Documentos
vários de apoio
|
CARTAde14
de Março de 2008
após envio das primeiras 50 páginas...das
ANDANÇAS para a LIBERDADE que se intitulava: Peregrino
ou Alquimista da UTOPIA...

José
Rabaça Gaspar
Corroios, 14 de Março de 2008
Camilo:
Li umas
vinte páginas e não sei se tenho estaleca
para continuar
Se e quando continuar e acabar, vou
dizer mais.
Ora,
afinal, até que enfim!!! Aí está.
Primeiro
quero pedir mil perdões por ter esquecido esta preciosidade
no meio das mensagens que requeem mais atenção
e ficam para ver depois
e depois há sempre
uma imensidade de coisas que nos impede de as ir procurar
Ora,
afinal, até que enfim, e aí está, 33
anos depois, aquilo que em 1975/76 parecia urgente e importante.
Era
preciso contar por escrito aquelas aventuras com que magicamente
nos enredavas naqueles serões povoados da cantigas
populares e revolucionárias no Salão Nobre
da Torre Bela
a contar as aventuras do façanhudo
assaltante do Santa Maria que até tratava os sequestrados
com uma humanidade desconcertante a contradizer os ares
de barbudo terrorista
ou as do cuidado em atar o guarda
mijado de medo do aeródromo da Figueira da Foz depois
de dar o biberão ao bebé
ou aventuras
da volta à américa doSul em duas rodas que
ficou só para o Alberto e para o Ernesto, que por
processo alquímico se tansformou em "Che"!!!
Perante
um sábio com uma lábia capaz de meter no bolso
a conversa de qualquer catedrático, eu, como dei
conta mais dois ou três com ares de quem sabia escrever
bem propuseram - conta aí que a gente escreve a tua
história
e tu lá te safavas dizendo
que ainda não era tempo.
Claro
que já nessa altura se advinhava que devia sair daí
caça grossa!
Até
que enfim. Aí está o princípio e não
sei se já vai no fim
Um Mestre
que tem a ousadia de pedir aos aprendizes de contar, a opinião
sobre aquilo que sabe fazer como poucos, revela talvez uma
falsa humildade ou insegurança, ou talvez não,
porque pode revelar simplesmente a estatura que tem na realidade.
Isto
que li até aqui, digo eu cheio de inveja da Mestria
do Mestre nesta Arte de Contar, é um autêntico
Furacão na Literatura dos que têm a mania que
escrevem
Isto,
digo eu, não é um livro para se ler.
É
um Livro para ouvir e ver. É um livro para ser OuVisto.
É
preciso inventar uma palavra nova para os intectuais perceberem,
mas o povo desde há muito que a usa apesar do riso
pretencioso dos que não percebem nada do que estão
a tentar dizer, quando alguém lhes diz: "Eu
tenho ouvisto por aí muita coisa, de que nem quero
nem falar
" ou "Isto, meu caro amigo, é
para ouver
". E como os inteligentes não
sabem OUVER, ficam-se pelo riso estúpido de quem
chama estúpido a alguém que tentava ajudá-lo
a ouvir e ao mesmo tempo ver alguma coisa!!!
Assim,
digo eu e passo a traduzir este neologismo velho da idade
do mundo do povo, este é um livro para OUVIR e VER!
Neste
livro, "o cagarolas do "Batata" que até
já tinha sido o "Come-e-cala"
e que
até antes de mais já tinha sido "Nuvem"
"a pairar por cima da cabeça da Maria Peixeira
(Avó Janarda) nas suas andanças de vender
carnes e enchidos pelas ruas e praças das terras
vizinhas
aconchegado entre os brancos panos e linho
na canastra de ir vender o pão
" e depois
foi ainda: "Zé-ninguém", "Pé-ligeiro",
Zé-entre-Zé", "Manuel", "José",
"Carlos" e, finalmente, Camilo Mortágua.";
neste livro, ia eu dizendo, o batata, com pouco mais do
que a quarta classe do ensino oficial, afora os diversos
cursos superiores da Universidade da Vida, oferece, aos
olhos de quem o souber LER (OuVendo) personagens e cenas,
que aparecem por magia para serem ouvidas e vistas a partir
das palavras escritas, orquestradas por uma sinfonia de
sons que podem nascer da água a correr das fontes
ou ribeiros, ou do canto estouvado dos pássaros,
ou no apito do comboio que se aproxima perigosamente, ou
pavoroso no roncar do ciclone dos anos quarenta que tudo
varria à sua volta e fazia voar as telhas dos telhados
dos pobres
, ora, neste livro, como ia dizendo o Mestre
Narrador, mesmo sem aviso, vai fazendo sair da sua cartola
de mágico uma sucessão de narradores que,
falando a linguagem simples e directa do povo "palavras
simples de imediatos e claros significados" nos aparecem
como Mestres consumados na Arte de Contar com imagens e
figuras de estilo que podem deixar de boca aberta qualquer
desses literatos especialistas em rebuscar artífícios
lietrários para seduzir o leitor.
Aí
está, digo eu, o livro que todos gostariam de saber
escrever
Ai,
Menino, a minha vida dava um romance
tantas são
as coisas que para aí tenho ouvisto e de que nem
vale a pena falar
e com isto querem confessar a incapacidade
que todos sentimos, como em certo livro nos confessou também
Isabel Allende, de que o tempo do falar e do escrever é
um tempo diferente do tempo de pensar e até mais
do tempo de ver com aquele olho que não se vê
e tudo vê nas asas do imaginar em que as cenas da
vida nos aprecem num instante ao vivo e a cores com as sensações
de todos os sentidos mais dois e depois não sabemos
relatar, pois é uma Arte só acessível
a predestinados como este.
Quantos
de nós, a partir de certa idade, não desejávamos
recordar os nomes das coisas e dos lugares e das pessoas
e das árvores e dos pássaros e da vida como
nos foi aparecendo à medida que aprendíamos
ainda quase sem saber falar e onde tudo tinha nome e som
primordial e depois, com a "porra" dos estudos,
fomos esquecendo e não conseguimos resgatar com a
mesma beleza e autenticidade. Parece que isto não
aconteceu com o Camilo.
Aí
está, finalmente, o livro que alguns de nós
pretenciosamente pretendemos escrever por ele, porque ele
"coitado" com pouco mais do que a quarta classe,
claro que não poderia
e vai daí tínhamos
pura e simplesmente ignorado a quantidade acumulada e a
qualidade de cursos superiores que foi tirando ao longo
da vida e lhe permitem falar para um público pouco
ou muito numeroso, tanto faz, sobre assuntos os mais variados
e pertinentes da actualidade, em português ou espanhol
ou em francês, com a mesma facildade e mestria com
que nos conta umas estórias
e o seu estilo
colorido e vivo dispensa perfeitamente os apoios audio-visuais
sofisticados a que muitos de nós temos de recorrer
para sermos minimamente escutados
Não
estou nada a inventar. Eu vi ao vivo, em 74 (ou já
75?), em Frankfurt, num auditório de uma universidade
apinhada de estudantes e emigrantes ávidos de saber
coisas da Revolução da Abril e onde, além
do Camilo e já não sei quem, idos de Portugal,
estava o "Puto Alemão do Maio de 68"!!!
O Camilo
falava e o tradutor "encartado" traduzia
Não pode ser tão rápido, dizia ele
aflito
Só uma ou duas frases para poder traduzir
e pouco a pouco, aquilo estava a descambar para o desinteresse
até que o "Puto" se levantou e propôs
"Si tu peut parler en Français je pourrai faire
la traduction... pour tout le monde"
E então,
a vivacidade da narração, que se tinha perdido,
emperrada pela dificuldade de uma tradução
convencional, ganha de novo asas na electrizante narrativa
do narrador e do tradutor que fascianaram a planteia, que
não se cansava de aplaudir e perguntar e quere saber
mais
Inesquecível
Irrepetível
episódios destes tem o Camilo aos molhos.. ele fala
a seguir a uns catedráticos cheios de truques e apoiados
em magistrais slide shows refinadamente elaborados e o Camilo,
abre a boca, e, sem rede, toda a plateia o segue atentaemente
em qualquer parte do mundo ou em qualquer língua
Talvez como a músca e o canto, o Camilo aprendeu
uma linguagem Universal
Aí
fica a minha vingança contra o Camilo.
Não
lhe posso perdoar o insulto de se atrever a colocar o PÃO
antes da cultura, nos anos da Revolução
Estava eu orgulhoso de ter arrancado uns contos de réis
ao Ministério da Cultura para investir na Alfabetização
de que me julgava mestre, quando o Camilo e o Herculano
imrrompem pelo meu quarto e me dizem que aquele dinheiro
era preciso e urgente para as sementeiras e, sementeiras
colhidas e vendidas dariam depois para aalfabetização!!!
Claro que nunca deram
mas era esse o caminho
Impertigado
e cheio de vaidade pela publicação de uma
dúzia de livros que não vendiam, deixei um
molho de livros no seu escritório para saber ao menos
a sua opinião sobre a mina arte!!! Já lá
vão una anos. Mesmo sem tenções de
desistir, creio que, com esta, fiquei curado.
Um abraço.
Como
aprendiz, só me resta render-me perante a Mestria
do Mestre e continuar no meu passo a escrever o que sei,
como sou capaz.
Corroios,
14 de Março de 2008
José
Rabaça Gaspar
Notas:
Logo que tenha tempo de ler tudo vou anotar os erros ou
falhas que encontrar
- por exemplo os sinais de pontuação logo
a seguir à última letra
os travessões
longos e curtos no sítio
as expressões
entre parentesis ligadas logo às meias luas
etc
- Aponta também ideias para uma edição
como me ensinaram na e-libro do tipo de letra e espaços
entre linhas
Logo mando.
|
|
UTOPIA

O
que é utopia? - houaiss
Dom, 16 de Novembro de 2008 16:45 Rodrigo Travitzki Em busca
da democracia
Há
muitas definições por aí. "Lugar
que não existe", "ideal", etc.
Vamos
chamar o "pai dos burros" para dar uma base mais
sólida ao trabalho Utopia e cotidiano: buscando prá-ticas
idealistas ou a quem quer que esteja interessado.
Segundo
o Houaiss, utopia é:
1 qualquer
descrição imaginativa de uma sociedade ideal,
fundamentada em leis justas e em instituições
político-econômicas verdadeiramente comprometidas
com o bem-estar da coletividade
2 Derivação:
por extensão de sentido.
projeto de natureza irrealizável; idéia generosa,
porém impraticável; quimera, fantasia
3 Rubrica:
filosofia, política, sociologia.
no marxismo, modelo abstrato e imaginário de sociedade
ideal, concebido como crítica à organização
social existente, porém inexeqüível por
não estar vinculado às condições
políticas e econômicas da realidade concreta
Obs.: cf. socialismo utópico
4 Rubrica:
filosofia, política, sociologia.
em sociólogos como Karl Mannheim (1893-1947) ou filósofos
como Ernst Bloch (1885-1977), projeto alternativo de organização
social capaz de indicar potencialidades realizáveis
e concretas em uma determinada ordem política constituída,
contribuindo desta maneira para sua transformação
ETIMOLOGIA
Do latim utopia, nome dado por Thomas Morus (humanista inglês,
1477-1535) a uma ilha imaginária, com um sistema
sociopolítico ideal;
formado com o grego ou- (do adv. de negação)
+ gr. tópos, ou 'lugar';
---------------------------------------------------
Utopia
(II) -
Utopia
(substantivo feminino)
1. projecto
de governo que, a ser exequível, asseguraria a felicidade
geral;
2. projecto
imaginário, irreal;
(Do gr. oü, "não" +tópos, "lugar",
pelo lat. Utopìa-, "utopia, lugar que não
existe")
quimera
(substantivo feminino )
1. MITOLOGIA
monstro lendário, com cabeça de leão,
corpo de cabra e cauda de dra-gão;
2. figurado
fantasia; ilusão; utopia;
3. figurado
absurdo;
4. BOTÂNICA
organismo vegetal, misto, constituído por tecidos
diferentes;
5. ICTIOLOGIA
designação (por aportuguesamento da designação
científica do género Chimaera) dos peixes
holocéfalos, de corpo alongado, mais vulgarmente
conhecidos por papagaio-do-mar, peixe-rato e rato;
---------------------------------------------
UTOPIA
- (Do gr. khímaira, "monstro fabuloso",
pelo lat. Chimaera-, "id.")
A propósito
dos comentários ao post anterior.
Sem querer desculpar a minha ignorância congénita
por só ter descoberto a palavra uto-pia com uma dúzia
de anos, gostaria de chamar a atenção para
as definições acima de um dicionário
on-line acabadinho de consultar. Admito, não levantei
o meu traseiro do sofá para ir consultar os dicionários
em papel que tenho cá por casa, mas sendo esta edi-ção
on-line da Porto Editora, julgo poder usá-la como
referência.
Da génese
grega da palavra temos o seu significado original - não
lugar ou o lugar que não existe. Não existindo,
de que forma é que essa não existência
poderia melhorar de algum modo a vida que vivemos. Como
um objectivo inatingível mas que serviria como um
íman dos nossos percursos. E se a memória
não me falha, que nem a história nem a filosofia
são matérias que domine, o segundo sentido
de utopia, como o lugar da felici-dade, é um conceito
que surge no século XIX em Inglaterra e em França,
ligado aos movimentos sociais. Saint-Simon, Robert Owen
e Charles Fourier ficaram conhecidos por socialistas utópicos.
Em comum, uma ideia de que era possível organizar
a vivência humana, o espaço e as formas de
produção de uma forma mais justa e equitativa
para todos. E em comum também o facto de nenhum deles
ter vingado
A utopia,
se atingida, necessariamente seria um não movimento
Mas
a ideia subjacente a este texto é outra bem diferente,
é que a quimera de um mundo melhor, a utopia, esse
lugar ideal que não existe é o que nos inspira
a caminhar. Chegar lá não é o importante,
o importante é o percurso que se faz. E o percurso
só se faz por-que existem ideais a atingir, ou a
procurar atingir.
E podem
continuar a puxar-me as orelhas
existem muitas coisas
que descobri muito tarde, outras cedo demais, mas é
do somatório dessas experiências, desses erros,
das ignorâncias, das pretensas sabedorias, dos sofrimentos,
das alegrias, dos debates mais ou menos acessos, que eu
me fiz quem sou, por isso não me envergonho de só
ter des-coberto a palavra utopia com 12 anos.
Publicado por Maria às Junho 23, 2004 01:11 AM
Comentários
Eu tinha mais de doze anos, e mesmo assim descobri o termo
e comecei a aprender o sentido de "Utopia" muito
cedo.
Quem viveu e cresceu antes do 25 de Abril que avalie, ou
que avalie que tiver senso para tal.
Tal
como tu, li o livro "Projecto e Utopia". Obrigatório
para algumas cadeiras na Uni-versidade.
Já
agora. Não me envergonho das datas das minhas descobertas.
Foram quando foram, e ainda bem que existem.
Utopia 1...
2...
3...
4 - "...projecto alternativo de organização
social capaz de indicar potencialidades realizáveis
e concretas numa determinada ordem política constituída,
contribuindo desta maneira para a sua transfor-mação."
|
|
INTRÓITO
(Frases para escolher a que saíu na conta
Capa)
As 3
FRASES pedidas pelo Camilo para a APRESENTAÇÃO
do "leitor atento e preocupado" José Rabaça
Gaspar, escolhido para a APRESENTAÇÃO do dia
17 de Abril de 2009, na Biblioteca Museu da Resistência,
em Lisboa.
A TRILOGIA
ou as 3 ideias CHAVE para a apresentação de
"ANDANÇAS I" que, estou convencido vão
continuar em ANDANÇAS II e ANDANÇAS III.
Estas
"ANDANÇAS I" de Camilo Mortágua,
(do nascimento, 1934 - ao assalto ao Santa Maria 1961) para
além de uma visão global da época da
Ditadura Salazarista, remetem-nos, na sua forma de escrever,
para além de outras, para TRÊS VALÊNCIAS
(3Ms), que considero de especial relevância:
1.
A Metáfora da RAÍZES: não há
CULTURA válida, sem ligação às
ORIGENS...
2. A Mestria da ARTE de CONTAR: pelo "visualismo"
e "oralidade" traduzidos na escrita
3. O Mito das UTOPIAS que, de impossíveis e irrealizáveis,
se tornam possíveis e realizáveis

Estou
convencido que OBAMA se inspirou nesta saga do Camilo, ou
podemos admitir que o percurso de ambos, considerada a sua
relativa dimensão, é resultado de vivências
paralelas que os levaram a uma tomada de consciência
que os impeliram para a UTOPIA
para inventarem em
cada "crise" as soluções realizáveis!!!
OUTRA
Estas
"ANDANÇAS I" de Camilo Mortágua,
superiormente "vigiado" por uma esquisitíssima
e complexa TRINDADE (o Come-e-Cala + o Batata + o Zé
Ninguém) que por vezes são mais), aquilo que
ele chama o seu CAAC e se envolviam em dramáticos
diálogos existenciais e donde saía a decisão
o mais lúcida e realizável, de acordo com
os "apertos" em que se via envolvido

Uma
escrita de um autor onde aparecem estes e outros vários
narradores proporcionam uma leitura viva onde podemos LER-OUVER-SABOREAR
três "Ms": 1 - a Metáfora das Raízes;
2 - a Mestria da Arte de Contar, devido ao visualismo e
oralidade escrita; 3 - o Mito das UTOPIAS onde cai o "im"
imPOSSÍVEL.

(Pistas
de leitura de um leitor minimamente atento: José
Rabaça Gaspar
|
|
Álvaro
de Campos
Lisbon Revisited
(l923)
NÃO:
Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não
me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não
me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me
daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me
enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)
-
Das ciências, das artes, da civilização
moderna!
Que
mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm
a verdade, guardem-na!
Sou
um técnico, mas tenho técnica só dentro
da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não
me macem, por amor de Deus!
Queriam-me
casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário
de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não
me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser
sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó
céu azul - o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me
em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar
sozinho!
* *
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
|
|
Álvaro
de Campos
Escrito
Num Livro Abandonado em Viagem
Venho
dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.
Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem no passado
nem no futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio
morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram.
|
|
Notas:
Fernando Pessoa - Heterónimos
mais conhecidos:
Álvaro
de Campos - o engenheiro
Alberto Caeiro - o guardador de rebanhos
que nunca
guardou rebanhos
Ricardo Reis - o clássico
Bernardo
soares
|
|