|
DE MOTO PELA AMÉRICA DO SUL
"Três
anos após a chegada
(1954? C. 20 anos!) riqueza
nem vê-la, e projectos aliciantes e fiáveis para o
futuro também não
aqui começa a impor-se-me
a ideia de assumir ser "um emigrante falhado"! p. 128...
Capítulo
quarto, 43. De lambreta pela América do Sul, p. 128
(Ver Viagem
CHE e Alberto Granado - 1952 - 24 anos?)

43. De lambreta
pela América do Sul
"Agora
ando de lambreta
passeio por Caracas nas horas que posso
os conterrâ-neos já começam a abanar a cabeça
cada vez que me vêem passar, como quem diz: "aquele está
perdido, rapazes novos não têm juízo, perdem-se
por cá, é o que é". Lá para a sua
maneira de pensar e ver as coisas, têm razão. Eu é
que não vou por aí!
Sou muito novo e o mundo é grande.
Assim pensando
outro projecto nasce. Propor ao representante das motorizadas lambreta,
na Venezuela, uma viagem de promoção da motorizada,
de Caracas ao Rio de Janeiro, através da América do
Sul.
Para o efeito, convido mais dois compatriotas, colegas padeiros,
para a grande viagem, cerca de vinte e dois mil quilómetros.
A fábrica de Itália autoriza o representante local
a apoiar a iniciativa e começam as negociações
para definir condições e itinerários:
Caracas, Maracay, Valência, Barquisimeto, Guanare, Mérida
e S. Cristobal, na Venezuela; Cucuta, Bucaramanga, Bogotá,
Arménia, Tulua, Cali, Popayan, Pasto, na Colômbia;
Ibarra, Quito, Guayquil, Cajamarca, Arequipa, no Equador; Arica,
Sta. Maria de Iquique, Santiago, Cristo de los Andes, no Chile;
e daí, atravessando a cordilheira, até Bariloche,
Buenos Aires, Montevideo, Rio Grande do Sul, S. Paulo e Rio de Janeiro.
Tínhamos chegado a um acordo. As lambretas dos outros dois
participantes seriam oferecidas pela fábrica, eu viajaria
com a minha, que ainda estava pagando, sen-do-me oferecido o restante.
As despesas de viagem seriam integralmente suporta-das pelo representante
da marca em Caracas e, se chegássemos até 31 de Dezembro
desse ano ao Rio de Janeiro, recebíamos um prémio
de vinte mil dólares.
Pouco tempo antes da data escolhida para a partida, salvo erro 10
de Outubro, os companheiros desistiram!
A viagem seria feita por mim, mais um jovem venezuelano de dezanove
anos, Felipe Muñoz Mendoza de seu nome, e um mecânico
italiano a trabalhar para o representante nas oficinas da marca
em Caracas, chamado Marcelo Tomaricchio
A viagem foi adoptada oficialmente pelo Instituto Venezuelano da
Juventude e dos Desportos, presidido pelo Almirante Wolfgang Larrazabal
(que viria a ser mais tar-de o Presidente da Junta de Governo na
sequência do derrube do ditador Pérez Gimenez), como
"embaixada de saudação da Juventude da Venezuela
às Juventu-des dos países visitados". Foram-nos
dadas credenciais e mensagens oficiais a entregar aos organismos
desportivos nacionais dos outros países, o que significou
sermos recebidos em festa e por grande número de jovens e
autoridades oficiais em cada cidade e país por onde passámos.
Mapa
do plano previsto pelo TRIO:
Camilo Mortágua... mais um jovem venezuelano de dezanove
anos, Felipe Muñoz Mendoza de seu nome, e um mecânico
italiano a trabalhar para o representante nas oficinas da marca
em Caracas, chamado Marcelo Tomaricchio...

Gráfico
trabalhado por Diana e Sérgio Bettencourt
DE
MOTO PELA AMÉRICA DO SUL
Ernesto Che Guevara

O livro que inspirou o filme "Diários de Motocicleta",
de Walter Salles
Elaborado por Ernesto Che Guevara, em forma narrativa, graças
às suas anotações detalhadas, é o relato
da viagem feita por Che e o seu amigo Alberto Granado, desde Argentina
até a Venezuela, em 1952.
Aventura e emoção entremeadas de reflexões
sobre múltiplos aspectos da América, a miséria
dos índios, o espanto de conhecer o mar, o mundo percebido
pelos olhos de um jovem de 23 anos, disposto à surpresa e
à compaixão, mas também querendo descobrir
sua verdadeira vocação, aproveitar a vida, enamorar-se
verdadeiramente.
Tudo
isso enquanto a moto segue pelas estradas poeirentas e arriscadas,
perdendo peças pelo caminho, provocando tombos e episódios
tragicômicos. Esta edição traz também
um roteiro detalhado da viagem cartas, mapas e fotos tiradas pelo
próprio Che, além de um resumo biográfico.
A vida de Ernesto Che Guevara (1928-1967) e sua experiência
político-revolucionária são do conhecimento
de todos.Menos conhe-cida é sua juventude - seus pensamentos
e aventuras desta época, apresentados neste livro. Sem dúvida,
um capítulo fundamental para a compreeensão de sua
figura. O companheiro de andanças de Che, Alberto Granado
Jiménez, nasceu em Córdoba, Argentina, em 1922. Em
1948, depois de anos de militância estudantil e de uma temporada
na prisão, formou-se em Medicina e passou a se dedicar à
pes-quisa científica. Depois do triunfo da revolução,
reuniu-se a Ernesto em Cuba, onde ocupou posição no
Ministério da Saúde. Alberto Granado vive até
hoje em Cuba, respeitado por seu trabalho e dedicado política.
"A
pessoa que está agora reorganizando e polindo estas mesmas
notas, eu, não sou mais, pelo menos não sou o mesmo
que era antes. Esse vagar sem rumo pelos caminhos de nossa Maiúscula
América me transformou mais do que eu me dei conta. (...)
A menos que você conheça as paisagens que eu fotografei
em meu diário, será obrigado a aceitar minha versão
delas. Agora, eu o deixo em companhia de mim, do homem que eu era..."
Ernesto Che Guevara
Na
garupa de uma moto, rumo à desconhecida América, este
é o retrato exato do momento em que começa a se formar
um mito. E, ao mesmo tempo que descobri-mos indícios do grande
revolucionário que iria se revelar, lemos o relato de um
jovem como qualquer um de nós: pé na estrada, mochila
carregada de sonhos.
In http://atreve-te-a-viver.blogspot.com/2007/12/che-guevara-percorrer-amrica-do-sul-de.html
Che Guevara - Percorrer a América do sul de Mota
"O verdadeiro
revolucionário é guiado por grandes sentimentos de
generosidade; é impossível imaginar um revolucionário
autêntico sem esta qualidade"
Che Guevara
A TRANSFORMAÇÃO DA VISÃO DO MUNDO DÁ-SE
QUANDO VIAJAMOS...

Em 1952, dois
jovens argentinos, Ernesto Guevara e Alberto Granado, partiram numa
viagem de estrada para descobrir a verdadeira América Latina.
Ernesto era jovem de 23 anos estudante de medicina especialista
em leprologia, e Alberto, de 29 anos, era bio-químico. Com
um romântico sentido de aventura, os dois amigos deixam os
seus confortáveis ambientes familiares em Buenos Aires em
cima da motocicleta de Alberto, uma 1939 Norton 500, que recebeu
a alcunha "La Poderosa".
Embora a mota se avarie durante a sua jornada, eles continuam com
recurso à boleia. Á medida que se afastam cada vez
mais da familiar e confortável Buenos Aires, os dois amigos
começam a conhecer uma diferente América Latina, através
das pessoas que encontram na estrada, ao mesmo tempo que a variada
geografia que encontram, de montanhas a desertos, de complacentes
ricos a pessoas de pobreza extrema, começa a reflectir as
suas próprias perspectivas em mudança. De mineiros
sem casa a prostitutas de barco, de vítimas de lepra a pessoas
prósperas, Ernesto e Alberto descobrem uma afinidade para
a humanidade neles, e uma determinação para mudar
o mundo.
Durante a viagem de 8 meses e 10 mil quilómetros, partindo
da Argentina, seguindo através dos Andes para o Chile, passando
pelo deserto de Ataca-ma para o Peru, em direcção
a uma colónia de leprosos, até chegar à Vene-zuela,
eles sobem às alturas de Machu Picchu, onde as majestosas
ruínas e o extraordinário significado da herança
Inca, destruída pelos invasores espanhóis, lhes causa
um profundo impacto. Quando chegam à colónia de lepra
de San Pablo, localizada nas profundezas da Amazónia peruana,
os dois jovens começam a ques-tionar o valor do progresso
que é definido por sistemas económicos que deixam
tantas pessoas na pobreza extrema e as oprime. As suas experiências
na colónia despertam neles os homens que eles irão
tornar-se mais tarde, ao definir a jornada política e ética
que vão seguir nas suas vidas.
Visitaram minas de cobre, povoações indígenas
e leprosarias, interagindo com a população, especialmente
os mais pobres. Observaram, interessaram-se por tudo, analisaram
a realidade com olho crítico e pensamento profundo. Os oito
meses des-sa viagem marcaram as suas vidas.
Saíram
dessa viagem chocados com a pobreza e a injustiça social
que encontraram ao longo do caminho e identificaram-se com a luta
dos camponeses por uma vida melhor. Foi por causa da visão
de tanta miséria e impotência e das lutas e sofri-mentos
que presenciaram que concluíram que a única maneira
de acabar com todas as desigualdades sociais era promovendo mudanças
na política administrativa mundial.
O confronto
com a realidade social e política da América Latina
alterou, assim, a sua percepção que tinha do mundo,
despertando novas vocações, associadas ao desejo de
justiça social.
|