CAMILO MORTÁGUA
ANDANÇAS para a LIBERDADE -
VOLUME I 1934 - 1961


uma APRESENTAÇÃO por JORAGA
um Cigano Castanho vindo da Serra da Estrela

 

contacto © joraga ®


DE MOTO PELA AMÉRICA DO SUL

"Três anos após a chegada… (1954? C. 20 anos!) riqueza nem vê-la, e projectos aliciantes e fiáveis para o futuro também não… aqui começa a impor-se-me a ideia de assumir ser "um emigrante falhado"! p. 128...

Capítulo quarto, 43. De lambreta pela América do Sul, p. 128

(Ver Viagem CHE e Alberto Granado - 1952 - 24 anos?)

43. De lambreta pela América do Sul

"Agora ando de lambreta… passeio por Caracas nas horas que posso… os conterrâ-neos já começam a abanar a cabeça cada vez que me vêem passar, como quem diz: "aquele está perdido, rapazes novos não têm juízo, perdem-se por cá, é o que é". Lá para a sua maneira de pensar e ver as coisas, têm razão. Eu é que não vou por aí!
Sou muito novo e o mundo é grande.

Assim pensando… outro projecto nasce. Propor ao representante das motorizadas lambreta, na Venezuela, uma viagem de promoção da motorizada, de Caracas ao Rio de Janeiro, através da América do Sul.
Para o efeito, convido mais dois compatriotas, colegas padeiros, para a grande viagem, cerca de vinte e dois mil quilómetros.

A fábrica de Itália autoriza o representante local a apoiar a iniciativa e começam as negociações para definir condições e itinerários:
Caracas, Maracay, Valência, Barquisimeto, Guanare, Mérida e S. Cristobal, na Venezuela; Cucuta, Bucaramanga, Bogotá, Arménia, Tulua, Cali, Popayan, Pasto, na Colômbia; Ibarra, Quito, Guayquil, Cajamarca, Arequipa, no Equador; Arica, Sta. Maria de Iquique, Santiago, Cristo de los Andes, no Chile; e daí, atravessando a cordilheira, até Bariloche, Buenos Aires, Montevideo, Rio Grande do Sul, S. Paulo e Rio de Janeiro.

Tínhamos chegado a um acordo. As lambretas dos outros dois participantes seriam oferecidas pela fábrica, eu viajaria com a minha, que ainda estava pagando, sen-do-me oferecido o restante. As despesas de viagem seriam integralmente suporta-das pelo representante da marca em Caracas e, se chegássemos até 31 de Dezembro desse ano ao Rio de Janeiro, recebíamos um prémio de vinte mil dólares.

Pouco tempo antes da data escolhida para a partida, salvo erro 10 de Outubro, os companheiros desistiram!

A viagem seria feita por mim, mais um jovem venezuelano de dezanove anos, Felipe Muñoz Mendoza de seu nome, e um mecânico italiano a trabalhar para o representante nas oficinas da marca em Caracas, chamado Marcelo Tomaricchio
A viagem foi adoptada oficialmente pelo Instituto Venezuelano da Juventude e dos Desportos, presidido pelo Almirante Wolfgang Larrazabal (que viria a ser mais tar-de o Presidente da Junta de Governo na sequência do derrube do ditador Pérez Gimenez), como "embaixada de saudação da Juventude da Venezuela às Juventu-des dos países visitados". Foram-nos dadas credenciais e mensagens oficiais a entregar aos organismos desportivos nacionais dos outros países, o que significou sermos recebidos em festa e por grande número de jovens e autoridades oficiais em cada cidade e país por onde passámos.

Mapa do plano previsto pelo TRIO:
Camilo Mortágua... mais um jovem venezuelano de dezanove anos, Felipe Muñoz Mendoza de seu nome, e um mecânico italiano a trabalhar para o representante nas oficinas da marca em Caracas, chamado Marcelo Tomaricchio...


Gráfico trabalhado por Diana e Sérgio Bettencourt

DE MOTO PELA AMÉRICA DO SUL
Ernesto Che Guevara


O livro que inspirou o filme "Diários de Motocicleta", de Walter Salles
Elaborado por Ernesto Che Guevara, em forma narrativa, graças às suas anotações detalhadas, é o relato da viagem feita por Che e o seu amigo Alberto Granado, desde Argentina até a Venezuela, em 1952.
Aventura e emoção entremeadas de reflexões sobre múltiplos aspectos da América, a miséria dos índios, o espanto de conhecer o mar, o mundo percebido pelos olhos de um jovem de 23 anos, disposto à surpresa e à compaixão, mas também querendo descobrir sua verdadeira vocação, aproveitar a vida, enamorar-se verdadeiramente.

Tudo isso enquanto a moto segue pelas estradas poeirentas e arriscadas, perdendo peças pelo caminho, provocando tombos e episódios tragicômicos. Esta edição traz também um roteiro detalhado da viagem cartas, mapas e fotos tiradas pelo próprio Che, além de um resumo biográfico. A vida de Ernesto Che Guevara (1928-1967) e sua experiência político-revolucionária são do conhecimento de todos.Menos conhe-cida é sua juventude - seus pensamentos e aventuras desta época, apresentados neste livro. Sem dúvida, um capítulo fundamental para a compreeensão de sua figura. O companheiro de andanças de Che, Alberto Granado Jiménez, nasceu em Córdoba, Argentina, em 1922. Em 1948, depois de anos de militância estudantil e de uma temporada na prisão, formou-se em Medicina e passou a se dedicar à pes-quisa científica. Depois do triunfo da revolução, reuniu-se a Ernesto em Cuba, onde ocupou posição no Ministério da Saúde. Alberto Granado vive até hoje em Cuba, respeitado por seu trabalho e dedicado política.

"A pessoa que está agora reorganizando e polindo estas mesmas notas, eu, não sou mais, pelo menos não sou o mesmo que era antes. Esse vagar sem rumo pelos caminhos de nossa Maiúscula América me transformou mais do que eu me dei conta. (...) A menos que você conheça as paisagens que eu fotografei em meu diário, será obrigado a aceitar minha versão delas. Agora, eu o deixo em companhia de mim, do homem que eu era..."
Ernesto Che Guevara

Na garupa de uma moto, rumo à desconhecida América, este é o retrato exato do momento em que começa a se formar um mito. E, ao mesmo tempo que descobri-mos indícios do grande revolucionário que iria se revelar, lemos o relato de um jovem como qualquer um de nós: pé na estrada, mochila carregada de sonhos.

In http://atreve-te-a-viver.blogspot.com/2007/12/che-guevara-percorrer-amrica-do-sul-de.html
Che Guevara - Percorrer a América do sul de Mota

"O verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de generosidade; é impossível imaginar um revolucionário autêntico sem esta qualidade"
Che Guevara
A TRANSFORMAÇÃO DA VISÃO DO MUNDO DÁ-SE QUANDO VIAJAMOS...

Em 1952, dois jovens argentinos, Ernesto Guevara e Alberto Granado, partiram numa viagem de estrada para descobrir a verdadeira América Latina. Ernesto era jovem de 23 anos estudante de medicina especialista em leprologia, e Alberto, de 29 anos, era bio-químico. Com um romântico sentido de aventura, os dois amigos deixam os seus confortáveis ambientes familiares em Buenos Aires em cima da motocicleta de Alberto, uma 1939 Norton 500, que recebeu a alcunha "La Poderosa".
Embora a mota se avarie durante a sua jornada, eles continuam com recurso à boleia. Á medida que se afastam cada vez mais da familiar e confortável Buenos Aires, os dois amigos começam a conhecer uma diferente América Latina, através das pessoas que encontram na estrada, ao mesmo tempo que a variada geografia que encontram, de montanhas a desertos, de complacentes ricos a pessoas de pobreza extrema, começa a reflectir as suas próprias perspectivas em mudança. De mineiros sem casa a prostitutas de barco, de vítimas de lepra a pessoas prósperas, Ernesto e Alberto descobrem uma afinidade para a humanidade neles, e uma determinação para mudar o mundo.
Durante a viagem de 8 meses e 10 mil quilómetros, partindo da Argentina, seguindo através dos Andes para o Chile, passando pelo deserto de Ataca-ma para o Peru, em direcção a uma colónia de leprosos, até chegar à Vene-zuela, eles sobem às alturas de Machu Picchu, onde as majestosas ruínas e o extraordinário significado da herança Inca, destruída pelos invasores espanhóis, lhes causa um profundo impacto. Quando chegam à colónia de lepra de San Pablo, localizada nas profundezas da Amazónia peruana, os dois jovens começam a ques-tionar o valor do progresso que é definido por sistemas económicos que deixam tantas pessoas na pobreza extrema e as oprime. As suas experiências na colónia despertam neles os homens que eles irão tornar-se mais tarde, ao definir a jornada política e ética que vão seguir nas suas vidas.
Visitaram minas de cobre, povoações indígenas e leprosarias, interagindo com a população, especialmente os mais pobres. Observaram, interessaram-se por tudo, analisaram a realidade com olho crítico e pensamento profundo. Os oito meses des-sa viagem marcaram as suas vidas.

Saíram dessa viagem chocados com a pobreza e a injustiça social que encontraram ao longo do caminho e identificaram-se com a luta dos camponeses por uma vida melhor. Foi por causa da visão de tanta miséria e impotência e das lutas e sofri-mentos que presenciaram que concluíram que a única maneira de acabar com todas as desigualdades sociais era promovendo mudanças na política administrativa mundial.

O confronto com a realidade social e política da América Latina alterou, assim, a sua percepção que tinha do mundo, despertando novas vocações, associadas ao desejo de justiça social.

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