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DÉCIMAS
aleatórias... (ver em crescendo... à medida da partilha...)
DUAS
versões paralelas de uma DÉCIMA, possivelmente do
mesmo autor e dita e recolhida por pessoas diversas...
| - Ao
te escrever estas linhas... São nove de Abril meu
amor... (1918) |
Autor
não identificado, dita e recolhida por diferentes pessoas |
| - ADEUS,
MINHA QUERIDA AMADA |
ANTÓNIO
MIGUEL CARMO, São Matias, Beja, dita pela filha |
| - 9
Décimas - como cartas mandadas da Guerra |
Joaquim
dos Santos Andrade, (o Pai Andrade) 16/11/1892, no sítio
dos Murtais, Moncarapacho, Olhão |
São
nove de Abril meu amor... A nove de Abril
meu amor (1918)
DUAS versões paralelas de uma DÉCIMA,
possivelmente do mesmo autor e dita e recolhida por pessoas diversas...
| A
pedido da professora de Educação Visual, na Escola
Secundária de Rio Maior, (conhecida como a São
- Conceição de Alenquer) no ano lectivo de
1976/77, para que os alunos trouxessem para as aulas Cantares
Populares, o aluno do 7º D, n.º 91 (150) Mário
António Carvalho dos Santos, escreveu na contra capa
do caderno e na primeira folha, tudo seguido, o que ouviu cantar
a Júlia Jejuína da Cruz. Depois de várias
tentativas para decifrar, conseguimos descobrir que era com
certeza uma Décima que a senhora tinha ouvido e decorado
e adaptado à sua maneira. |
In
Compact Disc Artes da Fala, Portel, 1996?, recolha em Santiago
de Rio de Moinhos (Borba/Évora), informante: Lino do
Fado, cantando um texto aprendido, aparece esta quadra de
Décimas, recolhida por Paulo Lima da OFICINA DO PATRIMÓNIO,
Portel, Rua do Álamo, 36, Câmara Municipal de
Portel, 7220 PORTEL, tel. 611334:
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Ao
te escrever estas linhas
Muito chora meu coração
Porque as palavras são minhas
Só as letras as não são.
São
nove de Abril meu amor
triste dia em que ditei
tudo quanto por ti passei
ó minha adorada flor
pedaços da minha dor
fatalidades da vida
não sabes nem adivinhas
quanto padeço querida
estou entre a morte e a vida
ao te escrever estas linhas.
numa
horrorosa batalha
ao fim de tanto cansaço
estou ferido perdi um braço
numa chuva de metralha
adeus meu amor passa bem
que eu por ti fico chorando
pela amizade que te tenho
sempre amor me estás lembrando
todo o meu corpo está sangrando
muito chora meu coração.
olha
leva à minha mãe
muitos beijos e carícias
diz-lhe que estou vivo estou bem
e que de mim tens notícias
depois desengana também
a minha pobre irmãzinha
que lá está coitadinha
e sente como tu sentes
porque és tu que não me mentes
porque as palavras são minhas.
ó
mãe da minha alma
pai do meu coração
por muitos anos que eu viva
não lhes pago a criação
o que em nome de deus começo
em nome de deus acabo
sem dizer seu nome em vão
nesta minha condição
porque as palavras são minhas
só as letras as não são.
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Ao
escrever-te destas linhas
Só chora o meu coração
Que estas palavras são minhas
Só as letras é que não.
A nove de Abril meu amor
E triste dia em que ditei
E tanto que eu cá em ti pensei
Minha adorada flor
Pedaços de minha dor
Oh minha lembrança de Aninhas
Tu não pensas tu nem adivinhas
Oh minha adorada querida
Eu estou entre a morte e a vida
Ao escrever-te destas linhas.
Numa horrorosa batalha
E no fim de um grande cansaço
Olha já cá fui ferido e perdi um braço
Numa chuva de metralha
Vês tu enquanto a nossa esperança falha
Ou por acaso ou por maldição
Já nem sequer possui braço nem mão
Para depois te dar em casamento
Com horror e estremecimento
Só chora o meu coração.
Olha leva à minha mãe
Muitos beijos e carícias
E diz-lhe que tens de mim notícias
Que eu sou vivo e que estou bem
Depois enganas também
Minhas queridas irmãzinhas
Inocentes, coitadinhas
Que sentem como tu sentes
E diz-lhe que não és tu que mentes
Que estas palavras são minhas.
Enquanto tudo esvaece
Trata aí doutro namorado
Porque um pobre inutilizado
Que condições é que oferece
Nosso amor desaparece
Fica comigo a paixão
Recebe ainda como recordação
Ainda mais esta cartinha
Junta às outras que aí tens minhas
Só as letras é que não.
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«A
Primeira Guerra Mundial (também conhecida como Grande
Guerra ou Guerra das Guerras) foi um conflito bélico
mundial ocorrido entre 28 de Julho de 1914 e 11 de Novembro
de 1918.» in http://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_Guerra_Mundial
«A
11 de Novembro de 1918 é assinado o armistício
que põe fim à Primeira Guerra Mundial. Nove
milhões de soldados morreram, quatro grandes impérios
foram destruídos e o panorama geopolítico da
Europa e do Médio Oriente alterou-se para sempre.»
«Sete
mil portugueses perderam a vida na Grande Guerra. Colocado
na Frente Ocidental, na Flandres, França, o Corpo Expedicionário
Português participou na decisiva batalha de La Lys.
A 9 de Abril de 1918, 20 mil homens não conseguiram
travar os 50 mil soldados alemães, naquela que foi
uma das mais sangrentas batalhas da Primeira Guerra Mundial.»
in - http://www.esferadoslivros.pt/livros.php?id_li=%2054
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DÉCIMA
de ANTÓNIO MIGUEL CARMO,
São Matias, Beja que esteve 18 meses, nas linhas de fogo,
da 1ª GRANDE GUERRA MUNDIAL, de 1914/18
Esta
DÉCIMA é de ANTÓNIO MIGUEL CARMO, pai de
D. Antónia Carvalho, São Matias, Beja, e dita
por ela, em 6 de Abril de 1996.
Esteve 18 meses, nas linhas de fogo, da 1ª GRANDE GUERRA
MUNDIAL, de 1914/18.
(?Ver ??) Nasceu em Junho de 1896 (faria 100 anos neste ano
de 1996 ) e faleceu em 25 de Março de 1968.
Talvez tenha sido esta DÉCIMA e outros poemas que ela
recorda, que deixaram à filha esta inclinação
ou vocação para a poesia. |
ADEUS,
MINHA QUERIDA AMADA,
ESCUTA, DÁ-ME ATENÇÃO:
EU CÁ VOU JÁ DE ABALADA
COM PENAS NO CORAÇÃO
Cá
levo uma saudade
Que não a posso deixar.
Não me deixas de lembrar,
Acredita que é verdade.
Não me percas a amizade,
Fica de mim bem lembrada.
Cá te levo retratada
Dentro do meu coração
E aceita um aperto de mão
Adeus, minha querida amada.
Vê
lá, se tens sentimentos,
Ó minha rosa tão querida...
Vou-te dar a despedida.
Acaba-se o nosso bom tempo...
Cá vais no meu pensamento,
Ó minha rosa em botão,
Amor do meu coração...
Já te não posso falar.
Não faço senão chorar,
Escuta, dá-me atenção.
Se
soubesses, meu amor,
A dor que o meu peito sente!
Tu hás-de-me lembrar sempre,
Ó minha branca flor.
Para mim tens todo o valor,
Ó minha doce adorada.
Sempre serás minha amada,
Se eu não chegar a morrer...
E agora é que tem de ser,
Eu cá vou já de abalada.
Com
a esperança de não voltar
De ti me vou despedir,
Mas se ainda tornar a vir,
Eu lá te irei visitar...
Eu desejava falar
Contigo com atenção.
Levo uma grande paixão
Causada a teu respeito
E cá vai, meu leal peito,
Com penas no coração.
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9
Décimas de Joaquim dos Santos Andrade
9
Décimas de Joaquim dos Santos Andrade, (o Pai Andrade)
16/11/1892, no sítio dos Murtais, Moncarapacho, Olhão,
morreu em Lisboa, 02/08/1971
in HISTÓRIA DE PORTUGAL DOS TEMPOS PRÉ HISTÓRICOS
AOS NOSSOS DIAS, Dir. de João Medina, Clube Internacional
do Livro, Edição e Comércio de Livros e
Crédito Lda., 1995, Vol. XI, REPÚBLICA II, pp.
297 - 302, com breve biografia e notas de JM (João Medina).
Temos aqui a visão da guerra por um cabo miliciano que
era poeta, ou, por isso mesmo, a visão que uma geração
teve de uma guerra? Ainda por cima a visão daqueles que
não tiveram medalhas nem ficaram na História! |
01
- Joaquim dos Santos Andrade
ADEUS
PORTUGAL
Adeus
gente de Moncarapacho
Adeus concelho de Olhão
Adeus distrito de Faro
Meu Algarve do coração!
1
Adeus casa onde nasci
Adeus mãe que me criou;
Adeus pai que trabalhou
Sempre tanto para mim!
Adeus mulher que eu amei
À beirinha do riacho;
Hoje eu contigo me acho
Amanhã, sozinha estais
Adeus sítios dos Murtais
Adeus gente de Moncarapacho!
2
Adeus minha vizinhança,
Até que um dia, afinal,
Eu regresse a Portugal
Tenho nisso muita esperança
Isto é apenas mudança,
Não comovam o coração;
Tenho dever e obrigação
Como português de raiz,
De honrar o meu país;
Adeus concelho de Olhão!...
3
Vou a França combater
As forças desencadeadas,
* Vamos todos camaradas,
Liberdade defender!
Eu também desejo ser
Dos heróis de Santo Amaro.
Meu sentimento é tão raro
Que até choro de alegria
E dizendo: * Até um dia,
Adeus distrito de Faro!...
4
Adeus fértil lavradio
Das terras à beira-mar,
Onde eu ia passear
Numa lanchinha no rio;
Com as ondas ao desafio
Cantando a minha canção
Nas quentes noites do Verão!
Mas quando a guerra acabar
Eu a ti hei-de voltar
Meu Algarve do coração!...
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02
- Joaquim dos Santos Andrade
AOS
ALTOS SENHORES DOS ESTADOS
Se
quereis saber o que custa a guerra
Altos Senhores dos Estados;
Venham passar um Inverno
Nas trincheiras dos soldados...
1
Venham fazer a memória
Na luta contra os canhões;
Não é metido nos salões
Que se deixa nome na história.
Só quem luta merece glória,
Não é quem em casa berra;
Esses senhores da Terra
Que arquitectam a luta
Venham patrulhar de escuta
Se quereis saber o que custa a guerra!
2
Esses grandes imperadores
Da Alemanha, Guilherme Segundo;
Dizem que é de todo o mundo
O mais herói dos lutadores;
Vinde mostrar esses valores
Junto dos vossos soldados.
Se quereis galões dourados
Ganhai-os pelo trabalho,
Passando frio sob orvalho,
Altos Senhores dos Estados!
3
Comei um quarto de pão
Tal como eu , todos os dias;
Saiam dessas regalias
Que ganhásteis sem razão.
Formai lestos um pelotão
Fazei o exercício moderno;
Com ar altivo e paterno
Ide já para as primeiras linhas;
Com as roupas iguais às minhas,
Venham passar um Inverno!
4
As medalhas que trazeis pendidas
São minhas e dos camaradas;
Não queiram honras achadas
À conta das nossas vidas!
Essas pensões garantidas
Pertencem aos desgraçados.
Seriam por mim louvados
Se fizessem o que eu faço
Lutando de braço a braço,
Nas trincheiras com soldados!...
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03
- Joaquim dos Santos Andrade
COMBATENDO
OS PIOLHOS
Tenho
uma divisão de piolhos
Já estou pronto a combater
No dia da ofensiva
É que se há-de poder ver!
1
Para guardar a fronteira
Tenho as baterias postas
E no meio das minhas costas
Estão abrindo uma trincheira.
É soldadesca guerreira
E gordos como repolhos,
Mas é só abrir-lhes os olhos
Marcham com grande disciplina
De espingarda e carabina
Tenho uma divisão de piolhos!...
2
Quartel-General, a camisa
Ceroulas, campo de instrução;
A camisola o barracão
Onde o plano se realiza!
Já mandei pedir à Galiza
Se me poderão socorrer
(Com munições ou comer)
Se me faltar em um período
Porque o mais eu tenho tudo
Já estou pronto a combater!...
3
É tamanha a laboração
Que não posso dormir de noite,
Mesmo que me afoite
A meter alguns na prisão.
Tenho um alferes e um capitão
Com uma táctica muito viva
E uma prática tão activa
Que não param um poucochinho,
Como ficará o meu corpinho
No dia da ofensiva?...
4
Tenho tropas de vários anos
A mor parte mobilizada;
Uma é branca, outra encarnada,
Outra preta, de africanos.
Já deitámos os nossos planos
(Como se devia combater)
Para o inimigo prender
Sem haver grande baralha;
E no meio da batalha
É que se há-de poder ver!...
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04
- Joaquim dos Santos Andrade
A
FESTA DA PÁSCOA PASSADA NA GUERRA
Na
Quinta-Feira de Endoenças,
Na Sexta-Feira de Paixão,
Aleluia sem alegria
Páscoa sem consolação!
1
Eu sei que minha Mãe chora
E que meu Pai me lamenta,
E eu vejo-me nesta tormenta
Sem esperanças de me ir embora!
Se eu fosse a casa agora
As alegrias eram imensas;
Até as próprias crianças;
Que eu sei que me adoram,
Cantariam. Assim choram
Na Quinta-Feira de Endoenças!...
2
Eu também choro onde estou
E mais terei de chorar,
Enquanto não vá beijar
Essa mãe que me criou;
Esse pai que trabalhou
Para a minha educação;
Essa irmã e esse irmão
A quem amo ternamente
E dos quais estou ausente
Na Sexta-Feira de Paixão!...
3
Devíamos também respeitar
Na guerra, os dias sagrados;
Dar licença aos soldados
Para a Deus irem orar.
Não os obriguem a trabalhar
Porque isso é cobardia,
Sujeitos à fuzilaria
Nesta tão medonha guerra;
Todos passam nesta terra
Aleluia sem alegria.
4
Há ordens que não consigo
Encontrar no Regulamento;
Palavras que turvam a mente
Referindo-se ao inimigo.
E quantos sofrem comigo
Por essa mesma razão;
Porque sentem no coração
Frases que são punhaladas,
Memórias atraiçoadas
Páscoa sem consolação!...
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05
- Joaquim dos Santos Andrade
NAS
TRINCHEIRAS
METIDO
EM MÍSERA TRINCHEIRA,
OUVINDO O TROAR DO CANHÃO
VOU RESPONDER À TUA CARTA
QUERIDA ESPOSA DO CORAÇÃO.
1
Não sei quando há-de terminar
Esta ausência tão custosa
E venha a hora ditosa
De te tornar a abraçar
Só quando rebentar
O eixo desta barreira,
E desapareça a cegueira
Desta luta - o tirano autor;
Que me causa tanto horror,
Metido neste trincheira!...
2
Eu ouço zumbidos estranhos
Atravessando a atmosfera;
Eu vejo revolver-se a terra
Com os morteiros tamanhos;
Cercado de fogos medonhos
Se vê o meu coração;
Eu peço a Deus perdão
E à Virgem Maria socorro
A ver se ainda não morro
Ouvindo troar o canhão!...
3
Mas sempre há uma esperança
É nessa crença que eu vivo
Porque não vejo nenhum motivo
De morrer assim criança,
A saudade é uma lança
Que risca o espaço de prata
Oh! que vida tão ingrata
Estou próximo da sepultura
E vivendo na amargura
Vou responder à tua carta!...
4
Escrevo-te com mil carinhos,
Já que não pode ser mais,
Dá saudades aos nossos pais
E recebe ternos beijinhos
Roga a Deus e aos anjinhos
E ao Santo João
Que me leve em salvação,
P'ra minha terra natal
(de regresso a Portugal) (falta um verso e
eu meti)
Querida esposa do coração!...
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06
- Joaquim dos Santos Andrade
SAUDADES
OH!
MEU QUERIDO PORTUGAL
SANTA TERRA ONDE NASCI
MINHA PÁTRIA TÃO SAUDOSA
COMO EU ME LEMBRO DE TI!...
1
Como estranho tua paisagem
E dos pássaros, a harmonia;
Como eu grito de alegria
Ao recordar a tua imagem,
Ao encontrar de passagem
O teu nome num jornal;
Oh, que saudade mortal,
Que me vem ao pensamento,
Por não te ver há muito tempo
Oh, meu querido Portugal!
2
É verdade que me sinto bem
Nesta terra de pergaminhos,
Ai... mas faltam os carinhos
Dessa Pátria * minha mãe.
Mas que fazer, porém,
Se a sorte me trouxe aqui?
Se te vim defender a ti
Ou a tua causa aliada,
Defender-te-ei minha amada,
Santa Terra onde nasci!...
3
Já lá vem o sibilar
O Inverno no seu espaço,
E eu desejo o teu regaço
Sem me poder abrigar;
E, assim, tenho a esperar
Uma noite triste, invernosa,
Na trincheira tão custosa,
O inimigo façanhudo,
mas por ti eu farei tudo
Minha Pátria, tão saudosa!...
4
Meu Algarve, doce brinquedo
De mar quente e assimétrico,
Teu clima atmosférico
Perpassando no arvoredo,
Faz um lar tão brando e meigo
Não é como aqui, "Compris"?
Onde se diz "beaucoup, merci"
Muito obrigado em português;
Com saudade e honradez
Como eu me lembro de ti!...
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07
- Joaquim dos Santos Andrade
FERIDO
NA FRENTE DE BATALHA
Fui
ferido, fui prisioneiro
Perdi minha liberdade,
Quem me pode salvar é Deus
E a Senhora da Piedade!...
1
Oh, guerra tirana e vil
De génio feroz, agreste,
Repara no que fizeste
No dia 9 de Abril!
Como eu há mais de mil
Do vil golpe, teu herdeiro,
Teu orgulho traiçoeiro
Que me ia roubando a vida
Tão longe da terra querida
Fui ferido e prisioneiro!...
2
Era triste o panorama
Com a atmosfera nublada
Vinha perto a madrugada
Quando começou o drama.
Rebentou a terrível chama
Que avulta a crueldade
Daqueles que sem piedade
Fazem as vítimas sofrer,
E é causa de hoje dizer:
- Perdi a minha liberdade!...
3
Quando contra a um velho muro
Olhava o inferno em redor,
Veio um ferro abrasador
Derramar meu sangue puro,
O canhão soava duro
Ecoando até aos céus,
Parecia rasgar os véus
Tecidos pela Natureza.
Se esta vida é incerteza,
Quem me pode salvar é Deus!...
4
Vendo meu sangue verter
Só pedia a Deus a vida;
Para que minha mãe querida
Ainda me tornasse a ver!...
Que pena eu já morrer
Na flor da tenra idade,
Sem gozar a mocidade
Na terra que tão longe está
Mas Deus me salvará
E a Senhora da Piedade!...
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08
- Joaquim dos Santos Andrade
PRISIONEIRO
NO HOSPITAL
MOTE
JÁ
NÃO TENHO QUEM ME ALEGRE
VIVO TRISTE E SEM ALENTO
SOU UM POBRE PRISIONEIRO
CHEIO DE MÁGOA E SOFRIMENTO!
1
Em vão, eu tento sorrir,
Quando vejo um passarinho,
Andar de ramo em raminho
Seu trinado fazendo ouvir!...
Parece até repetir:
- Ditoso é o que consegue
Ter uns lábios que lhe regue
O seu rosto em toda a hora,
Depois voa e vai-se embora,
Já não tenho quem me alegre!
2
Vem a noite e vã ternura
Vai-se o dia moribundo,
E eu fico meditabundo
Pensando na sepultura,
Repensando a desventura
Que me traz o sofrimento,
Ouvindo o rugir do vento
Em noites de frio Inverno,
E tão longe do lar paterno
Vivo triste e sem alento!...
3
Já vai alta a madrugada
E eu sem adormecer
Pois não me posso esquecer
Dessa Pátria, minha amada!
Minha família adorada
De quem era companheiro;
Hoje só, no cativeiro,
Outros sofrendo pena igual,
Com tantos ais, tanto mal,
Sou um pobre prisioneiro!...
4
Quando ia principiando
Uma nova felicidade,
A má sorte sem piedade,
De tudo me está privando,
Por meus pais sempre chorando
Este triste desenlace,
Correm-me lágrimas pela face
Pela forma como vivo,
Neste hospital cativo,
Cheio de mágoa e sofrimento!...
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09
- Joaquim dos Santos Andrade
A
PAZ!
EM
11 DE NOVEMBRO SOOU
ESSA NOVA TÃO DESEJADA
ALEGREM-SE, Ó PRISIONEIROS
TEMOS A GUERRA ACABADA!...
1
Qual não foi a alegria
Que todos nós sentimos
Quando essa nova ouvimos
Em explosão de alegria,
Haja paz e harmonia
Quando a Presidência assinou
Fez saber e publicou
A folha do armistício,
Terminou o sacrifício,
Em 11 de Novembro soou.
2
Esses tristes semblantes
Pela guerra envelhecidos,
Tornaram-se coloridos
Mesmo alegres e radiantes,
E até os agonizantes
De alma dilacerada
Tão longe da terra amada
Se mostram de bom agouro,
Para todos foi um tesouro
Essa nova tão desejada!...
3
Terá sua liberdade
Todo o prisioneiro de guerra,
Cada qual p'rá sua terra
Marchará com brevidade!
Irá matar a saudade
Desses tempos traiçoeiros
Que nos fizeram herdeiros
Desta fúria mundial,
Que teve hoje o seu final,
Alegrem-se , ó prisioneiros!...
4
Nossos campos se vestirão
De flores e belos frutos,
O povo despirá os lutos
Que envergava com paixão,
Nossos pais do coração
E toda a família amada
Ao verem a hora chegada
Do fim da guerra atroz,
Gritarão com todos nós:
- Temos a guerra acabada!...
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