir os colegas cada
quatro horas, mudando constantemente de local de serviço, para dificultar
a verificação quantitativa do grupo. Ao
venezuelano Ojeda, dei a missão de se misturar com os passageiros,
difundindo discretamente o boato de que havia muito mais revoltosos
disfarçados entre os passageiros.
«Passamos
ao largo de Santa Luzia dia claro! Do meu posto de observação
vi arrear a lancha que levava o tal ferido e mais alguém da tripulação.
Tinha sido tomada a decisão de, em nome de uma demonstração
do humanismo dos combatentes, desembarcar um ferido que corria
risco de vida. Esse gesto, disse-se, era a grande prova da superioridade
moral dos responsáveis pela acção, gesto que captaria a nosso favor
a opinião internacional, etc. e tal. ….
213
«60. No Santa Liberdade, rumo ao Brasil
Na
manhã do primeiro dia, logo antes da hora do pequeno-almoço, o Galvão
informou pelos altifalantes sobre o que se tinha passado durante
a noite (a maioria, se não a totalidade, não se tinha dado conta
de nada), assegurando que todos seriam bem tratados e que os passageiros
seriam desembarcados na primeira oportunidade.
O
que eu temia, não se verificou. Não houve reacção descontrolada,
os seiscentos passageiros aceitaram os factos com absoluta serenidade
e até, bastantes, mesmo emigrantes, espanhóis e portugueses, com
algum entusiasmo. Os americanos e de outras nacionalidades que viajavam
como turistas, a esses tinha-lhes saído um grande prémio, um bónus
inesperado para as suas férias. …
«Durante
o assalto, tinha-me tocado descer à casa
das máquinas, ao caldeirão onde se gerava toda a energia que fazia
mover aquela “aldeia libertada” dos nossos territórios de além-mar.
…
214
«sobre a decisão de nunca entregar o barco e ir até ao seu afundamento
se necessário fosse, para nós, isso era isso mesmo… “bocas”.
Para
qualquer comum mortal, não inteiramente desprovido de senso, a utilização
do Santa Maria sem o “escudo” dos passageiros, era um puro suicídio!
Desembarcados estes, o navio era um estorvo! …
216
«Quando fomos localizados por um avião americano de busca e salvamento,
começaram as negociações com o Comando da Esquadra do Atlântico.
…
«Avistámos
hoje luzes da costa brasileira. O Santa Maria, como eu e os companheiros,
cá andamos nestas “andanças”, para trás e para à frente, ao largo
do Recife…
FIM
«E
pronto, por aqui tenho que interromper. Era
sábado, 28 de Janeiro de 1961, e acabava de ser convocado pelo
meu “Colectivo de Auto-Análise Comportamental” para uma reflexão
retrospectiva aos vinte e
sete anos de vida em comum, que amanhã, como me recordaram,
se completavam, a bordo deste Santa Liberdade, de onde sairei rumo
à Avenida do mesmo nome, por muito que demore a lá chegar.
A
comemorar o dia 29 de Janeiro de 1961 – 27 anos do Camilo!!!
Parabéns
ao autor
P’lo
primeiro volume
P’ra
escrever o segundo
Tenha
muita saúde
Tenha
muita saúde
Pois
um LIVRO já tem!
Se
vender o primeiro
O
segundo já (aí) vem…
7.
DESCRIÇÃO
Catálises
–
INDÍCIOS / ÍNDICES
–
INFORMANTES…
Informantes…
a
maneira como nos dá a data do nascimento…
a
3º dia a nuvem a caminhar…
aos
3 anos viagem inicial… andarilho … para os Mortágua a”raposinha”
aos
6/anos.. para casa de António Salça e Ana… escola primaria…
«Naquele
ano, às cheias, veio juntar-se o ciclone. Decorria o mês de Fevereiro.
(1941)»
p.
61 «Era destes celeiros
que partiam os grãos para os Moinhos de Ul. Destas terras baixas,
irrigadas e drenadas pelos extensos canais da Ria, adoçados por
variadíssimos desaguamentos de ribeiros e rios, do Antuã ao Vouga.»
p.
60 - «Lá por volta das duas da
madrugada, todos se preparavam para, de ouvidos bem abertos, pressentirem
as carroças.»
97
1ª Viagem transatlântica: «Por volta das três da tarde desse 7 de
Maio de 1951, … no cais de Alcântara» a despedida!!! E o Zé Ninguém
Capítulo
quarto, chegada a
La Guauira …
106
«Caracas
contava naquela época com cerca de trezentos mil habitantes.» …
106
«O hotel Benfica, como mais tarde vim a constatar, não era muito
diferente dos outros hotéis para emigrantes portugueses e até espanhóis:
o Luso-Americano, o Lisboa, o Camões, o Oporto, etc.» … ver descrição
pormenorizada quase exaustiva…
130
«De Caracas a Barquicimeto, a viagem decorreu normalmente…»
«A caminho
do pico Bolívar, com os seus
4980 metros
de altura, e de Mérida, capital
dos Andes Venezuelanos, por uma pista em muito mau estado, por vezes
inexistente, chamada de “transandina”, as dificuldades e
a verdadeira dimensão do arrojo da aventura começaram a evidenciar-se.»
132
«Entre
a cidade de Popayan e Pasto, numa pequena
povoação chamada El Bordo, numa região denominada Valle del Cauca,
partiu-se a forquilha
de direcção da moto do italiano.» …
Indícios…
índices…
54:
«Esse bebé, bem
cedo apelidado de Come e
Cala, nascia em tempos favoráveis à imposição do silêncio e
à exigência da obediência. Pelo choro incontido e persistente, abrilhantado
com estridentes e frenéticos berreiros, bem cedo a criança deu sinais
da sua revolta contra quem o mandava… comer e calar!» … «com
os meus oitenta e oito bem contados, estou convencida que aqui começou
o seu “fado”, o seu destino.»… «aos cinco dias de vida, iniciava
a sua vocação de andarilho.»
55
- «Dezasseis
dias antes, os Vidreiros da Marinha Grande tinham
contribuído, a priori,
para balizar o tempo e o sentido das suas andanças pela vida. Sem
ainda o poder saber, pela festa perpassava já (Andanças
para a Liberdade 55) o espalhar de um rumor generalizado de repressão
e a angústia, sentida pelo avolumar das primeiras ameaças prenunciadoras
da perda das liberdades e da implantação do fascismo em Portugal
e na Europa.
Durante
os seus primeiros dois anos, o ambiente que o envolveu sem que disso
tivesse consciência, ou talvez não, foi um
ambiente de luta clandestina pela vida. As freguesias de Ul
e Travanca, no concelho de Oliveira de Azeméis, são terras de moleiros
e padeiras, e de águas cantantes,
(hipálage)
elemento energético crucial para a vida destas terras ao fazer mover
os moinhos que também foram sempre, e são, aqui, fundo musical e
chamamento à emigração. Terras de gente extremamente laboriosa e
de actividades nem sempre legais, mas honestas (oxímoro)
(naquele tempo, porque nem todo o grão que se moía era dado
ao manifesto… nem todo o pão que se comia era de lei!), a maioria
das famílias era “candongueira”, dedicando-se à moagem e à elaboração
do seu famoso pão, que era preciso “comer e calar”.»
63 «O Batata já nessa altura era marrão.»
p.
61 «Bem cedo o Batata percepcionou
o clima conspirativo destas actividades clandestinas e a necessidade
de não aceitar passivamente as condições impostas, a necessidade que todos tinham de correr riscos para sobreviver.»
p.
62 «Foi um Inverno difícil para os adultos; para o Batata foi um
Inverno revelador da coragem
necessária para lutar pela vida.» …
62
Aos 7 anos – (p. 62) «Foi um Inverno difícil para os adultos; para
o Batata foi um Inverno revelador
da coragem necessária para lutar pela vida.»
68
- «O velho Salça, sem o ostentar, tinha o seu orgulho no menino
Batata. Sem filhos, o Batata era o seu menino. Discretamente procurava
incentivar o rapaz a aprender, a estudar para ser alguém, de preferência
Doutor ou Padre.» …
68
à noite… «o Batata fazia
os seus primeiros comícios lendo em voz alta, para o público
da casa, sempre muito atento e interessado, as aventuras dos nossos
grandes personagens históricos.»…
69
«A viagem inicial… (3 nos) a caminho dos Mortágua…
69 «Cá para mim, acho que
foi nesses serões que o Batata começou a gostar dessas coisas que
projectam a memória das pessoas para além da morte. Dessas acções
grandes e arriscadas que depois se contam à lareira e nas bibliotecas»…
74 «O “Flecha de Prata”
era o bom mensageiro que lhe trazia tudo aquilo que ele imaginava
existir lá por Lisboa… era o comboio dos seus sonhos!»
75
«Era um visionário… andava
sempre a chamar-nos a atenção para coisas que só ele via, coisas
que aconteceriam no futuro.»
75
– OS SONHOS DO BATATA E O DIÁLOGO entreposto entre ele o narrador
Tó Xarela -VIVO COM O TI ERNESTO…
78
Final do NARRADOR Tó Xarela: «Se
puderem, sigam-no, na vida real e nos sonhos que lhe comandam a
vida.»
O
PÁTIO no Alto Pina:
80
«A grande desilusão, ou mais que isso, foi a de ver a “casa” onde
íamos morar. No pátio do nº 26 da rua Luís Monteiro, ao Alto Pina,
encostado à quinta da Curraleira, com vista para as traseiras do
cemitério do Alto S. João, onde vi pela primeira vez as iluminações
azuis dos fogos-fátuos, o “passeio nocturno dos candeeiros das almas”,
como se dizia lá no pátio.» VER TODA a DESCRIÇÃO…
80
O PÁTIO DO ALTO PINA: «Essa minha primeira
descida para o pátio, sempre a considerei a minha primeira descida
ao inferno, ou a minha primeira entrada no mundo dos mortos-vivos,
como se Orfeu e Aristeu,
numa só pessoa, sem o saber, ali tivessem encontrado Eurídice,
aquela por quem, a partir de então, me bateria, aquela que, ao contrário
da outra da lenda, me resgataria do subterrâneo da vida, do limbo
social, para a luz do Sol e da Liberdade.
A minha Eurídice, ali e
então revelada, ainda se chama consciência de classe.
Ali aprendi a conhecer profundamente as razões da minha assumida
e inevitável paixão pela Liberdade. A paixão de lutar pela vida
entre os vivos, à luz do sol, e em favor dos da minha condição.»…
pátio que nos colava à pele o estigma da não existência social,
…»
81
«Lá na
aldeia eu era: o Come e Cala, o Batata, o menino Camilo, o menino
dos Salça; de repente, senti-me ninguém… senti-me remetido à condição
dos que não contam!
Os
anos que passei naquele espaço térreo construíram em mim certezas
inabaláveis, convicções mais fortes e duradouras que as que me foram
dadas através das leituras feitas ao longo da vida…»
O
menino padeiro… carrega sacos de 60 quilos (mais que o seu peso)
… amassar e coser… encestar e a percorrer as ruas do bairro do Alto
Pina… e sobe andares… para vender um pequeno pão!!!
A
1ª viagem transatlântica… a chegada desamparada… o tio Zé Maria…
o empresário “por conta própria”
106
«Estava-se
no tempo do “Pórto-guês, pão, pepsicola e cambur (banana)”.
Esta
era uma boa parte da explicação para o mistério dos “ricos da Venezuela”!»
…
«A
grande maioria dos emigrantes deste período vinha trabalhar para
a construção civil, dada a grande expansão e dinâmica» …
107
«Por cerca de doze bolívares diários assegurava-se o essencial à
sobrevivência. Era frequente ganhar entre quarenta a sessenta bolívares
por dia e mais – o bolívar da época valia, salvo erro, uns oito
escudos.» …
«Daí
que, durante alguns anos dessa época, o maior insulto que um venezuelano
podia fazer a outro venezuelano era chamar-lhe “pórtu-guês”!» …
111
CATIA!!! «…os sorrisos que tinha apercebido nos colegas
de camarata, quando lhes disse que na segunda-feira iria para Catia,
tinham-me deixado “de pulga atrás da orelha”; era preciso tirar
as dúvidas. Não era a primeira vez, desde a minha chegada, que ouvia
esse nome.» …
119?
- 18 anos, sem orientação, além dos ENSINAMENTOS PRÁTICOS RETIRADOS
DA SUA EXISTÊNCIA… PROTECTOR DE “Meninas”… “Pagar pelos erros cometidos”…
A
aventura da Rádio… 5 programas…
O
comunicador social… o político… o empresário dos ECOS de PORTUGAL…
o Sérgio e o Daniel…
A
mudança da ideia de imigração??? “a ditadura lá – cá onde estava
– e lá (cá) em Portugal… “dias sem sono” 23 de Janeiro de 1958…
9.
Elementos de enriquecimento Literário:
A
oralidade transposta para escrita com leveza contida e estimulante
relatando cenas hilariantes… com mudanças de “Narradores” e “interlocutores”
e/ou companheiros de aventuras… encontros inesperados… desafios…
O
estilo coloquial… de interpelação
à paciência dos persistentes leitores…
Oralidade
e VISUALISMO… sons…
cores… movimento… cinestesia… e sinestesia…
Cenas
vibrantes de via de tradições usos e costumes:
P.
61 «Tudo transportado esteiros
acima pelos coloridos e vistosos barcos, artisticamente decorados,
empurrados à vara larga pelo vigor e força dos moliceiros, ou pela
maré e brisa que, vinda do largo, inchava os panos, fazendo-os deslizar
na paisagem pintalgada de brancas velas em mar de verdura a perder
de vista!»
«No Inverno do ano de 1941, já instalado
em casa dos “Salça do Ribeiro da Ladeira”, o nosso Batata deslumbrava-se
pela primeira vez com o espectáculo das grandes cheias. Naquele
ano, dizia-se que era a maior desde há muitos Invernos.»
«Naquele ano, às cheias, veio juntar-se
o ciclone. Decorria o mês de Fevereiro.»
Ver a sobreposição das várias cenas intercaladas…
e a descrição da paisagem…
64 «O ti Zé Máximo, exímio contador de histórias
para entreter os clientes enquanto se ocupava das barbas e cabelos,
jurava convictamente e a pés juntos que no dia do Vendaval, ia ele
na sua bicicleta com o seu guarda-chuva de noventa varetas aberto,
a caminho da casa dos Petiscos (petiscos de nome, não de comer),
quando, ladeira
arriba, a ventania lhe pegou por baixo e
fez inchar o seu famoso guarda-chuva de noventa varetas, mais parecido
com uma tenda de marajá que com um chapéu-de-chuva (palavras suas),
elevando-o aos céus a voar alto sobre as águas até poisar de mansinho
no ninho das cegonhas existente na copa daquele enorme pinheiro
que se avista sobressaindo do espelho prateado das águas… não contente
com a proeza, o Zé Máximo garantia que lhe valeu na altura a sua
velha amizade com as cegonhas, que o tinham trazido de volta, agarrado
ao seu guarda-chuva de noventa varetas pendurado no gancho do pescoço
do passarão.
― Sim… sim… ―
dizia ele ‑, eu e as cegonhas damo-nos muito bem; muitos
dos bebés que elas têm trazido para a freguesia, fui eu quem os
fez vir!»
A Casa do Salça… o ambiente… o comer… farta
mas austera. Uma sardinha para três! O horário de trabalho desde
as 4H… as refeições…
64 «Naquela casa não havia distinção no
trato entre patrões e criados, comiam todos à mesma mesa, embora
os melhores bocados fossem sempre reservados para o menino Batata
e para o dono da casa.
A base da alimentação eram
(anástrofe) as sopas e os cozidos com carnes da matança anual
do porco (Novembro/Dezembro), normalmente de dez a doze arrobas,
guardadas na salgadeira até antes do Verão. A partir de então, o
calor e as fainas das colheitas deixavam menos tempo para a cozinha
e aconselhavam maior consumo de verduras, saladas e coisas simples
de preparação rápida.»
«Debulhavam-se, malhavam-se e secavam-se
todos os cereais colhidos: principalmente milho, feijão e arroz.
O arroz era a maior colheita e a mais trabalhosa e incómoda.»
67 - Ver a malha do arroz… a cena viva e
sonora… Truz… Catrapuz… as onomatopeias e o ambiente de trabalho
árduo… e o «pó de (do) arroz»!!!
71 «É como se, para poente, para lá da linha-férrea
até ao mar, se estendesse o palco; e, para nascente, do lado de
cá, desde Salreu, Fermelã, Canelas, etc., até à Branca, Pinheiro
da Bemposta e serra acima, fossem a plateia e o primeiro e segundo
balcão deste grande anfiteatro
da NATUREZA.
Se vos tento descrever esta paisagem que
é a nossa, é para vos ajudar a perceber o porquê das fortes raízes que prendem a vida do (Camilo Mortágua 72) Batata a estas
terras, a estes nossos costumes e maneiras de ser, aos valores que
sempre foram os nossos, mesmo
que assumidos com a ligeireza e alegria próprias da infância.»
72 AS MONDADEIRAS: «Ao entardecer, quando
os sinos da Igreja tocam as Ave Marias, começam a ouvir-se ao longe,
vindos lá das marinhas, do tal palco deste anfiteatro da Natureza,
uns rumores melodiosos que pouco a pouco se transformam em celestial polifonia,
aumentando progressivamente de volume, como se das águas e das marinhas
do arroz brotassem mil sereias a quererem atrair-nos com os seus
cânticos… são as mondadeiras que regressam da monda. Ranchos e ranchos
de mulheres cantando em coro, centenas
e centenas de vozes a inundar de poesia e luz um horizonte de sonho,
um quadro de artista genial.»
78
Final do NARRADOR Tó Xarela: «Se puderem, sigam-no, na
vida real e nos sonhos que lhe comandam a vida.» …
-
as comidas – quase com as receitas dentro…
A Casa do Salça… o ambiente… o comer… farta
mas austera. Uma sardinha para três! O horário de trabalho desde
as 4H… as refeições…
64 «Naquela casa não havia distinção no
trato entre patrões e criados, comiam todos à mesma mesa, embora
os melhores bocados fossem sempre reservados para o menino Batata
e para o dono da casa.
A base da alimentação eram as sopas e os
cozidos com carnes da matança anual do porco (Novembro/Dezembro),
normalmente de dez a doze arrobas, guardadas na salgadeira até antes
do Verão. A partir de então, o calor e as fainas das colheitas deixavam
menos tempo para a cozinha e aconselhavam maior consumo de verduras,
saladas e coisas simples de preparação rápida.» …
«Debulhavam-se, malhavam-se e secavam-se
todos os cereais colhidos: principalmente milho, feijão e arroz.
O arroz era a maior colheita e a mais trabalhosa e incómoda.»
…
-
As malhas… com movimento ritmado… a dança dos homens e manguais… os
sons das batidas… o ambiente respirado e sentido… com apelo a todos
os sentidos SINESTESIA… Cinestesia? …
67
«Debulhavam-se,
malhavam-se e secavam-se todos os cereais colhidos: principalmente
milho, feijão e arroz. O arroz era a maior colheita e a mais trabalhosa
e incómoda. Primeiro espalhava-se o arroz ainda agarrado à palha
por toda a eira, numa espessa camada de aproximadamente setenta
centímetros de altura; depois metia-se o gado (vacas) a dar voltas
sobre voltas de forma a pisar uniformemente a camada exposta; pelas
bermas, entravam em função os manguais ou mauais, como por cá se
chamam, com tantos malhadores quantas fossem as pessoas disponíveis.
Cada um tem o seu maual preferido; é frequente ouvir-se de casa
em casa aquela pancada ritmada
do… truz, truz, catrapuz, truz! Fazem-se despiques e pode-se
mesmo dizer que quando os malhadores são experientes e em número
suficiente, acontecem autênticos concertos de truz… catrapuz!» …
-
o “Pó-do-arroz” que chega a fazer comichão…
67
«É bem
conhecido o pó de arroz
como produto de embelezamento. Porém, nós por cá sabemos bem o incómodo
que dá o verdadeiro pó de arroz… de todo este trabalho, passar o
tempo a coçar a comichão provocada pelo pó
do arroz é o sofrimento maior.» …
-
o Pátio e a cena do Porto funileiro…
Função
metalinguística? - o código utilizado enfoca o próprio código: ver até p.
102 – “conversas de alto nível Cultural da Clientela copofónica…”
detentora p. 105 - “do vernáculo vinícola”
81
A
cena do Pátio com Porto Funileiro – a sinestesia (5 sentidos) e
a cinestesia (o movimento) «ali aconteciam, quase todas as noites e
às vezes durante algumas matinées, ou até em sessões contínuas,
as “revistas à portuguesa” lá do Pátio. Eram uma espécie de “novelas
radiofónicas em (Camilo Mortágua 82) vernáculo vinícola”
que, de tão repetidas, deixaram de ser a grande diversão do pátio
para se transformarem em mais um motivo da nossa vergonha!
82
«Invariavelmente, quando o Porto descia as escadas do pátio com
a sua caixa de funileiro às costas a roçar pelo corrimão, ia começar
a função: …»
A
COVA FUNDA…
88
«…dum lado uma taberna com os seus anexos interiores (pequenos compartimentos
sem luz nem janelas onde os clientes jogavam às cartas e queimavam
provisórios e definitivos sem parar, em ambiente de partilha colectiva
da espessa fumaça), …
88
«Também percorri as ruas de Lisboa de “bomba da merda” (era assim
que lhe chamávamos) às costas, …»
TENERIFE
– Gran Canaria – AS VACAS A DOMICÍLIO…
«99
«De manhã,
colei-me cheio de espanto
e curiosidade ao sistema local de distribuição de leite a domicílio.»
Ver
o deslumbramento da chegada… a descrição da baía de La Guaira … Caracas ao longe…
no alto… e mais alto ainda… as montanhas…
106
«Caracas…muito abaixo dos
2600 do “pico del Ávila”, imponente pirâmide de verdura, protegendo
e refrescando Caracas, como que a confirmar a sua apregoada condição
de “sucursal del cielo”!» …
106
«O “bom conterrâneo”, testemunha
compreensiva do meu absorvente encantamento, daquela minha “bebedeira”
de desconhecido, manteve-se respeitoso do meu silêncio durante toda
a viagem de quase três horas, de
La Guaira até ao hotel Benfica.»
O
PADEIRO QUE DORMIA COM AS MASSAS… A ALMA DA MASSA!!!
115
/ 116 «Durante
toda a semana, dormia com as “massas”. Em primeiro lugar, porque
o tal quarto do padeiro era quase tão quente como o forno onde cozia
o pão; em segundo, porque tinha casualmente aprendido que encostando
a cabeça à massa acabada de amassar, ela própria, ao levedar-se,
crescia e vinha acariciar-me o rosto e “chamar por mim” para ser
tendida e repartida em muitos pães.
Estendidos
sobre a mesa de tender, lado a lado, bem juntinhos, em repouso,
ambos aguardavam o momento da separação, e era a massa do futuro
pão que acordava aquele que, levando-a para o forno, lhe permitiria
a sua última metamorfose, transformando-a naquilo para que havia
nascido... o pão! Durante infindáveis três a quatro semanas, esta tão intensa relação levou
à exaustão o jovem Batata, ao fim das quais, sem forças nem
ânimo, dois dias e duas noites dormiu sozinho sobre a mesa de tender,
até que o industrial, seu patrão e amigo de seu pai, apareceu no
dia do costume para buscar as “suas massas” e assim o encontrou!
Ao
que parece, a partir desse momento, depressa foi encontrado o tio
Zé Maria. Com os remorsos do abandono do sobrinho, lá arranjou forças
para se desprender dos braços da mulata dengosa, para o levar até
à sua padaria... de
la Victória !
-
A cena das mulheres de CATIA – “AS MEIAS PORTAS=SAIAS”…
119
… «Afoitamente,
com a coragem dos inexperientes, apertei os cotovelos contra a carteira
e avancei em direcção às luzes. A princípio tive muita dificuldade
em perceber a situação! A rua só tinha casas dum lado e cada casa
tinha uns escassos dois metros de frente com uma porta; aliás, não
eram portas inteiras, eram meias portas por detrás das quais se
encontravam mulheres a descrever, por gestos e palavras, o serviço
que prestavam, pouco variado, diga-se de passagem, dadas as peculiares
“infra-estruturas” de que dispunham.
Olhando
com mais atenção, vi vários homens de pé contra as meias portas,
balançando os corpos contra as ditas, como se as quisessem derrubar
com a barriga.
Finalmente,
bem observadas as cenas, o que não se via adivinhava-se!
Como
não dispunham de espaço, as mulheres faziam das meias portas saias,
postando-se de pé contra as meias portas, praticamente nuas da cintura
para baixo, convidando os clientes ao acto sexual, de pé, através
dum buraco aberto na madeira das tais meias portas.» …
…
«Ao longo destas andanças, nunca me foi dado ver situação mais desumanizada
relacionada com o comércio do sexo.»
SINESTESIA… CINESTESIA
VER uma mostra
deslumbrante de como se pode conseguir (com uma linguagem simples!!!)
do que nos querem explicar com SINESTESIA…
CINESTESIA:
122
«Todos os estabelecimentos de comes e bebes instalados ao
longo da dita “carretera vieja”, estrada velha de Caracas a
La Guaira
, eram meus clientes. Todos os dias treinava a minha destreza de
condutor de motos com “sitecar” nas tais trezentas e não sei quantas curvas da velha estrada, onde
aprendi a apreciar o fenómeno das grandes chuvadas tropicais.
Parava a moto a alguns metros da chuva e aí
ficava, sequinho e ao vento, a
ver chover e a sentir a frescura dos seus efeitos; quando a
chuva ia chover para outro lado, passava do seco para o molhado,
de onde emanavam densos odores a coisas agora imprecisas.»
130
NOS ANDES… nas ALTURAS os
ANDINOS…: «Naquelas
paragens tudo era diferente! A altitude, à medida que nos íamos
aproximando dos páramos, fazia desaparecer a diversidade étnica
da população venezuelana. Só
autóctones, pessoas baixas e entroncadas de caras arredondadas e
pele bem curtida pelo frio, envoltas nos seus ponchos de cores escuras,
pés andarilhos e pernas ligeiramente abertas para melhor se equilibrarem
pelos carreirinhos (131) traçados por calcorreares
antigos pelas encostas íngremes daquelas monumentais paisagens.»
(adjectivação precisa e gradativa…)
Há mais a explorar na última
parte do Capítulo quarto… padeiro da lata d’água e revolução na
Venezuela… Cuba… República dominicana…
E no quinto… preparação
e assalto ao Santa Maria – santa Liberdade…
9.
Figuras de Estilo – Qualidades da linguagem – estilo…
-
Figuras de estilo: Figuras de Sintaxe… de Pensamento… Tropos ou
imagens…
-
de sintaxe: elipse –
omissão de fácil…), zeugma omissão de palavras já utilizadas…),
pleonasmo – repetir para realçar… ver com os olhos… ver claramente
visto o lume vivo… anáfora, repetição da mesma palavra, negro negro…
anástrofe, inversão da
ordem natural para realçar…
«Naquele ano, às cheias, veio juntar-se
o ciclone. Decorria o mês de Fevereiro». (1941)
hipérbato,
intreposição violenta de termos relacinados… anacoluto, mudança
brusca de construção por exemplo não correspondência com sujeito
e verbo… assíndeto, eliminar conjunções… silepse, concordância com
a ideia e não com o sujeito: “Todos os filhos de Adão sofremos
a morte…».
-
de pensamento: interrogação,
exclamação, hipérbole, apóstrofe, prosopopeia
– personificação ou animismo…,
71
«O
rio era a grande veia por onde circulava o sangue que alimentava
a nossa fartura e alegria de viver!» …
«Sem mestre, foi aí que o Batata se autoformou
nas artes de esbracejar para se manter à tona d’água.»…
«Entre Aveiro e Estarreja, muito especialmente
ao longo da linha férrea, desdobram-se em anfiteatro os casarios
multiformes das aldeias contemplativas
deste horizonte marítimo.»
74
«O “Flecha de Prata” era o bom mensageiro que
lhe trazia tudo aquilo que ele imaginava existir lá por Lisboa…
era o comboio dos seus sonhos!»
Perífrase,
antítese – contraste - oximoro…
gradação…
81
«Lá
na aldeia eu era: o Come e Cala, o Batata, o menino Camilo, o menino
dos Salça; de repente, senti-me ninguém… senti-me remetido à condição
dos que não contam!
Os anos que passei naquele espaço térreo
construíram em mim certezas inabaláveis, convicções mais fortes
e duradouras que as que me foram dadas através das leituras feitas
ao longo da vida…»
-
Tropos ou imagens: comparação,
metáfora, imagem, alegoria, (sequência de comparações metáforas
e imagens…)
p.
60 «o medo reinava!»
ironia
(palavras usadas com sentido contrário ao sentido próprio…), eufemismo,
disfemismo, sinédoque o todo pela parte… o singular pelo plural.
“o inimigo…” , metonímia, ex. “ler Camões” “beber um copo”……
p.
60 - «o
que mais temia era ver chegar a guerra – a guerra, na sua imaginação,
só podia vir pela linha férrea…»
p.
60 «o medo reinava!»
71
«Entre
Aveiro e Estarreja, muito especialmente ao longo da linha férrea,
desdobram-se em anfiteatro os casarios multiformes das aldeias
contemplativas deste horizonte marítimo.»
Onomatopeias – palavras imitativas… … Aliterações…
sons… a malha… truz… truz… catrapuz…
«as carroças. Estas, puxadas
por duas ou mais parelhas, rodando em silêncio pelas calçadas e
congostas empedradas das aldeias, com as rodas revestidas por tiras
de velhos pneus e as patas
das bestas bem calçadas do mesmo material, … p. 60
A
ironia contida à beira do cinismo e do sarcasmo “ajuste de contas”
inócuo e utilizado só para magoar… por vingança arrogante e egoísta…
sem chegar aos sarcasmo…
A
criatividade de expressões “inventadas”… a recolha de léxico popular
/ regional…
A
adjectivação… justa… por vezes dupla… e a hipálage…
p.
61 «Era destes celeiros
que partiam os grãos para os Moinhos de Ul. Destas terras baixas,
irrigadas e drenadas pelos extensos canais da Ria, adoçados
por variadíssimos desaguamentos de ribeiros e rios, do Antuã ao
Vouga.»
71
«Entre Aveiro
e Estarreja, muito especialmente ao longo da linha férrea, desdobram-se
em anfiteatro os casarios
multiformes das aldeias
contemplativas (hipálage) deste horizonte marítimo.»
Ver
hipálage – atribuir o adjectivo a coisas quando se referem a pessoas
ou ambientes: “as saias portas”… “um chá respeitoso”… “as
agulhas sonolentas”… «partiam os grãos para os Moinhos de Ul»…
os grãos andarilhos…
71
«Entre
Aveiro e Estarreja, muito especialmente ao longo da linha férrea,
desdobram-se em anfiteatro os casarios multiformes das aldeias
contemplativas deste horizonte marítimo.»
119
Depois de observar as cenas do Bairro das Meninas de CATIA: «Boquiaberto e meio pasmado, devo ter feito fraca figura naquele cenário
pré-civilizacional.» …
121
«cada
“repartidor” ia pela cidade entregar aos seus fregueses o rotineiro pão de cada dia…
132
AS moças FILHAS da FAMÍLIA
nos ANDES… «Como o que tem que ser tem muita força,
logo ali se iniciaram dois pueris
e só platónicos namoros; só platónicos porque, de contrário,
entre a fúria dos pais e dos vaqueiros locais ou a prisão à vida
naquele vale perdido, as alternativas não eram nenhumas. As moças
bem se esforçaram. Avisando-nos
discretamente quando iam tomar banho nuinhas debaixo das luxuriantes
cascatas naturais existentes nas redondezas, enfiando-se entre
os nossos lençóis mal os pais se deitavam… mas aí…» …
134
“Havia que dar um empurrão
ao obstáculo”, fazer com que o Marcelo voasse através das nuvens
cavalgando a sua lambreta
alada.
134 «A estrada, qual monstruosa
serpente, vai-se colando às montanhas, desafiando os abismos sobre
os quais se mantém em equilíbrio…» …
10.
Intertextualidade:
69 «Cá para mim, acho que
foi nesses serões que o Batata começou a gostar dessas coisas que
projectam a memória das pessoas para além da morte. Dessas acções
grandes e arriscadas que depois se contam à lareira e nas bibliotecas»
…
-
Lenda de Ulenspiegel, de Charles Coster, herói da Flandres: “ser
alguém pelo que se é ou pelo que se tem?”
-
Lia o que não compreendia:
“ANTI
DURING”?
Bispo
Árias Blanco…
Rafael
Garcia Marquez…
-
“sentia-me Orfeu… e
Aristeu Pastor, Apicultor… Cura e Profecia…) e Eurídice (esposa
de Orfeu…seduzida por Aristeu… Cirene, mãe de Aristeu muda-se em
serpente e mata Eurídice que rejeita o filho…) ao mesmo tempo… ?
80
O PÁTIO DO ALTO PINA: «Essa minha primeira
descida para o pátio, sempre a considerei a minha primeira descida
ao inferno, ou a minha primeira entrada no mundo dos mortos-vivos,
como se Orfeu e Aristeu,
numa só pessoa, sem o saber, ali tivessem encontrado Eurídice,
aquela por quem, a partir de então, me bateria, aquela que, ao contrário
da outra da lenda, me resgataria do subterrâneo da vida, do limbo
social, para a luz do Sol e da Liberdade.
A minha Eurídice, ali e
então revelada, ainda se chama consciência de classe.
Ali aprendi a conhecer profundamente as razões da minha assumida
e inevitável paixão pela Liberdade. A paixão de lutar pela vida
entre os vivos, à luz do sol, e em favor dos da minha condição.»
-
cita BRAUDEL – historiador
francês, 1902-1985 – “Mundo Mediterrânico”…
Na
desilusão de Lisboa e ter falha a Escola por causa da meningite…
81
«Razão
tinha Braudel ao afirmar que “é nas «caves»
do tecido social, na humidade dos espaços térreos, que nascem as
raízes das grandes transformações sociais”.»
Na despedida do Sr. Constantino:
94/96
«Ainda
me lembro dos dois últimos livros que lhe devolvi na véspera de
me despedir, quando lhe fui dizer que ia para a Venezuela: As Palavras
Cínicas, de Albino Forjaz Sampaio, e O
Crime do Padre Amaro.»…
Na chegada
à VENEZUELA (Veneza pequena)
103
«No
dizer do seu mais ilustre e respeitado escritor, historiador, politólogo
e pensador, Arturo Uslar Pietri, já então com 55 anos e muito prestigiado,
mais tarde embaixador junto da UNESCO e contemplado com o Prémio
Príncipe das Astúrias, o nome de Venezuela teria sido pronunciado
pela primeira vez em 1500 por Américo Vespúcio à entrada do golfo
entre a península de Paraguaná e a de Guajira, no território que
mais tarde veio a pertencer ao Estado Zúlia.
Vespúcio,
que era de Veneza, ao observar as casas sobre estacas dos indígenas
que viviam sobre a água e lhe fizeram lembrar Veneza, chamou àquele
lugar – Venezuela! –, querendo significar pequena Veneza, nome que
mais tarde seria dado a toda a “Província colonial” que abarcava
grande parte do território da actual Venezuela.
A
Venezuela, primeiro como Província da Gran Colômbia, depois, em
1811, como país independente, e a partir de 1930 como Estado real
e completamente soberano, é um caldo de culturas e etnias provenientes
de imigrações das mais diversas origens.
Um
país que, pela grande diversidade étnica da sua população, nunca
se colocou o problema da procura duma determinante e específica
cultura de origem, revendo-se por inteiro na personagem do LIBERTADOR,
como símbolo fundador e estruturante da identidade e coesão do povo
venezuelano.
“SIMON
BOLÍVAR EL LIBERTADOR” – a sua áurea transcende muito para além
das fronteiras da Venezuela, graças ao seu decisivo empenho na independência
de outros cinco países sul-americanos: Panamá, Colômbia, Peru, Equador
e Bolívia. BOLÍVAR, ainda hoje caso único na História mundial por
ter sido Presidente da República de três países distintos: Venezuela,
Colômbia e Bolívia!» … continua a mostrar a sua vasta erudição e
conhecimento direto…
Cita
Günter Grass: para justificar
as elipses e esquecimentos…
105
«Como diria Gunter Grass, “a memória, como a cebola, descascam-
se de fora para dentro, camada a camada”. Pelo que experimento,
a dificuldade está em começar por compreender o que nos diz o registo
de ontem na casca de fora, sem a lembrança precisa do que nos reserva
o registo do tempo antigo impressionado nas camadas de dentro!»
Da
Wikipedia - http://pt.wikipedia.org/wiki/G%C3%BCnter_Grass
- :
«Günter
Grass (em alemão:
Günter Graß) (Danzig,
16
de outubro de 1927)
é um intelectual e escritor alemão
nascido na cidade de Danzig,
posteriormente Gdansk, cuja obra alternou a atividade literária
com a escultura enquanto participava de forma ativa da vida pública
de seu país e lhe deu um Prêmio
Nobel de
Literatura em 1999.
Também é reconhecido como um dos principais representantes do teatro
do absurdo da Alemanha.»
114
Sobre o bairro de barracas do Cerro de Catia onde se vindia tudo
e.. «álcool, que
é aquilo que no dizer do poeta, “tapa a veia
do medo!” …
123 / 124 «dezoito anos, uma enorme
ambição de ser alguém, autonomia plena, algum dinheiro no bolso
a tilintar (mesmo que fosse do dono da padaria que fornecia o pão);
a companhia dos jovens filhos dos donos da padaria que, imitando
os padeiros de verdade, dormiam de dia… mas iam “trabalhar” de noite
para os bordéis de Catia; a prevalência dada ao Zé Ninguém, aquele
outro eu optimista e superconfiante no futuro, muito à
imagem do da lenda de “Ulenspiegel” e de suas aventuras heróicas,
alegres e gloriosas, referência que vinha dominando os meus “diálogos
interiores” da época.
Assim pensaria o herói mítico
da Flandres: “Nada de rotinas… ainda sou muito jovem…
tenho tempo… aproveitemos o tempo para (124)
conhecer coisas novas, para dar sentido e reconhecimento à vida,
fazendo coisas que nem todos ousam fazer.”
157
- GABRIEL GARCIA MARQUEZ… a euforia da proximidade… quando se preparava
a revolta contra o ditador na Venezuela…
11.
Género
literário – entre a auto-biografia – memórias... comentários… com laivos de e
o histórico… décadas… crónicas… quase a aspirar a romance histórico…
com alguma poesia e cenas de pendor marcadamente dramático… teatral…
Classificação
–
Estilo simples… (sem ornatos…) …
-
Estilo médio temperado… expressão apurada com uso moderado de ornatos…
P.
61 «Tudo
transportado esteiros acima pelos coloridos e vistosos barcos, artisticamente
decorados, empurrados à vara larga pelo vigor e força dos moliceiros,
ou pela maré e brisa que, vinda do largo, inchava os panos, fazendo-os
deslizar na paisagem pintalgada de brancas velas em mar de verdura
a perder de vista!»
72 AS MONDADEIRAS: «Ao entardecer, quando
os sinos da Igreja tocam as Ave Marias, começam a ouvir-se ao longe,
vindos lá das marinhas, do tal palco deste anfiteatro da Natureza,
uns rumores melodiosos que pouco a pouco se transformam em celestial
polifonia, aumentando progressivamente de volume, como se das águas
e das marinhas do arroz brotassem mil sereias a quererem atrair-nos
com os seus cânticos… são as mondadeiras que regressam da monda. Ranchos e ranchos de mulheres
cantando em coro, centenas e centenas de vozes a inundar de poesia
e luz um horizonte de sonho, um quadro de artista genial.»
130 NOS ANDES… nas ALTURAS: «Naquelas
paragens tudo era diferente! A altitude, à medida que nos íamos
aproximando dos páramos, fazia desaparecer a diversidade étnica
da população venezuelana. Só
autóctones, pessoas baixas e entroncadas de caras arredondadas e
pele bem curtida pelo frio, envoltas nos seus ponchos de cores escuras,
pés andarilhos e pernas ligeiramente abertas para melhor se equilibrarem
pelos carreirinhos (131) traçados por calcorreares
antigos pelas encostas íngremes daquelas monumentais paisagens.
- Estilo sublime. Solene e majestosa… sentimentos e conceitos
elevados… com elegância, eloquência e abundante emprego de ornatos…
-
Qualidades: Clareza, correcção, pureza, harmonia… (leitura elegante)
…
Fuga
a galicismos e estrangeirismos apesar da formação dispersa…
“com
simples e claras palavras”…
-
Naturalidade e originalidade...
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