O
PORTO FUNILEIRO
In ANDANÇAS PARA A LIBERDADE. Camilo Mortágua, 2009,
Ed. Esfera do Caos, Capítulo segundo, 19,
pp. 81-83
página
(81)
"O
dia-a-dia da família - eu, meus pais e minhas duas irmãs,
vivendo em dois compartimentos de alguns nove metros quadrados cada
- exercia sobre nós pressões contraditórias
mas intensas. A exagerada densidade demográfica do nosso
espaço habitável impelia por um lado uma exagerada
intimidade física provocadora de atritos comportamentais
e, por outro, exigia uma grande coesão sem a qual a vida
se tornava impossível.
19.
O "Porto funileiro"
Num
cubículo debaixo da escada, espaço escuro sem janelas
nem divisórias, esparramados aleatoriamente pelo chão,
viviam o Xico Porto, sua mulher e cinco filhos, três raparigas
e dois rapazes, todos menores; ali aconteciam, quase todas as noites
e às vezes durante algumas matinées, ou até
em sessões contínuas, as "revistas à portuguesa"
lá do Pátio. Eram uma espécie de "novelas
radiofónicas em (82) vernáculo vinícola"
que, de tão repetidas, deixaram de ser a grande diversão
do pátio para se transformarem em mais um motivo da nossa
vergonha!
Invariavelmente,
quando o Porto descia as escadas do pátio com a sua caixa
de funileiro às costas a roçar pelo corrimão,
ia começar a função:
-
Suas putas
olhem-me estas putas todas a engordar
vão
trabalhar, fora daqui suas putas, fora! Desde manhã a calcorrear
com os tachos e panelas às costas e estas putas aqui, sem
fazer nada à espera do meu dinheirinho
não levam
nada suas putas
vá, p'ra rua
vão lá
p'ra madrinha
tudo na minha frente e a toque de caixa
ran, pan, pan (o Xico tocava na caixa de funileiro o ritmo da marcha
que queria impor a caminho da "Madrinha" ou "Madama",
como dizia por vezes em dias de maior inspiração)
toca a andar, tudo na minha frente a saltar, suas galdérias
(nunca se referia aos filhos, porque estes, quando o pressentiam
a descer as escadas do pátio, esgueiravam-se como ratos a
esconderem-se em casa dos vizinhos).
Passadas
duas ou três horas, noite escura, lá voltava o Xico
funileiro mais cambaleante e rosnão. Aproveitava a energia
do vinho, ficava de pé a meio metro da porta e quando o cambaleio
o fazia inclinar-se para a frente, acentuava o movimento e com forte
cabeçada empurrava a porta caindo ao comprido, meio dentro
meio fora.
-
Onde estará o filho da puta do candeeiro
ó candeeiro
dum cabrão onde estás tu, que puta de casa esta, não
se vê nada, olha, olha
o filho da puta do candeeiro
já anda
anda cá, nem está aceso nem apagado,
e tem pernas o filho da puta
já te agarrei... tzeet...
tzeet
cabrões de fósforos também não
querem nada
vá lá
acende-te porra
mas que merda
então não acendes
luzinha
de merda, estás aos pulos
estás aos pulos, então
não querem lá ver, o cabrão do candeeiro está
aos pulos comó Benfica, fica lá quieto
. Oh!
caralho
o que é isto? Temos bruxas, ó quê
ainda agora vos fui levar e já estão aqui outra vez
suas putas, bruxas dum cabrão, fui a pé e vim a pé
e vocês já aqui estão
Vieram de vassoura,
pois é, querem vassoura suas bruxas
tomem lá
vassourada suas bruxas de merda, tudo p'ra rua, vassouras, tachos,
panelas e colchões
ai que me matam
rua
rua, putedo, deixem-me descansar, bruxas do diabo! (83) E enquanto
durasse o "pitróleo", não parava a "representação"
do Xico Porto.
Quando
por fim caía por si aos pés de Morfeu, passada a tempestade,
terminada a função da noite, a prole lá juntava
tudo quanto tinha sido jogado porta fora e cada qual podia finalmente
adormecer.
O
texto das representações era pouco variado. A duração
dependia da quantidade de tinto ingerida, mas
justiça
lhe seja feita, durasse o tempo que durasse, sete da manhã,
o Xico Porto subia a escada do Pátio com a sua caixa de funileiro
ambulante pronta para remendar tachos e panelas.


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