O CANTO DO FALAR(e)
ALENTEJANO

por um Cigano Castanho vindo da Serra da Estrela
JORAGA o acrónimo de JOsé RAbaça GAspar

in joraga.net - aminhaTEIAinterminávelnaREDEilimitada

contacto © joraga ® 2011

0.
SEARA VOCABULAR

ALENTEJO

3.
Barrancos
(um caso especial)
SEARA VOCABULAR

 

Textos Curtos
utilizados para ilustrar o vocabulário organizado na tabela…

Mais do que uma simples caricatura - o "FALAR", o modo como comumicas é que define a tua identidade…
"As "Pessoas" e as "coisas", à partida, não têm "NOME". Somos nós que damos "NOME" às "Pessoas" e às "coisas".
Ou antes, nós é que somos aquilo que chamamos à "Pessoas" e às "coisas"!"
Porquê? Porque, como dizia Epictecto (50 - 158 pC.): "O que perturba e alarma o Homem não são as "Pessoas" ou as "coisas", mas as suas opniões e fantasias acerca das "Pessoas" ou das "coisas"."

Foi o Homem que deu os Nomes às coisas… (Ver Gen. 2,19):
"Tendo pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais ds campos e todos os pássaros do céu, levou-os ao Homem para ver como ele os havia de chamar. E, todo o NOME, que o HOMEM pôs aos animais vivos, esse é o seu verdadeira NOME."

joraga - 2011 - Abril

1.       

Uma CANTIGA popular: Strala a Bomba...

Meninas da R’bera do Sado…

Alunas do Magistério, Beja, 1985
e Adiafa 2000?

2.       

Uma curta ESTÓRIA versada: No Ressio enfio...

Uma professora em Mértola, 1984/85

3.       

A anedota... da CORTIÇA

Alunas do Magistério, Beja, 1985

4.       

Carta dum pastor ao Compadre Fialho de Almeida

Dita pelo Prf. Manuel Pedro, Beja, 1980

5.       

Pinto Basto (canta)

Mestre Alentejano de J. de Vasconcellos e Sá

Saramago de J. de Vasconcellos e Sá

Mestre Alentejano 2, de Rosa Dias

J. de Vasconcellos e Sá

Canta: Pinto Basto (neto)

Rosa Dias / Pinto Basto

6.       

A Ponte da R’bêra d’Odivelas

Enviada por João Honrado

7.       

DESPIQUE FALAR ALENTEJANO

M'nina que tá à j'nela...

in À DESCOBERTA DE POTUGAL - Rider's Digest - 1982

8.       

Uma DÉCIMA (Mote e 40)

No teu Giro Sol Brilhante...

Inocêncio de Brito, S. Matias, Beja, 1856 - 1938

9.       

Crónicas de Manuel Loendrero

1. O de Lisboa - in A PLANÍCIE, 15/02/83

2 A Pega - in A PLANÍCIE, 15/06/83

3. Tornêo em Lesboa 3 - in A PLANÍCIE, data ilegível

4 A Excursão

5 A Escola

Eng.º Luís Eduardo Perfeito Santa Maria

10.    

AMARELEJA Rumo à sua História

1. EPISÓDIO da vida no Campo – com Glossário

2. Breves diálogos

3. “Gente Possante

Padre João Rodrigues LOBATO, 1961, pp. 179 a 193

Poema de De D. Maria da Paz Barreto Martins

11.    

O ELEMENTO ÁRABE NA LINGUAGEM DOS PASTORES ALENTEJANOS - (EALPA) (CFicalho).

Conde de Ficalho – in TRADIÇÃO – Serpa,

a partir do ANNO I - N° 6, Junho de 1899

12.    

RIQUEZA DOS FALARES REGIONAIS

(um conjunto de vários (7)Textos com saborosas (h)istórias no fim das quais o autor faz um levantamento vocabular...) - Daqui peço as devidas desculpas e autorizações, para, dentro das minhas limitadas possibilidades, ir arquitectando uma AMOSTRA do FALARe do ALENTEJO...

(Ver tabela do Glossário, nesta obra)

Manuel João da Silva - Ed. Câmara Municipal de Santiago do Cacém e Sines - 1985

13.    

BARRANQUENHAS / BARRANQUENHADAS

(frase barranquenha)

Um conto Barranquenho – Belhita

Contado por Angelina Silvestre, in Filologia Barranquenha, de J. L. Vasconcelos, IN-CM – 1955 - 1981

14.    

Algumas ligações – vídeos – gravações…

 

1

Uma CANTIGA popular:

Strala a Bomba… ou As meninas da R'bêra do Sado...

Uma CANTIGA POPULAR - O alentejano e as festas

ESTRALA A BOMBA
E o FOGUETE VAI NO AR.
ARREBENTA, FICA TUDO QUEIMADO...
NO HÁ NINGUÉM, QUE BALHE MAIS BEM
C'AS MENINAS DA RIBEIRA DO SADO...
E AS MENINAS DA RIBEIRA DO SADO É QUE Éi
LAVRAM A TERRA C'AS UNHAS DOS PÉiS...
E AS MENINAS DA RIBEIRA DO SADO SAN COM'AS OVELHAS
TÊM CARRAPATOS ATRÁS DAS ORELHAS!!!

(Cantada pelas alunas que tiravam o curso de Educadoras na escola do Magistério Primário, Seja, em 1985... Fica como registo de linguagem fortemente agarrada à terra...)

Em 2002 teve grande impacto a divulgação de uma versão cantada por um Grupo de Seja - ADIAFA

Letra pelos ADIAFA:
Estrala a bomba
E o foguete vai no ar
Arrebenta e fica todo queimado
Não há ninguém que baile mais bem
Que as meninas da ribeira do Sado

As meninas da ribeira do Sado é que é
Lavram na terra com as unhas dos pés
As meninas da ribeira do Sado
São como as ovelhas
Têm carrapatos atrás das orelhas

Era um daqueles dias bem chalados
Em que o sol batia forte nas cabeças
As meninas viram que eu estava apanhado
E disseram nunca mais cá apareças

Mas não fui e entretive-me a bailar com três
Queriam que eu fosse atrás no convés
Mas não fui e mandei-as irem daar banho ao meu canário
Que bateu as botas com dores num ovário

Estala a bomba
E o foguete vai no ar
Arrebenta e fica todo queimado
Não há ninguém que baile mais bem
Que as meninas da ribeira do Sado

As meninas da ribeira do Sado é que é
Lavram na terra com as unhas dos pés
As meninas da ribeira do Sado
São como as ovelhas
Têm carrapatos atrás das orelhas

Têm carrapatos, têm carrapatos, têm carrapatos, têm carrapatos,
têm carrapatos, têm carrapatos, têm carrapatos, têm carrapatos,
têm carrapatos, têm carrapatos, têm carrapatos, têm carrapatos,
têm carrapatos atrás das orelhas!

Para ver / ouvir uma interpretação http://www.youtube.com/watch?v=xbcWoIE9i8o
http://www.youtube.com/user/CantarDeAmigos

2. Uma curta ESTÓRIA versada: No Ressio enfio… dito por uma professora em Mértola, 1984/85

Um alentejano que chega a Lisboa
… desembarcado do vapor que passa o Tejo sai-se com esta lengalenga:

NO RESSIO, ENFIO
CUM DESIMBARAÇO;
LOGO ME PRANTI
NO TERREIRO DO PAÇO
FOI ATÂO QUE VI
E QUE PUDE OBSERVÁ-LO
UM HOME DE CHUMBO
EM RIBA DUM CAVALO!

(Contada por uma Professora em Mértola, em 1985.

Mais uma moda popular alentejana que tem várias versões...

Eu hei-de ir até Lisboa
Eu hei-de ir até até lá
à procura duma vida boa
que eu procuro e não encontro cá.

Cheguei a Beja embarquei no comboio
que assoprava pela linha
Às vezes penso comigo e digo:
triste sorte que é a minha.

E depois de chegar ao Barreiro
embarquei no vapor que passa o Tejo…
Chora por mim, que eu choro pr ti \\
Já deixei o Alentejo. \\ bis

3

A Anedota... da CORTIÇA

UM ALENTEJANO EM LISBOA com o DINHEIRO da CORTIÇA:

Um alentejano, que tinha e vendia cortiça, resolve um dia mandar o filho depositar o dinheiro, no banco, a Lisboa.
Este, pega num taçalho de pão com linguiça, monta no seu burro e lá vai para Lisboa.
Chegando a Lisboa, visto estar cheio de fome, senta-se, na relva, junto do Marquês de Pombal, a comer o seu taçalho de pão.
Por ali, andavam dois ardinas a vender jornais e apregoavam:
- óóólhó sééééééclo (Olha o Século)...
- é u diáááário d'notíííííííícias (É o Diário de Notícias)...
O nosso bom alentejano, mal ouve isto,
pega nas suas coisa monta-se no burro e lá vem ele a caminho do Alentejo.
Quando chega a casa, o pai pergunta-lhe:
- 'tão filho! porque foste tão depressa? O banco 'tava fechado?
- cal banco! cal quê? atão um home vai a Lisboa, assenta-se a comer o seu taçalho de pão cum linguiça, muto descansado, vêm logo dois homes e gritam:
- óólhó, cerquem-no... óóólhó céérquem-no ...é o d'nheiro da cortiça... ele tem o dinheiro da cortiça...

4

CARTA de um Pastor a Fialho de Almeida
contada por Manuel Pedro em Beja (1980)

CARTA de um Pastor a Fialho de Almeida contada por Manuel Pedro em Beja (1980)

Carta de um Pastor Alentejano, de Vila de Frades, ao seu amigo Fialho d'Almeida:

Mê caro Zé Valentim:

Nô ôtro dia 'tava ê ali à bêra do maticuenho de palaio,
ali memo onde o barranco bate c'oa semeada...

'Tava assim a modos qu'esmorraçando...

Ajitei-me dentro do gabinardo e assenti-me no marco.

Enroli um cigarro e
cando ia a puxar do zarapatusco de modo a acender,
di c'os olhos numa velhaca...

Era um rego cheio de carne, Ó cumpadre!!!

Imaparelhê-me cum ela e meti o ferro à !cara...

Fiz-le dois fogachos, mas a manga na foi-se-me'imbora mais a p. que a pariu!!!

Texto ditado pelo professor Manuel Pedro, num café, em Beja, 1981

 

ATÃO CUMPADRE, PRA QUIÉQUE VOMC STÁQUI CONTANDO TANTA ANEDOTA que são nossas?
- Oressa! Desta e doutras vou ê pedir CopyRaites...

5

Mestre Alentejano e Saramago

CANÇÕES com intervenção erudita: Saramago e Mestre Alentejano, de Vascocellos e Sá & A. Pinto Basto

MESTRES ALENTEJANOS (mais duas mostras do falar alentejano).

MESTRE ALENTEJANO

Terra de grandes barrigas,
Onde há tanta gente gorda,
Às sopas chamam açorda
E à açorda chamam-lhe migas;
Às razões (canções) chamam cantigas,
Milhaduras são gorjetas,
Maleitas dizem malêtas,
Em vez de encostas, chapadas,
Em vez de açoites, nalgadas
E as bolotas são boletas.

Terra mole é atasquêro,
Ir embora é abalári,
Deitar fora é aventári,
Fita de couro é apero;
Vaso com planta é cravêro,
Carpinteiro é abegão,
A choupana é cabanão
E às hortas chamam hortejos
Os cestos são cabanejos
E ao trigo chama-se pão.

No resto de Portugáli
Ninguém diz palavras tais;
As terras baixas são vais
Monte de feno é frascáli
Vestir bem parece máli
À aveia chamam cevada
Ao bofetão orelhada
Alcofa grande é gorpelha
Égua lazã é vermelha
Poldra "isabel" é melada.

Quando um tipo está doente
Logo dizem que está morto.
A todo o vau chamam porto
Chamam gajo a toda a gente
Vestir safões é corrente
Por acaso é por adrego,
Ao saco chamam talego
E, até nas classes mais ricas
Ser janota é ser maricas
Ser beirão é ser galego.

Os porcos medem-se às varas,
O peixe vende-se aos quilos
E a gente pasma de ouvi-los
Usar maneiras tão raras;
Chamam relvas às searas
Às vezes, não sei porquê
E tratam por vomecê
Pessoas a quem venero;
"não quero" diz-se "nã quero"
"eu não sei" diz-se "ê nã sê"!

de António Pinto Basto, Rosa Branca
Letra: J. De Vasconcelos e Sá (o avô de António Pinto Basto, segundo José Gonçalez).
Música: fado corrido.

http://www.youtube.com/watch?v=Yher-plFsbE
http://www.youtube.com/user/rvccgerinho

SARAMAGO

canta: António Pinto Basto
letra e música de J. de Vascocellos e Sá

Olha, amor, toma lá este raminho. Ai! Ai!
É do monte, é do monte e cheira bem!
Quem lá for, e não traga um bocadinho, Ai! Ai!
Ai não tem, não tem amor a ninguém!

ele
Vai crescendo o saramago
Embaraçado no trigo
Eu queria ser saramago
Para abraçar-me contigo!

ela
Mesmo assim, de brincadeira,
Tua sorte era infeliz;
Minha mãe é mondadeira,
Punha-te ao sol a raiz!
Amanhas com todo o jeito
As terras do malhadio
Só este amor no meu peito
Deixas ficar em bravio!

ele
Quem no teu peito semeia
Tem de colher com certeza
Só três sementes e meia,
Nem sequer paga a despesa!
Já por ti não dou um passo,
Atrás de ti já não vou;
Antes seguir o retraço
Por onde a vara passou!

ela
Meu amor, tem bom amanho,
Tudo arranja a sua escolha;
Tem polvilhal o rebanho
E a seara vai na folha!

ele
Tem besunho o polvilhal
E a seara vai ruim!?
Minha riqueza, afinal,
Está mesmo em frente de mim!

ele e ela
Minha riqueza, afinal,
Está mesmo em frente de mim!!!

http://www.youtube.com/watch?v=NWu3bkM5fM8
http://www.youtube.com/user/mariadoalentejo

MESTRE ALENTEJANO II - por Rosa Dias

DITOS DO ALENTEJO OU MESTRE ALENTEJANO (II) - de Rosa Dias

Assim já cantei um dia
Pois no Alentejo nasci
Ali amei e sofri
E ao meu povo eu entendia
Pastel de grão é azevia
Massa frita é brinhol
Piolho cata-se ao sol
À lenha chamam molheta
O zangado diz punheta
Sapateiro usa serol

A frigideira é sartém
Uma tigela plangana
Mulher de graça é magana
Falar mal é coisa vã
Cama de molas divã
E quem dança está balhando
Chover pouco é muginando
A gasosa é um pirulito
Qualquer cão é um canito
Chorar baixo é chomingando

Ao leite chamam-lhe lête
Um bacio é um penico
Um desmaio é um fanico
Um canteiro é alegrete
O soutien é um colete
Do pão dur(o) fazem-se migas
São saias quaisquer cantigas
Grão cozido é gravançada
Qualquer pessoa é coitada
E as amantes são amigas

Emprestar é repassar
Mentiroso é trapacêro
Amolador é um gatêro
Ir a mondar é escardar
Chatear é amolar
Do pobre diz-se infeliz
A igreja é uma matriz
Cafeteira é choclatêra
Coisa torta é pernêra
E é o povo que assim diz

Um barril é um porrão
E a garagem é cochêra
Chouriço preto é cacholêra
Preguiçoso é lazerão
Homem do campo é ganhão
Chama-se fosso a um val
Almofariz é um gral
Sopas frias é gaspacho
Viver bem é ter um tacho
/ VIVE BEM QUEM VIVEU MAL (correcção da autora)
E assim fala Portugal

Autora da letra: Rosa Dias (poeta popular de Campo Maior).
Música: fado corrido.
Cantam: José Gonçalez e António Pinto Basto.

6

A PONTE DA REBÊRA D'ODEVELAS

Curto RELATO versado A PONTE DA REBÊRA D'ODEVELAS in Guadiana - Boletim Municipal - MÉRTOLA - Out. Nov. 2000

A PONTE DA R'BÊRA D'ODEVELAS


Graças a Deus que já tem
Odevelas sua ponte.
Com uma estalage de fronte
pruparada
pra quem vier de jornada
nela poder pernoitar,
sem o prigo de s'afogar
da rebêra.
O Mestre c'afez
capetão d'engenharia
= inginheiro
fêze-a toda em mármre
e ávenaria
Obra Prufêta

A PONTE DA RIBEIRA DE ODiVELAS


Graças a Deus que já tem
Odivelas sua ponte.
Com uma estalagem em frente
preparada
pra quem vier de jornada
nela poder pernoitar,
sem o perigo de se afogar
na ribeira.
O Mestre que a fez
capitão de engenharia
= engenheiro
fê-la toda em mármore
e alvenaria
Obra perfeita.

7

M'nina que tá à j'nela...

DESPIQUE FALAR ALENTEJANO in À DESCOBERTA DE PORTUGAL - Rider's Digest - M'nina que tá à j'nela... 1982


M'nina que tá à j'nela

M'nina que tá à j'nela
Regand'o lind'caravêro
Ó há-de ser para mim
Ó p'ró mê rico pracêro.

Ê nã sô p'ra vocêi
Nê (ein)p'ró sê rico pracêro
Que me tá mê pai criendo
P'ró más lind'o sapatêro.

Ó m'nina, ê sô sapatêro
Hê-d'ir p'rá sapataria
Hê-d'le fazer uns sapatos
C'a maior galantaria.

Ê nã quer'os sês sapatos
Dê-os lá a quê(ein) qu'séra
Qu'o marot' que tal diz
Nã merec' uma mulhéra.

Entes qu'ria ser carnêro
Enxertado na raiz
E nã qu'ria ser marido
Da magana que tal diz.

Entes ê qu'ria ser porco
Que fossasse num valado
E nã qu'ria ser ispôsa
Dum tã frac'namorado.


Nota: A cantiga que aqui é transcrita foi recolhida numa das aldeias do termo de Beja e, apesar de uma ou outra característica local, pode ser considerada representativa dos falares do grupo alentejano - uma das variantes do português meridional.

Entre os traços fonéticos destes falares, podem destacar-se como mais característicos

- a monotongação generalizada do ditongo ei (cravêro, parcêro)

- a redução de outros ditongos em situação de próclise (mê rico, nã
quero, quê (ein) qu'séra)

- o alongamento das sílabas tónicas finais (vocêi, mulhéra)

- e, de vez em quando, a alteração do timbre de algumas vogais tónicas nasais (neste caso, por palatalização: (criendo, entes).

A velocidade de elocução produz nos falares do Sul, mais do que nos do norte, a elisão das vogais átonas (j'nela, qu'sera).

No léxico encontram-se, de onde em onde, termos como mangana, que, para ouvidos habituados à norma de outras regiões, podem surgir como formas de calão.

Aliás este facto é corrente em quase todos os falares regionais.

 

8

No teu Giro Sol Brilhante... uma DÉCIMA de Inocêncio de Brito

Uma DÉCIMA (Mote e 40) No teu Giro Sol Brilhante... Inocêncio de Brito, S. Matias, Beja, 1856 - 1938

NO TEU GIRO SÓL BRILHANTE - mn

No teu giro sol brilhante
Teu explendor vai e vem
Trás-me nóvas dos meus filhos
Recomenda-me a meu pai

Quando tu sól aparéces
Dourando o cume da serra
Com teu giro em mar e terra
Consôlo restabeléces
Assim como os entristéces
Se deixas de ser constante
Sem tua luz radiante
Tão tristes que são os dias
E tudo alegras se alumias
No teu giro sól brilhânte

Teus raios são consoladôres
São os mantos purpurinos
Que cóbrem os perigrinos
Mitigam-lhe as suas dôres
És o rei dos benfeitôres
Moderador de tanto ai
Quando o teu vigôr descai
Vão-se alegrias perdendo
Alegrando e entristecendo
Teu esplendôr vem e vai

Luz Divina de ahi vêm
As campinas prateando
Saudosas nóvas dando
Dáme-as cá a mim tamêm
Dá-me notícias de quêm
Tenho afetos mas escondi-lhos
Em meos olhos não há brilhos
Os dias que os não avisto
E tu sol atendendo a isto
Trás-me nóvas dos meos filhos

E à tarde ao declinares
Fita a vista atencioso
Num ancião muito idoso
Mas nóta que me dê ares
É êsse sem duvidares
Quem me estima e não me envai!
Aqui ninguém me distraí
E tu sól se por mim te interéssas
Rei dos astros não te esquéças
Recomenda-me a meu pai

Nota: Ortografia conferida pelo manuscrito.

Tem assinatura: Inocêncio de Brito

Esta interpelação ao SOL como mensageiro das missivas que o Poeta na solidão precisava urgentemente de enviar para os familiares, será uma das PROSOPOPEIAS mais conseguidas do Poeta. Depois das apóstrofes em que elogia o SOL, o Poeta transforma-o em seu interlocutor e parceiro para lhe trazer e levar as suas mensagens importantes!

9

MEMÓRIAS DE MANUEL LOENDRÊRO

9.1

MEMÓRIAS DE MANUEL LOENDRÊRO 1 - in A PLANÍCIE, 15/02/83

1. O de Lisboa - in A PLANÍCIE, 15/02/83

Vinha ê uma vez pá vila a cavalo no burro pa fazê o avio, condo óvi atrás de mim um altemoven de esgalha bordão por a estrada adiente.

Passô por mim ca força toda... Tamein si nã passassi más valia uma botas e condo começô a subiri a barrêra do ôto lado da estrada, dê um estralo e começô às panderêtas até que se parô. "olhó! - pensi eu - já está escangalhado". Fui lá ó pei pa vê o que tinha acontecido. Tava o home olhando pa um pineu. Prigunti-lhe donde ele era e disse quera de Lisboa.

Pá, tá tudo dito - pensi eu. Vinha-me imbora condo o vi priparado pa mudá o pineu mas volti pa trás, porque vi o baboso, que nã tinha gêto ninhum páquilo.

Dexi-me do burro, desviio e comeci a mudar a roda, mas vi logo caquilo nã era só do pineu. Espoji-me no chão e espreti pa debaxo do carro pa vê o qué caquela moenga tinha e vi o enxo e a jente, tudo entrotado.

Condo ia alivantar-me vi o home mexendo num ninho d'abêsporas.

- Que bichos são estes? - preguntou eli.

- Nã mexa nisso! Nã as trilhe! - Griti-lhe eu. Tá bem dexa!

Foi mêmo o quele foi fazeri. As abêsporas alivanteram voio e hôve uma que le deu uma nicada nos bêços cu fez dar um berro, ôtra foi-se ó burro. O burro assim cas viu zunindo de roda das orelhas, escarampatô-se e esgalhô fugindo por a chapada arriba. Ê rasgui fugindo atrás deli pó apanhari. Daí a podaço condo volti todo esbrazeado, tava o ôtro cum lenço nos bêços quêxando-se.

- Vocei é mesmo enchaparrado - Disse-leu. - Atã vocei nã sabe que na se pode mexeri num ninho d'asbesporas? E vá lá teve sorti, porque se fossem tarantas...

Ati o burro a uma arve e fui veri so home tinha os beços munto enchados. Hei mãe! Tava com umas beçoletas que pareciom o bebrum dum penico! Atão o bocana nã queria pôr pomada naquilo?! Lá o convenci a pori lama nos bêços porque pá picada na há melhori. Condo tava cos beços enlameados, disse-le cu melhor era vir com migo à vila à busca dum mecânico. Montô-se, em cima do burro e lá fomos. O engraçado é que condo chigámos e me desmonti, olhi pa trás e ele nã estava lá. Devi ter escorregado da albarda, porque eles sabem andari de cu tremido, mas de burro, anda cá se queres... Já não volti pa trás, porque tinha de fazê o avio à minha Bia e despois fechavam as loges. Tóoouuuu!

M.L.

Nota: O mau estado das fotocópias que me foram fornecidas para a transcrição destas "Memórias", muitas vezes não me permitiram, possivelmente, uma transcrição correcta dos termos usados e grafados pelo autor, do que peço desculpa, e estou pronto para qualquer emenda a qualquer momento, esperando entretanto que o autor se decida apresentá-las ele próprio e sob a sua vigilância. Pela autorização verbal, que me concedeu de as poder usar nest' aminhaTEIAnaREDE, os meus melhores agradecimentos. JoRaGa.

9.2

MEMÓRIAS DE MANUEL LOENDRÊRO 2 - in A PLANÍCIE, 15/06/83

2 A Pega - in A PLANÍCIE, 15/06/83

Um demingo, lá no Taquale havia movemento que nunca más acabava: O Grupo de agarradores lá do monti ia pegar à aldêa. Ê eró cabo dêlis pa gandes aflições da minha bia, mas êle a mim pôco m'empotava qu'ela tivesse mêdo ô não, porqueê cá nã tinha mêdo nunhum. Ó despois de se termos trajado, lá formos agenti a caminho da aldêa. Nós, os agarradores, todos com grandis patilhâmes e alguns de bigote; Távamos tôdos munto calmos: só nos tremiom os joêlhos, as mãos, o coração dava saltos que nem um coelho bravo prendido poruma pata, e távamos fumando que nem umas bêstas, mas távamos calmos. Távamos era desejando pulare p'ra cima dos cornos dos bichos. Távamos comé que se diz?... Xitados. É isso conho!
Chigámos l'á à aldêa, e dexi-me da relota e fui veri sus bichos já tinhom chigado.
- Já! - Arrespondê-me o campino - Tã aleim!
Fui lá a esprêt'á-los, e condo os vi tã prêtos até os cabêlos do pêto se me puseron brancos. Ma nã foi mêdo. Fiqui foi admirado co ma côr dêlis. Até luziom! Traziom terra no lombo e tudo.
- Olhem rapazis! - dissê òs do mê grupo - Os bichos, é tudo prêto que nem caravão!
- Ê que maaaus! Mas assim é qué boum!
- Tão com mêdo? - Virámes-se tôdos, e démos de trombas co grupo de Val Picote que tamein vinha pegari.
- O mêdo ga genti teim é o que le sobra a vocêis! - Dissê fechando os olhos uma migalhimha.
- Atão mas tu julgas c'agenti têmos tante mêdo c'até nos sobra?
- Nã julgo! Tenho a certeza!
Boum, êle já tava atabafado comigo, ê tamein já nã o podia vêri e nã tardô munto cos dôs grupos não tivessem enleados à pazada.
Boum, ma lá começô a corrida e cabedô à genti fazere a premêra pega. Abri-se a porta do curro e de lá saíu uma vaca mertolenga.
- Ah mas isto é qu'ei? é isto que voceis vã pegari? - Diziom os de Val Picote no gôzo, é que tinha havido um engano e tinhom soltado um cabresto em vez dum boi. Por fim lá soltarom o bicho qu'era, e condo os de Val Picote o virom começarom a gozari dezendo qu'era dos encarnados que nã faziom mal ninhum. Mas condo o bicho dê ali umas corridas e le saíu o póu do lombo e ficô aleim prêto, calô-se tudo.
- Levom gande sova! - Deziom os ôtros. E a genti calados. O cavalêro levô aleim fazendo o trabalho deli e condo chigô ó fim pediu más um ferro.
- Sai daí piolhoso! - Gritames-le a genti - Pôste feio tanchando ferros no bicho!
Boum, o cavalêro saíu e a seguiri vêi o capinha armado em boum.
- Vô-me aí a ti patei-te tôdo! - Gritô-le o Zei Alacrau. atei que chegô a altura d'agenti se meter-mos lá drento. O nosso grupo era case tôdo fêto por jogadoris do Taquale. Chigui ó mêi do relvado do terreno... carafo! Chigui ó mêi d'arena e brindi ó pessoali que tava na bancada. Aperalti-me todo e lá fui ê derêto ó bicho.
- Eh prêêêto! Eh biiicho! - continui fazendo barulho mas o boi ná'via mêi de se voltari. até quê lá ia ó mêi da praça cond'êli me viu e vei drêto a mim que parcia mêmo um'altometôra.

(Continua no próximo número)

9.3

MEMÓRIAS DE MANUEL LOENDRÊRO 3 - in A PLANÍCIE, sem data legível - 1983?

3. Tornêo em Lesboa 3 - in A PLANÍCIE, data ilegível

Uma vez, chigô ò Taquali um gajo com um jornali, onde vinha dezendo que s'ia fazeri em Lesboa, um tornêo entre piquenos clubis, pa ver se descobriom novos jogadoris.

- Já tá - Disseu - Sagenti já formos ficamos todos convocados.

Começamos atão a tratari das coisas pá viage. Premêro viémos a moira pa alugari uma carrêra e condo iamos chigando à parage das caminetes queim éi ca gente vêi? A enquipa dos Trigues do Alvarrão, que tinhom ganhado a taça à genti com uma manchêa de ciganices.

- Qué que vêim fazeri? - Préguntamos.

- o cagente queri. Porquêi?

- Porque sim! Vá!!!

- Boum. Já que querem saberi - disse o capitã delis em ar de gozo - viémos alugari uma caminete pa irmos a Lesboa.

- Ê o quêi? Quem vai é a genti!

Boum, começamos a lavrari d'atravessado, até que s'alançámos uns ós ôtros pôs antão. Condo acabámos com aquilo, fomos a falari cu home das caminetes e ele podiu munto denhêro pá viage. Ora nem a genti nem os do Alvarrão podiamos pagari a nã ser que se juntássomos. Mas coma genti na se chupava, teve mau pa se decedir. Até que resolvemos ir mêmo com elis que nã tinhamos ôtro remédio. Condo se montámos na caminete dêxámos o lado da soalhêra pó dos Alvarrão. Forom à esturrêra o caminho entêro. Condo chigámos ó Cento Destágio ô lá ó quer aquilo iom esbrazeados até má não! e a gente rinde-se. O pió foi que nã criom receber a genti, porque nã le tinhômos dito nada antis. De manêras que tivémos de dromir na caminete nessa nôte, e só no ôtro dia é c'arranjarom cartos à genti. O Cento D'estágio, foi o sítio onde ê comi a comida más mal fêta da minha vida! De manheim, em vez de nos darem pã com lenguiça ô tôchinho e uma punicada de cafêi, derom-nos lête e pã torrado com marmelada. A genti nem le tocámos. Ò almoço quisemos açorda, derom-nos pêxe. Ò jantari, quisémos uns fêjanitos com orelha de porco, derom-nos frango com batatas. Boum, lá comêmos porque tinhômos passado o dia entêro em fraqueza ripando umas laricas que já nem le viômos o rêgo. Tevémos lá uma semana e todos s'admirarom munto cagente porquem vez de se peorcuparmos com trênos e o tornêo, passássemos os dias entêros espojados debaxo das arves fumando, e bobendo vinho. Até porqu'iamos jogari com uma enquipa alemôa, quêles tinhom trazido pa jogari com as enquipas todas, e a que tivesse jogadores milhores, é qu'ia jogari contró Benfica e o Sport. Chigô o dia do jôgo, e nunca más m'esqueço daquilo que senti, condo pisi a premêra vez um campo arrelvadu, era cá uma macieza nos péis! ê dantes só tinha jogado em campos cheios de bajôlos - foi atão que repairi cu Cara de Cinoira, tava arrancando a erva pra brento dum saco, pa dá òs coelhos lá no monti. Condo eli acabô, lá se preparámos todos, ia começá o jôgo.

9.4

MEMÓRIAS DE MANUEL LOENDRÊRO 3 - in A PLANÍCIE (data - 1983?)

4 A Excursão

Uma vez lá no Taquali alembrasmos-se de fazê uma eiscursão.
- Vamos a Lisboa ver os Giròlmos! - Disse o Abel Tengirina.
- Nã sinhoira. Vamos ó Algarvi! - Disse o Zéi Alacrau.
- E porquê ó Algarvi e nã ós Girólmos?
- Porque no Algarvi podes banhari e nos Girólmos nã podes.
Fomos atão ó Algarvi. Pensámos em iri no tractori do Cara de Cinoira mas levava munto tempo. De manêras c'acabámos por alugari uma Carrera, que sempre era melhó estamporte. Por o caminho fomes-se todos devertindo menos a minha Bia, que se farto de gumitari.
- Tu vês más algueim gumitari? - Prêgunti-leu - Ês mêmo charrôca! Fomos ralhando os dois o caminho todo.
Por fim chigámos à praia ô lá o quera aquilo. Ê fiqui parvo! Ê sabia cu mari era uma rebéra grandi, mas assim tamém não! Atã e aqueli podaço d'arali? E arêa boa! O Cara de Cinoira até enche uma saca pa fazê um raboco lá pá malhada dos porcos. Atã e o gentio? E os altemóvens? Erom por demais.
Lá se despimos até ficarmos só com as calças, e fomos a enterrar um agarrafão do Cartaxo lá adiente, drento d'água.
Foi atão que vimos uns bocanas a jogari à bola. Fizemos uma enquipa contra elis pa mostra como se joga. Eles olhavam pá gente e riom-se, nã sê porquêi. Sairom elis. Hôve um que fintô o Zei Alacrau, e já eli ia atrás deli pa lhe dá uma foêrada, condo ê le dissi:
- Dêxó comigo Zéi! - O ôtro, julgava que mia fintari, mas ê di-le uma pupinda nas canelas cu fiz dá 2 voltas no ari. Parcia um piã d'Alvito.
-Se calha, cuidavas que passavas não? - Disse-leu.
Daí a podaço numa jogada dagenti o guardaredis delis ia a sairi ós peis do Cara de Cinoira, e eli fez-le um truqui dos deli: Dêtô-le um punhado d'arêa pós olhos e marco o golo. Elis disserom logo que já nã criom joga mais.
- Voceis nã querem jogar e a gente vamos pa drento d'água.
- Bora! - Gritámos fugindo.
Mal entrámos n'água diz o Zéi:
- Eh! A água é salgada!
- Ah! Éi agora!
- Não? Atã porvem lá. Pusemes-se tôdos a provari a água.
- Qué lá saberi! Banho na mêma.
Mal tínhamos começado a banhari aparece um gajo a dizeri:
- Os senhores nã podem tomar banho hoji. Nã vêem a bandêra virmelhe?
- Atã e condo é que se podi?
- Condo estiver verde.
- Atã prantem lá uma bandêra verdi! Essa é boa!
- Ê banho memo porque quero - Disse o Cara de Cinoira e abalô lá mais pó mei do pego.
Ora enleô-se nas ondas, tiveram cu ir vescar de barco. E éli banhava beim. Despois tiverem cu fazê gumitá a água e arrespiração bocaboca, com o salva vidas dando-le bêjos nos bêços. Aquilo era memo nojento, carafo!
A minha Bia e as ôtras, andarom até horas d'almoço mulhando-se inté às curvas das pernas. Despois almoçámos, bobemos uns escolates valentis e tivemos a tarde entêra cantando à alentejana na praia até o soli se pôri é que se viemos imbora.
O pió desse dia é candámos todos uma mancheia de tempo com as costas e o pêto empolados até más não.

9.5

MEMÓRIAS DE MANUEL LOENDRÊRO 3 - in A PLANÍCIE (data - 1983?)

5 A Escola

Conde era rapazinho p'aí com uns 7 ò 8 anos, a minha mãe disse-me quê tinha d'ir pà escola aprende a ler e a escreveri.
-Nã quero!- Griti eu - Se me chegom a tanchar na escola fujo de casa!
Com'a minha mãe pa estas coisas era mais má c'uma dôr de barriga, dê-me um estramelo nas ventas que me fez ver as estrelas 3 dias pa lá do solposto. De manêras que na ganhi nada com a torada que fiz e acabarom por me pôri na escola da Dfesa. Lá ia ê todos dias mais os ôtos do mê tamanho a péi até à escola. E erom uns quilómetros valentis! E ódespois tinhamos que passar a ponte do Ardile adonde ficávamos banhando o maior parte das vezis. Encontê andi à escola, nã hôve nem um dia (nem um diazinho sequer), quê chigasse a horas. Todos dias levava uma carga de estoiro e nã me desmanginava. O pió de tudo era a passage da ponti: ó iamos pescar à lapa ó íamos banhari, e escola... visteza! A pressôra préguntava ondé ca gente tinha andado e a gente dezia sempri:
-Fomos ós ninhos, m'sôra!
No fim ela dava dez réguadas a cada um, e mandava-nos pó canto de castigo. Êramos sempe os mesmos: ê, o Zéi Alacrou e o Cara de Cinoira. Desde piquininos c'andámos sempe juntos!
Uma vez, esta nunca mais me esqueci), no entervalo armámos uma garreia, e condo a pressôra foi lá ròbámos o sino leváme-so ò Ardile e tanchámos com eli no fundo do Pego dos Marmelêros. Ódespois abalámos cada um pa sê chêral lá pa longi; de manêras que condo a perssôra quis meter a genti na sala teve c'andar fugindo por aquelis cabeços, chamando a genti. Eh que torada! Já nã hôve escola nesse dia qu'ela nã conseguiu apanhar nengueim. O pió foi no dia a seguiri quela dê uma sova de réguadas na gente todos, e ódespois fez preguntas. Condo chigô a minha vez, quis saber quem é que tinha sido o premêro Rei de Portugali.
-Sê lá eu! Algum pante-minêro!
-Levas dez réguadas!
-Qu'é lá saberi! Nã me doiem!
-Batê-me ca força toda e passô ò Cara de Cinoira.
-D. Dinis! - Responde eli. Mái estoiro, A seguir foi o Zéi Alacrau.
-Ê cá nã fui!
Eh! A pressôra chamô-le tudo! Dê-le uma mã cheia de réguadas co Zéi até arroto a pirum seco ódespois fez-nos um ditado. Condo o corregiu, disse quê era o que linha tido menos erros. Fiquei todo babado.
- Atã e contos tive msõra?
-14!
-Sóu?! Eh! A última vez que fizemos o ditado, tive alguns dezanovi. Tô a ficá boum!
Levi quatr'anos pa fazè a sigunda classi, e dezia sempe ó mê pai que passava, todos os anos de manêras quele julgava quê já andava na quarta.
-Atâ e este ano? Passas? - Préguntô-me eli.
-Tá um becado malote!
-Tá um becado malote? Atã mas que conversa é essa? Tarei quir a falar ca pressôra ?
Ei céu! Esconfique até as unhas dos péis se me puserom brancas! O mê pai chigô lá à escola e préguntô que tal ia eu. A pressôra disse quê nã era munto mau, mas naqueli ano não devia passari.
-Tameim! A 4ª classi é uma migalhinha puxada!
Quarta classi? Condo ela lhe dissi quê só andava na sigunda, ele dê um pulo até às nuves. Parecia que le tinha picado um atabão! Picô o burro drêto ô Taquali com vontadis de me esfolar vivo, ma condo lá chigô, já ê tinha fugido. Ora Boum! Andi fugido alguns dois dias, ma memo assim nã me livri da sova. E foi por casa destas capeias que só acabi a 4ª classi com alguns dezassete anos.

10

in AMARELEJA Rumo à sua História

10. 1

AMARELEJA Rumo à sua História,
de Padre João Rodrigues LOBATO, 1961, pp. 179 a 193

EPISÓDIO da vida no Campo - com Glossário

Desde o começo da minha vida de pároco que adoptei o costume de dar, de vez em quando, uma volta pelo campo e aportar a este ou àquele monte, a, esta ou àquela courela, onde se encontram pessoas trabalhando.

Eu acredito verdadeiramente e os meus mestres me ensinaram que o campo é o melhor tónico, para recuperar forças que se vão desgastando no emprego diário das faculdades ao cumprimento do dever.

Em geral são essas voltinhas pelos montes aproveitadas numa conversa com um camponês ou num convívio mais íntimo com Deus na reza do meu Breviário ou do meu Terço.

Ora de uma vez em lindo dia de sol, dei pelos arredores, uma destas voltas que aproveitei para fazer a meditação. Os campos pareciam já um jardim; milhões de flores de todas as qualidades exalavam perfumes variados, que uma leve aragem dispersava na celeste claridade da atmosfera. Tomei para terna da meditação esta frase escrita no salmo 18 pelo Santo Rei David: OS CÉUS PUBLICAM A Glória DE DEUS, E O FIRMAMENTO ANUNCIA AS OBRAS DAS SUAS MÃOS...

Caminhando nesta contemplação a sós com Deus e a natureza, fui porém interrompido com o que passo a descrever:

Parara na estrada um automóvel. Momentos depois saía do carro um engenheiro, já meu conhecido. Cumprimentámo-nos e falámos um pouco dos seus trabalhos no estudo da electrificação da aldeia.

Acompanhava-o um rapazote que tirava, do carro vários objectos, entre eles uma enorme régua numerada e traçada a cores.

Caminhámos todos pela extrema de uma rica seara de trigo com umas courelas de favas em flor povoadas de insectos. Numa pequena elevação de terreno, montaram o taqueómetro.

O rapaz afastou-se com a régua na mão enquanto o engenheiro começava a espreitar pelo aparelho e dar ordens ao rapaz, para que empinasse aqui ou empinasse acolá. Estavam os dois nesta ocupação, quando, numa vereda orlada de ervas exuberantes, surge um velhote alquebrado pelos anos, de golpelha ao ombro esquerdo, tocando com um pé de burrico duas vacas leiteiras que seguiam ronceiramente abocanhando nas ervas. Um tanto curioso bom do velhote aproximou-se do engenheiro que tomava uns apontamentos, e disparou a usual saudação:

- Bom dia cá d'ó péi!
- Bom dia! Respondi eu e o engenheiro, este sem levantar os olhos. -

- Mas então vossemecê, quem vem a ser? E o que é que estão tarraceando? Que anda esse piquenalho fazendo com aquela tábua, de oiteiro em oiteiro e correndo esses alcanchais?

O engenheiro deixou de escrevinhar, espreitou pelo aparelho, e ordenou ao rapaz que colocasse a régua noutro lugar.

- Não pises as favas ao homem, paiolo! - exclamou o velhote. Sempre ouvi dizer aos intigos que quem não tem que fazer, faz colheres. E o tempo é para quem vai bom.

- Ó homem! Não seja parvo, não vê que sou engenheiro! Estou a estudar o lançamento das linhas para vir a luz eléctrica cá para a aldeia!

- Ah!... Eu de taronjo nunca tive nada, agora o que nam posso é ad'vinhar, poi'sorte!

- Então já fica sabendo!

- Ore essa! Mas voltando cá ainda à conversa. Luz hai ele aí, hai que Janeros... Era eu soldado em Estremores, e no ano seguinte fomos p'rá guerra da França. Se haverai anos! Foi inté um espanhol que fez a fábrica, essa que é agora do Sr. Calros Ravasco!

- Pois esta luz agora é melhor!

- Sará! Mas Vossemecê põe luz aí nesses favais?

- Não! É para passarem às linhas que vêm do Castelo de Bode, lá de ao pé de Tomar.

- Bá,á... Al será que isso ategue. Na ponta sará como a estrada de Barrancos, que já nam tem conta os anos que aí levam empatando. Nam passa de um atasqueiro que nem uma carrinha de estevas se pode trazer lá dos Castelos... Que ele hoje já num hai quem dei um molho de ramalhos para fazer um caldo de toicinho...

- Pois olhe que desta vez vão ter luz, boas estradas, uma Casa do Povo nova, mais ruas calcetadas, água canalizada...

- Já me fizeram essa conversa, mas tenho cá p'ra mim que nam sará nenhum esbarrunto. Isso assim mal acomparado, vai ser com'ós poços da água qu'abriram ali no Carapetal e onde a Junta gastou uma fortuna. Por fim os engenhe'ros - vossemecê deve saber, talvez fosse vossemecê, quem sabe - enregaram a dizer que nam valia a pena, que o nascente era munt'endebles, que a traziam do Ardila... Imagine... Por fim, a bebermos água da Ribeira, p'ra onde corre toda a porcaria!

- Mas nesse caso seria filtrada e preparada!

- Deixe lá home, só aí da aldeia, tem que ver as carradas de murraça que as primeiras águas do oitono levam p'rá Ribeira... Pois se ele no Verão é aí um chamusco por essas travessas... ora, e quando não hai chamusco, hai com cada barrancada de lama qu'eu num vi...

- Não desanime, pois as coisas têm que ir pouco a pouco.

- Lá isso é verdade, sim senhor. Isto o que é preciso é que a searinha não vá faltando, mas os anos têm vindo mum ruins. Lá se vão as malsoadas das vacas embora. Olhe aquela que vê além, bichinho como aquele nam hai fac'lmenrte. Pró mês de S. João deve ter outra cria... Mas vossemecê nam tem por aí uma verga d'água? Está mai'bem calor hoje. Isto no campo é como calha a estar. Às vezes frio, e d'i calor e d'i vento e d'i chuva; dá'mas fezes mum grandes a labuta do campo. Desde que se dêta mão a semear, até que se enrega levá-lo pró celeiro, Jasus que é Deus, o que é preciso dar às galfárrias. Por fim se o ano não ajuda, adiós quinim! O tempo às vezes estrompalha tudo, até parece que é por rebendita.

- Você tem seara e essas vaquinhas, não?

- Ora 'poi'sorte, tem que a gente ir formigando para arranjar o avio. Tenho lá dois netos, que quase nam me deixam fazer nada e o pouco que vou fazendo, ainda é p'ra eles. Nam sei por quê, parece que me sinto mais carançudo p'ros netos do que me senti p'ros filhos. Um nam passa de um chinchilha, mas o outro lava-se com uma bochecha de água...

Estava o nosso campónio nesta conversa com o seu interlocutor, quando o engenheiro começava a preparar-se para se mudar para outro ponto.

As duas vacas iam também entrando por uma seara e tudo se conjugou para que a conversa tomasse outro rumo e o bom do velhote se afastasse, ralhando com as vacas e, despedindo-se de nós, lá seguiu o seu caminho. Mas o que é certo é que achei graça a certos termos que ele empregou e que mais vezes eu ouvira a outras pessoas, sobretudo às mais idosas. Mais um bocado de conversa entre mim e o engenheiro sobre futuras realizações de futuros progressos na freguesia e cada um foi à sua vida. De regresso a casa, fiz o propósito de compilar para as gerações que vierem, alguns termos que hoje dão à conversação amarelejense um certo cunho típico e de bastante originalidade. Peguei no lápis e no papel e com a ajuda dos amigos arquivei as seguintes palavras e frases mais usuais.

10. 2

AMARELEJA Rumo à sua História,
de Padre João Rodrigues LOBATO, 1961

BREVEs DIÁLOGOs POPULARes:

- Prim'Maria que tem tu'menina?

- Ora! Q'havera de sêri!... Uma 'bechana d'asa vermelha que faz zunga e faz meli que'le picou!...

- Então foi uma aboilha que'le picou...

- Um'aboilha, sim! Prim'Maria, uma aboilha...

---------------------------------------------------------------

Certa mulher foi consultar o médico por causa de uma filhinha ainda de peito:
- Sr. Doutôri, venho mostràri a'mnha Menina! Tem tado mun màli!

- Então que lhe deu de comer? (pergunta o médico)"

- Cumpri dá'reis d'açucri, mastugui-lo e di-lo!...

10. 3

AMARELEJA Rumo à sua História,
de Padre João Rodrigues LOBATO, 1961

(De D. Maria da Paz Barreto Martins.)

NÃO ME TROCO POR NINGUÉM
Nam m'envergonho dezer,
Diante de toda a gente,
C'aqui o Chico Valente,
Ó seja, eu arrepresentado,
Sou homem sério e honrado
E nam me troco por ninguém.

E mesmo sem ter vintém
Nam invejo os grandes senhores,
Embora sejam dotores,
Ó lavradores abastados.
'Stam'te mê'dia detados,
Dormindo nos bons colchões,
E comem os bons gimões.
'Stam à grande regalados!

Mas cá o Chico Valentão,
É homem doutra condição!
Boto os safões e o pelico
E mais airoso qu'a um rico
Saio logo de madrugada.
Pranto ao ombro a enxada
E vou p'ró campo trabalhari...
E é que nada me faz mali.

Nam faltando o tabaquinho,
Mais a Pinguinha d'e vinho, M
ais o mê burro jarico,
Sô mais feliz qu'a um rico!...

Tenho a saúde de ferro
E trabalho porque quero!
E nam me envaio em cantigas.
Poi'quem sabe fazer migas,
Dar-le volta e comê-las,
Esse sabe merecê-las.

P'ra lavrari e sameari
Nam dou a drêta a ninguém...
S'aparece p'r'aí alguém
Qu'a mim me quera ganhar,
Té sou capaz d'o tombar!...
Ele aqui está que se veja
Se alguém, drento d'Amareleja,
Comigo quer apostar
Se é capaz de me igualar,
Nas coisas da ingricultura,
Qu'a verdade... logo se apura!

Mas... cá me veio ao sentido...
Quando eu estava subido,
Em riba duma olivera,
E falou desta manera
Um engenheiro de fora"
Qu'ap'raceu naquela hora
E pôs-se o corte a mirar...

- Homem, eu queriló ensinar,
Se você tem paciência,
De aprender esta ciência,
P'lra ,saber podar ,mais bem.
- Cá a mim nam me ensina ninguém...
S'o senhor tem essa ciência
Eu tenho munta 'spirência...
Ó despois lá me convenceu.
E o resultado vi eu
No óutro ano a seguir
E agora digo eu a rir,
Já tudo nos vem às modas.
Até na quistão das podas.

Taremos de dar razão
Ao engenheiro Mira Galvão.
Que ele é o que sabe mais,
Os dedos nam são iguais
E foi estudar em boa hora
Lá p'r'ó estrangeiro de fora.

Temos cá outro entendido,
Que emprega munto o sentido,
E também está na altura
Nas coisas da ingricultura
Dá leções com munto jêto.
E o senhor Ongenio Barreto.

S'um dia tenho paciência
Vou fazer uma spirência!...
Enxerto uma azinhera
Com'mas puas d'olivera.
E s'isto der resultado
Já eu estou amanhado.
Vai o caso p'r'ó jornal.
Muita fama hei-de eu ganhar,
E depois serei premeado
Com alguns dinheros do Estado.

Mas dá-me na gana dezer
Que 'sou um homem valente!...
E nunca fiz mal a ninguém.
Trabalho, mas sei por 'spirência...
Outros terão a ciência!...
Há no mundo munta gente
Mais cá o Chico Valente
Nam se troca por ninguém.

De D. Maria da Paz Barreto Martins.

11

O ELEMENTO ÁRABE NA LINGUAGEM DOS PASTORES ALENTEJANOS
(EALPA) (Conde de Ficalho).

Conde de Ficalho - Notas para elucidar…

In Conde de Ficalho
O ELEMENTO ÁRABE NA LINGUAGEM DOS PASTORES ALENTEJANOS

In NOTAS ACERCA DE SERPA
A maioria dos termos que aqui registamos é a partir de O ELEMENTO ÁRABE NA LINGUAGEM DOS PASTORES ALENTEJANOS, que também tinha sido publicado in A TRADiÇÃO, de Serpa, a partir do ANNO I - N° 6, Junho de 1899, p. 81, ver 97, 113 e 129.

Nota: A lista de (outras) palavras e expressões que fomos encontrando no decorrer do trabalho e podem contribuir para o enriquecimento do vocabulário. Por estar ligado às NOTAS ACERCA DE SERPA, a maioria dos termos que aqui registamos é a partir de O ELEMENTO ÁRABE NA LINGUAGEM DOS PASTORES ALENTEJANOS, que também tinha sido publicado in A TRADiÇÃO, de Serpa, a partir do ANNO I - N° 6, Junho de 1899, p. 81, ver 97, 113 e 129.

É de salientar aqui, três aspectos importantes realçados pelo Senhor Conde em outros estudos:

1º - A ocupação árabe, sobretudo no Sul, a primeira a ser ocupada e a última a ser libertada, estende-se por quase quatro séculos e meio, cinco. Tarik, de 710 até 1249, a tomada de Faro por D. Afonso III, tendo deixado profundas influências e marcas.

2°- Entretanto, se ficaram marcas profundas e grande influência quanto aos hábitos e indústrias locais e até no vocabulário, isso não aconteceu quanto à transformação da língua, nem da religião. A índole e estrutura das duas línguas eram muito diferentes; a religião, não respondia aos anseios e maneira de ser mais profunda.

3º - Apesar de encontrarmos numerosas palavras e nomes de origem árabe, estas são nomes de terras ou palavras para designar objectos concretos, instrumentos de trabalho, e como se vê, são raríssimas as palavras de origem árabe para traduzir algo de abstracto, sentimentos ou paixões. O pensamento e o sonho, parece que ficaram sempre fora da influência da língua! Será verdade? Da língua terão ficado mas do sonho? O imaginário oriental e o fascínio de Córdova, Sevilha, Toledo, Silves... Moura, talvez seja, aqui, o que nos fascina, ali, ao alcance da mão!!!

12

RIQUEZA DOS FALARES REGIONAIS

(um conjunto de vários (7)Textos com saborosas (h)istórias no fim das quais o autor faz um levantamento vocabular...) - Daqui peço as devidas desculpas e autorizações, para, dentro das minhas limitadas possibilidades, ir arquitectando uma AMOSTRA do FALARe do ALENTEJO...

Riqueza dos Falares Regionais, Manuel João da Silva,
Ed. Câmara Municipal de Santiago do Cacém, 1ª ed. 1985
(Recolha feita nos Concelhos de Santiago do Cacém e Sines)

Uma colectânea de 7 contos;

- José Francisco foi a Lisboa
- cá onde canta a zorra
- O Namoro do Jorze e da Dlaida
- Do nascer do Sol ao fim do Serão
- As Falas eram diferentes
- Camponeses - Pobres e Ricos - Marcos na Terra… e nos Homens (diálogos curtos…)
- A Ti Jacinta de Vale da Garça

(Cada conto é seguido de um levantamento vocabular, em que o autor privilegia as expressões mais características e expressivas, mas deixando nos textos um manancial imenso daquelas que são consideradas corruptelas da linguagem oficial… Começando com o Alentejo em Lisboa… e com os de Lisboa no Alentejo, vai avançando para as cenas mais típicas e expressivas, mostrando-nos que, afinal, o Falar Alentejano é muito diversificado de zona para zona, como aliás mostram os outros trabalhos, como o da amareleja e Serpa… "Nada existe que identifique melhor a população de um determinado lugar que a sua fala." (MJS). Neste trabalho organizámos o vocabulário completo por ordem alfabética com indicação do conto a que se refere… incentivando a leitura da obra completa… JRG, Corroios, 2011, Abril)

 

GLOSSÁRIO ALENTEJANO

In Riquezas dos Falares Regionais, de Manuel João da silva

(Santiago do Cacém – Sines -  1985)

 

TERMO / expressão

origem

CITAÇÃO/INFORMAÇÃO

/Significado

OBRA

Pag

 

ABALAM DESENGAITERADOS

 

Abalam a correr

MJdaSilva

C3

ABALAR DE ESCALHO TAPADO

 

Abalar à pressa sem dizer nada a ninguém

MJdaSilva

C7

ABALAR DE RABO RIPADO

 

Abalar à pressa e envergonhado, de qualquer lugar por ter sido expulso ou por ter medo.

MJdaSilva

C7

ABALOU DE RABO RIPADO

 

Abalou à pressa e envergonhado por ter levado uma descompostura ou uma tarefa

MJdaSilva

C3

ABAXAR O FACHO

 

A pessoa calar-se ou começar a falar menos, durante uma discussão.

MJdaSilva

C7

ABÊSPRA

 

Vespa. Pessoa que se zanga rápida e violentamente

MJdaSilva

C7

ABROGOAR

 

Acabar uma tarefa nos trabalhos agrícolas. Guardar alfaias e produtos colhidos

MJdaSilva

C4

ACABEDOU-ME

 

Pertenceu-me

MJdaSilva

C4

ACAREAR

 

Juntar bens materiais, produzir, angariar

MJdaSilva

C6

ACÊRAR

 

Andar a observar disfarçadamente uma pessoa ou coisa

MJdaSilva

C7

ACERTAR NA MUJA

 

Pôr uma bala, uma malha, etc., no ponto central dum alvo

MJdaSilva

C5

ACILHAR

 

Assentar, permanecer

MJdaSilva

C3

ADARNANDO

 

Pessoa que caminha com dificuldade debaixo duma grande carga (Será corruptela de adernar)

MJdaSilva

C7

AFIAMBRAR

 

Diz-se quando várias pessoas fazem qualquer actividade em competição e cada um faz o melhor que sabe

MJdaSilva

 

AGORA É QUE VOCEIA ME PARTIU

 

Deixou atrapalhado

MJdaSilva

C5

AGUENTAR O PUXO

 

Aguentar o trabalho ao desafio com outra pessoa

MJdaSilva

C6

AH! AGORA CÁ

 

Nada disso!

MJdaSilva

C1

AI QUE ME DERRETO TODA...

 

Dito com que se pretende ridicularizar uma pessoa presumida, que fala de maneira afectada com intenção de se tomar muito simpática ou fazer-se passar por pessoa culta

MJdaSilva

C7

AINIM

 

Ferimento, estrago causado por qualquer objecto

MJdaSilva

C2

AJUNTAR

 

Trabalho geralmente feito por mulheres, que consistia em juntar as paveias em braçados que eram colocados sobre os atilhos, para fazer os molhos, que os homens, como mais possantes, apertavam e enrolavam as pontas para não se desatarem

MJdaSilva

C7

ALARGAR OS COSES DAS CALÇAS

 

Como o trabalho é muito violento, as pessoas emagrecem e as calças ficam largas

MJdaSilva

C6

ALBARDAS ISSO (TU)?

 

Tu consentes ou admites ofensas?

MJdaSilva

C7

ALBORCADA

 

Tacho ou prato com grande quantidade de comida

MJdaSilva

C6

ALCRAPOCHAR-SE

 

Zangar-se, tomar atitudes agressivas

MJdaSilva

C3

ALCURSAR

 

Conseguir

MJdaSilva

C6

ALDEAGAR

 

Conversa que uma pessoa faz para se defender ou justificar, mas sem convencer ninguém

MJdaSilva

C7

ALFAQUE

 

Cova na estrada, geralmente causada pela água da chuva

MJdaSilva

C2

ALGOSO

 

Egoísta, pessoa que quer tudo para si

MJdaSilva

C2

ALICATES

 

Os dedos

MJdaSilva

C7

ALOA

 

Falatório numa localidade, escândalo motivado por uma má acção praticada

MJdaSilva

C7

ALOMBAR

 

Pôr às costas

MJdaSilva

C4

AMEZIAR

 

Denunciar uma pessoa à autoridade por qualquer infracção que tenha cometido

MJdaSilva

C2

ANDAR A ASSOMBRAR

 

Andar a exercer influência sobre uma pessoa ou coisa

MJdaSilva

C6

ANDAR A CARREGAR PEDRAS

 

Diz-se do rapaz que vai visitar a namorada

MJdaSilva

C3

ANDAR COM AS VENTAS NO AR

 

Andar - dum lado para o outro de cabeça n ar, conquistando as raparigas

MJdaSilva

C3

ANDAR GRUNDANDO

 

Animal que anda entretido a procurar alimento, em liberdade

MJdaSilva

C2

ANDAR NA AMANSIA

 

Dizia-se das crianças quando começavam a trabalhar à jorna, em comparação com os bezerros ou outros animais domésticos quando começavam a ajudar o homem nos trabalhos campestres

MJdaSilva

C6

ANDAR ÔS TIRAPUXOS

 

Puxar e empurrar violentamente alguém. Lutar

MJdaSilva

C7

ANDEM AQUI DE TIRA VIRÃ

 

Quando uma pessoa provoca outra continuamente, aproveitando todas as ocasiões para a ofender

MJdaSilva

C7

ANDI PEGADA A PATROA

 

Andei a lutar corpo a corpo

MJdaSilva

C7

APANHAR O PAU

 

Chegar tarde ao trabalho

MJdaSilva

C6

APANHAR UMA CHARAMBUTADA

 

Apanhar uma repreensão de forma violenta e rápida

MJdaSilva

C2

APANHAR UMA CHARUTADA

 

Apanhar uma repreensão no trabalho dado pelo patrão ou pelo encarregado

MJdaSilva

C6

APANHAR UMA PESSOA ONDE SÓ 4 OLHOS VEJAM

 

Diz-se quando se ameaça de agressão uma pessoa quando se encontra só

MJdaSilva

C6

APORREAR

 

Provocar com palavras ofensivas ou sarcásticas

MJdaSilva

C7

APRACER ASSIM

 

Aparecer grávida

MJdaSilva

C3

APRACER EM CASA O GAJO DA BOTA FINA OU APRACER O GASPAR

 

Acabar-se a alimentação ou haver dificuldades em casa do pequeno agricultor

MJdaSilva

C5

APRACEREM A UMA ILHA DE CORNOS

 

Geralmente quando uma pessoa se zangava com outra mandava-a «ap'racer a esta ilha». Era uma frase ofensiva

MJdaSilva

C7

APRACEREM COM OS SALÊROS EM BAIXO

 

Aparecerem com os cornos partidos (cabeça partida) Salêros - Espécie de caixas feitas em chifre de boi onde os trabalhadores usavam o sal

MJdaSilva

C3

APRELAITADA

 

Que apresenta modos e vestuário de pessoa fina (Cremos ser corruptela de «aperaltada»)

MJdaSilva

C7

APUS DELA

 

Ir em sua perseguição

MJdaSilva

C7

ARARA

 

Pessoa fraca

MJdaSilva

C4

ARMANHA

 

Grande volume

MJdaSilva

C4

ARRAMADA

 

Casa onde os bois dormem e se alimentam durante a noite

MJdaSilva

C6

ARREPARTIR A CEIA

 

Pôr a comida na mesa

MJdaSilva

C4

ARROMBAR

 

Deslocar os ossos ou os músculos por causa de um grande esforço

MJdaSilva

C4

ARROTI-LE

 

Respondeu à letra, a alguém mostrando não ter medo. Ameaçar

MJdaSilva

C7

ASTICIOSOS

 

Artistas. Mas neste caso tinha a sentido contrário

MJdaSilva

C7

ASTÓIRO DE FAMILA

 

Muita gente junta a ouvir uma discussão, a ver uma zaragata, um espectáculo (Cremos que este termo é corruptela de auditório)

MJdaSilva

C7

ATABANITO

 

Espiga de trigo pequena e enfezada, quase sem grão

MJdaSilva

C4

ATAR

 

Na ceifa manual, o trigo é atado em molhos com atilhos feitos com os caules do trigo ceifado

MJdaSilva

C7

ÁTÉ TENHO RESCUNHO

 

Até tenho nojo, aborrecimento

MJdaSilva

C7

ATÉI É PENA ANDAR À SEMANA

 

Comentário e crítica que se faz a uma pessoa com pretensões a ser «gente fina» mas que tem que trabalhar nos serviços rudes do campo

MJdaSilva

C7

ATIÇAR

 

Incitar uma pessoa a fazer mal a outrem

MJdaSilva

C7

ATINGÉINO

 

Discussão acalorada, escândalo

MJdaSilva

C7

ATRÁS DAS ESTEVAS

 

No campo, no monte

MJdaSilva

C5

BACAISO

 

Tiro de espingarda

MJdaSilva

C2

BALDEADO

 

Individuo «aéreo», sem orientação de vida

MJdaSilva

C3

BALSA

 

Espécie de alcofa de palma, com tampa e uma faixa para trazer ao ombro

MJdaSilva

C7

BARROSOS, LAIMAS

 

Pés

MJdaSilva

C4

BASTA QUE SIM

 

Expressão que significa que a pessoa desconhecia o que ouviu dizer ou para mostrar atenção à pessoa que fala

MJdaSilva

C7

BATATAS BALHADAS

 

Batatas sem qualquer outro alimento a acompanhar

MJdaSilva

C4

BATER AS COLHERES

 

Morrer

MJdaSilva

C7

BATUCALHO

 

Ataque epiléptico

MJdaSilva

C2

BELO TRABALHO PARA FAZER MACACO

 

Fazer dor nas costas por se andar curvado muito tempo

MJdaSilva

C6

BENZE-TE

 

Não apanhas nada, não tens sorte nenhuma

MJdaSilva

C6

BILHARDÊRA

 

Mulher pouco asseada

MJdaSilva

C2

BILHARÊTA

 

Malandrice, má acção

MJdaSilva

C3

BISCAINHA

 

Mulher má, que gosta de ver as pessoas em desordem

MJdaSilva

C7

BOI CAPADO NÃO SE DESCAPA

 

Não se pode desfazer aquilo que foi feito

MJdaSilva

C3

BORNICOS

 

Pequenos galhos secos que caem dos sobreiros, com ao cortiça por fora e a madeira apodrecida por dentro

MJdaSilva

C7

BORRALHADA

 

Tiro de espingarda caçadeira

MJdaSilva

C2

BORRASÊRO

 

Chuva miudinha

MJdaSilva

C2

BORREFA

 

Pessoa modesta, exageradamente vaidosa, que se julga importante

MJdaSilva

C7

BRIGAR

 

Esforçar-se, teimar até conseguir o que pretende

MJdaSilva

C5

BUFÊRO

 

Cu

MJdaSilva

C6

CACAISOS

 

Copos de vinho na taberna

MJdaSilva

C6

CAGÁ SENTENÇAS

 

Só a mandar os outros trabalhar, ou dar opiniões descabidas

MJdaSilva

C7

CAGANIFÃINÇA

 

Pequena quantidade ou coisa sem importância

MJdaSilva

C7

CAGOU CAROCHO

 

Nada, nunca, de modo nenhum. Ex: A respeito de pagar o que deve, cagou carocho

MJdaSilva

C3

CAGUFE

 

Medo

MJdaSilva

C3

CAIR DA BURRA ABAXO

 

Compreender de momento, uma situação que desconhecia

MJdaSilva

C3

CALATRÓIA

 

Refeição cozinhada à pressa, geralmente feita no campo

MJdaSilva

C7

CALHOU A COTA COM A PERDIGOTA

 

Diz-se quando se juntam duas coisas más ou com os mesmos defeitos

MJdaSilva

C3

CANORÇA

 

Termo para exprimir uma mulher desajeitada no falar e no vestir

MJdaSilva

C6

CARA DE ESCÁRNE

 

De modo escarninho

MJdaSilva

C7

CARAS ALTAS QUE ANDA A FORTUNA A RÉS 00 CHÃO

 

Expressão que as pessoas usam para se avisarem umas às outras quando alguém deita gases malcheirosos

MJdaSilva

C4

CARCACHADA

 

Gargalhada

MJdaSilva

C5

CARGUIO

 

Carga grande

MJdaSilva

C4

CARPINTINA

 

Barulho que uma pessoa faz quando está zangada, ou se lamenta por muito tempo em voz alta

MJdaSilva

C2

CARRIÇOS

 

Sobreiros pequenos que nascem debaixo dos outros maiores e têm que ser desbastados

MJdaSilva

C6

CARROLÊRA

 

Caminho feito pelas rodas das carroças, através dos campos

MJdaSilva

C2

CARROLÊRO

 

Copo de vinho (na taberna)

MJdaSilva

C2

CASA NÃO PRECISA DE MOIRÕES (A)

 

Isto dizem os pais das raparigas para afastar os rapazes que se vão encostar às paredes da casa para as namorar

MJdaSilva

C3

CASCOS

 

Pinhas secas para queimar

MJdaSilva

C4

CASÊRO

 

Porco de engorda, do pequeno agricultor

MJdaSilva

C2

CASMARROS

 

Pequenos sobreiros que se arrancam quando é preciso desbastar o montado

MJdaSilva

C7

CAVAR MILHO

 

Sachar milho

MJdaSilva

C6

CELIMA

 

Cinema

MJdaSilva

C7

CHALDABALDA

 

Diz-se quando se queima qualquer coisa em que o fogo faz grandes labaredas mas de pouca duração

MJdaSilva

C6

CHEGAR A ALBARDA P'RA DIANTE A ALGUÉM

 

Agredir, bater em alguém

MJdaSilva

C4

CHEGAR O VINAGRE AS VENTAS

 

Arreliar-se, começar a zangar-se

MJdaSilva

C4

CHEIA DE NOVE HORAS À MEIA NÔTE

 

Diz-se com ar de crítica quando uma pessoa se apresenta com luxo exagerado

MJdaSilva

C7

CHÊRANDO MANTUROS

 

Um rapaz andar de casa em casa à procura de raparigas

MJdaSilva

C3

CHUPÃO

 

Pequena chaminé para fazer lume e aspirar o fumo

MJdaSilva

C4

CILHA DE TERRA

 

Terreno bastante comprido e estreito

MJdaSilva

C4

COCA ou COQUEIRA

 

Cozinheira que no campo faz a comida para os trabalhadores rurais

MJdaSilva

C6

COCARIA

 

Lugar onde os trabalhadores dum grupo, fazem o comer e dormem, isto nos trabalhos do campo, conjuntamente com os utensllios de cozinha e roupa

MJdaSilva

C6

COM A BUTANA APEGADA AO CHÃO

 

Sentada com o rabo no chão sem se levantar, nem incomodar

MJdaSilva

C7

COMEÇOU A COZER ABOBRA

 

Mudar de atitude por medo das consequências, arrepender de ter tomado uma decisão

MJdaSilva

C7

COMO QUEM PISOU UM SACO DE ALACRARAS (LACRAUS)

 

neste «dito» pretende-se comparar as pessoas más com os lacraus quando são provocados

MJdaSilva

C7

COMO QUEM PRANTOU PITROL NO LUME

 

Quer dizer que uma pessoa se zangou rápida e violentamente

MJdaSilva

C7

CONDO O RELÃO TUFA QUE FARÁ. O PÓ

 

Aqui cita-se o rolão (farinha grosseira) e o pó (farinha fina) para significar que se uma pessoa é vaidosa sendo pobre, o que faria se fosse rica. Tufa cresce, incha

MJdaSilva

C7

CONTARÊLOS

 

Alcovitices, mentiras

MJdaSilva

C7

CORNO (O)

 

O saleiro. Os trabalhadores rurais usavam geralmente o sal dentro dum chifre de boi cortado e ralhado nas duas extremidades

MJdaSilva

C7

CU P'LOS TORRÕES (O)

 

Pessoa baixa

MJdaSilva

C3

CUDE NAS SUAS OVELHAS QUE OS MÊS CARNÊROS ANDAM À SOLTA

 

Esta expressão é dita pelas mães que têm filhos às que têm filhas

MJdaSilva

C3

DAR ÀS HORAS

 

Fazer cumprir o horário de trabalho num grupo de trabalhadores

MJdaSilva

C7

DAR UM MALHÃO

 

Cair, dar uma queda (Serra E. – deu um carvalhós…)

MJdaSilva

C4

DAR UMA REMALHA

 

Dar uma tareia

MJdaSilva

C4

DAR UMA TUNA

 

Dar uma tareia

MJdaSilva

C7

DAR VIVAS À QUESTINA

 

Lamentar-se uma pessoa ou protestar violentamente por qualquer coisa que lhe desagradou

MJdaSilva

C2

DE RAMOTÃO

 

De mau modo. Com brutalidade

MJdaSilva

C7

DEIXAR FURAR A MANTA

 

Diz-se quando o pastor deixa o gado fazer estragos nas searas ou outras plantas

MJdaSilva

C6

DEIXARAM O CAPOTE EMPENHADO

 

Expressão que significa que num rancho de pessoas a ceifar, os atadores não conseguem ao mesmo tempo, atar em molhos, todo o trigo que os companheiros ceifam

MJdaSilva

C7

DELADOIRO

 

Desordem, desarrumação de objectos, casa desarrumada

MJdaSilva

C2

DELANÊRO

 

Luta, zaragata

MJdaSilva

C7

DERREMUNHO

 

Remoinho de vento. Diz-se de uma pessoa que dá muitas voltas, rapidamente, na dança, principalmente

MJdaSilva

C7

DESABAGACHADAS

 

Com o fato desabotoado

MJdaSilva

C7

DESCOSER-SE A MANTA

 

Descobrir-se um segredo

MJdaSilva

C2

DESEMBOGAR

 

Dar a primeira lavagem à roupa ou à loiça para lhe tirar a maior quantidade de sujidade

MJdaSilva

C4

DESEMBOGAR A LOIÇA

 

Dar-lhe a primeira lavagem para uma vez com mais tempo lavar convenientemente

MJdaSilva

C7

DESPADIR

 

Partir a correr

MJdaSilva

C5

DESSEM QUE FAZER

 

Admitissem no trabalho, empregassem

MJdaSilva

C7

DESTAQUES

 

Palavras descabidas ou inconvenientes

MJdaSilva

C7

DÊTAR OS BOFES PELA BOCA

 

Estar muito cansada

MJdaSilva

C7

DÊTO-LE OS CABOS

 

Agarrei-a com as mãos

MJdaSilva

C7

DEVE SER MAIS OUTRA PELE

 

É uma expressão que se diz quando se ouve uma pessoa ameaçar outra e se pretende ridicularizar a pessoa que ameaça, fazendo crer que vai matar a outra e tirar-lhe a pele, para juntar a outras que já tem

MJdaSilva

C3

DIABO CAGOU PEDRAS (O)

 

Diz-se dum lugar onde há muitas pedras ou outras coisas prejudiciais

MJdaSilva

C6

É CAJADIÇO

 

Tendência para Ex.: é cajadiço a adoecer

MJdaSilva

C4

É COMO A BICHA, TEM QUE PICAR TRÊS VEZES O DIA

 

Segundo a crença popular nalgumas regiões, a bicha (víbora) tem que picar seja no que for, três vezes por dia. Comparava-se então com este animal, à pessoa má ou «neurótica» que tem de ofender os outros mesmo sem motivo justificado

MJdaSilva

C7

É COMO LAVAR A CABEÇA A UM BURRO E MANDÁ-LO P'RÓ ESPOJÊRO

 

Usa-se esta expressão quando se aconselha uma pessoa para o bem e ela procede ao contrário

MJdaSilva

C2

É POETA

 

É esperto, desembaraçado, artista

MJdaSilva

C5

EMBÊRADA

 

Bocado de terra húmida onde se cultivam produtos de hortejo

 

MJdaSilva

C4

EMPESTADA

 

Ofendida, zangada

MJdaSilva

C4

EMPINADELAS

 

Discussões acaloradas

MJdaSilva

C4

EMPINAR AS AIVECAS

 

Morrer

MJdaSilva

C4

ENCABECIONAR

 

Manter uma ideia fixa, apaixonar-se

MJdaSilva

C3

ENCHER A MALVADA

 

Encher a barriga

MJdaSilva

C6

ENCHER A MULA

 

Encher a barriga

MJdaSilva

C2

ENFUSTO COM ELA

 

Invisto com ela, empurrei-a violentamente

MJdaSilva

C7

ENGRENÇO

 

Criança de tenra idade ou ainda por nascer

MJdaSilva

C3

ENREGAR A PESCAR

 

Começar a cabecear com sono

MJdaSilva

C4

ENSAMPADO

 

Muito admirado

MJdaSilva

C4

ERA FÊTA DE CHÊXOS BRANCOS

 

Calhaus de quartzo

MJdaSilva

C4

ERA UMA BOA FÔCE

 

Era uma boa ceifeira

MJdaSilva

C7

ESBORNICOU-SE

 

Partiu-se, estragou-se

MJdaSilva

C5

ESCOPAITA

 

Pessoa que quer as coisas muito perfeitas e geralmente põe defeitos em tudo quanto os outros fazem

MJdaSilva

C2

ESMANGRITAR-SE

 

Desfazer-se, encangalhar-se

MJdaSilva

C7

ESPALAIADA

 

Mulher que usa de modos e amabilidades exageradas. Afectada na maneira de falar

MJdaSilva

C7

ESPERNEGO-TE

 

Mato-te, dou cabo de ti

MJdaSilva

C7

ESPOJÊRO DUM BURRO

 

Pequena courela

MJdaSilva

C4

ESTABERNEQUIAVA

 

Som produzido pela mulher que lava a louça, arruma os móveis, mexe em objectos..

MJdaSilva

C4

ESTAFOREIA

 

Lida agitada, trabalho feito à pressa

MJdaSilva

C6

ESTAR DELAINHO

 

Diz-se do tempo quando está muito chuvoso, ou duma pessoa que está bem disposta e fala muito

MJdaSilva

C2

ESTAR NA MÓ DE BAIXO

 

Estar numa posição inferior em relação a outra pessoa

MJdaSilva

C5

ESTARRABAGIDA

 

Termo onomatopaico. Significa o som produzido por um carro que trava repentinamente, um animal que escorrega com as ferraduras

MJdaSilva

C4

ESTENDER A APÊRAJA

 

Cair. Ficar estendido no chão

MJdaSilva

C7

ESTICÃO

 

Grande caminhada

MJdaSilva

C2

ESTRAFANÁIRA

 

Estouvada, «aérea», pouco cuidadosa

MJdaSilva

C4

ESTRELAIO -

 

Coisa mal apresentada por desmazelo, desarrumação

MJdaSilva

C4

FALAR A POLÍTICA

 

Falar na linguagem das pessoas cultas

MJdaSilva

C5

FALE BEM QUE JÁ TEM DENTES

 

Era uma forma suave de repreender uma pessoa pelas palavras indecentes ou ofensivas que proferia

MJdaSilva

C7

FANGUÊROS (120)

 

120 escudos

MJdaSilva

C7

FARRAJO DE PÃO

 

Naco de pão

MJdaSilva

C7

FARRAMACHOS DE ANO SECO

 

Diz-se quando uma pessoa se mostra muito zangada e faz muito barulho, mas por fim tudo fica em nada. Grande aparato que não corresponde à realidade. Coisa aparatosa que se desfaz em nada.

MJdaSilva

C6

FAZ O TRABALHO POR CIMA DA BURRA

 

Faz o trabalho imperfeito por desmazelo, falta de cuidado ou má intenção

MJdaSilva

C7

FAZER A ATADA ASSIM À CACHAMÔRRA

 

Fazer propositadamente como vingança um serviço imperfeito

MJdaSilva

C7

FAZER BORRÊGOS

 

Em grande parte dos casos, os lavradores eram avarentos para as suas mulheres, ao ponto de algumas terem sérias dificuldades para comprarem quaisquer objectos para uso doméstico ou mesmo roupa para si e para os filhos. Então vendiam produtos da propriedade (feijão, trigo, milho, etc.) às escondidas dos maridos, a pessoas da sua confiança. Estes produtos eram vendidos mais baratos que o preço corrente para os compradores guardarem segredo. Era fazer um «borrego»

MJdaSilva

C7

FAZER CARDENHOS

 

Roubar géneros de pouco valor, pequeno roubo

MJdaSilva

C7

FAZER FIO DE PORCA MAGRA

 

Andar apressadamente em qualquer direcção sem atender nem reparar no que fica ao lado

MJdaSilva

C5

FAZER GOVERNO

 

Casar

MJdaSilva

C3

FAZER QUERENA

 

Fazer um gesto de quem quer praticar qualquer acção

MJdaSilva

C4

FAZER UMAS RUAS

 

Fazer uns aceiros

MJdaSilva

C7

FAZEREM UM CALCO

 

Fazerem uma ideia. Avaliar

MJdaSilva

C7

FERROLHO

 

Espingarda velha

MJdaSilva

C2

FÊTA À FACA

 

Feita à pressa e de forma imperfeita

MJdaSilva

C7

FÊTA NUMA MIRRA

 

Múmia. Cadáver que se disseca sem entrar em putrefacção, ficando só a pele e os ossos

MJdaSilva

C7

FICAR NO CARRINHO

 

Ser ultrapassado, no trabalho da ceifa, pelos companheiros mais desembaraçados

MJdaSilva

C6

FROXÉIS

 

Roupa interior de senhora

MJdaSilva

C7

FURAR A GAMELA

 

Comer toda a comida que se apresentou para a refeição

MJdaSilva

C6

FUSCATONA

 

Mulher apresentável

MJdaSilva

C7

GAIFONAS

 

Carinhos fingidos, modos muito graciosos com o fim de conquistar alguém

MJdaSilva

C7

GAITINHAS

 

Centeio. Chama-se assim porque os garotos fazem gaitas com os caules deste cereal

MJdaSilva

C6

GALGUÊRA

 

Tarimba, cama improvisada

MJdaSilva

C3

GALHAPANÇO

 

Gaiato, rapazote

MJdaSilva

C4

GANHANHA

 

Pessoa desajeitada e preguiçosa

MJdaSilva

C6

GANHAR O CORNO DA MERDA

 

Dizia-se quando um trabalhador prejudicava os companheiros a favor do patrão para ganhar as «boas graças» dele ou pequenos favores como recompensa

MJdaSilva

C7

GARREAR COM OS CÃJE DOS LAVARDORES

 

Como uma desgraça nunca vem só, os cães odiavam e perseguiam os mendigos, certamente pelos andrajos que traziam, o alforge e os sacos com farrapos para improvisarem uma cama onde pernoitavam. Se chegasse uma pessoa bem vestida a casa do lavrador, os cães geralmente não ladravam

MJdaSilva

C7

GARROADA

 

Aguaceiro, bátega

MJdaSilva

C2

GARROCHADA

 

Aperto de mão

MJdaSilva

C2

GASGUÊRO

 

Chapéu velho

MJdaSilva

C6

GIMBRAR (A)

 

A trabalhar

MJdaSilva

C7

GOUCHA

 

Pequena extensão de terreno coberta de mato

MJdaSilva

C6

GOZEAR

 

O grunhir aflitivo dos porcos quando os estão matando. Neste caso significa sofrer

MJdaSilva

C7

GRAMIÇO

 

Pescoço

MJdaSilva

C7

HAVER CHAPUZ COM COUVE

 

Haver zaragatas, conflitos violentos

MJdaSilva

C7

HORTA -

 

Seara de milho

MJdaSilva

C6

HORTALIÇO

 

Meeiro que cultiva uma seara de milho a meias com o dono da terra, em que este semeia o milho e o outro parceiro faz todos os trabalhos da cultura e da colheita

MJdaSilva

C6

IA DEZENDO UMA BRABURA

 

Ia dizendo uma palavra indecente

MJdaSilva

C7

IGREJA

 

Taberna, venda

MJdaSilva

C2

IR A ESCOLA

 

Ir ao mato buscar um feixe de lenha às costas

MJdaSilva

C4

IR A FALCA

 

Ir à esmola

MJdaSilva

C6

IR A MATO

 

Ir evacuar

MJdaSilva

C1

IR ABAXAR-SE

 

Ir evacuar

MJdaSilva

C4

IR DE ESGALHARÊTA

 

Ir apressadamente aos trambolhões

MJdaSilva

C7

IR LEVAR AS ALCOFINHAS

 

Ir contar a outras pessoas, tudo o que sabe a respeito de terceiros, com o fim de os prejudicar

MJdaSilva

C7

IR PARA A CAGAMANCHA

 

Ir para a cadeia

MJdaSilva

C2

IR RABOLINDO

 

Sair apressadamente dum lugar, donde se foi expulso

MJdaSilva

C3

ISSO QUE ZUNA!

 

Incitar alguém a trabalhar depressa

MJdaSilva

C7

ISTO ATÉ ME DÁ FERNICOQUES

 

Expressão que se usa quando qualquer coisa faz enervar uma pessoa e esta não pode desabafar

MJdaSilva

C4

JÁ TAR PASSAGÊRO

 

Já estar esquecido ou ter perturbações mentais devido à idade

MJdaSilva

C5

JA VISTE O CU DA JUILA?

 

Esta frase emprega-se em atenção à pessoa que concordou com as nossas ideias

MJdaSilva

C7

JAGÁS

 

Burro

MJdaSilva

C2

JANEIRINHA

 

Cevada que se semeia em Janeiro

MJdaSilva

C6

JARDO

 

Terreno onde foi queimado o mato existente

MJdaSilva

C4

JOGO DE LOBOS

 

Diz-se quando a casa se encontra desarrumada, balbúrdia de objectos

MJdaSilva

C2

JOGO DE MARJAS -

 

O número de margens que cada ceifeiro ceifava duma vez. As mulheres ceifavam 2 margens e os homens 3.

MJdaSilva

C6

LÁ ESTÃO ELES NO SURRADOIRO

 

Diz-se dos namorados quando estão a falar muito juntos um ao outro

MJdaSilva

C3

LÁ NOS SITOS ONDE A ZORRA CANTA

 

Nos campos, nos montes

MJdaSilva

C5

LABORDA

 

Desarranjo e porcaria

MJdaSilva

C6

LAMBANA

 

Comida mal confeccionada e de sabor desagradável por falta de substâncias nutritivas (temperos)

MJdaSilva

C7

LANCE COM A FÔCE

 

Cada vez que se mete a foice à seara e se corta uma mão cheia de caules de trigo

MJdaSilva

C7

LANÊTA

 

Coelho

MJdaSilva

C2

LASÊRO

 

Aberta entre duas chuvadas

MJdaSilva

C2

LAVOR

 

Melancial

MJdaSilva

C4

LEVANTAR-SE COM A ESTRELA COM QUE O BOI MÓSCA

 

É com o Sol que aparecem as moscas que apoquentam os bois

MJdaSilva

C5

LEVAR COM A TÁVUA NO CU

 

Dizia-se quando um patrão despedia um trabalhador e cortava relações com ele, de forma a nunca mais ser admitido em qualquer trabalho nessa casa

MJdaSilva

C7

LEVAR UM CAMAÇO

 

Levar uma tareia

MJdaSilva

C7

LEVAS UM ENXUGO

 

Levas uma tareia

MJdaSilva

C3

LEVAS UM ENXUGO

 

Levas uma tareia

MJdaSilva

C6

LEVAS UMA REMALHA

 

Levas uma tareia

MJdaSilva

C4

LINHO (NINHO)

 

Cama

MJdaSilva

C4

LOMBERÃO

 

Preguiçoso

MJdaSilva

C6

LOMBÊRONA

 

Preguiçosa

MJdaSilva

C4

LUGARÊRO QUE NA PAGA LUGUEL, FORA COM ELE

 

Esta expressão era usada pelas pessoas, querendo dizer que as coisas inúteis (neste caso os «gases») deviam ser expulsos como o inquilino que não paga renda

MJdaSilva

C7

LUMES FUGIDOS

 

Incêndios no campo

MJdaSilva

C7

MACHOCHINHO

 

Pequena porção de qualquer coisa, coisa de pouco valor

MJdaSilva

C6

MANDAR NA FAMILA

 

Orientar e vigiar um grupo de trabalhadores. Serviço de manajeiro ou capataz

MJdaSilva

C7

MANGÔRRA

 

Preguiça, falta de vontade para trabalhar

MJdaSilva

C6

MÃO DE TERRA

 

Faixa de terreno com cerca de 10 metros de largura, entre dois regos. «Enregava-se» assim a terra quando o trabalho da sementeira e adubação era manual

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C6

MÃO LAVA A OUTRA E AS DUAS LAVAM O ROSTO (UMA)

 

Quer isto dizer que devemos retribuir às pessoas que nos fazem favores

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C5

MARJA

 

Cordão de cereal entre dois regos. Margem

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C6

MASCAVLA

 

Defeito, ferida, aleijão

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C2

MEDIR UNS COPOS

 

Encher copos de vinho ao balcão

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C6

MÊS DA FÊRA DA ABELA

 

Mês de Outubro

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C6

MÊS DA FÊRA DE GARVÃO

 

Maio

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C6

MÊS DE ÊRAS

 

Julho. Quando se faz o trabalho de debulha nas eiras

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C6

MÊS DE S. JOÃO

 

Junho

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C6

MÊS DO BANHO DO 29 OU DE S. ROMAO

 

Mês de Agosto

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C6

MÊS DO NATAL

 

Dezembro

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C6

MÊS DOS SANTOS

 

Novembro

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C6

MILHARADA TA NA BARRIGA DUMA TRAVOADA (UMA)

 

Esta expressão teve origem no facto de chover no Verão quase só quando há trovoadas o que vai beneficiar as searas de milho que se cultivam nesta época

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C6

MILHO SAI ARRABOLÃO (O)

 

Isto passa-se nas eiras onde vários meeiros punham o milho a secar. Alguns menos honestos faziam rebolar as maçarocas das «pélas» dos outros para as suas

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C6

MOÊRA

 

Mangual, utensílio para malhar cereais

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C6

MULHER POMBINHA

 

Mulher que só vive para se enfeitar

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C3

MUNTO CEGO ÉI QUE(n)iM N A VÊi POR UMA REDE DE OVELHAS

 

Frase que se diz para manifestar o desagrado pela ingratidão ou incompreensão duma pessoa

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C7

NÃ QUERIA DAR CRÉTO

 

Ofereceu resistência. Não se queria deixar dominar

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C7

NÃ QUERO AQUI PATEFARIAS

 

Nã quero aqui palavras ofensivas ou atitudes provocadoras

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C7

NÃ QUERO CÁ BACROS COM GUIZO

 

Não quero situações duvidosas ou que as pessoas possam censurar

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C7

NÃ TEM OS CINCO ALQUEIRES BEM MEDIDOS

 

Não regula bem da cabeça

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C7

NÃO CONHECER UMA LETRA DO TAMANHO DUM BURRO

 

Ser analfabeto

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C5

NÃO É CAPAZ DE DEITAR UMA ZORRA FORA DUM VALE

 

Pessoa sem préstimo nem actividade

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