CAMILO MORTÁGUA
ANDANÇAS para a LIBERDADE -
VOLUME I 1934 - 1961


uma APRESENTAÇÃO por JORAGA
um Cigano Castanho vindo da Serra da Estrela

 

contacto © joraga ®

 

ANDANÇAS – notas complementares… levantamentos diversos

Ficha Técnica:

Título: ANDANÇAS PARA A LIBERDADE – Vol I – 1946 - 1961

Autor/es:

Texto – CAMILO MORTÁGUA

Prefácio – LUÍS REIS TORGAL

Contextualização – HELOÍSA PAULO

Iconografia – ANÍBAL LEMOS

Editora – ESFERA DO CAOS

01

Título

ANDANÇAS PARA A LIBERDADE – Vol I – 1946 - 1961

02

Autor/es:

Camilo Mortágua
e a "estranhíssima Trindade
"

Prefácio – LUÍS REIS TORGAL

Contextualização – HELOÍSA PAULO

Iconografia – ANÍBAL LEMOS

03

Editor

Esfera do Caos Editores

04

Apresentação

Biblioteca Museu da República e da Resistência …VER mais…

 

1.        

NARRADOR/es

1

2

3

2.        

NARRATÁRIO/s

?

3.        

Personage/m/ns

PRINCIPAL

SECUNDÁRIAS 1

SECUNDÁRIAS 2

INDIVIDUAIS / COLECTIVOS

4.        

TEMPO

O TEMPO – encadeado (encaixe – alternado)

- DA HISTÓRIA (cronológico) –

- DO DISCURSO (encadeado, ou com analepses e prolepses… elipses… isocronias (nos diálogos e cenas) … com resumos ou sínteses…

- PSICOLÓGICO…

5.        

ESPAÇO

O/s ESPAÇO/s – FÍSICO – SOCIAL – PSICOLÓGICO… e notas sobre o "visualismo"...

6.        

MODELO ACTANCIAL

Adjuvantes – Sujeito – Opositores

Destinador/es - OBJECTIVO – Destinatário/s

7.        

ANÁLISE Estrutural SEQUENCIAL:

SEQUÊNCIAS de rotura / ruptura / que determinam a avanço da história…

Sequências encadeadas…

- alternadas…

- inseridas…

8.        

DESCRIÇÃO

Catálises

- INFORMANTES

- INDÍCIOS / ÍNDICES – …

INFORMANTES

 

INDÍCIOS / ÍNDICES

9.        

Elementos de enriquecimento Literário… FIGURAS DE ESTILO…

Oralidade e VISUALISMO… sons… cores… movimento… cinestesia… e sinestesia

FIGURAS DE ESTILO

- de sintaxe

- de pensamento

- Tropos ou imagens

- Onomatopeias – palavras imitativas… … Aliterações

- A ironia contida à beira do cinismo e do sarcasmo…

- A adjectivação… justa… por vezes dupla… e a hipálage

10.    

Intertextualidade

Autores e obras referidos e ou citados…

11.    

Género literário

Género literário – entre a auto-biografia – memórias... comentários… com laivos de e o histórico… décadas… crónicas… quase a aspirar a romance histórico… com alguma poesia e cenas de pendor marcadamente dramático… teatral…

 

- Qualidades: Clareza, correcção, pureza, harmonia… (leitura elegante) …

Fuga a galicismos e estrangeirismos apesar da formação dispersa…

“com simples e claras palavras”…

- Naturalidade e originalidade...

Estilo simples… (sem ornatos…) linguagem denotativa…

 

- Estilo médio temperado… expressão apurada com uso moderado de ornatos… denotativa com conotativa…

 

- Estilo sublime. Solene e majestosa… sentimentos e conceitos elevados… com elegância, eloquência e abundante emprego de ornatos… predominância da linguagem conotativa…

 


 

01 - Notas sobre o Autor: Camilo Mortágua

(orelha lado direita da Capa) –

Entre os inimigos de Salazar que lutaram de armas na mão contra o Estado Novo destacam-se dois homens: Camilo Mortágua e Hermínio da Palma Inácio – os últimos revolucionários românticos. A eles se devem os golpes mais espectaculares que abalaram a ditadura. Mas a história da acção directa contra o regime há-de reservar a Camilo Mortágua um capítulo muito especial: participou na Operação Dulcineia, em Janeiro de 1961, comandada pelo capitão Henrique Galvão e inspirada pelo general Humberto Delgado – o desvio do paquete português «Santa Maria», que seria o primeiro acto de pirataria dos tempos modernos. Mais tarde, com Palma Inácio e outros companheiros, fundaria a LUAR.

Nos últimos anos tem trabalhado na concepção e implementação de programas e projectos de desenvolvimento local, assim como na mobilização de pessoas e grupos socialmente desprotegidos e na animação e organização de comunidades em risco de exclusão.

Presidente da DELOS Constellation, Association International pour le Developpement Local Soutenable (1994- -2002).

Presidente da APURE, Associação para as Universidades Rurais Europeias.

Grande Oficial da Ordem da Liberdade da República Portuguesa.

na cCapa

ANDANÇAS DE DESESPERO E ESPERANÇA, E ALGUMAS DAS ESTÓRIAS DOS COMBATES CONTRA A DITADURA, NUM INESPERADO CONTRIBUTO PARA A HISTÓRIA DA LUTA DOS PORTUGUESES PELA LIBERDADE E PELA DEMOCRACIA.

 

Partindo de uma aldeia portuguesa da Beira litoral, estas “Andanças” atravessarão mares e continentes, em viagens de ida e volta. Nos dois volumes desta obra dá-se conta, nomeadamente: (I) do derrube da ditadura venezuelana e das solidariedades com a revolução cubana; da concepção, preparação e execução do assalto ao Santa Maria;

(2) da ascensão e queda de Jânio Quadros e da implantação da ditadura militar no Brasil; do assalto ao quartel de Beja e da campanha de Humberto Delgado para a Presidência da República; de certos «mistérios» relacionados com os primórdios da guerra colonial; da preparação e execução da operação VAGÓ (desvio do avião da TAP a partir de Marrocos); das misérias e dos desânimos de quem não se conformava, e das traições entre militantes; da oposição do PCP à luta armada; da preparação e execução do assalto ao Banco da Figueira da Foz e do subsequente aparecimento da LUAR; dos percursos de muitos dos nossos “líderes” de hoje nesses tempos de Medo e Resistência…

 

“Estas «Andanças» de Camilo Mortágua, para além de nos oferecerem uma visão global dos tempos da Ditadura Salazarista, remetem-nos para três valências (3Ms) que no contexto da obra assumem especial relevância: 1) A Metáfora das raízes: não há cultura válida sem ligação às origens; 2) A Mestria da arte de contar: pelo expressivo visualismo que se traduz numa escrita feita de oralidade; 3) O Mito das utopias: daquelas que afinal se tornam possíveis e realizáveis…”

José Rabaça Gaspar leitor atento e empenhado


 

1. Verificar a original trilogia do NARRADOR:

- Além de o autor lançar dois NARRADORES (homodiegéticos secundários, com visão parcial…): a Maria Peixeira – infância – e o Tó Xarela – puberdade / adolescência – o NARRADOR AUTODIEGÉTICO – personagem principal, com visão omnisciente, afinal são TRÊS – o seu CAAC – Comité de Auto Análise Comportamental, que, além da omnisciência dos factos narrados, domina os estados de espírito, as dúvidas, hesitações, e intervém nas decisões certas ou erradas do Personagem Principal!!!

 

Intervenção C.A.A.C. – a estranhíssima trindade do

Camilo Mortágua o

Comité de

Auto

Análise

Comportamental

 

“Os PERSONAGENS meus ESTRUTURANTES COGNOSCITIVOS”… “OS SACERDOTES COGNITIVOS”…

 

---

Esta TRINDADE, por vezes, são mais:

 

Vai afinal marcar (as sequências encadeadas…) a evolução progressiva destas andanças… no espaço… viagens e trabalhos… no tempo… à medida que cresce física e psicologicamente… até à consciência revolucionária após a falhada viagem de lambreta… !!!!

 

Lista: CamilinhoCome-e-calaBatataZé Ninguém - Pé-ligeiro – Zé-entre-Zés – Manuel – José – Carlos… e, finalmente?!, Camilo Mortágua!!!

- o empresário da “Bomba da Merda”, como oficial de canalizações… que sonhava ser “oficial da Marinha”… 114 o Batata de Salreu… «Nesta “unidade artesanal de panificação”, como era designada no cerro pelos metidos a intelectuais quando queriam armar ao polimento, o nosso padeiro faz tudo! …

115 «“el muchacho de los dulces”, como ficou a ser conhecido no cerro (CATIA),

 

124 Uma reunião significativa da ESTRANHÍSSIMA TRINDADE!!!

«Ao Zé Ninguém opunham-se, sem grande convicção, e até com ares de alguma cumplicidade: o Come e Cala de Santiago de Riba Ul e, com muito mais firmeza, o Batata de Salreu em memória do austero Salça.

Cada um com as suas razões, alimentavam o grande debate sobre os caminhos a percorrer, e eu, preso à dinâmica das argumentações, balançava alternadamente entre uns e outros, sem me decidir sobre o rumo a tomar. O mais fácil era não decidir, ouvir o herói da Flandres, ir por onde a vida me levasse… se possível, algum dia… de retorno a Lisboa, feito “Zé Alguém”! …

125 «Salvo o Come e Cala, tanto o Batata como o Zé Ninguém batiam-me na consciência a cada momento de diálogo do meu “Colectivo de Auto-Análise Comportamental”.» …

 

… «“Parasita das públicas meninas”, “chulo platónico”, “romântico das putas”, eram alguns desses nomes! E eu, após algum tempo de frequência normal, tinha adquirido um estatuto de privilegiado junto de algumas das meninas de diferentes casas que disputavam as minhas visitas, dispensando-me das retribuições financeiras correspondentes.

Não pagava, nem cobrava, daí a tal afirmação pouco adequada de “chulo platónico”.

 

1. NARRADOR/ES:

- Maria Peixeira que vendia pão e foi a 1ª nuvem… 1ª Narradora… de nome oficial Maria Soares da Silva… 88 anos bem contados!... (teria andado com o Camilo à cabeça, com 12, 13 anso…p. 54

- O Tó Xarela… Outro narrador da fase da figura marcante do Tio António Salça – o procurador – procurado por causas… que o “menino” passou a assessorar…

? Zé CARACÓIS – o companheiro de Lisboa de fora do PÁTIO! É mais interlocutor ou pretexto para o relato de cenas mais delicadas…

85 «O Zé Caracóis, assim chamado por ter o cabelo ruivo e encaracolado, foi o meu grande companheiro desses anos de Lisboa.» Não morava no Pátio. Encarregado pelo pai de o levar à ginástica… para passar a ser Homem!!!»

 

2. NARRATÁRIO/S? – (Não leitor ou ouvinte) mas os destinatários, que o Narrador / Autor tem em mente no acto da narração… que existe sempre, mas muitas vezes não é expresso…

Logo a abrir o Capítulo primeiro - As Origens:

VER:
p.53 "1. E assim vos conto os primeiros anos do "Come e Cala""
- Quem o diz? (Maria Peixeira?)
- Quem são estes VOS? E o EU do "vos conto"?
Comparar com palavras da apresentação antes da "estória"na "Antevisão prospectiva
das "andanças"":
p. 21 "Aspiramos a contar-vos estas acontecidas "andanças" por palavras simples de imediatos e claros significados, palavras que possam ser absorvíveis como gotas de fresca e cristalina água brotando de rara fonte, em terrenos e tempos de secura!… Se o conseguirmos, será essa mais uma das razões do nosso contentamento." e o NÓS? Do "aspiramos a"?

VER ENTRETANTO possíveis NARRATÁRIOS interpelados em geral: EX. a propósito dos esquecimentos e elipses… e a possível subjectividade na tentativa da objectividade narrativa… citando a teoria da cebola de Günter Grass…

105 «Por isso preferimos ser fiéis ao que recordamos, como recordamos, sem pretensões a sermos o único “pintor destes quadros”, tornando-os, como agora se diz, interactivos à memória de quem os puder e quiser completar.

 

3. Personagens

- Personagem Principal – CM + composto pela CAAC +

 

- secundários/ (principais) – com forte presença:

 

- o primo “pouco paciente”… “Come e Cala, Camilinho”… que enfiava a comida pela boca abaixo…

- evocação do avô Aureliano Tavares que morreu na prisão…

- o Dr Figueiredo – que o fez sair a ferros na madrugada fria de 29.01.1934…

- uns “senhores de chapéu e gabardina”…

- a avó Joaquina – a “raposinha” que mandava na Casa dos Mortágua…

- Tio António Salça (irmão da avó Joaquina, onde foi morar com a irmã Ana, quando os pais decidiram ir para Lisboa, tentar governar a vida…) – o procurador… sem filhos que foi o “pai”… ali “Morreu o come e Cala e nasceu o Batata… 6/7 anos… a escola primária…

 

65 «A vida em casa dos Salça, naquela casa de esquina onde a rua do ribeiro vira para a ladeira, embora muito regrada e de alguma austeridade, tinha a vantagem de espargir sobre quem lá morava algum do prestígio e autoridade de que gozava o patriarca da casa, o Procurador, como às vezes lhe chamavam aquelas pessoas que sem saber ler nem escrever vinham a casa do António Salça para que este as aconselhasse, lhes tratasse dos papéis e lhes pagasse as décimas. Logo que aprendeu a ler e escrever, aí por volta dos seus oito anitos, já o (65) Batata dava uma mãozinha ao tio (era por tio que o tratava) nestas questões das escritas e leituras.

 

68 - «O velho Salça, sem o ostentar, tinha o seu orgulho no menino Batata. Sem filhos, o Batata era o seu menino. Discretamente procurava incentivar o rapaz a aprender, a estudar para ser alguém, de preferência Doutor ou Padre.»

 

59 - o Padre Gomes – cabeça de cimento… 59

59 - A ti Maria do Jampais… e o Zé Jampais… 59

62- As “Meninas da Ladeira” as mestras… p. 62 «“as meninas” da Ladeira, as mestras e donas da sua escola primária.»

 

- O “Zé Máximo” o barbeiro “amigo das cegonhas”… efabulador…e o seu guarda-chuva de 90 varetas…

64 «O ti Zé Máximo, exímio contador de histórias para entreter os clientes…

 

72 – As Mondadeirasespanto relato de Sinestesia (5 sentidos) e Cinestesia (movimento… com cor, som, a aproximação gradativa do regresso do trabalho…

- a “Tia Micas Leiteira” é a mãe… ver na Biblioteca de sabão (82)!!! 85 «…minha mãe distribuía leite, era leiteira, a ti Micas leiteira como a chamavam.»

89 «Minha mãe, mais sensível aos meus problemas, prestava alguma atenção às minhas angústias, dando-me a oportunidade de pouco a pouco tentar convencer meu pai a deixar-me estudar. – ESCOLA Afonso Domingues… queria ser marinheiro…»

 

- o PAI

82 «Padeiro de profissão, escolarização e instrução bloqueadas ao nível do ensino primário, sem formação cívica geradora de apetências culturais, vivia com grande empenho para tentar alimentar a família – desde que o estômago estivesse satisfeito, o resto era secundário.» - ver na Biblioteca de sabão!!! 84 – os negócios do pai… 88 «…como meu pai dizia: “eu também não estudei e governo a vida!”»

 

O Zé Caracóis” – companheiro dos anos de Lx… de fora do “Prédio da nossa vergonha”… os bordéis… “as idas à ginástica”… o “aperto”…”os esfreganços”…

85 «O Zé Caracóis, assim chamado por ter o cabelo ruivo e encaracolado, foi o meu grande companheiro desses anos de Lisboa. Não morava no Pátio.»

 

- o “Nove Dedos” agente da Intendência para fiscalizar o pão…

85 «O grande perseguidor da época era um agente da Intendência de quem fugíamos como rato do gato, chamado Nove Dedos.»

- o “Senhor Almirante” – dava explicações de Geografia e Matemática…

85/86 «Durante algum tempo, ia de tarde às explicações com o “Senhor Almirante” – era assim que lhe chamávamos, um oficial da Marinha reformado que morava na Rua D. Estefânia e que dava explicações de geografia e matemática. Confesso que não consigo lembrar-me do objectivo destas explicações, a menos que fossem preparatórias para a minha admissão na Escola Industrial Afonso Domingues.» … que veio a falhar… meningite…

 

- a “Madame Gertrudes Phfeifer… os “Rolas” e os “Violas”

87 « Por algum tempo, talvez um a dois anos, fui empregado de escritório numa empresa de agenciamento de cargas chamada “Douro Expresso”. Era dona da empresa uma judia alemã, penso que refugiada, chamada Madame Gertrudes Phfeifer, vivendo com um português que lhe deve ter assegurado a permanência legal no país.»

 

- O LIBERTO

87 «Apreciava sobretudo acompanhar um determinado camião cujo condutor, o Liberto, assim se chamava, era um exímio caçador.»

 

Dr. Francisco Martins a doença (90) meningite…

90 «o Dr. Francisco Martins, assim se chamava o “salvador”, entendeu que eu eras um caso de estudo…»

 

- o “Mestre Constantino” e a biblioteca de mais de 300 livros… e o “Jardim Constantino”? – o “Jardim dos Paneleiros”… que foi a sala de leitura…

93 «Mestre Constantino, homem dos seus 50 à época, arranjou maneira de me ensinar muitas outras coisas. Dele já vos contarei outras belas recordações.» ver 94…

 

- o conterrâneo esquecido?!… o tio Zé Maria

O Januário… e o primeiro patrão…

104 Capítulo quarto – 34 «O Januário, um dos companheiros de viagem, o mais animado e folgazão de todos, baixinho e ruivo, braços compridos quase até aos tornozelos, dando saltinhos que mais o faziam parecer macaco, dedo indicador em riste, começou logo a exclamar: “Eu bem dizia… eu conheço-o, tás fodido, não veio ninguém, nem tio nem Zé nem Maria, …»

 

O CONHECIDO de nome esquecido

104 «Entre os portugueses companheiros de viagem, cinco ou seis eram conterrâneos de Salreu! Logo um se adiantou, solícito e risonho: “Não te preocupes, vais comigo para Caracas e dou-te trabalho até que o teu tio apareça. Bem sabes que ficas entre amigos. Conheço a tua família lá da terra e cá longe temos de ser uns para os outros…” Era verdade, de nome eu conhecia o sujeito… afinal a distância parecia influenciar o comportamento das pessoas, para melhor!» …

104… «O bom “conterrâneo” (como então resolvi chamar-lhe) …

105 «Finalmente verificou-se que o Januário tinha razão, como ele dizia: “Nem tio, nem Zé, nem Maria – ninguém!” Estava entregue ao “bom conterrâneo”.

106 «O “bom conterrâneo”, testemunha compreensiva do meu absorvente encantamento, daquela minha “bebedeira” de desconhecido, manteve-se respeitoso do meu silêncio durante toda a viagem de quase três horas, de La Guaira até ao hotel Benfica.»

110 – o primeiro patrão (nome tb esquecido) dos 4 dias e depois para CATIA…

 

Rodrigo e da Clarinda, donos do hotel… em Caracas…

112 - Agarrei na mala, deitei um último olhar à camarata, despedi-me do Rodrigo e da Clarinda, donos do hotel, e lá fomos nós para Catia.» …

 

O TIO ZÉ MARIA… a ESPOSA e a “dengosa mulata”…

114 o Tio Zé Maria vai aparecendo. Não estava à espera por estar «…preso nos braços de uma “dengosa cabocla mulata” com quem ele se ressarcia…

«Sem tio nem dinheiro... valeram-me na situação os companheiros de viagem, alguns voltando pela segunda ou terceira vez, já com conhecimentos e até com negócios estabelecidos. A mais insistente das ajudas vem de alguém originário da mesma terra que, evocando grande amizade com meu pai, em nome dessa especial amizade, e depois de saber que o Batata tinha aprendido as artes dum bom padeiro durante a sua preparação para a aventura venezuelana, me convida para a “grande oportunidade de ser o encarregado e único empregado” da sua padaria no Cerro de Catia!» …

 

ESPOSA do tio Zé Maria…

…das austeras, parcas e agrestes carícias da mulher que tinha ficado lá na terra; mulher de “rija têmpera” e punho firme no arado, boa parideira e melhor mãe que esposa.»

 

119 – As MENINAS do Bairro de CATIA… que faziam das “meias portas” (onde havia um BURACO) saia… onde era preciso estar à altura, do BURACO!!!

 

AS PÚBLICAS MENINAS… protector…

 

OS AMIGOS POLÍCIAS!!!

 

- os três de lambreta… e os “encontros” das possíveis “mulheres”… Amor? e Diabo!!!?

130 «A viagem seria feita por mim, mais um jovem venezuelano de dezanove anos, Felipe Muñoz Mendoza de seu nome, e um mecânico italiano a trabalhar para o representante nas oficinas da marca em Caracas, chamado Marcelo Tomaricchio» …

 

132 A família que nos acolhia… Nos ANDES… em EL PASTO : «A família que nos acolhia era composta por um casal dos seus 40 anos e duas filhas entre os 14 e os 16.

Eu e o Felipe (assim se chamava o companheiro venezuelano) entretínhamo-nos e éramos entretidos pelas filhas que, como manda a tradição e os costumes locais, apesar da tenra idade, já desfrutavam de actividade hormonal intensa.

Elas ensinavam-nos a montar “em pelo” e a cair dos cavalos; nós, ensinávamos as jovens amazonas a fazer acrobacias com as lambretas, os nossos cavalos.»…

Com as cenas de SEDUÇÃO… no banho das cochoeiras!!! … nos lençóis… e a intervenção lúcida do CAAC!!!

 

Os Otavalos

138 «Mais ou menos uns oito a dez dias depois de sair de Lima, consegui chegar a um dos tais sítios a que queria voltar… a cidade equatoriana de Ibarra, a tal cidade branca junto da fronteira com a Colômbia, para mim capital dos Otavalos.

Os Otavalos tinham-me deixado uma grande impressão positiva e ao mesmo tempo um enorme interesse em aprofundar a compreensão dos modos de vida e de organização social deste povo de exímios artesãos e artistas. Afáveis em extremo, de todos e em todas as circunstâncias recebendo sempre um sorriso acompanhado de um muito atencioso – “Buenos dias senhorito” – despertaram a minha atenção por só ver mulheres a cuidar dos campos.» …

 

142 A MÁRCIA de el Bordo… as jovens conquistadoras… Fugindo ao Amor

 

144 A MÓNICA – da fotografia e autógrafo na Colômbia… e os acompanhantes… ESCAPANDO AO DIABO… IBAGUÉ … “Hacienda de las Fuentes” …

Em analepse… «Entre os muitos pedidos de autógrafos, um reteve a minha atenção. Uma jovem morena, de rosto oval, grandes olhos negros e cabelos castanhos até aos ombros, vestida com um poncho azul, blusa branca com flores azuis, saia escura comprida com duas linhas verticais amarelas de cada lado, veio até mim. Sorrindo e com ar desafiador estendeu-me um postal com uma fotografia dela e foi dizendo: “este és para ti, aí tienes mi direccion, aguardo que vengas firmar el tuyo”.»…

 

149 - O Senhor GOMES … o empresário que afiançou as emissões nas rádios locais… mesmo depois de perder o emprego

 

 

PERSONAGENS da LUTA na VENEZUELA e República Dominicana…GALERIA…

 

PERSONAGENS dos contactos com CUBA… GALERIA….

- Fidel em Caracas e antes os encontros com…

 

PERSONAGENS envolvidas na preparação e realização do assalto, desavenças e diferentes critérios… o GRUPO que se preparou e participou… GALERIA…

 

- a Junta Patriótica Portuguesa…

- Mário Mendes da Fonseca…

- Major Calafate…

- Henrique Galvão – Humberto Delgado…

 

 

4. O TEMPO – encadeado (encaixe – alternado)

 

DA HISTÓRIA (cronológico) –

DO DISCURSO (encadeado, ou com analepses e prolepses… elipses… isocronias (nos diálogos e cenas)… com resumos ou sínteses… - PSICOLÓGICO.

 

Tempo sequencial cronológico – encadeado - com por vezes uma ou outra ANALEPSE… as “elipses” (saltos no tempo…) assumidas pelo narrador…

 

A seguir à morte do Salça – final do NARRADOR Tó Xarela:

79 «Para trás ficaram todas as coisas que já vos contaram e mais algumas que por razões diversas só eu posso recordar.

No último ano da escola primária, durante quase dois meses fui transportado para a escola pelo criado Joaquim, em carrinho de mão, o mesmo que se usava para levar o estrume para o aido.» …

 

TEMPO e INFORMANTES precisos…

97 PARTIDA em Lisboa: «Por volta das três da tarde desse 7 de Maio de 1951» …

98 «A viagem que estava anunciada para demorar catorze dias, prolongou-se por vinte e um, terminando a 29 de Maio!»

101 Chegada à Venezuela: « La Guaira.. .! “Llegamos!”

102 «Naquela manhã de terça-feira do dia 29 de Maio de 1951, com dezassete anos e quatro meses de idade, ébrio de ilusões e curiosidade, desembarquei em La Guaira assessorado pelo meu “Comité de Auto-Análise Comportamental – C.A.A.C.”, e confortado pelos 27$50 (na época, aproximadamente um dólar) que sobravam dumas “suecadas”

em que tinha perdido uns trocos, pronto para o que desse e viesse e que mais adiante se contará.) …

 

AS ELIPSES (saltos no tempo) assumidos e explicados… com as teorias da cebola do G. GRASS, a propósito do “bom conterrâneo» que o salvou de ser recambiado e esqueceu o nome…

105 «Sem razão aparente, surgem-me nitidamente ínfimos detalhes vividos em lapsos instantâneos de tempo, coisas sem importância nenhuma como a cor de um botão ou a tonalidade de um entardecer, e não encontro o registo de longos períodos com importantes e decisivos momentos que sei terem existido, mas a memória perdeu! … por isso, a narrativa deste tempo não é o relato quotidiano das aventuras de umas quantas vidas, ou de uma vida só; é a tentativa de reposição daquilo que a caprichosa memória do autor reteve.» …

 

ANALEPSE que vai explicar a riqueza da segunda parte da viagem falahada…

137 «Durante a preparação da viagem tinha aproveitado para me informar o mais possível sobre os países que iríamos atravessar. Embora nessa altura o assunto não fizesse parte das minhas preocupações, sabia que na maioria dos países da América do Sul dessa época, existiam regimes ditatoriais governados por militares: Pérez Gimenez na Venezuela; Rojas Pinilha na Colômbia; Velasco Ibarra no Equador; o general Odria no Peru; o general Aramburu na Argentina e ainda outro general no Chile, o general Ibañez, embora este à frente de um governo de cariz democrático. No Brasil, o suicídio de Getúlio Vargas tinha guindado ao poder Café Filho. (137) Tinha-me interessado pela história e pelos locais de maior nomeada e relevância cultural, em particular por tudo que dissesse respeito aos Incas e sua civilização.» …

 

 

5. O/s ESPAÇO/s – FÍSICO – SOCIAL – PSICOLÓGICO…

Ver as raízes e o visualismo… para os 5 sentidos… SINESTESIA com CINESTESIA…

EXEMPLO

80 «A grande desilusão, ou mais que isso, foi a de ver a “casa” onde íamos morar. No pátio do nº 26 da rua Luís Monteiro, ao Alto Pina, encostado à quinta da Curraleira, com vista para as traseiras do cemitério do Alto S. João, onde vi pela primeira vez as iluminações azuis dos fogos-fátuos, o “passeio nocturno dos candeeiros das almas”, como se dizia lá no pátio.» VER TODA a DESCRIÇÃO…

 

88 A COVA FUNDA «… (pequenos compartimentos sem luz nem janelas onde os clientes jogavam às cartas e queimavam provisórios e definitivos sem parar, em ambiente de partilha colectiva da espessa fumaça), do outro a mercearia, meu pai entendeu que o meu futuro era aturar bêbados, servir copos de três e uns cálices de aguardente e ilustrar-me com as conversas de alto nível cultural da clientela copofónica.»

 

129 O ITINERÁRIO DA VIAGEM DE 20.000 KM…

«A fábrica de Itália autoriza o representante local a apoiar a iniciativa e começam as negociações para definir condições e itinerários:

Caracas, Maracay, Valência, Barquisimeto, Guanare, Mérida e S. Cristobal, na Venezuela; Cucuta, Bucaramanga, Bogotá, Arménia, Tulua, Cali, Popayan, Pasto, na Colômbia; Ibarra, Quito, Guayquil, Cajamarca, Arequipa, no Equador; Arica, Sta. Maria de Iquique, Santiago, Cristo de los Andes, no Chile; e daí, atravessando a cordilheira, até Bariloche, Buenos Aires, Montevideo, Rio Grande do Sul, S. Paulo e Rio de Janeiro.» …

 

134 «Do Vale del Cauca até à fronteira equatoriana, retomam-se alturas andinas. Em poucas horas tão depressa estamos abaixo do nível do mar como a dois ou três mil metros de altitude. A estrada, qual monstruosa serpente, vai-se colando às montanhas, desafiando os abismos sobre os quais se mantém em equilíbrio

 


 

6. MODELO ACTANCIAL:

 

 

 

 


 

7. Estrutura SEQUENCIAL:

 

SEQUÊNCIAS de rotura / ruptura / que determinam a avanço da história… :

 


 

 

 

 

 

53 «1. E assim vos conto os primeiros anos do “Come e Cala”

 

- com 3 anos a mudança para a casa dos Mortágua e a Figura “paternal / patriarcal de António Salça…

55 « Assim foi que um dia, se a memória não me falha lá por volta dos seus três anos, a “sagrada família”, menino e pais, com todos os seus haveres, seguiu estrada fora, numa carroça puxada por dois cavalos, à maneira do Oeste, pela velha Estrada Nacional 1 (à época chamada de estrada real), a caminho da casa dos avós paternos, os Mortáguas, situada no Ribeiro da Ladeira-Salreu-Estarreja.» …

 

- A noite do ciclone de 1941… “foi aí que saiu mais Homem…

p. 62 «Do sótão, após mais de duas horas de luta, desceram os três, sem chapéu, mas o Batata muito mais “homem”!»

“Inverno revelador da coragem necessária para lutar pela vida…”

 

- A Morte do Salça

77 «16. A morte do Salça

«Não o vi chorar, mas acho que este seu primeiro encontro com a morte, matou nele o menino… cá p’ra mim morreu nesse dia o Batata.» relato de Tó Xarela!

 

- a ida para Lisboa – a desilusão… (ver 81 – o Pátio… o Porto Funileiro… a biblioteca de sabão!!!)

 

79 Capítulo segundo 17 «Cá vamos nós! Mas é preciso ter azar. “Nós” sou eu e meus pais, vindos para o funeral do tio Salça. De mim falarei mais tarde, por agora vou contar-vos esta minha primeira viagem de comboio num dia do Verão de 1946 à tão sonhada Capital.»

80 « Não guardo nenhuma recordação especial dessa chegada à Capital! A grande desilusão, ou mais que isso, foi a de ver a “casa” onde íamos morar. No pátio do nº 26 da rua Luís Monteiro, ao Alto Pina, encostado à quinta da Curraleira, com vista para as traseiras do cemitério do Alto S. João, onde vi pela primeira vez as iluminações azuis dos fogos-fátuos, o “passeio nocturno dos candeeiros das almas”, como se dizia lá no pátio.

 

- A COVA FUNDA - o curso violento do pátio de pormiscuidades e da tasca da léxico copofónico

 

91 «Sem poder estudar, sem nada de concreto a que pudesse deitar mão, os dias voltavam a ser sombrios, vegetava-se, era preciso encontrar maneira de contornar os obstáculos do destino. Com dezasseis anos feitos, acabava a década de 40. Lá fora, nessa Lisboa e nesse país a mergulhar aceleradamente na intolerância e na repressão de tudo o que fosse novo e criativo, não havia espaço nem oportunidades para sair do pátio, para saltar a barreira social.» e reflexões seguintes… «Para mim, face a este colectivo baixar de braços (as informações da existência de combatentes não chegavam ao Pátio), …»

… «partir para onde?»… na Venezuela, um tio padeiro… as padarias eram dos portugueses… tenho de aprender padeiro…» …«A fábrica da Sociedade de Padarias Castanheira de Moura… «No Martim Moniz aprendi a padeiro e não só. Mestre Constantino, homem dos seus 50 à época, arranjou maneira de me ensinar muitas outras coisas. Dele já vos contarei outras belas recordações.»

 

- a 1ª viagem transatlântica… (capítulo terceiro - o mais curto!!!?):

97 1ª Viagem transatlântica: «Por volta das três da tarde desse 7 de Maio de 1951, … no cais de Alcântara» a despedida!!! E o Zé Ninguém

 

as leitarias ambulantes” - vacas a domicílio… em Tenerife:

99 «De manhã, colei-me cheio de espanto e curiosidade ao sistema local de distribuição de leite.»

- o susto da chegada… e os compatriotas… o Tio Zé Maria…

105 «Finalmente verificou-se que o Januário tinha razão, como ele dizia: “Nem tio, nem Zé, nem Maria – ninguém!” Estava entregue ao “bom conterrâneo”. …

A alternativa era ser entregue aos serviços e emigração e voltar!!!

 

110 «Com a constatação da facilidade em compreender a língua, regressei ao hotel Benfica a esperar pelo conterrâneo (birras da memória, perdi o rasto ao nome deste personagem) que me iria levar para o meu primeiro dia de trabalho como emigrante.» …

«― Vamos para Roca Tarpeya…» …

«A actividade deu para entreter os dias que ali passei, não muitos, apenas quatro, e ganhar os meus primeiros bolívares: sessenta!» …

110 / 111 «Que na segunda-feira seguinte iria levar-me para a sua padaria situada no Cerro de Catia (ver indício e prolepse…) onde eu poderia aproveitar melhor as minhas competências como padeiro, que o meu tio não tinha dado sinais de vida, que se ele demorasse em aparecer, um dia iríamos procurá-lo a La Victória , uma cidadezinha a uns oitenta quilómetros de Caracas, a caminho de Maracay.» …  

 

114 «Foi aí, no coração deste imenso formigueiro humano pleno de vidas frenéticas de esperança e desilusão, que me foi dado exercer, durante o mês de Julho do ano de 1951, as competências de jovem padeiro, que tinha por despertador a “alma da massa”! Reunidos pela primeira vez desde a chegada, o Come e Cala, o Batata e o Zé Ninguém, notei que só o Batata mantinha intacta a fé de voltarmos ricos, de ultrapassar as dificuldades, o espírito do bom emigrante; os outros, pressenti-os meios frustrados com a situação. Era tal a convicção do Batata que decidiram que, naquele “cerro”, eu próprio me deveria chamar Batata – o Batata de Salreu.» …

 

116 «Sem explicações nem desculpas, o tio Zé Maria disse-me:

Agora ficas aqui a tomar conta da padaria. Tens que ter muito cuidado para não te deixares enganar nem roubar. Durante a noite tens que controlar a hora de chegada dos padeiros e fornecer tudo o que é necessário para a laboração.» … E MAIS instruções…

Depois o tio vende o negócio e acaba…

 

118 «Passados alguns dias, recebi a visita do tio que me vinha buscar para ir tomar conta duma lanchonete-frutaria que tinha comprado na Avenida principal de Catia. Era um pequeno negócio que vendia um leque bastante variado de produtos: gelados, batidos de fruta, fruta fresca, refrescos, alguns legumes, cigarros, etc. A clientela era pouca e, por mais que me esforçasse, as vendas não aumentavam significativamente.» … mais 6 meses…

 

120 No final da descoberta degradante do Bairro das MENINAS de CATIA:

«Para o jovem que eu era, ainda crente na bondade deste mundo, foi um forte empurrão para a urgência de lutar por outro mundo diferente… foi a grande noite do reconhecimento da relativa “riqueza” da minha própria condição na sociedade.

Um tal choque adiou a solução dos meus próprios problemas, fazendo desaparecer todas as motivações que ali me tinham levado, reforçando a convicção que então se me impunha, de que não é pela sua sexualidade que a humanidade se pode distinguir dos outros animais.

 

- por conta própria… motos… Harley 3??? roubadas… AJS e lambreta…

 

121 «Numa sexta-feira do início de Fevereiro de 1953, sensivelmente ano e meio depois de ter chegado à Venezuela, com dezanove anos feitos em Janeiro desse ano, fiquei inteiramente por minha conta. O tio anunciou-me que tinha vendido a frutaria e que estava disposto a ajudar-me a comprar um “reparto” de pão para eu poder seguir a minha vida. …

Passado pouco tempo, andava eu a distribuir (vender) pão por toda a Caracas e arredores, montado numa moto Harley Davidson de 1200 cc, com uma caixa atrelada.

(com analepse para comparar com os tempos de Lisboa… e a distribuição do pão pelas ruas do intendente…)

 

123 / 124 «dezoito anos, uma enorme ambição de ser alguém, autonomia plena, algum dinheiro no bolso a tilintar» …

… «ainda sou muito jovem… tenho tempo… aproveitemos o tempo para (124) conhecer coisas novas, para dar sentido e reconhecimento à vida, fazendo coisas que nem todos ousam fazer.” (Também INDÍCIO? pré-anúncio da aventura de lambreta…)

 

126 «Dados os grandes potenciais físicos próprios da idade, e os inebriantes apelos dos prazeres novos, as energias foram sendo dirigidas preferencialmente para a actividade da mútua satisfação minha e das meninas, em prejuízo das responsabilidades e cuidados a ter com o negócio.

Como o corpo, apesar de jovem, não era de ferro… sem descanso, a vida começou a mostrar as suas leis.» …

 

126 « Para tentar recuperar a situação económica, troquei o trabalho dos bordéis, pelo trabalho como padeiro.

Passei a trabalhar na padaria da meia-noite às cinco da manhã, a fabricar o pão. A essa hora carregava e ia para o meu reparto até às duas ou três da tarde. Depois de almoço, entre as cinco e as dez ou onze horas, dormia. (127) Seguindo um princípio muito caro ao Batata (ensinamento do tio Salça: “temos que estar sempre dispostos a pagar o preço dos erros que cometemos”), este novo ritmo de trabalho deu os seus frutos e, em poucos meses, o barco reequilibrou!»

 

128 depois de mais uma ou duas motos (uma AJS)… mais duas ou três padarias… dos amigos polícias… «Três anos após a chegada… riqueza nem vê-la, e projectos aliciantes e fiáveis para o futuro também não… aqui começa a impor-se-me a ideia de assumir ser “um emigrante falhado”!»

 

129 PADEIRO SEM “REPASTO”… DE NOVO OPERÁRIO…

«Agora ando de lambreta… passeio por Caracas nas horas que posso…os conterrâneos já começam a abanar a cabeça cada vez que me vêem passar, como quem diz: “aquele está perdido, rapazes novos não têm juízo, perdem-se por cá, é o que é”. Lá para a sua maneira de pensar e ver as coisas, têm razão. Eu é que não vou por aí!

 

- De Lambreta pela América do Sul… fugindo ao amor… escapando ao diabo…

Sou muito novo e o mundo é grande. Assim pensando… outro projecto nasce.

 

129 «Propor ao representante as motorizadas lambreta, na Venezuela, uma viagem de promoção da motorizada, de Caracas ao Rio de Janeiro, através da América do Sul.»

 

130 «De Caracas a Barquicimeto, a viagem decorreu normalmente…»

«A caminho do pico Bolívar, com os seus 4980 metros de altura, e de Mérida, capital dos Andes Venezuelanos, por uma pista em muito mau estado, por vezes inexistente, chamada de “transandina”, as dificuldades e a verdadeira dimensão do arrojo da aventura começaram a evidenciar-se.

 

A viagem de Lambreta…??? Os OTAVALOS…

130 «Pouco tempo antes da data escolhida para a partida, salvo erro 10 de Outubro, os companheiros desistiram!

Durante algumas semanas o projecto esteve comprometido, mas, à última da hora encontrou-se uma solução híbrida, que viria a (130) revelar-se fatal, comprometendo irremediavelmente a possibilidade de alcançar o objectivo traçado.

«A viagem seria feita por mim, mais um jovem venezuelano de dezanove anos, Felipe Muñoz Mendoza de seu nome, e um mecânico italiano a trabalhar para o representante nas oficinas da marca em Caracas, chamado Marcelo Tomaricchio» …

 

130 «De Caracas a Barquicimeto, a viagem decorreu normalmente…»

«A caminho do pico Bolívar, com os seus 4980 metros de altura, e de Mérida, capital dos Andes Venezuelanos, por uma pista em muito mau estado, por vezes inexistente, chamada de “transandina”, as dificuldades e a verdadeira dimensão do arrojo da aventura começaram a evidenciar-se.

 

132 «Entre a cidade de Popayan e Pasto, numa pequena povoação chamada El Bordo, numa região denominada Valle del Cauca, partiu-se a forquilha de direcção da moto do italiano.» … as aventuras platónicas com as “moças”. Mazonas!!! …

 

133 «Quando finalmente a nova peça chegou, após longas e sentidas despedidas, fizemo-nos de novo à estrada.» …

 

134 «Assim, tínhamos concluído que, de uma forma ou de outra, o êxito da viagem estava comprometido… e era necessário pensar numa solução. Ao rolar pelas altas paragens e os desfiladeiros profundos e desertos dos páramos andinos, vieram-nos à mente as mesmas ideias, por subentendidos recíprocos, mas apenas explicitadas entre nós os dois, poucos quilómetros antes da fronteira.

“Havia que dar um empurrão ao obstáculo”, fazer com que o Marcelo voasse através das nuvens cavalgando a sua lambreta alada.

 

135 «…e chegámos os três sãos e salvos à Capital dos Índios Otavalos, a muito bonita e branca cidade equatoriana de Ibarra. Tão tacitamente como em relação à decisão inicial, fomos aceitando a ideia cada vez mais evidente de que o objectivo não seria atingido, porque tal fim não podia justificar os meios extremos.

A viagem continuou, até que em princípios de Dezembro o italiano nos anunciou que o dinheiro estava a acabar e que tinha de pedir reforço a Caracas. Como sempre duvidámos que, chegado esse momento, a nossa viagem pudesse continuar, com alguma expectativa, mas sem grandes esperanças, começámos a analisar os cenários da pós-interrupção.

Estávamos aproximando-nos da capital do Peru. Tínhamos percorrido sensivelmente metade da distância, a metade mais difícil.» …

 

FIM DA VIAGEM DE LAMBRETA…

«Ao chegar a Lima, após os festejos da grande recepção oficial que nos foi oferecida com grande cobertura mediática, tudo ficou resolvido…» …

 

AGORA À BOLEIA… PARA “VER”…

137… «Desta vez com o acordo unânime dos membros do meu C.A.A.C. decidi que não havia pressa em retornar a Caracas e que a oportunidade de ir ver, pelo menos uma boa parte daquilo que os livros me tinham descrito, não podia ser perdida.» …

«Quis começar por subir aos 3400 metros de Cuzco… Templo do sol… inacessível… só quem fosse reconhecido e revelado como descendente de Manco Kapac…»

 

«…de seguida alcançar o mítico Machu Pichu (ou Maxu Pixu)… Maxu Pixu é um lugar por onde não se pode simplesmente passar… assim o senti!» …

138 «Mais ou menos uns oito a dez dias depois de sair de Lima, consegui chegar a um dos tais sítios a que queria voltar… a cidade equatoriana de Ibarra, a tal cidade branca junto da fronteira com a Colômbia, para mim capital dos Otavalos.

Os Otavalos tinham-me deixado uma grande impressão positiva e ao mesmo tempo um enorme interesse em aprofundar a compreensão dos modos de vida e de organização social deste povo de exímios artesãos e artistas. Afáveis em extremo, de todos e em todas as circunstâncias recebendo sempre um sorriso acompanhado de um muito atencioso – “Buenos dias senhorito” – despertaram a minha atenção por só ver mulheres a cuidar dos campos.» …

139… a passagem para a Colômbia… com os porcos capazes de andar 4 horas…

Na COLÔMBIA – RETRATO da época e…

140 - «Que a aventura, por muito que pareça irresponsável, faz parte do amor à Liberdade!” (por vezes o Zé Ninguém revelava-se filósofo).» …

Fugindo ao AMOR… a Márcia!!!

142 «Ao chegar a El Bordo, ao albergue onde tínhamos estacionado…

…Tanto a Márcia como os pais pareceram-me muito satisfeitos e contentes por me verem de volta… Sob pressão, apressei a partida. … na tarde desse dia cheguei a Cali a bordo de um camião carregado de novilhos … ver O CONDUTOR!!! Que contou a vida…

143 Sem diminuição das minhas escassas reservas financeiras, fiquei super bem instalado nessa noite de Cali (no HOTEL de LUXO… à borla…

ESCAPANDO ao DIABO… a Márcia!!!

(ANALEPSE) – recorda o encontro de um mês antes…)

A MÓNICA DA FOTOGRAFIA… os acompanhantes…

 

146 – o ROJAS afinal REINALDO «(Rojas das Plumas. Rojas, pelas bochechas bem coradas pelos frios ventos das madrugadas a caminho do mercado e os litritos de rum com que tapava as veias do medo; das plumas, por negociar com “plumas” (penas).e as galinhas… a boleia para IBAGUÉ… e a galinha de oferta… para ganhar uma refeição na tenda…

. Quem sabe se ainda não me torno “fazendeiro”?!... mas logo depois do galináceoa…

. Era preciso começar a procurar a “Hacienda de las Fuentes”. … depois 2 taxista e a dona da tenda onde tinha almoçado…

Vaya-se señor! olvide esa niña del diablo! y vaya-se pronto antes que los hombres de D. Antonio lo encuentren.

 

148 «― Aqui tem… quatrocentos pesos (pelos 5 que faltam) …e vamos embora já. Adeus Mónica, adeus “Hacienda de las Fuentes”, adeus rico fazendeiro e filha única.»

149 «Vendi o passaporte, …

 

- forneiro de “lata d’água”…(uma forma original de acordar para o trabalho)… A VIRAGEM… depois da VIAGEM…

149 «Aproximava-se o Natal. Estávamos no final de 1954, quase três anos após a minha chegada à Venezuela. …

combinei com o Senhor Gomes (não me lembro do nome completo), proprietário da padaria El Faro, ali bem próxima da Praça da Candelária e da pensão, começar a trabalhar a cinco de Janeiro, véspera de Reis, como forneiro. …

151 « Dessa constatação resultou a minha decisão de comprar uma hora de tempo numa das mais importantes emissoras de Caracas, Rádio Rumbos …. um programa misto de música (com discos emprestados) e noticiário desportivo, chamado “Ecos de Portugal”. … o Sr Gomes responsável… mais anúncios dos bares… êxito observado…

152 O sucesso do radialista tinha que interferir com as responsabilidades do forneiro. … para acordar sem precisarem de subir ao terraço… a lata d’água de 20 litros… até que um dia, depois de meter o pão ficou a dormir em pé… a pão em carvão…

Vai tratar da tua vida. Não te preocupes que eu continuo a manter a fiança.

153 Olhando retrospectivamente para estas minhas andanças, tenho que chegar à conclusão que, sem o saber, ao iniciar a minha actividade de “comunicador social” estava traçando o rumo futuro da minha actividade política! Foi por aí que tudo começou a definir-se

Aos programas iniciais, foram-se sucedendo outros e, desde a segunda metade do ano 55, Ecos de Portugal transformou-se na única empresa de Comunicação Social da colónia portuguesa da…

A aventura da Rádio… 5 programas…

 

O comunicador social… o político… o empresário dos ECOS de PORTUGAL… o melhor jornal… programa de televisão quinzenal… o Silva Freitas… o jovem Filipe Dias… 154 o grande veículo dinamizador das iniciativas sociais e culturais dos portugueses da Venezuela. … O Daniel Morais sócio do Ecos… Sérgio Alves Moreira… livraria e Instituto Português de Cultura…

o Sérgio e o Daniel…

155 A empresa Ecos de Portugal foi a real plataforma de lançamento para a natureza das minhas andanças futuras. …

(Associativismo) Club Desportivo Português, que chegou pela primeira vez em 1958 a Campeão da Venezuela em futebol. … no ciclismo o valente Joaquim Amorim

156 As jovens portuguesas naturalmente começaram a assediar o jovem apresentador dos programas de rádio, nessa altura com 22 anos de idade. … dando por si já casado… e disposto a pagar o preço pela precipitação…

A mudança da ideia de imigração???

Completamente impreparado para tal situação e já totalmente decidido a ser solidário com as lutas de todos os privados de Liberdade, em primeiro lugar com os portugueses vítimas dessa privação, nem por instantes podia admitir que nada me desviasse desse rumo. … as desculpas à família e… filhos…

 

O ano de 1957 é decisivo para o regime então vigente na Venezuela. …

O Partido comunista Venezuelano na clandestinidade… o Mos. Árias Blanco… Gabriel Garcia Marques (então em Caracas)…

158 a constituição da Junta Patrótica… o plebiscito de 15 de Dezembro…

159 Os últimos dias desse ano, e os primeiros vinte do novo ano, foram, para mim e para muitos dos meus companheiros de trabalho e de conspiração, dias sem sono. ...a ligação entre as células de Agosto a Novembro… … de motorizada… a destreza… rogando aos santos que nenhuma porta se abrisse…as acções contra os portugueses… amigos do ditador…

 

162 Após infinitas negociações, pareceu-me ter-se chegado a um consenso: não haveria acções militares, não se recorreria à violência das armas, o povo daria a sua lição ao ditador e ao Mundo. Embora nunca se tivesse utilizado esse slogan, ali começou para mim a demonstração prática do significado das palavras que só muito mais tarde viria a escutar em contextos semelhantes: O POVO UNIDO… etc.

Desde Agosto desse ano que vinha a colaborar discretamente com os preparativos da organização de um levantamento popular contra a ditadura.

 

“a ditadura lá – cá onde estava – e lá (cá) em Portugal… “dias sem sono” 23 de Janeiro de 1958…

 

- Ecos de Portugal… Rádio… Revolução e Revoluções…

 

163 HOJE, 23 DE JANEIRO DE 1958, HONRAMOS BOLÍVAR E A NOSSA HISTÓRIA,

164 Segundo diziam as rádios, o país inteiro estava em festa! O grande novelista colombiano Gabriel García Márques, autor de Cem anos de solidão, então a viver em Caracas ao serviço da revista Momento, viu “as lutas de rua à sombra do enorme edifício do Governo na Plaza del Silencio, A fuga para a República Doninicana… Movimento 14 de Junho” e a 25 de Novembro de 1960 assassinar as irmãs Mirabal: Pátria, Maria Teresa e Minerva. Este assassinato e o advento da revolução cubana marcam o prenúncio do seu próprio assassínio a 30 de Maio 1 Texto publicado por Norman Gall. Origem: Argumento, nº 4, 1973.

Andanças para a Liberdade

 

165

de 1961, sendo voz corrente que a própria CIA, com a conivência de círculos ligados à Igreja Católica dominicana, teria estado envolvida.

Por sua vez, Pérez Gimenez cedo percebeu que aquele também não era um lugar seguro. Era preciso sair da América Central, onde o seu nome estimulava sentimentos perigosos… mas onde encontrar gente que dele gostasse?

 

O retorno de muitos emigrantes assaltados… Para PARAR as PERSEGUIÇÕES

As autoridades da Junta de Governo, tudo fizeram para travar essa possibilidade, nomeadamente através de campanhas públicas na televisão, jornais e rádios, e inundando Caracas e outras cidades do país de cartazes com o slogan: “Não importa onde se nasce… o que importa é onde se luta!

 

166 A Junta de Governo que tinha sido nomeada logo a seguir à vitória da revolta era presidida pelo meu conhecido almirante Wolfgan Larrazábal.

 

Os outros membros eram: o coronel Carlos Luís Araque, Pedro José Quevedo, Roberto Casanova e Abel Romero Villate. Já no dia 23 ao ser conhecida a composição da Junta, os venezuelanos protestaram contra a presença de Casanova e Villate, que tinham colaborado com o Governo deposto aquando do acontecido no dia 1 de Janeiro. …

O jornalista Fabrício Ojeda foi confirmado como seu presidente.

 

167 APOIO A CUBA O entusiasmo provocado pela conquista da democracia, impulsionou rapidamente um grande movimento popular de auxílio solidário  Fidel Castro.

 

O BATATA – estamos na mesma…

 

168 Afinal de contas, não vale de nada estarmos aqui a dar palpites, porque vivemos em ditadura encerrados num corpo cuja vontade não dominamos!

 

O SOLANO e o apoio a CUBA… 169 Lídia, a companheira de Solano…o MORALES… compartilhar os ideais de liberdade… as reuniões e diálogos até de madrugada…179

 

180 – 25 anos … no país como que da Revolução Francesa…Fidel em Caracas…

 

183 os companheiros dominicanos…

 

184 Politicamente falando, o “menino de coro” que eu era, entrou nessa ocasião pela primeira vez numa “paróquia política”: A Junta Patriótica Portuguesa!

Ao entrar na Junta Patriótica Portuguesa, fazia o meu baptismo de militante político…

Embora todos falássemos em Democracia, cada “paroquiano”, obedecendo ao seu “bispo ou papa” defendia e proclamava a sua maneira de querer conquistar a “Liberdade”. …

 

185 Quando por alturas de Setembro-Outubro desse ano de 1959 se começou a falar na próxima vinda à “nossa paróquia” dos verdadeiros “Papas” da oposição política à Portuguesa, pensei cá para comigo... já agora… aguenta aí, vamos lá a ver se isto “à portuguesa” e a nível de cúpula, é mais interessante!

 

186 Como vos vinha dizendo, na Junta Patriótica “oficiava-se” a doutrina do “socialismo científico”. A Direcção estava entregue a gente de confiança com provas dadas em outras paragens, com experiência mais do que suficiente para enquadrar e “conduzir”, pela “via justa”, os recém-tocados pela “febre revolucionária” que agitava corações e mentes das juventudes dessa época histórica.

 

Com a chegada de Henrique Galvão, as condições alteraram-se…

 

187 Na dúvida… achei que essa coisa da “acção directa” tinha mais a ver comigo do que as discussões sobre o teor dos discursos e comunicados a que nos tínhamos dedicado até então. …

«… instala-se a guerrilha entre a Junta e o pequeno grupo que tinha decidido acompanhar Henrique Galvão, grupo do qual eu fazia parte e que incluía, entre dois a três companheiros mais de quem não guardei memória, o Engenheiro Júlio Cid da Costa Mota e o José Frias de Oliveira.» …

188 «Com todas as expectativas intactas, chegou o general Delgado.

Por entraves diplomáticos relacionados com a obtenção do seu passaporte, Henrique Galvão só conseguiu chegar na véspera da partida do general, que tinha passagem marcada para Londres via Nova Iorque. …

189 «Mas, o imprevisível aconteceu: a sua irredutível posição anticomunista iria provocar inevitável divisionismo nas fileiras dos exilados antifascistas, com reflexos fatais na confiança que até agora tínhamos conquistado aos nossos anfitriões (…).” …

189 «Orquestrada pelos membros da Direcção da Junta Patriótica, desencadeou-se então uma ofensiva destinada a isolar o capitão Galvão e o seu grupo dos contactos com as autoridades venezuelanas, de forma a coarctar-lhes toda a possibilidade de acção e até de sobrevivência. …

190 «Esta primeira experiência de fractura entre comunistas e não comunistas, viria a repetir-se indefinidamente ao longo dos tempos que trabalhei lealmente com Henrique Galvão. Era assunto incontornável e sem inflexão possível. …

191 «tínhamos que ser nós a encontrar as soluções para poder atacar. Da nossa imaginação

e arte, dos nossos paupérrimos recursos, materiais e humanos, do nosso sangue e cérebro teria que sair a energia para o combate, sem ilusões! … «Calados e discretos, façamos de conta que não ouvimos “o ladrar dos cães”. …

 

191 «Aqui chegados, um esclarecimento se impõe:

Ao começar a “andar” com as ditas e tantas vezes auto-proclamadas “altas individualidades políticas”, a apreciação destas “andanças”deve ter em consideração que aquilo que vos conto não pretende ser a narrativa de “uma qualquer verdade histórica” destes tempos e acontecimentos. Longe disso. Não pretendo transmitir-vos resultados de pesquisas realizadas ou de sistemática e ponderada análise às inter-relações do conjunto dos factos narrados. Não sou historiador. Tenho-me a mim mesmo como um razoável contador de histórias vividas.

192 «Mas é, ao mesmo tempo, a afirmação de que a nenhum outro protagonista, nem sequer a Henrique Galvão, companheiro de algumas das próximas “andanças”, reconheço o direito de reivindicar para si o privilégio a uma qualquer verdade incontestável. … Lamento não dispor de meios e oportunidade para relembrar as muitas centenas de anónimos “dadores de sangue” à causa da luta pela LIBERDADE encontrados ao longo destas “andanças”.

«O que daqui para a frente for dito, repito, não deve ser tomado como pretensão a julgar as/os combatentes com quem me fui cruzando, tão só e apenas, dar e pedir testemunhos de diferentes visões dos acontecimentos relatados, coisa que não foi possível obter na quantidade e diversidade desejadas para este primeiro volume das “andanças”, mas que espero conseguir para o próximo. …

193 «54. Mário Mendes da Fonseca…

«Seja como for, para nós, membros do grupo que preparava as acções directas a levar a cabo sob o comando do capitão Galvão (que muito poucos sabiam quais seriam), este homem estava ao serviço da PIDE… e pronto, não se falava mais nisso.

 

149 «55. O major Calafate

196 «Com católicos e comunistas juntos, estaria feita a unidade que emprestaria força à oposição. … Mesmo depois do seu regresso, sempre acreditei na sinceridade deste homem. Um homem sem máscaras. …

 

197 CAPÍTULO QUINTO «56. Génese e preparação do assalto ao Santa Maria:

Empolar a adjectivação de situações extremas, mas mais ou menos genéricas, sem as tentar descrever nos pormenores mais ilustrativos da sua densidade dramatúrgica, trágica ou cómica, não se coaduna com a narrativa destas andanças.

Porque, as nossas, são simples “andanças” de andar e dançar, de ir e vir, de passar para lá e para cá, procurando caminhos, umas vezes sérios, outras vezes parecendo que não. Preferimos ater-nos a falar daqueles raros momentos em que fomos capazes de rir de nós próprios… acreditando que o riso espanta o medo e, sem medo… a liberdade é possível! (Coisa que tínhamos compreendido muito antes do Umberto Eco o escrever.)

 

199 «Há quem pense que a primeiríssima e única acção do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL), nascido por alturas da (Andanças para a Liberdade 199)

celebração da morte e ressurreição do Senhor desse ano de 1960, foi a operação DULCINEIA. Poucos eram aqueles que sabiam do sacrifício supremo dos companheiros espanhóis enviados … as artimanhas para angariar fundos… o “rapto” de um irmão do… para extorquir… a “venda” de informações à própria Embaixada de Portugal…

201 «Esses dias, semanas e meses, de meados do ano 60 até Janeiro de 61, pareceram largos anos… O DISCURSO preparado por UM «Começava assim:

“Abaixo os dez putas (déspútas), abaixo os «monolópios» do capital… etc., etc.”

 

«Quando pela primeira vez se logrou reunir uma dezena de “guerrilheiros” (era esse o termo usado, influências guevaristas) num local dito de treino, uma espécie de colónia de férias denominada Los Caracas, junto ao mar, nas fraldas da montanha que faz de Caracas a sucursal do Céu, a umas dezenas de quilómetros do porto de La Guaira , os nossos problemas multiplicaram-se, principalmente os meus.

202 O SEGREDO só conhecido de 3 ou 4: «verdadeiro objectivo: Galvão, eu, o Costa Mota e o Frias.)

203 «Para cúmulo das dificuldades, o Santa Maria só passava um dia por mês. Quando por falta de recursos falhámos a primeira passagem programada, foi preciso resistir mais um mês.

«Vejam bem… “o descascar da cebola” da memória, como se de coisa autêntica se tratasse, faz lacrimejar e esvanecer a nitidez de certas recordações… creio terem-se passado mais dois ou três meses a ver passar o nosso barco, sem poder reunir forças e meios para dele fazer a nossa “Bastilha”.

 

205 «57. Santa Maria: o embarque

Foi numa sexta-feira do mês de Janeiro de 1960, dia 20. …

«Pessoalmente, deveria encarregar-me de levar para bordo as armas e munições dos quatro companheiros que viajariam de avião para Curaçao, Galvão incluído.

208 as peripécias do embarque… «O bilhete tinha desaparecido. Com estas “andanças” atribuladas, estava perdido… o bilhete, e eu também! Ao arrepio tremido e frio seguido dum enevoamento fugaz que me toldou a visão, sucedeu uma grande acalmia!…

O CAAC sempre a intervir…

Sábado, 21 de Janeiro. Da minha primeira noite a bordo nada consta no “disco rígido da memória”. …

«Aproveitar todos os momentos possíveis para desligar do consciente, sempre foi uma das minhas regras de conduta ao longo das “andanças”. A melhor maneira de permanecer acordado é dormir enquanto se pode! …

209 «Por volta das nove horas, saí para ir ao encontro do Galvão no hotel onde se tinha hospedado na noite anterior. Após um breve relatório do sucedido até então, deu-se início a uma prevista reunião com o Sotomayor, o Velo Mosquera, o Romara e, se bem recordo, o Fernandez, em representação da parte espanhola; o Galvão, eu, o Frias de Oliveira e… aviva-te memória… alguém mais que não recordo, pela parte portuguesa. … problema: diferentes  maneiras de atacar a PONTE DE COMANADO!!!…

210 «para minha inquietação, fui nomeado “oficial de ligação”, como se aqueles dois precisassem de outra coisa para além de mais bom senso e menos orgulhos injustificáveis e inadequados à situação.

«Aí às zero horas e trinta minutos desse domingo 22 de Janeiro de 1961, (PROLEPSE) se o navio largasse do Curaçao à hora marcada, devíamos estar no ponto ideal para mudar de rumo e sair do mar das Caraíbas…

 

211 «O que tinha sido planeado para a meia hora do dia 22 de Janeiro, veio a dar-se bem mais tarde….

«Porquê este atraso? Porque os nossos comandantes, chegados ao ponto de concentração, puseram-se a contar as estrelas, … foi necessário que dos subordinados saísse uma iniciativa – ou vinha a ordem ou dispersávamos (não sei para onde) – para que o nó se desatasse e enfim partíssemos para a acção.

 

«Quando se ouviram os primeiros tiros, deu-me vontade de não estar ali. …

212 «Disseram-me que havia um ferido que eu não vi e iniciaram-se as negociações entre o Galvão e o Comandante Maia, já relatadas em muitas outras ocasiões. Pronto, para já, o Santa Maria estava sob nosso controle… e agora? … «A mim coube-me a responsabilidade de instalar os nossos homens em camarotes contíguos de forma a poder garantir o seu sono em segurança com um só companheiro de guarda, e distribuir “as forças” pelos pontos vitais do navio, assegurando que uma parte pudesse descansar para substituir os colegas cada quatro horas, mudando constantemente de local de serviço, para dificultar a verificação quantitativa do grupo. Ao venezuelano Ojeda, dei a missão de se misturar com os passageiros, difundindo discretamente o boato de que havia muito mais revoltosos disfarçados entre os passageiros.

«Passamos ao largo de Santa Luzia dia claro! Do meu posto de observação vi arrear a lancha que levava o tal ferido e mais alguém da tripulação. Tinha sido tomada a decisão de, em nome de uma demonstração do humanismo dos combatentes, desembarcar um ferido que corria risco de vida. Esse gesto, disse-se, era a grande prova da superioridade moral dos responsáveis pela acção, gesto que captaria a nosso favor a opinião internacional, etc. e tal. ….

 

213 «60. No Santa Liberdade, rumo ao Brasil

Na manhã do primeiro dia, logo antes da hora do pequeno-almoço, o Galvão informou pelos altifalantes sobre o que se tinha passado durante a noite (a maioria, se não a totalidade, não se tinha dado conta de nada), assegurando que todos seriam bem tratados e que os passageiros seriam desembarcados na primeira oportunidade.

O que eu temia, não se verificou. Não houve reacção descontrolada, os seiscentos passageiros aceitaram os factos com absoluta serenidade e até, bastantes, mesmo emigrantes, espanhóis e portugueses, com algum entusiasmo. Os americanos e de outras nacionalidades que viajavam como turistas, a esses tinha-lhes saído um grande prémio, um bónus inesperado para as suas férias. …

 

«Durante o assalto, tinha-me tocado descer à casa das máquinas, ao caldeirão onde se gerava toda a energia que fazia mover aquela “aldeia libertada” dos nossos territórios de além-mar. …

 

214 «sobre a decisão de nunca entregar o barco e ir até ao seu afundamento se necessário fosse, para nós, isso era isso mesmo… “bocas”.

Para qualquer comum mortal, não inteiramente desprovido de senso, a utilização do Santa Maria sem o “escudo” dos passageiros, era um puro suicídio! Desembarcados estes, o navio era um estorvo! …

 

216 «Quando fomos localizados por um avião americano de busca e salvamento, começaram as negociações com o Comando da Esquadra do Atlântico. …

«Avistámos hoje luzes da costa brasileira. O Santa Maria, como eu e os companheiros, cá andamos nestas “andanças”, para trás e para à frente, ao largo do Recife…

 

FIM

 

«E pronto, por aqui tenho que interromper. Era sábado, 28 de Janeiro de 1961, e acabava de ser convocado pelo meu “Colectivo de Auto-Análise Comportamental” para uma reflexão retrospectiva aos vinte e sete anos de vida em comum, que amanhã, como me recordaram, se completavam, a bordo deste Santa Liberdade, de onde sairei rumo à Avenida do mesmo nome, por muito que demore a lá chegar.

 

A comemorar o dia 29 de Janeiro de 1961 – 27 anos do Camilo!!!

 

Parabéns ao autor

P’lo primeiro volume

P’ra escrever o segundo

Tenha muita saúde

 

Tenha muita saúde

Pois um LIVRO já tem!

Se vender o primeiro

O segundo já (aí) vem…

 

7. DESCRIÇÃO

Catálises

 – INDÍCIOS / ÍNDICES

– INFORMANTES…

 

Informantes…

 

a maneira como nos dá a data do nascimento…

a 3º dia a nuvem a caminhar…

aos 3 anos viagem inicial… andarilho … para os Mortágua a”raposinha”

aos 6/anos.. para casa de António Salça e Ana… escola primaria…

 

«Naquele ano, às cheias, veio juntar-se o ciclone. Decorria o mês de Fevereiro. (1941)»

 

 

p. 61 «Era destes celeiros que partiam os grãos para os Moinhos de Ul. Destas terras baixas, irrigadas e drenadas pelos extensos canais da Ria, adoçados por variadíssimos desaguamentos de ribeiros e rios, do Antuã ao Vouga.»

 

p. 60 - «Lá por volta das duas da madrugada, todos se preparavam para, de ouvidos bem abertos, pressentirem as carroças.»

 

97 1ª Viagem transatlântica: «Por volta das três da tarde desse 7 de Maio de 1951, … no cais de Alcântara» a despedida!!! E o Zé Ninguém

 

Capítulo quarto, chegada a La Guauira

106 «Caracas contava naquela época com cerca de trezentos mil habitantes.» …

106 «O hotel Benfica, como mais tarde vim a constatar, não era muito diferente dos outros hotéis para emigrantes portugueses e até espanhóis: o Luso-Americano, o Lisboa, o Camões, o Oporto, etc.» … ver descrição pormenorizada quase exaustiva…

 

130 «De Caracas a Barquicimeto, a viagem decorreu normalmente…»

«A caminho do pico Bolívar, com os seus 4980 metros de altura, e de Mérida, capital dos Andes Venezuelanos, por uma pista em muito mau estado, por vezes inexistente, chamada de “transandina”, as dificuldades e a verdadeira dimensão do arrojo da aventura começaram a evidenciar-se.»

 

132 «Entre a cidade de Popayan e Pasto, numa pequena povoação chamada El Bordo, numa região denominada Valle del Cauca, partiu-se a forquilha de direcção da moto do italiano.» …

 

 

Indícios… índices

54: «Esse bebé, bem cedo apelidado de Come e Cala, nascia em tempos favoráveis à imposição do silêncio e à exigência da obediência. Pelo choro incontido e persistente, abrilhantado com estridentes e frenéticos berreiros, bem cedo a criança deu sinais da sua revolta contra quem o mandava… comer e calar!» … «com os meus oitenta e oito bem contados, estou convencida que aqui começou o seu “fado”, o seu destino.»… «aos cinco dias de vida, iniciava a sua vocação de andarilho.»

55 - «Dezasseis dias antes, os Vidreiros da Marinha Grande tinham contribuído, a priori, para balizar o tempo e o sentido das suas andanças pela vida. Sem ainda o poder saber, pela festa perpassava já (Andanças para a Liberdade 55) o espalhar de um rumor generalizado de repressão e a angústia, sentida pelo avolumar das primeiras ameaças prenunciadoras da perda das liberdades e da implantação do fascismo em Portugal e na Europa.

Durante os seus primeiros dois anos, o ambiente que o envolveu sem que disso tivesse consciência, ou talvez não, foi um ambiente de luta clandestina pela vida. As freguesias de Ul e Travanca, no concelho de Oliveira de Azeméis, são terras de moleiros e padeiras, e de águas cantantes, (hipálage) elemento energético crucial para a vida destas terras ao fazer mover os moinhos que também foram sempre, e são, aqui, fundo musical e chamamento à emigração. Terras de gente extremamente laboriosa e de actividades nem sempre legais, mas honestas (oxímoro) (naquele tempo, porque nem todo o grão que se moía era dado ao manifesto… nem todo o pão que se comia era de lei!), a maioria das famílias era “candongueira”, dedicando-se à moagem e à elaboração do seu famoso pão, que era preciso “comer e calar”.»

 

63 «O Batata já nessa altura era marrão.»

p. 61 «Bem cedo o Batata percepcionou o clima conspirativo destas actividades clandestinas e a necessidade de não aceitar passivamente as condições impostas, a necessidade que todos tinham de correr riscos para sobreviver

 

p. 62 «Foi um Inverno difícil para os adultos; para o Batata foi um Inverno revelador da coragem necessária para lutar pela vida.» …

62 Aos 7 anos – (p. 62) «Foi um Inverno difícil para os adultos; para o Batata foi um Inverno revelador da coragem necessária para lutar pela vida

 

68 - «O velho Salça, sem o ostentar, tinha o seu orgulho no menino Batata. Sem filhos, o Batata era o seu menino. Discretamente procurava incentivar o rapaz a aprender, a estudar para ser alguém, de preferência Doutor ou Padre.» …

68 à noite… «o Batata fazia os seus primeiros comícios lendo em voz alta, para o público da casa, sempre muito atento e interessado, as aventuras dos nossos grandes personagens históricos.»…

 

69 «A viagem inicial… (3 nos) a caminho dos Mortágua…

 

69 «Cá para mim, acho que foi nesses serões que o Batata começou a gostar dessas coisas que projectam a memória das pessoas para além da morte. Dessas acções grandes e arriscadas que depois se contam à lareira e nas bibliotecas»…

 

74 «O “Flecha de Prata” era o bom mensageiro que lhe trazia tudo aquilo que ele imaginava existir lá por Lisboa… era o comboio dos seus sonhos!»

 

75 «Era um visionário… andava sempre a chamar-nos a atenção para coisas que só ele via, coisas que aconteceriam no futuro.»

 

75 – OS SONHOS DO BATATA E O DIÁLOGO entreposto entre ele o narrador Tó Xarela -VIVO COM O TI ERNESTO…

 

78 Final do NARRADOR Tó Xarela: «Se puderem, sigam-no, na vida real e nos sonhos que lhe comandam a vida.»

 O PÁTIO no Alto Pina:

80 «A grande desilusão, ou mais que isso, foi a de ver a “casa” onde íamos morar. No pátio do nº 26 da rua Luís Monteiro, ao Alto Pina, encostado à quinta da Curraleira, com vista para as traseiras do cemitério do Alto S. João, onde vi pela primeira vez as iluminações azuis dos fogos-fátuos, o “passeio nocturno dos candeeiros das almas”, como se dizia lá no pátio.» VER TODA a DESCRIÇÃO…

 

80 O PÁTIO DO ALTO PINA: «Essa minha primeira descida para o pátio, sempre a considerei a minha primeira descida ao inferno, ou a minha primeira entrada no mundo dos mortos-vivos, como se Orfeu e Aristeu, numa só pessoa, sem o saber, ali tivessem encontrado Eurídice, aquela por quem, a partir de então, me bateria, aquela que, ao contrário da outra da lenda, me resgataria do subterrâneo da vida, do limbo social, para a luz do Sol e da Liberdade.

A minha Eurídice, ali e então revelada, ainda se chama consciência de classe. Ali aprendi a conhecer profundamente as razões da minha assumida e inevitável paixão pela Liberdade. A paixão de lutar pela vida entre os vivos, à luz do sol, e em favor dos da minha condição.»… pátio que nos colava à pele o estigma da não existência social, …»

 

81 «Lá na aldeia eu era: o Come e Cala, o Batata, o menino Camilo, o menino dos Salça; de repente, senti-me ninguém… senti-me remetido à condição dos que não contam!

Os anos que passei naquele espaço térreo construíram em mim certezas inabaláveis, convicções mais fortes e duradouras que as que me foram dadas através das leituras feitas ao longo da vida…»

 

O menino padeiro… carrega sacos de 60 quilos (mais que o seu peso) … amassar e coser… encestar e a percorrer as ruas do bairro do Alto Pina… e sobe andares… para vender um pequeno pão!!!

 

A 1ª viagem transatlântica… a chegada desamparada… o tio Zé Maria… o empresário “por conta própria”

 

106 «Estava-se no tempo do “Pórto-guês, pão, pepsicola e cambur (banana)”.

Esta era uma boa parte da explicação para o mistério dos “ricos da Venezuela”!» …

«A grande maioria dos emigrantes deste período vinha trabalhar para a construção civil, dada a grande expansão e dinâmica» …

107 «Por cerca de doze bolívares diários assegurava-se o essencial à sobrevivência. Era frequente ganhar entre quarenta a sessenta bolívares por dia e mais – o bolívar da época valia, salvo erro, uns oito escudos.» …

«Daí que, durante alguns anos dessa época, o maior insulto que um venezuelano podia fazer a outro venezuelano era chamar-lhe “pórtu-guês”!» …

 

111 CATIA!!! «…os sorrisos que tinha apercebido nos colegas de camarata, quando lhes disse que na segunda-feira iria para Catia, tinham-me deixado “de pulga atrás da orelha”; era preciso tirar as dúvidas. Não era a primeira vez, desde a minha chegada, que ouvia esse nome.» …

 

119? - 18 anos, sem orientação, além dos ENSINAMENTOS PRÁTICOS RETIRADOS DA SUA EXISTÊNCIA… PROTECTOR DE “Meninas”… “Pagar pelos erros cometidos”…

 

 

A aventura da Rádio… 5 programas…

 

O comunicador social… o político… o empresário dos ECOS de PORTUGAL… o Sérgio e o Daniel…

 

A mudança da ideia de imigração??? “a ditadura lá – cá onde estava – e lá (cá) em Portugal… “dias sem sono” 23 de Janeiro de 1958…

 


 

9. Elementos de enriquecimento Literário:

 

A oralidade transposta para escrita com leveza contida e estimulante relatando cenas hilariantes… com mudanças de “Narradores” e “interlocutores” e/ou companheiros de aventuras… encontros inesperados… desafios…

 

O estilo coloquial… de interpelação à paciência dos persistentes leitores…

 

Oralidade e VISUALISMO… sons… cores… movimento… cinestesia… e sinestesia

Cenas vibrantes de via de tradições usos e costumes:

 

P. 61 «Tudo transportado esteiros acima pelos coloridos e vistosos barcos, artisticamente decorados, empurrados à vara larga pelo vigor e força dos moliceiros, ou pela maré e brisa que, vinda do largo, inchava os panos, fazendo-os deslizar na paisagem pintalgada de brancas velas em mar de verdura a perder de vista!»

«No Inverno do ano de 1941, já instalado em casa dos “Salça do Ribeiro da Ladeira”, o nosso Batata deslumbrava-se pela primeira vez com o espectáculo das grandes cheias. Naquele ano, dizia-se que era a maior desde há muitos Invernos.»

«Naquele ano, às cheias, veio juntar-se o ciclone. Decorria o mês de Fevereiro.»

Ver a sobreposição das várias cenas intercaladas… e a descrição da paisagem…

 

64 «O ti Zé Máximo, exímio contador de histórias para entreter os clientes enquanto se ocupava das barbas e cabelos, jurava convictamente e a pés juntos que no dia do Vendaval, ia ele na sua bicicleta com o seu guarda-chuva de noventa varetas aberto, a caminho da casa dos Petiscos (petiscos de nome, não de comer), quando, ladeira

arriba, a ventania lhe pegou por baixo e fez inchar o seu famoso guarda-chuva de noventa varetas, mais parecido com uma tenda de marajá que com um chapéu-de-chuva (palavras suas), elevando-o aos céus a voar alto sobre as águas até poisar de mansinho no ninho das cegonhas existente na copa daquele enorme pinheiro que se avista sobressaindo do espelho prateado das águas… não contente com a proeza, o Zé Máximo garantia que lhe valeu na altura a sua velha amizade com as cegonhas, que o tinham trazido de volta, agarrado ao seu guarda-chuva de noventa varetas pendurado no gancho do pescoço do passarão.

Sim… sim… dizia ele ‑, eu e as cegonhas damo-nos muito bem; muitos dos bebés que elas têm trazido para a freguesia, fui eu quem os fez vir!»

 

A Casa do Salça… o ambiente… o comer… farta mas austera. Uma sardinha para três! O horário de trabalho desde as 4H… as refeições…

64 «Naquela casa não havia distinção no trato entre patrões e criados, comiam todos à mesma mesa, embora os melhores bocados fossem sempre reservados para o menino Batata e para o dono da casa.

A base da alimentação eram (anástrofe) as sopas e os cozidos com carnes da matança anual do porco (Novembro/Dezembro), normalmente de dez a doze arrobas, guardadas na salgadeira até antes do Verão. A partir de então, o calor e as fainas das colheitas deixavam menos tempo para a cozinha e aconselhavam maior consumo de verduras, saladas e coisas simples de preparação rápida.»

«Debulhavam-se, malhavam-se e secavam-se todos os cereais colhidos: principalmente milho, feijão e arroz. O arroz era a maior colheita e a mais trabalhosa e incómoda.»

 

67 - Ver a malha do arroz… a cena viva e sonora… Truz… Catrapuz… as onomatopeias e o ambiente de trabalho árduo… e o «pó de (do) arroz»!!!

 

71 «É como se, para poente, para lá da linha-férrea até ao mar, se estendesse o palco; e, para nascente, do lado de cá, desde Salreu, Fermelã, Canelas, etc., até à Branca, Pinheiro da Bemposta e serra acima, fossem a plateia e o primeiro e segundo balcão deste grande anfiteatro da NATUREZA.

Se vos tento descrever esta paisagem que é a nossa, é para vos ajudar a perceber o porquê das fortes raízes que prendem a vida do (Camilo Mortágua 72) Batata a estas terras, a estes nossos costumes e maneiras de ser, aos valores que sempre foram os nossos, mesmo que assumidos com a ligeireza e alegria próprias da infância

 

72 AS MONDADEIRAS: «Ao entardecer, quando os sinos da Igreja tocam as Ave Marias, começam a ouvir-se ao longe, vindos lá das marinhas, do tal palco deste anfiteatro da Natureza, uns rumores melodiosos que pouco a pouco se transformam em celestial polifonia, aumentando progressivamente de volume, como se das águas e das marinhas do arroz brotassem mil sereias a quererem atrair-nos com os seus cânticos… são as mondadeiras que regressam da monda. Ranchos e ranchos de mulheres cantando em coro, centenas e centenas de vozes a inundar de poesia e luz um horizonte de sonho, um quadro de artista genial

 

78 Final do NARRADOR Tó Xarela: «Se puderem, sigam-no, na vida real e nos sonhos que lhe comandam a vida.» …

 

 

- as comidas – quase com as receitas dentro…

A Casa do Salça… o ambiente… o comer… farta mas austera. Uma sardinha para três! O horário de trabalho desde as 4H… as refeições…

 

64 «Naquela casa não havia distinção no trato entre patrões e criados, comiam todos à mesma mesa, embora os melhores bocados fossem sempre reservados para o menino Batata e para o dono da casa.

A base da alimentação eram as sopas e os cozidos com carnes da matança anual do porco (Novembro/Dezembro), normalmente de dez a doze arrobas, guardadas na salgadeira até antes do Verão. A partir de então, o calor e as fainas das colheitas deixavam menos tempo para a cozinha e aconselhavam maior consumo de verduras, saladas e coisas simples de preparação rápida.» …

«Debulhavam-se, malhavam-se e secavam-se todos os cereais colhidos: principalmente milho, feijão e arroz. O arroz era a maior colheita e a mais trabalhosa e incómoda.»

 

- As malhas… com movimento ritmado… a dança dos homens e manguais… os sons das batidas… o ambiente respirado e sentido… com apelo a todos os sentidos SINESTESIA… Cinestesia? …

 

67 «Debulhavam-se, malhavam-se e secavam-se todos os cereais colhidos: principalmente milho, feijão e arroz. O arroz era a maior colheita e a mais trabalhosa e incómoda. Primeiro espalhava-se o arroz ainda agarrado à palha por toda a eira, numa espessa camada de aproximadamente setenta centímetros de altura; depois metia-se o gado (vacas) a dar voltas sobre voltas de forma a pisar uniformemente a camada exposta; pelas bermas, entravam em função os manguais ou mauais, como por cá se chamam, com tantos malhadores quantas fossem as pessoas disponíveis. Cada um tem o seu maual preferido; é frequente ouvir-se de casa em casa aquela pancada ritmada do… truz, truz, catrapuz, truz! Fazem-se despiques e pode-se mesmo dizer que quando os malhadores são experientes e em número suficiente, acontecem autênticos concertos de truz… catrapuz!» …

 

- o “Pó-do-arroz” que chega a fazer comichão…

67 «É bem conhecido o pó de arroz como produto de embelezamento. Porém, nós por cá sabemos bem o incómodo que dá o verdadeiro pó de arroz… de todo este trabalho, passar o tempo a coçar a comichão provocada pelo pó do arroz é o sofrimento maior.» …

 

- o Pátio e a cena do Porto funileiro…

Função metalinguística? - o código utilizado enfoca o próprio código: ver até p. 102 – “conversas de alto nível Cultural da Clientela copofónica…” detentora p. 105 - “do vernáculo vinícola”

 

81 A cena do Pátio com Porto Funileiro – a sinestesia (5 sentidos) e a cinestesia (o movimento) «ali aconteciam, quase todas as noites e às vezes durante algumas matinées, ou até em sessões contínuas, as “revistas à portuguesa” lá do Pátio. Eram uma espécie de “novelas radiofónicas em (Camilo Mortágua 82) vernáculo vinícola” que, de tão repetidas, deixaram de ser a grande diversão do pátio para se transformarem em mais um motivo da nossa vergonha!

82 «Invariavelmente, quando o Porto descia as escadas do pátio com a sua caixa de funileiro às costas a roçar pelo corrimão, ia começar a função: …»

 

A COVA FUNDA…

88 «…dum lado uma taberna com os seus anexos interiores (pequenos compartimentos sem luz nem janelas onde os clientes jogavam às cartas e queimavam provisórios e definitivos sem parar, em ambiente de partilha colectiva da espessa fumaça), …

 

88 «Também percorri as ruas de Lisboa de “bomba da merda” (era assim que lhe chamávamos) às costas, …»

 

TENERIFE – Gran Canaria – AS VACAS A DOMICÍLIO…

«99 «De manhã, colei-me cheio de espanto e curiosidade ao sistema local de distribuição de leite a domicílio.»

 

Ver o deslumbramento da chegada… a descrição da baía de La Guaira … Caracas ao longe… no alto… e mais alto ainda… as montanhas…

106 «Caracas…muito abaixo dos 2600 do “pico del Ávila”, imponente pirâmide de verdura, protegendo e refrescando Caracas, como que a confirmar a sua apregoada condição de “sucursal del cielo”!» …

106 «O “bom conterrâneo”, testemunha compreensiva do meu absorvente encantamento, daquela minha “bebedeira” de desconhecido, manteve-se respeitoso do meu silêncio durante toda a viagem de quase três horas, de La Guaira até ao hotel Benfica.»

 

O PADEIRO QUE DORMIA COM AS MASSAS… A ALMA DA MASSA!!!

115 / 116 «Durante toda a semana, dormia com as “massas”. Em primeiro lugar, porque o tal quarto do padeiro era quase tão quente como o forno onde cozia o pão; em segundo, porque tinha casualmente aprendido que encostando a cabeça à massa acabada de amassar, ela própria, ao levedar-se, crescia e vinha acariciar-me o rosto e “chamar por mim” para ser tendida e repartida em muitos pães.

Estendidos sobre a mesa de tender, lado a lado, bem juntinhos, em repouso, ambos aguardavam o momento da separação, e era a massa do futuro pão que acordava aquele que, levando-a para o forno, lhe permitiria a sua última metamorfose, transformando-a naquilo para que havia nascido... o pão! Durante infindáveis três a quatro semanas, esta tão intensa relação levou à exaustão o jovem Batata, ao fim das quais, sem forças nem ânimo, dois dias e duas noites dormiu sozinho sobre a mesa de tender, até que o industrial, seu patrão e amigo de seu pai, apareceu no dia do costume para buscar as “suas massas” e assim o encontrou!

Ao que parece, a partir desse momento, depressa foi encontrado o tio Zé Maria. Com os remorsos do abandono do sobrinho, lá arranjou forças para se desprender dos braços da mulata dengosa, para o levar até à sua padaria... de la Victória !

 

- A cena das mulheres de CATIA – “AS MEIAS PORTAS=SAIAS”…

119 … «Afoitamente, com a coragem dos inexperientes, apertei os cotovelos contra a carteira e avancei em direcção às luzes. A princípio tive muita dificuldade em perceber a situação! A rua só tinha casas dum lado e cada casa tinha uns escassos dois metros de frente com uma porta; aliás, não eram portas inteiras, eram meias portas por detrás das quais se encontravam mulheres a descrever, por gestos e palavras, o serviço que prestavam, pouco variado, diga-se de passagem, dadas as peculiares “infra-estruturas” de que dispunham.

Olhando com mais atenção, vi vários homens de pé contra as meias portas, balançando os corpos contra as ditas, como se as quisessem derrubar com a barriga.

Finalmente, bem observadas as cenas, o que não se via adivinhava-se!

Como não dispunham de espaço, as mulheres faziam das meias portas saias, postando-se de pé contra as meias portas, praticamente nuas da cintura para baixo, convidando os clientes ao acto sexual, de pé, através dum buraco aberto na madeira das tais meias portas.» …

 

… «Ao longo destas andanças, nunca me foi dado ver situação mais desumanizada relacionada com o comércio do sexo.»

 

SINESTESIA… CINESTESIA

VER uma mostra deslumbrante de como se pode conseguir (com uma linguagem simples!!!) do que nos querem explicar com SINESTESIA… CINESTESIA:

122 «Todos os estabelecimentos de comes e bebes instalados ao longo da dita “carretera vieja”, estrada velha de Caracas a La Guaira , eram meus clientes. Todos os dias treinava a minha destreza de condutor de motos com “sitecar” nas tais trezentas e não sei quantas curvas da velha estrada, onde aprendi a apreciar o fenómeno das grandes chuvadas tropicais. Parava a moto a alguns metros da chuva e aí ficava, sequinho e ao vento, a ver chover e a sentir a frescura dos seus efeitos; quando a chuva ia chover para outro lado, passava do seco para o molhado, de onde emanavam densos odores a coisas agora imprecisas.»

 

130 NOS ANDES… nas ALTURAS os ANDINOS…: «Naquelas paragens tudo era diferente! A altitude, à medida que nos íamos aproximando dos páramos, fazia desaparecer a diversidade étnica da população venezuelana. Só autóctones, pessoas baixas e entroncadas de caras arredondadas e pele bem curtida pelo frio, envoltas nos seus ponchos de cores escuras, pés andarilhos e pernas ligeiramente abertas para melhor se equilibrarem pelos carreirinhos (131) traçados por calcorreares antigos pelas encostas íngremes daquelas monumentais paisagens.» (adjectivação precisa e gradativa…)

 

Há mais a explorar na última parte do Capítulo quarto… padeiro da lata d’água e revolução na Venezuela… Cuba… República dominicana…

E no quinto… preparação e assalto ao Santa Maria – santa Liberdade…

 

 

 

9. Figuras de Estilo – Qualidades da linguagem – estilo…

 

- Figuras de estilo: Figuras de Sintaxe… de Pensamento… Tropos ou imagens…

 

- de sintaxe: elipse – omissão de fácil…), zeugma omissão de palavras já utilizadas…), pleonasmo – repetir para realçar… ver com os olhos… ver claramente visto o lume vivo… anáfora, repetição da mesma palavra, negro negro… anástrofe, inversão da ordem natural para realçar…

«Naquele ano, às cheias, veio juntar-se o ciclone. Decorria o mês de Fevereiro». (1941)

 

hipérbato, intreposição violenta de termos relacinados… anacoluto, mudança brusca de construção por exemplo não correspondência com sujeito e verbo… assíndeto, eliminar conjunções… silepse, concordância com a ideia e não com o sujeito: “Todos os filhos de Adão sofremos a morte…».

 

- de pensamento: interrogação, exclamação, hipérbole, apóstrofe, prosopopeia – personificação ou animismo…,

 

71 «O rio era a grande veia por onde circulava o sangue que alimentava a nossa fartura e alegria de viver!» …

«Sem mestre, foi aí que o Batata se autoformou nas artes de esbracejar para se manter à tona d’água.»…

«Entre Aveiro e Estarreja, muito especialmente ao longo da linha férrea, desdobram-se em anfiteatro os casarios multiformes das aldeias contemplativas deste horizonte marítimo.»

 

74 «O “Flecha de Prata” era o bom mensageiro que lhe trazia tudo aquilo que ele imaginava existir lá por Lisboa… era o comboio dos seus sonhos!»

 

Perífrase, antítese – contraste - oximoro… gradação…

 

81 «Lá na aldeia eu era: o Come e Cala, o Batata, o menino Camilo, o menino dos Salça; de repente, senti-me ninguém… senti-me remetido à condição dos que não contam!

Os anos que passei naquele espaço térreo construíram em mim certezas inabaláveis, convicções mais fortes e duradouras que as que me foram dadas através das leituras feitas ao longo da vida…»

 

- Tropos ou imagens: comparação, metáfora, imagem, alegoria, (sequência de comparações metáforas e imagens…)

p. 60 «o medo reinava!»

ironia (palavras usadas com sentido contrário ao sentido próprio…), eufemismo, disfemismo, sinédoque o todo pela parte… o singular pelo plural. “o inimigo…” , metonímia, ex. “ler Camões” “beber um copo”……

 

p. 60 - «o que mais temia era ver chegar a guerra – a guerra, na sua imaginação, só podia vir pela linha férrea…»

p. 60 «o medo reinava!»

71 «Entre Aveiro e Estarreja, muito especialmente ao longo da linha férrea, desdobram-se em anfiteatro os casarios multiformes das aldeias contemplativas deste horizonte marítimo.»

 

Onomatopeias – palavras imitativas… … Aliterações… sons… a malha… truz… truz… catrapuz…

«as carroças. Estas, puxadas por duas ou mais parelhas, rodando em silêncio pelas calçadas e congostas empedradas das aldeias, com as rodas revestidas por tiras de velhos pneus e as patas das bestas bem calçadas do mesmo material, … p. 60

 

A ironia contida à beira do cinismo e do sarcasmo “ajuste de contas” inócuo e utilizado só para magoar… por vingança arrogante e egoísta… sem chegar aos sarcasmo…

 

A criatividade de expressões “inventadas”… a recolha de léxico popular / regional…

 

A adjectivação… justa… por vezes dupla… e a hipálage

 

p. 61 «Era destes celeiros que partiam os grãos para os Moinhos de Ul. Destas terras baixas, irrigadas e drenadas pelos extensos canais da Ria, adoçados por variadíssimos desaguamentos de ribeiros e rios, do Antuã ao Vouga.»

 

71 «Entre Aveiro e Estarreja, muito especialmente ao longo da linha férrea, desdobram-se em anfiteatro os casarios multiformes das aldeias contemplativas (hipálage) deste horizonte marítimo.»

 

 

Ver hipálage – atribuir o adjectivo a coisas quando se referem a pessoas ou ambientes: “as saias portas”… “um chá respeitoso”… “as agulhas sonolentas”… «partiam os grãos para os Moinhos de Ul»… os grãos andarilhos…

 

71 «Entre Aveiro e Estarreja, muito especialmente ao longo da linha férrea, desdobram-se em anfiteatro os casarios multiformes das aldeias contemplativas deste horizonte marítimo.»

 

119 Depois de observar as cenas do Bairro das Meninas de CATIA: «Boquiaberto e meio pasmado, devo ter feito fraca figura naquele cenário pré-civilizacional.» …

 

121 «cada “repartidor” ia pela cidade entregar aos seus fregueses o rotineiro pão de cada dia

 

132 AS moças FILHAS da FAMÍLIA nos ANDES… «Como o que tem que ser tem muita força, logo ali se iniciaram dois pueris e só platónicos namoros; só platónicos porque, de contrário, entre a fúria dos pais e dos vaqueiros locais ou a prisão à vida naquele vale perdido, as alternativas não eram nenhumas. As moças bem se esforçaram. Avisando-nos discretamente quando iam tomar banho nuinhas debaixo das luxuriantes cascatas naturais existentes nas redondezas, enfiando-se entre os nossos lençóis mal os pais se deitavam… mas aí…» …

 

134 “Havia que dar um empurrão ao obstáculo”, fazer com que o Marcelo voasse através das nuvens cavalgando a sua lambreta alada.

134 «A estrada, qual monstruosa serpente, vai-se colando às montanhas, desafiando os abismos sobre os quais se mantém em equilíbrio…» …

 

 

 

10. Intertextualidade:

 

69 «Cá para mim, acho que foi nesses serões que o Batata começou a gostar dessas coisas que projectam a memória das pessoas para além da morte. Dessas acções grandes e arriscadas que depois se contam à lareira e nas bibliotecas» …

 

- Lenda de Ulenspiegel, de Charles Coster, herói da Flandres: “ser alguém pelo que se é ou pelo que se tem?”

 

- Lia o que não compreendia:

“ANTI DURING”?

Bispo Árias Blanco…

Rafael Garcia Marquez…

 

- “sentia-me Orfeu…  e Aristeu Pastor, Apicultor… Cura e Profecia…) e Eurídice (esposa de Orfeu…seduzida por Aristeu… Cirene, mãe de Aristeu muda-se em serpente e mata Eurídice que rejeita o filho…) ao mesmo tempo… ?

80 O PÁTIO DO ALTO PINA: «Essa minha primeira descida para o pátio, sempre a considerei a minha primeira descida ao inferno, ou a minha primeira entrada no mundo dos mortos-vivos, como se Orfeu e Aristeu, numa só pessoa, sem o saber, ali tivessem encontrado Eurídice, aquela por quem, a partir de então, me bateria, aquela que, ao contrário da outra da lenda, me resgataria do subterrâneo da vida, do limbo social, para a luz do Sol e da Liberdade.

A minha Eurídice, ali e então revelada, ainda se chama consciência de classe. Ali aprendi a conhecer profundamente as razões da minha assumida e inevitável paixão pela Liberdade. A paixão de lutar pela vida entre os vivos, à luz do sol, e em favor dos da minha condição.»

 

- cita BRAUDEL – historiador francês, 1902-1985 – “Mundo Mediterrânico”…

Na desilusão de Lisboa e ter falha a Escola por causa da meningite…

81 «Razão tinha Braudel ao afirmar que “é nas «caves» do tecido social, na humidade dos espaços térreos, que nascem as raízes das grandes transformações sociais”.»

 

Na despedida do Sr. Constantino:

94/96 «Ainda me lembro dos dois últimos livros que lhe devolvi na véspera de me despedir, quando lhe fui dizer que ia para a Venezuela: As Palavras Cínicas, de Albino Forjaz Sampaio, e O Crime do Padre Amaro.»…

 

Na chegada à VENEZUELA (Veneza pequena)

103 «No dizer do seu mais ilustre e respeitado escritor, historiador, politólogo e pensador, Arturo Uslar Pietri, já então com 55 anos e muito prestigiado, mais tarde embaixador junto da UNESCO e contemplado com o Prémio Príncipe das Astúrias, o nome de Venezuela teria sido pronunciado pela primeira vez em 1500 por Américo Vespúcio à entrada do golfo entre a península de Paraguaná e a de Guajira, no território que mais tarde veio a pertencer ao Estado Zúlia.

Vespúcio, que era de Veneza, ao observar as casas sobre estacas dos indígenas que viviam sobre a água e lhe fizeram lembrar Veneza, chamou àquele lugar – Venezuela! –, querendo significar pequena Veneza, nome que mais tarde seria dado a toda a “Província colonial” que abarcava grande parte do território da actual Venezuela.

A Venezuela, primeiro como Província da Gran Colômbia, depois, em 1811, como país independente, e a partir de 1930 como Estado real e completamente soberano, é um caldo de culturas e etnias provenientes de imigrações das mais diversas origens.

Um país que, pela grande diversidade étnica da sua população, nunca se colocou o problema da procura duma determinante e específica cultura de origem, revendo-se por inteiro na personagem do LIBERTADOR, como símbolo fundador e estruturante da identidade e coesão do povo venezuelano.

“SIMON BOLÍVAR EL LIBERTADOR” – a sua áurea transcende muito para além das fronteiras da Venezuela, graças ao seu decisivo empenho na independência de outros cinco países sul-americanos: Panamá, Colômbia, Peru, Equador e Bolívia. BOLÍVAR, ainda hoje caso único na História mundial por ter sido Presidente da República de três países distintos: Venezuela, Colômbia e Bolívia!» … continua a mostrar a sua vasta erudição e conhecimento direto…

 

Cita Günter Grass: para justificar as elipses e esquecimentos…

105 «Como diria Gunter Grass, “a memória, como a cebola, descascam- se de fora para dentro, camada a camada”. Pelo que experimento, a dificuldade está em começar por compreender o que nos diz o registo de ontem na casca de fora, sem a lembrança precisa do que nos reserva o registo do tempo antigo impressionado nas camadas de dentro!»

 

Da Wikipedia - http://pt.wikipedia.org/wiki/G%C3%BCnter_Grass - :

«Günter Grass (em alemão: Günter Graß) (Danzig, 16 de outubro de 1927) é um intelectual e escritor alemão nascido na cidade de Danzig, posteriormente Gdansk, cuja obra alternou a atividade literária com a escultura enquanto participava de forma ativa da vida pública de seu país e lhe deu um Prêmio Nobel de Literatura em 1999. Também é reconhecido como um dos principais representantes do teatro do absurdo da Alemanha.»

 

114 Sobre o bairro de barracas do Cerro de Catia onde se vindia tudo e.. «álcool, que é aquilo que no dizer do poeta, “tapa a veia do medo!” …

 

123 / 124 «dezoito anos, uma enorme ambição de ser alguém, autonomia plena, algum dinheiro no bolso a tilintar (mesmo que fosse do dono da padaria que fornecia o pão); a companhia dos jovens filhos dos donos da padaria que, imitando os padeiros de verdade, dormiam de dia… mas iam “trabalhar” de noite para os bordéis de Catia; a prevalência dada ao Zé Ninguém, aquele outro eu optimista e superconfiante no futuro, muito à imagem do da lenda de “Ulenspiegel” e de suas aventuras heróicas, alegres e gloriosas, referência que vinha dominando os meus “diálogos interiores” da época.

Assim pensaria o herói mítico da Flandres: “Nada de rotinas… ainda sou muito jovem… tenho tempo… aproveitemos o tempo para (124) conhecer coisas novas, para dar sentido e reconhecimento à vida, fazendo coisas que nem todos ousam fazer.”

 

157 - GABRIEL GARCIA MARQUEZ… a euforia da proximidade… quando se preparava a revolta contra o ditador na Venezuela…

 

 

 

11.   Género literário – entre a auto-biografia – memórias... comentários… com laivos de e o histórico… décadas… crónicas… quase a aspirar a romance histórico… com alguma poesia e cenas de pendor marcadamente dramático… teatral…

 

 

 

Classificação

– Estilo simples… (sem ornatos…) …

- Estilo médio temperado… expressão apurada com uso moderado de ornatos…

P. 61 «Tudo transportado esteiros acima pelos coloridos e vistosos barcos, artisticamente decorados, empurrados à vara larga pelo vigor e força dos moliceiros, ou pela maré e brisa que, vinda do largo, inchava os panos, fazendo-os deslizar na paisagem pintalgada de brancas velas em mar de verdura a perder de vista!»

 

72 AS MONDADEIRAS: «Ao entardecer, quando os sinos da Igreja tocam as Ave Marias, começam a ouvir-se ao longe, vindos lá das marinhas, do tal palco deste anfiteatro da Natureza, uns rumores melodiosos que pouco a pouco se transformam em celestial polifonia, aumentando progressivamente de volume, como se das águas e das marinhas do arroz brotassem mil sereias a quererem atrair-nos com os seus cânticos… são as mondadeiras que regressam da monda. Ranchos e ranchos de mulheres cantando em coro, centenas e centenas de vozes a inundar de poesia e luz um horizonte de sonho, um quadro de artista genial.»

 

130 NOS ANDES… nas ALTURAS: «Naquelas paragens tudo era diferente! A altitude, à medida que nos íamos aproximando dos páramos, fazia desaparecer a diversidade étnica da população venezuelana. Só autóctones, pessoas baixas e entroncadas de caras arredondadas e pele bem curtida pelo frio, envoltas nos seus ponchos de cores escuras, pés andarilhos e pernas ligeiramente abertas para melhor se equilibrarem pelos carreirinhos (131) traçados por calcorreares antigos pelas encostas íngremes daquelas monumentais paisagens.

 

- Estilo sublime. Solene e majestosa… sentimentos e conceitos elevados… com elegância, eloquência e abundante emprego de ornatos…

 

- Qualidades: Clareza, correcção, pureza, harmonia… (leitura elegante) …

Fuga a galicismos e estrangeirismos apesar da formação dispersa…

“com simples e claras palavras”…

- Naturalidade e originalidade...

 

E-Mail: joraga@netcabo.pt e joraga2000@gmail.com
pelo telefone 212553223 ou pelos Tlm. 917632524
e pelo CORREIO: Rua Almada Negreiros, 48 - 2855-405 CORROIOS.
visite ainda a minha TEIA na REDE além de joraga.net - joraga/alice/osrabaca/serradaesrela/gilvicente/cart2326/

Compatível com IE/Netscape na resolução 800x600
Joraga 2000 em viagem