O CANTO DO FALAR(e)
ALENTEJANO

por um Cigano Castanho vindo da Serra da Estrela
JORAGA o acrónimo de JOsé RAbaça GAspar

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0.
SEARA VOCABULAR

ALENTEJO

3.
Barrancos
(um caso especial)
SEARA VOCABULAR


EXEMPLIFICAÇAO DO BARRANOUENHO EM TEXTOS POPULARES

 

Filologia Barranquenha, apontamentos para o seu estudo,
Dr. J. Leite de Vasconcelos
Fac-simile de 1955
Imprensa Nacional - Casa da Moeda
1981 - Outubro - da p. 97 a 1001
- (Um conto entre os 10 recolhidos, além diálogos de animais, narrações breves, frases avulsas, provérbios, cantigas vulgares, adivinhas, pregões e barranquenhadas… Um imenso material de estudo, depois de uma centena de páginas: divisão primeira: Da fala de Barrancos; e Divisão segunda - O que o autor pôde coordenar de gramática… e como a gramática não é tudo.. ficam estes dois exemplos).

Notas iniciais

«A Gramática decompõe a linguagem oral nos seus elementos materiais e funcionais: é como que a sua Anatomia e Fisio-psicologia. Importa porém depois reuni-los formando com eles um todo gramatical, e apresentá-lo ao leitor, para que êle entenda melhor o emprego do maravilhoso instrumento de expressão anímica que está ao seu dispor. Isto se torna particularmente indispensável quando se trata de uma língua estranha; e só se consegue com o estudo de uns tantos textos.

Para o nosso caso copiei da boca do povo quási tudo directamente: contos tradicionais (10), diálogos de animais, narrações breves, frases avulsas, provérbios, cantigas vulgares, adivinhas, pregões e barranquenhadas.

Conforme se disse, Barrancos está muito em contacto com a Hespanha, nação riquíssima de atractivo folclórico. Assim como na linguagem da população influi a de Hespanha, assim também o folclore se impôs, por vezes, e com força à mente dos barranquenhos, o que observei por exemplo nas mencionadas espécies de literatura popular.

As pessoas que me disseram contos, de ordinário mulheres, sabiam-nos com freqüência em espanhol no todo ou em parte, e, não raro, os traduziam daquela língua. As adivinhas que ouvi foram quási todas vertidas do hespanhol. Os provérbios dizem-nos ora em hespanhol, ora em português*. As cantigas, que aqui apresento, é que me parece que têm origem portuguesa, adaptadas ao barranquenho, e ora as cantam em português propriamente dito, ora no dialecto.

Para que o leitor não encontre dificuldades na leitura dos textos, aqui se lhes lembra que reveja de antemão os seguintes parágrafos: 10, transcrição fonética;
13, substituição de s por h;
50 a 55, fonemas;
80-81, ligações.»

Nota
* Por exemplo o Sr Torrado, ao dizer-me o provérbio de "ubelha que berra, bucadu que perde", enganou-se, e disse bucau; como em hespanhol, na linguagem popular (bucau, § 24), mas emendou logo.

I Contos (um de dez... a recuperar...)

1. Belhita (*01)
(Contado êste conto por Angelina Silvestre)

Uma bêh era um negucianti, i tinha tre' filha': a' dua' mai' belha' erom ,muntu baidoza', i a mai' nóba era mai çuçegada, i çe xamaba Belhita.

U pai um dia, num negóciu perdeu a casa *(02) , i tudu que tinha, çó le ficandu um piquenu monti *(03) lá muntu lonji: i lógu çe tibérom d'i (§ 144 na obs.) todu' para lá; ehtibérom lá doi' ó tre' mezi' i çe le acabô tudu que cumê *(04). Antão u pai beyuZ a caza abiá *(05) i le preguntô á' filha' u que queríom que le troxéçi du pôbu; i a' du' mai' belha' le' dizerom:

- Me traga um ané.

I a mai' nóba, cômu nã le' encomendaba nada, le diçe u pai:

- I tu, Belhita, que queri' que te traga?

I ela le diçe:

- Çe pur acazu calhaba, queria uma roza branca.

Ma z u pai çe demurô muntu nu pôbu, i quandu çaiu, era já de noiti. Çe perdeu nu caminhu, i quandu biu *(06) au longi onJI uma lu', se fôi dirêto lá. Xigô, i era uma cabana; êntrô pur uma porta, i era um paláciu u que ehtaba ali. Metêu u cabálu na cabalhariça, i afiô *(07) pur umaz ehcada' açima, i au xigá lá çima, ehtaba uma cuzinha cum grandi lumi; i cômu lebaba muntu friu (=fri-u), ç.'arrimô, i ç'aquèçeu. Paçô ali a noiti, até que çe fê' dia. Lógu de pl'a manhã dêu ê andá pur ali a bê se bia alguêi, até que xigô ó jardim; ê au bê munta' roza' branca', se lembrô du pedidu da filha, i au curtá a róza, çuô *(08) û ruídu muntu grandi, i çe le aprezentô û môhtru que le diçe:

-Me bê:i *(09) a tirá, a flô que mai' ehtimu, dêhpoi' de tratar-te *(10)tã bêi?
Antão u omi le ("lhe") ehtebi contandu purquê tinha çidu. I le diçe u môhtru:

Apezá d'içu, bái bê a filha.

Ma' tinha de boltá ô trazê a filha. Eli çe fôi, i quandu ia lá xegandu, le bierom a çaiR a' tre' filha'. Áu xigáR *(11) a eli, le' diçe. que má nuticia le' trazia, i que nã le trazia nada, purquê u dinhêru nã tinha xigádu para nada. I á que le pediu a róza le diçe:
- Toma, filha, que bêi cáru me bái a custá!

Antão le ehtebi contandu. I quandu xigô u dia, a filha nã qui' que u pai fôçi, i fôi ela. Quandu lá xigô, biu a meza póhta çem çabê quêi la punha; i çempri açim, quandu erom óra' de cumê. Á noiti quandu ehtaba çiãndu, ôbiu um barulhu, i fôi *(12), beyu u mohtru i çe' açentô ô pé déla i le diçe:

- Góhta que te beja çiá?

I ela le rehpondeu:

- Bonçê é u dônu.

- Aqui n'ai *(13) mai' dônu, qu'éri tu.

I çe çe queria cazá com êle, tamêi le diçe. Au que ela le rehpondeu que não.

Todah a' nôti' apareçia, i le preguntaba u mehmu; i ela, cômu ehtaba aburrecida, purquê de dia nã bia a ninguêi; ehtaba dezejandu que xigaçi a nôti para falá cõ êli.

Paçarom quatru nôti' çê (próclise) bi', i ela fôi, çaiu ê buhca d'êli para u jardim, poi' ehtaba em fezi *(14) pur nã tê-lu bihtu; i fôi dá cõ êli debáxu d 'um árbu, meiu môrtu, i antão le puxô du bráçu; êli çe lebantô, çe fê num prinçipe, i çe cazárom u' doi', i lá ficárom muntu felizi *(15).

Notas:

01. Deminutivo da palavra hespanhola Bella, que soa em português Belha. Usa-se pois em hespanhol: Doña Bella, Señorita Bella.
O nome passou para Barrancos, com a pronúncia, e aí há uma ou outra mulher chamàda Belha. Na origem está o adjectivo Bella, paralelo ao nome próprio Bello. Venera-se em Lepe (prov. de Huelva) Nuestra Señora La Bella, onde se conserva o adjectivo originário.
De uma estampa que vi da imagem consta que se crê que esta apareceu na referida povoação dentro de um caixote: lenda análoga a muitas que correm em Portugal.

02 - Entenda-se "casa comercial".

03 - Monte designa propriamente as casas da herdade, mas às vezes toma-se por esta, como aqui.

04 - se le Z acabô (§ 80). Aqui les é de origem literária, pois em língua usual o le ó singular e plural (§ 109).

05 - "aviar", "aviar-se", isto é, veio (foi) a casa prover-se de comestlveis.

06 - Com o sentido de "eis que viu, ao vêr".

07 - Afiô significa "enfiou, seguiu).

08-"soou"

09- "vens"

10 - tratar-te e não tratá-te. Assim diz repetidamente o Sr. Torrado, de 65 anos, Barranquenho puro. Também pode dizer-se: dehpoi de te tê tratadu tã bêi.

11 - Vid. § 81.

12 - Acêrca de foi vid. o § nº 221.

13 - Por nã ái.. "não há".

14 - "em fezes", "aflita".

14 - Contado êste conto por Angelina Silvestre.

Várias expressões barranquenhas ou BARRANQUENHADAS

Filologia Barranquenha, apontamentos para o seu estudo,
Dr. J. Leite de Vasconcelos
Fac-simile de 1955
Imprensa Nacional - Casa da Moeda
1981 - Outubro


alá bô! já lá vou
aqueli cabelu' (singular e plural)
aqueliZ ome (reaparece o Z do primitivo plural, por se seguir vogal)
çi çê! se sei!
ehta mehma mulheri estas mesmas mulheres
ehti mehmuZ óme estes mesmos homens
u çinhô fá fabô de bi acá o senhor faz favor de cá vir
u çinhô fá fabô di dêxa-me paçá o senhor faz favor de me deixar passar…

 

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