CAMILO MORTÁGUA
ANDANÇAS para a LIBERDADE -
VOLUME I 1934 - 1961


uma APRESENTAÇÃO por JORAGA
um Cigano Castanho vindo da Serra da Estrela

 

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Documentos vários de apoio

 

CARTAde14 de Março de 2008
após envio das primeiras 50 páginas...das ANDANÇAS para a LIBERDADE que se intitulava: Peregrino ou Alquimista da UTOPIA...

José Rabaça Gaspar
Corroios, 14 de Março de 2008

Camilo:

Li umas vinte páginas e não sei se tenho estaleca para continuar… Se e quando continuar e acabar, vou dizer mais.

Ora, afinal, até que enfim!!! Aí está.

Primeiro quero pedir mil perdões por ter esquecido esta preciosidade no meio das mensagens que requeem mais atenção e ficam para ver depois… e depois há sempre uma imensidade de coisas que nos impede de as ir procurar…

Ora, afinal, até que enfim, e aí está, 33 anos depois, aquilo que em 1975/76 parecia urgente e importante.

Era preciso contar por escrito aquelas aventuras com que magicamente nos enredavas naqueles serões povoados da cantigas populares e revolucionárias no Salão Nobre da Torre Bela… a contar as aventuras do façanhudo assaltante do Santa Maria que até tratava os sequestrados com uma humanidade desconcertante a contradizer os ares de barbudo terrorista… ou as do cuidado em atar o guarda mijado de medo do aeródromo da Figueira da Foz depois de dar o biberão ao bebé… ou aventuras da volta à américa doSul em duas rodas que ficou só para o Alberto e para o Ernesto, que por processo alquímico se tansformou em "Che"!!!…

Perante um sábio com uma lábia capaz de meter no bolso a conversa de qualquer catedrático, eu, como dei conta mais dois ou três com ares de quem sabia escrever bem propuseram - conta aí que a gente escreve a tua história… e tu lá te safavas dizendo que ainda não era tempo.

Claro que já nessa altura se advinhava que devia sair daí caça grossa!

Até que enfim. Aí está o princípio e não sei se já vai no fim…

Um Mestre que tem a ousadia de pedir aos aprendizes de contar, a opinião sobre aquilo que sabe fazer como poucos, revela talvez uma falsa humildade ou insegurança, ou talvez não, porque pode revelar simplesmente a estatura que tem na realidade.

Isto que li até aqui, digo eu cheio de inveja da Mestria do Mestre nesta Arte de Contar, é um autêntico Furacão na Literatura dos que têm a mania que escrevem…

Isto, digo eu, não é um livro para se ler.

É um Livro para ouvir e ver. É um livro para ser OuVisto.

É preciso inventar uma palavra nova para os intectuais perceberem, mas o povo desde há muito que a usa apesar do riso pretencioso dos que não percebem nada do que estão a tentar dizer, quando alguém lhes diz: "Eu tenho ouvisto por aí muita coisa, de que nem quero nem falar…" ou "Isto, meu caro amigo, é para ouver…". E como os inteligentes não sabem OUVER, ficam-se pelo riso estúpido de quem chama estúpido a alguém que tentava ajudá-lo a ouvir e ao mesmo tempo ver alguma coisa!!!

Assim, digo eu e passo a traduzir este neologismo velho da idade do mundo do povo, este é um livro para OUVIR e VER!

Neste livro, "o cagarolas do "Batata" que até já tinha sido o "Come-e-cala"… e que até antes de mais já tinha sido "Nuvem" "a pairar por cima da cabeça da Maria Peixeira (Avó Janarda) nas suas andanças de vender carnes e enchidos pelas ruas e praças das terras vizinhas… aconchegado entre os brancos panos e linho na canastra de ir vender o pão…" e depois foi ainda: "Zé-ninguém", "Pé-ligeiro", Zé-entre-Zé", "Manuel", "José", "Carlos" e, finalmente, Camilo Mortágua."; neste livro, ia eu dizendo, o batata, com pouco mais do que a quarta classe do ensino oficial, afora os diversos cursos superiores da Universidade da Vida, oferece, aos olhos de quem o souber LER (OuVendo) personagens e cenas, que aparecem por magia para serem ouvidas e vistas a partir das palavras escritas, orquestradas por uma sinfonia de sons que podem nascer da água a correr das fontes ou ribeiros, ou do canto estouvado dos pássaros, ou no apito do comboio que se aproxima perigosamente, ou pavoroso no roncar do ciclone dos anos quarenta que tudo varria à sua volta e fazia voar as telhas dos telhados dos pobres…, ora, neste livro, como ia dizendo o Mestre Narrador, mesmo sem aviso, vai fazendo sair da sua cartola de mágico uma sucessão de narradores que, falando a linguagem simples e directa do povo "palavras simples de imediatos e claros significados" nos aparecem como Mestres consumados na Arte de Contar com imagens e figuras de estilo que podem deixar de boca aberta qualquer desses literatos especialistas em rebuscar artífícios lietrários para seduzir o leitor.

Aí está, digo eu, o livro que todos gostariam de saber escrever…

Ai, Menino, a minha vida dava um romance… tantas são as coisas que para aí tenho ouvisto e de que nem vale a pena falar… e com isto querem confessar a incapacidade que todos sentimos, como em certo livro nos confessou também Isabel Allende, de que o tempo do falar e do escrever é um tempo diferente do tempo de pensar e até mais do tempo de ver com aquele olho que não se vê e tudo vê nas asas do imaginar em que as cenas da vida nos aprecem num instante ao vivo e a cores com as sensações de todos os sentidos mais dois e depois não sabemos relatar, pois é uma Arte só acessível a predestinados como este.

Quantos de nós, a partir de certa idade, não desejávamos recordar os nomes das coisas e dos lugares e das pessoas e das árvores e dos pássaros e da vida como nos foi aparecendo à medida que aprendíamos ainda quase sem saber falar e onde tudo tinha nome e som primordial e depois, com a "porra" dos estudos, fomos esquecendo e não conseguimos resgatar com a mesma beleza e autenticidade. Parece que isto não aconteceu com o Camilo.

Aí está, finalmente, o livro que alguns de nós pretenciosamente pretendemos escrever por ele, porque ele "coitado" com pouco mais do que a quarta classe, claro que não poderia… e vai daí tínhamos pura e simplesmente ignorado a quantidade acumulada e a qualidade de cursos superiores que foi tirando ao longo da vida e lhe permitem falar para um público pouco ou muito numeroso, tanto faz, sobre assuntos os mais variados e pertinentes da actualidade, em português ou espanhol ou em francês, com a mesma facildade e mestria com que nos conta umas estórias… e o seu estilo colorido e vivo dispensa perfeitamente os apoios audio-visuais sofisticados a que muitos de nós temos de recorrer para sermos minimamente escutados…

Não estou nada a inventar. Eu vi ao vivo, em 74 (ou já 75?), em Frankfurt, num auditório de uma universidade apinhada de estudantes e emigrantes ávidos de saber coisas da Revolução da Abril e onde, além do Camilo e já não sei quem, idos de Portugal, estava o "Puto Alemão do Maio de 68"!!!

O Camilo falava e o tradutor "encartado" traduzia… Não pode ser tão rápido, dizia ele aflito… Só uma ou duas frases para poder traduzir… e pouco a pouco, aquilo estava a descambar para o desinteresse… até que o "Puto" se levantou e propôs… "Si tu peut parler en Français je pourrai faire la traduction... pour tout le monde"…

E então, a vivacidade da narração, que se tinha perdido, emperrada pela dificuldade de uma tradução convencional, ganha de novo asas na electrizante narrativa do narrador e do tradutor que fascianaram a planteia, que não se cansava de aplaudir e perguntar e quere saber mais… Inesquecível… Irrepetível… episódios destes tem o Camilo aos molhos.. ele fala a seguir a uns catedráticos cheios de truques e apoiados em magistrais slide shows refinadamente elaborados e o Camilo, abre a boca, e, sem rede, toda a plateia o segue atentaemente em qualquer parte do mundo ou em qualquer língua… Talvez como a músca e o canto, o Camilo aprendeu uma linguagem Universal…

Aí fica a minha vingança contra o Camilo.

Não lhe posso perdoar o insulto de se atrever a colocar o PÃO antes da cultura, nos anos da Revolução… Estava eu orgulhoso de ter arrancado uns contos de réis ao Ministério da Cultura para investir na Alfabetização de que me julgava mestre, quando o Camilo e o Herculano imrrompem pelo meu quarto e me dizem que aquele dinheiro era preciso e urgente para as sementeiras e, sementeiras colhidas e vendidas dariam depois para aalfabetização!!! Claro que nunca deram… mas era esse o caminho…

Impertigado e cheio de vaidade pela publicação de uma dúzia de livros que não vendiam, deixei um molho de livros no seu escritório para saber ao menos a sua opinião sobre a mina arte!!! Já lá vão una anos. Mesmo sem tenções de desistir, creio que, com esta, fiquei curado.

Um abraço.

Como aprendiz, só me resta render-me perante a Mestria do Mestre e continuar no meu passo a escrever o que sei, como sou capaz.

Corroios, 14 de Março de 2008

José Rabaça Gaspar

Notas: Logo que tenha tempo de ler tudo vou anotar os erros ou falhas que encontrar…
- por exemplo os sinais de pontuação logo a seguir à última letra… os travessões longos e curtos no sítio… as expressões entre parentesis ligadas logo às meias luas… etc…
- Aponta também ideias para uma edição como me ensinaram na e-libro do tipo de letra e espaços entre linhas…
Logo mando.

 

UTOPIA

O que é utopia? - houaiss
Dom, 16 de Novembro de 2008 16:45 Rodrigo Travitzki Em busca da democracia

Há muitas definições por aí. "Lugar que não existe", "ideal", etc.

Vamos chamar o "pai dos burros" para dar uma base mais sólida ao trabalho Utopia e cotidiano: buscando prá-ticas idealistas ou a quem quer que esteja interessado.

Segundo o Houaiss, utopia é:

1 qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade

2 Derivação: por extensão de sentido.
projeto de natureza irrealizável; idéia generosa, porém impraticável; quimera, fantasia

3 Rubrica: filosofia, política, sociologia.
no marxismo, modelo abstrato e imaginário de sociedade ideal, concebido como crítica à organização social existente, porém inexeqüível por não estar vinculado às condições políticas e econômicas da realidade concreta
Obs.: cf. socialismo utópico

4 Rubrica: filosofia, política, sociologia.
em sociólogos como Karl Mannheim (1893-1947) ou filósofos como Ernst Bloch (1885-1977), projeto alternativo de organização social capaz de indicar potencialidades realizáveis e concretas em uma determinada ordem política constituída, contribuindo desta maneira para sua transformação

ETIMOLOGIA
Do latim utopia, nome dado por Thomas Morus (humanista inglês, 1477-1535) a uma ilha imaginária, com um sistema sociopolítico ideal;
formado com o grego ou- (do adv. de negação) + gr. tópos, ou 'lugar';

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Utopia (II) -

Utopia (substantivo feminino)

1. projecto de governo que, a ser exequível, asseguraria a felicidade geral;

2. projecto imaginário, irreal;
(Do gr. oü, "não" +tópos, "lugar", pelo lat. Utopìa-, "utopia, lugar que não existe")

quimera (substantivo feminino )

1. MITOLOGIA monstro lendário, com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dra-gão;

2. figurado fantasia; ilusão; utopia;

3. figurado absurdo;

4. BOTÂNICA organismo vegetal, misto, constituído por tecidos diferentes;

5. ICTIOLOGIA designação (por aportuguesamento da designação científica do género Chimaera) dos peixes holocéfalos, de corpo alongado, mais vulgarmente conhecidos por papagaio-do-mar, peixe-rato e rato;

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UTOPIA - (Do gr. khímaira, "monstro fabuloso", pelo lat. Chimaera-, "id.")

A propósito dos comentários ao post anterior.
Sem querer desculpar a minha ignorância congénita por só ter descoberto a palavra uto-pia com uma dúzia de anos, gostaria de chamar a atenção para as definições acima de um dicionário on-line acabadinho de consultar. Admito, não levantei o meu traseiro do sofá para ir consultar os dicionários em papel que tenho cá por casa, mas sendo esta edi-ção on-line da Porto Editora, julgo poder usá-la como referência.

Da génese grega da palavra temos o seu significado original - não lugar ou o lugar que não existe. Não existindo, de que forma é que essa não existência poderia melhorar de algum modo a vida que vivemos. Como um objectivo inatingível mas que serviria como um íman dos nossos percursos. E se a memória não me falha, que nem a história nem a filosofia são matérias que domine, o segundo sentido de utopia, como o lugar da felici-dade, é um conceito que surge no século XIX em Inglaterra e em França, ligado aos movimentos sociais. Saint-Simon, Robert Owen e Charles Fourier ficaram conhecidos por socialistas utópicos. Em comum, uma ideia de que era possível organizar a vivência humana, o espaço e as formas de produção de uma forma mais justa e equitativa para todos. E em comum também o facto de nenhum deles ter vingado …

A utopia, se atingida, necessariamente seria um não movimento…

Mas a ideia subjacente a este texto é outra bem diferente, é que a quimera de um mundo melhor, a utopia, esse lugar ideal que não existe é o que nos inspira a caminhar. Chegar lá não é o importante, o importante é o percurso que se faz. E o percurso só se faz por-que existem ideais a atingir, ou a procurar atingir.

E podem continuar a puxar-me as orelhas … existem muitas coisas que descobri muito tarde, outras cedo demais, mas é do somatório dessas experiências, desses erros, das ignorâncias, das pretensas sabedorias, dos sofrimentos, das alegrias, dos debates mais ou menos acessos, que eu me fiz quem sou, por isso não me envergonho de só ter des-coberto a palavra utopia com 12 anos.
Publicado por Maria às Junho 23, 2004 01:11 AM

Comentários
Eu tinha mais de doze anos, e mesmo assim descobri o termo e comecei a aprender o sentido de "Utopia" muito cedo.
Quem viveu e cresceu antes do 25 de Abril que avalie, ou que avalie que tiver senso para tal.

Tal como tu, li o livro "Projecto e Utopia". Obrigatório para algumas cadeiras na Uni-versidade.

Já agora. Não me envergonho das datas das minhas descobertas. Foram quando foram, e ainda bem que existem.
Utopia 1...
2...
3...
4 - "...projecto alternativo de organização social capaz de indicar potencialidades realizáveis e concretas numa determinada ordem política constituída, contribuindo desta maneira para a sua transfor-mação."

 

INTRÓITO
(Frases para escolher a que saíu na conta Capa)

As 3 FRASES pedidas pelo Camilo para a APRESENTAÇÃO… do "leitor atento e preocupado" José Rabaça Gaspar, escolhido para a APRESENTAÇÃO do dia 17 de Abril de 2009, na Biblioteca Museu da Resistência, em Lisboa.

A TRILOGIA ou as 3 ideias CHAVE para a apresentação de "ANDANÇAS I" que, estou convencido vão continuar em ANDANÇAS II e ANDANÇAS III.

Estas "ANDANÇAS I" de Camilo Mortágua, (do nascimento, 1934 - ao assalto ao Santa Maria 1961) para além de uma visão global da época da Ditadura Salazarista, remetem-nos, na sua forma de escrever, para além de outras, para TRÊS VALÊNCIAS (3Ms), que considero de especial relevância:

1. A Metáfora da RAÍZES: não há CULTURA válida, sem ligação às ORIGENS...
2. A Mestria da ARTE de CONTAR: pelo "visualismo" e "oralidade" traduzidos na escrita…
3. O Mito das UTOPIAS que, de impossíveis e irrealizáveis, se tornam possíveis e realizáveis…

Estou convencido que OBAMA se inspirou nesta saga do Camilo, ou podemos admitir que o percurso de ambos, considerada a sua relativa dimensão, é resultado de vivências paralelas que os levaram a uma tomada de consciência que os impeliram para a UTOPIA… para inventarem em cada "crise" as soluções realizáveis!!!

OUTRA

Estas "ANDANÇAS I" de Camilo Mortágua, superiormente "vigiado" por uma esquisitíssima e complexa TRINDADE (o Come-e-Cala + o Batata + o Zé Ninguém) que por vezes são mais), aquilo que ele chama o seu CAAC e se envolviam em dramáticos diálogos existenciais e donde saía a decisão o mais lúcida e realizável, de acordo com os "apertos" em que se via envolvido…

Uma escrita de um autor onde aparecem estes e outros vários narradores proporcionam uma leitura viva onde podemos LER-OUVER-SABOREAR três "Ms": 1 - a Metáfora das Raízes; 2 - a Mestria da Arte de Contar, devido ao visualismo e oralidade escrita; 3 - o Mito das UTOPIAS onde cai o "im" imPOSSÍVEL.

(Pistas de leitura de um leitor minimamente atento: José Rabaça Gaspar

 

Álvaro de Campos
Lisbon Revisited
(l923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul - o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *


* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

 

Álvaro de Campos

Escrito Num Livro Abandonado em Viagem

Venho dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.
Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram.

 

Notas: Fernando Pessoa - Heterónimos mais conhecidos:

Álvaro de Campos - o engenheiro…
Alberto Caeiro - o guardador de rebanhos… que nunca guardou rebanhos…
Ricardo Reis - o clássico…

Bernardo soares…

 

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