CAMILO MORTÁGUA
ANDANÇAS para a LIBERDADE -
VOLUME I 1934 - 1961


uma APRESENTAÇÃO por JORAGA
um Cigano Castanho vindo da Serra da Estrela

 

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O PORTO FUNILEIRO
In ANDANÇAS PARA A LIBERDADE. Camilo Mortágua, 2009, Ed. Esfera do Caos, Capítulo segundo, 19, pp. 81-83

página (81)…

"O dia-a-dia da família - eu, meus pais e minhas duas irmãs, vivendo em dois compartimentos de alguns nove metros quadrados cada - exercia sobre nós pressões contraditórias mas intensas. A exagerada densidade demográfica do nosso espaço habitável impelia por um lado uma exagerada intimidade física provocadora de atritos comportamentais e, por outro, exigia uma grande coesão sem a qual a vida se tornava impossível.

19. O "Porto funileiro"

Num cubículo debaixo da escada, espaço escuro sem janelas nem divisórias, esparramados aleatoriamente pelo chão, viviam o Xico Porto, sua mulher e cinco filhos, três raparigas e dois rapazes, todos menores; ali aconteciam, quase todas as noites e às vezes durante algumas matinées, ou até em sessões contínuas, as "revistas à portuguesa" lá do Pátio. Eram uma espécie de "novelas radiofónicas em (82) vernáculo vinícola" que, de tão repetidas, deixaram de ser a grande diversão do pátio para se transformarem em mais um motivo da nossa vergonha!

Invariavelmente, quando o Porto descia as escadas do pátio com a sua caixa de funileiro às costas a roçar pelo corrimão, ia começar a função:

- Suas putas… olhem-me estas putas todas a engordar… vão trabalhar, fora daqui suas putas, fora! Desde manhã a calcorrear com os tachos e panelas às costas e estas putas aqui, sem fazer nada à espera do meu dinheirinho… não levam nada suas putas… vá, p'ra rua… vão lá p'ra madrinha… tudo na minha frente e a toque de caixa… ran, pan, pan (o Xico tocava na caixa de funileiro o ritmo da marcha que queria impor a caminho da "Madrinha" ou "Madama", como dizia por vezes em dias de maior inspiração) … toca a andar, tudo na minha frente a saltar, suas galdérias (nunca se referia aos filhos, porque estes, quando o pressentiam a descer as escadas do pátio, esgueiravam-se como ratos a esconderem-se em casa dos vizinhos).

Passadas duas ou três horas, noite escura, lá voltava o Xico funileiro mais cambaleante e rosnão. Aproveitava a energia do vinho, ficava de pé a meio metro da porta e quando o cambaleio o fazia inclinar-se para a frente, acentuava o movimento e com forte cabeçada empurrava a porta caindo ao comprido, meio dentro meio fora.

- Onde estará o filho da puta do candeeiro… ó candeeiro dum cabrão onde estás tu, que puta de casa esta, não se vê nada, olha, olha… o filho da puta do candeeiro já anda… anda cá, nem está aceso nem apagado, e tem pernas o filho da puta… já te agarrei... tzeet... tzeet… cabrões de fósforos também não querem nada… vá lá… acende-te porra… mas que merda… então não acendes… luzinha de merda, estás aos pulos… estás aos pulos, então não querem lá ver, o cabrão do candeeiro está aos pulos comó Benfica, fica lá quieto…. Oh! caralho… o que é isto? Temos bruxas, ó quê… ainda agora vos fui levar e já estão aqui outra vez… suas putas, bruxas dum cabrão, fui a pé e vim a pé e vocês já aqui estão… Vieram de vassoura, pois é, querem vassoura suas bruxas… tomem lá vassourada suas bruxas de merda, tudo p'ra rua, vassouras, tachos, panelas e colchões… ai que me matam… rua… rua, putedo, deixem-me descansar, bruxas do diabo! (83) E enquanto durasse o "pitróleo", não parava a "representação" do Xico Porto.

Quando por fim caía por si aos pés de Morfeu, passada a tempestade, terminada a função da noite, a prole lá juntava tudo quanto tinha sido jogado porta fora e cada qual podia finalmente adormecer.

O texto das representações era pouco variado. A duração dependia da quantidade de tinto ingerida, mas… justiça lhe seja feita, durasse o tempo que durasse, sete da manhã, o Xico Porto subia a escada do Pátio com a sua caixa de funileiro ambulante pronta para remendar tachos e panelas.


 

 

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