CONTOS & LENDAS
A ARTE DE enCANTAR
na LITERATURA POPULAR PORTUGUESA

por JORAGA o acrónimo de JOsé RAbaça GAspar e outros mais de 1001 deNÓMIOS...

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LLL in MGiacometti

CONTOS & LENDAS

Serra da Estrela

ALENTEJO
uma TEIA infindável de Contos & Lendas

 

TEXTOS DE APOIO - a ARTE DE CONTAR e de enCANTAR

- as MIL E UMA NOITES ou as MIL NOITES E UMA... Selma Lagerloff... Perl Buck... Tiago de Mello a minha Avó

- O HOMEM QUE SABIA CONTAR

- no LE MONDE - Os efabuladores...

- TEXTOS ANTIGOS - as regras... - os CONTADORES DE HISTÓRIAS...

- A TRADIÇÃO DOS CONTADORES DE HISTÓRIAS - A IMPORTÂNCIA DE CONTAR HISTÓRIAS

- O TIO ZÉ MOLEIRO -

- Zé da SERRA

 

as MIL E UMA NOITES ou as MIL NOITES E UMA... Selma Lagerloff... Perl Buck...

... uma introdução... que pretende ser um apanhado das mil noites e uma...

... tinha eu uma quantidade de sonhos a transformar em realidade com a varinha de condão, que uma fada madrinha me veio oferecer, quando, subitamente, como ninguém queria sonhos fantásticos e sonhos de encantar empacotados numa caixa que mais parecia uma máquina, um dia de Abril, a bruxa serpente lançou o seu mau olhado na minha caixa de magia donde saiam letras e fantasias de espantar... e assim ficaram, outra vez, só na cabeça daquele ceifeiro que segava erva para cavalos e assim poder viver do produto da venda que os cavaleiros pagavam com uns míseros tostões...

... ao ver-me triste, a fada madrinha disse que iria pedir ajuda a uma outra fada sua amiga que tinha uma varinha de condão que ensinava os génios prisioneiros a saírem da sua lamparina mágica, para se porem ao serviço dos seus amos e para deleite e formação da turba, que gostava de Contos e Lendas de enC(o)ant(r)ar...

... levado, então, pelos conselhos e ajudas da fada madrinha e consultando os livros de Magia que ela tinha nos seus tesouros... fui de viagem até aos meus tempos de lendas e estórias e de contos de enC(o)ant(r)ar...

... e parei nas primeira páginas das Mil Noites e Uma...

....e disse Scheherazade para a sua irmã Dinazarde: (adaptado)

Minha boa irmã, preciso do vosso socorro num assunto importantíssimo que é de vida ou de morte; peço-vos que não mo recuseis. Esta noite, vai o meu pai levar-me ao sultão para ser sua esposa... e como sabeis, desde aquela grande desgraça com a sultana, que ele próprio matou e o seu concubino, todas as mulheres que tiverem a graça de ser esposas do sultão, terão essa ventura de só a viverem uma noite... No dia seguinte, logo ao nascer do sol, a mulher é entregue ao Grão Vizir, nosso pai, que não tem outro remédio senão mandar matá-la e depois encontrar outra esposa para essa noite...
Não vos assuste este nova. Com a tua ajuda, estou disposta a livrar-me da morte e a livrar todo o povo desta grande consternação em que vive temendo pelas suas filhas... O que te peço é muito simples. Quando estiver junto do sultão, vou suplicar-lhe que me permita deixar-vos dormir junto à câmara nupcial, para que possa gozar, nesta última noite, da vossa companhia, ali bem perto... Se alcançar esta graça, como espero, logo de manhã muito cedo, antes do nascer do sol, lembrai-vos de me acordar e dizer mais ou menos estas palavras:

"Minha irmã, se não dormis, rogo-vos, esperando o dia, que não tarda em aparecer, que me conteis um desses belos contos que sabeis..." (Volume I, Tomo I, p. 34, antes da 1ª Noite)

E assim aconteceu... e como, ao nascer do sol, o primeiro conto ia ainda a meio "quando o génio estava decidido a matar o pobre mercador... ou pescador..." e o sultão tinha de partir para as suas orações e os seus afazeres... foi-lhe concedido mais um dia de vida... e depois outro... e depois outro... até aos mil que foram as mil noites e uma...

... é, possivelmente, o que espero deste milagroso aparecimento da Fada Madrinha... que estes contos sirvam para nos enC(o)ANT(r)AR... e assim nos livrarmos da morte que nos espera... ao menos que a esperança não morra e a vida nos apareça como alguma coisa digna de ser vivida... descobrindo algo de bom e belo para nós e para os outros...

O que é que vai acontecer?

Nunca se sabe como acontece nos contos de fadas e estórias de enC(o)ant(r)ar, quando se liberta o Génio da Lâmpada e se abrem as portas do Sonho e da Fantasia...

Como nos contos das mil noites e uma...

...estes contos não terão lógica nem sequência e podem ser dominados só pelo inesperado e pelo absurdo das circunstâncias mais inverosímeis, tendo por fronteiras só a pura fantasia do delírio e da imaginação do insólito e do mistério e o atrevimento e o encanto do fascínio e do deslumbramento... onde o amor é uma fonte de volúpias e de êxtases que nos podem levar para outros Mundos na imensidão do cosmos, onde a lei natural, a lei do amor, superior a todas as interdições, barreiras e preconceitos, levará o ser humano a mergulhar nesse mar imenso que é a mar... amar...

E assim, para tornar a começar, cabem aqui alguns versos que o meu amigo Thiago de Melo me ofereceu com dedicatória no dia vinte de Julho de 1975 (nos meus 37 anos!!! meu Deus!!!), do seu poema ESTATUTOS DO HOMEM, de Santiago do Chile, em Abril de 1964:

...
Artigo 8. ? "Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor"
...
Artigo 11. - "Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo 12. - "Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
Tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begónia na lapela.

Parágrafo único - Só uma coisa proibida:
amar sem amor.

E, já agora, também uma palavras arrancadas de um livro da minha outra apaixonada que nunca vi e de quem nunca tinha ouvido falar até perto dos meus cinquenta anos, a Selma Lagerlöf, in HISTÓRIAS MARAVILHOSAS, Editorial Minerva, 1952, logo a abrir nas Recordações que não Esquecem:

"Tinha eu cinco anos quando sofri o primeiro desgosto, e tão profundo que me é difícil dizer se, desde então, tive outro maior. Foi quando a minha avó morreu.
"Era hábito seu sentar-se todos os dias no sofá de canto do seu quarto e contar-nos histórias.
"Lembro-me bem da avó a desfiar histórias, umas após outras, de manhã à noite, enquanto nós, as crianças a ouvíamos muito quietas, sentadas ao seu lado. Era uma vida esplêndida! Não creio que outras crianças além de nós tivessem uma infância tão feliz!
"Assim, não será de estranhar que eu fale um pouco a respeito da avó. Ainda hoje a vejo, com o seu cabelo branco de neve, o corpo levemente inclinado, e os dedos, muito ágeis, a mover agulhas de meia, todo o dia...
"Lembro-me, também, de que, sempre que terminava uma história, me passava a mão pela cabeça e dizia:
"? Tudo isto é tão verdadeiro como estarmos, eu aqui e tu aí, a ver-nos uma à outra."
...

depois

"... a grande solidão em que ficámos quando ela se foi... aquela manhã em que vimos o sofá vazio..."
...
"Calaram-se as histórias e canções que embelezavam a nossa casa, encerradas naquele caixão negro, donde nunca mais voltaram!"
"E então, qualquer coisa de muito doce nos faltou na vida. Foi como se nos houvessem expulsado de um mundo maravilhoso, cujas portas, constantemente abertas para nós, se tivessem fechado de súbito e para sempre. E ninguém mais havia que fosse capaz de as abrir!"

Isto não é verdade, pois não?!!! É mentira. A própria neta desta avó transformou-se numa excepcional Contadora de Histórias que entusiasmou e continua a entusiasmar as crianças grandes e pequenas de todo o mundo e a povoar-lhes os seus mundos de fantasia e de sonhos!!! E por isso lhe foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura, a primeira Mulher a recebê-lo...


É assim que eu lembro, mais ou menos a minha avó... Não no sofá de canto, mas na cadeira de balouço, que ela tinha trazido do Brasil e desde há uns anos eu transporto comigo para onde quer que vá e ocupa sempre o lugar principal da sala como se transportasse comigo aquela sala e aquela casa dos meus avós lá na serra e onde, sucessivamente, a vejo sentada o costurar ou a fazer malha pendurada dos seus óculos redondos de metal e donde, quase sempre calada ou com poucas palavras, governava toda aquela imensa casa e família que, de repente, com a morte do meu avô, era ela ainda muito jovem, lhe ficou inteiramente confiada... ou o meu pai a ler o jornal ou a chamar-nos para as "contas" do dia ou para as grandes decisões... e até a mãe, apesar de mal ter tempo para se sentar um pouco, pois a recordação é de vê-la sempre a girar, sempre com montes de coisas para fazer..., inclusive ir com a vassoura debaixo do braço a casa de uma ou outra vizinha doente para lhe varrer a casa e fazer-lhe um pouco de companhia, apesar da lide da casa e dos seus oito filhos e "invasões" constantes!!!

É, sentado nesta cadeira, virada para a Varanda Aberta sobre o Vale do Zêzere, que naqueles tempos não tinha casas em frente para lhe cortar os horizontes, que eu me vejo muitas vezes a desfiar histórias que nunca saberei contar e exorcizar assim aquela tristeza imensa da Selma quando disse, precipitadamente com certeza, levada por aquela grande perda:

"Calaram-se as histórias e canções que embelezavam a nossa casa, encerradas naquele caixão negro, donde nunca mais voltaram!"
"E então, qualquer coisa de muito doce nos faltou na vida. Foi como se nos houvessem expulsado de um mundo maravilhoso, cujas portas, constantemente abertas para nós, se tivessem fechado de súbito e para sempre. E ninguém mais havia que fosse capaz de as abrir!"

Ora, como isto não pode ser verdade, e os netos que ouviram as histórias de encantar também um dia virão a ser avós...

Aí vai... um, dois, três... era uma vez... e as portas de um mundo maravilhoso vão-se abrir...

Para mim já se abriram...
Fui ao tesouro do livro das "Mil e Uma Noites" e andei à procura das frases dispersas por aqueles milhares de páginas que me impressionaram quando li o Livro... afinal as histórias podem-nos livrar da morte...

"... Aos que nos contarem a sua história e o motivo que os trouxe a esta casa, não lhes façais mal nenhum..., porém não poupeis os que se recusarem dar-nos esta satisfação."
(p. 150, 36ª Noite de Histórias encadeadas, sabiamente interrompidas em suspenso ao nascer do sol, a hora marcada para o Sultão mandar matar a "esposa de uma noite"...

"Tendo o mariola (o moço de recados) percebido que não se tratava senão de contar a sua história para se livrar de ser morto pelos sete escravos de Zobeida armados com os seus alfanges, tomou a palavra e contou a sua história, o modo como a irmã de Zobeida o tinha requisitado para a acompanhar nas compras do mercado e... de como foi até casa das três irmãs, que eram servidas por aqueles terríveis escravos e tinham duas cadelas pretas..."
(p. 152, 37ª Noite)

Decisão do Califa GIAFAR (p. 244, 62ª Noite):
"Quero mandar escrever as suas histórias, que bem merecem ter um lugar nos anais do meu reinado."

"Sei uma história mais maravilhosa... Como vossa majestade gosta de ouvir histórias deste género, estou pronto a contar-vo-la, com a condição de que, se a achardes mais maravilhosa do que aquela que acabais de ouvir, dareis perdão ao meu escravo..."
(p.368, 93ª Noite e começa a história de NOUREDDIN ALI e de BEDREDDIN HASSAN)

"Achou o Califa Haroun Alraschid tão maravilhosa esta história, que concedeu, sem hesitar, a graça do perdão ao escravo Rihan;"
(p.436, 122ª Noite... - fim do 1º Livro do 1º Volume
... em que Shariar, seduzido pela bela contadora de histórias ainda hesita em mandar matá-la... e pensa para consigo, se seria ajuizado e digno de um Sultão da sua estirpe, deixar-se encantar pela magia das estórias, ou se devia dar execução, de imediato, à jura que fizera desde que descobrira a infidelidade da sua primeira Sultana:

"A boa sultana conta histórias muito extensas; e quando uma vez tem principiado uma não há meio de recusar ouvi-la toda. Não sei se devia mandar matá-la hoje; mas não; não nos precipitemos: a história que contará é talvez mais interessante que todas as que contou até agora, e não devo privar-me do gosto de a ouvir. ..").

"Achou o sultão a história tão interessante que recomendou ao seu historiógrafo particular que a escrevesse com todas as circunstâncias..."
(1º Volume, 2º Livro, p. 16, 128ª Noite)

"Se jamais alguma história mereceu ser escrita em letras de ouro, é a deste corcunda."
(p. 172, 184ª Noite, diz o Barbeiro, o 7º irmão, o Silencioso, depois das Histórias dos seus seis irmãos.)

"O sultão, arrebatado de alegria de alegria e de admiração, ordenou que se escrevesse a história do corcunda com a do barbeiro para que a memória delas, que tanto merecia ser conservada, não se apagasse em tempo algum."
"... e o califa achou esta estória tão extraordinária, que ordenou a um famoso historiador que a escrevesse com todas as circunstâncias... e fosse guardada com letras de oiro nos seus arquivos donde muitas cópias, tiradas desse original, a fizeram pública, mais tarde..."
(p.222, II vol., livro 3, lá para o fim de uma longa História de GANEN, filho de ABOU AIBU, O ESCRAVO DE AMOR, que começa na p. 163, e pode ir até à p. 286, se lhe metermos na sequência, a História do PRÍNCIPE ZEYN ALASNAM e DO REI DOS GÉNIO... Aqui, onde já o narrador perdeu o conta das noites em que Sheherazade seduzia o sultão com as suas histórias e ele, claro, não se decidia a mandar matá-la.)

"O califa Haron Alraschid dava a Cogi Hassan uma atenção tão grande, que não percebeu o fim da sua história senão pelo seu silêncio. Disse: "Cogia Hassan, havia muito tempo que não tinha ouvido cousa que me desse tanto gosto, ... Quero também que contes a minha história ao guarda do meu tesouro, para que a faça pôr por escrito, e que nele seja conservada com o diamante.""
(p.182, II vol. livro 4, isto no fim de uma longa série de histórias encadeadas e inseridas misturadas com a HISTÓRIA DE ALADIN, OU A LÂMPADA MARAVILHOSA.)
"Tinham-se já passado mil e uma noites nestes inocentes passatempos que haviam contribuído muito para diminuir as prevenções desagradáveis do sultão contra a fidelidade das mulheres... Lembrava-se do valor com Sheherazade se expusera voluntariamente a ser sua esposa, sem recear a morte, à qual sabia que estava destinada no dia seguinte, como as outras que a precederam...."
"Bem vejo, amável Sheherazade, que sois inesgotável nos vossos pequemos contos; há bastante tempo que com eles me divertis; abrandaste a minha cólera e de boa vontade renuncio, em abono vosso, à lei cruel que me impusera; tendes toda a protecção minha, e quero que sejais considerada como a libertadora de todas as senhoras, que deviam ser imoladas ao meu justo ressentimento."
"... O Grão Vizir foi o primeiro que soube esta agradável nova da própria boca do sultão. Espalhou-se logo pela cidade e pelas províncias, o que atraiu ao sultão e à amável Sheherazade, sua esposa, mil bênçãos de todos os povos do império das Índias."
(Volume II., Tomo IV, p. 448, 1001ª Noite)


A estória do Velho Segador de Erva... O CEIFEIRO...

ou a estória de um CEIFEIRO... um mercador... príncipes... e princesas...

ou talvez a estória de como as estórias se reproduzem e criam riqueza através da comunicação... ou da ajuda "desinteressada" de um amigo mercador...


... e assim começa a primeira estória a do Velho Segador de Erva... O CEIFEIRO...

Eis um conto de encantar da Índia.
É o primeiro conto do livro de Pearl S. BucK,
in HISTÓRIAS MARAVILHOSAS DO ORIENTE,
edição livros do Brasil, Lisboa,
com direitos de autor, desde 1965, By Pearl S. Buck and Kenyon Angel,
que me proponho reescrever e recontar.

Fala de um velho de coração simples,
que vive numa cabana de colmo, no meio da floresta,
e, mesmo pobre e sem nada para dar,
está decidido a ser generoso e a compartilhar
o pouco que foi guardando ao longo dos anos...

... Este gesto desinteressado
vai provocar uma espiral de dádivas verdadeiramente assombrosas...
Dá e torna a dar o que lhe é dado... até que...
ao fazer os outros felizes encontra a sua própria felicidade...
... pareceu-me talvez a melhor parábola do segredo da comunicação...

O HOMEM QUE SABIA CONTAR
de Malba Tahan - Júlio César de Mello e Souza (1895 - 1974) - Editorial Pressença, 2001

p.11 - Cap II - neste Capítulo Beremiz Samir, o Homem que Sabia Contar, conta a história da sua vida...

p. 13 - Beremiz era um génio alegre e comunicativo. muito moço ainda - pois não completara vinte e seis anos - era dotado de uma inteligência extremamente viva e uma notável aptidão para a ciência dos números.
Formulava, às vezes, sobre os acontecimentos mais banais da vida, comparações inesperadas que denotavam grande agudeza de espírito e raro talento matemático. Sabia, também, contar histórias e narrar episódios que muito ilustravam as suas palestras, já de si atraentes e curiosas.

 

Quando eu era pequenino
acabado de nascer
eu mal sabia falar
e gostava de ouvir contar
contos para adormecer!
Eram mouros, eram fadas
vindas pelas madrugadas
ou em noites de luar...
Eram as lindas donzelas
encerradas em castelos
tranças louras, olhos belos,
tristes, tristes, a chorar!
Eu ficava impressionado
com tudo aquilo que ouvia...
depois, quando adormecia,
punha-me a sonhar com elas...
Agora que já sei ler
nas folhas que os livros têm
nelas aprendo também
contos lindos, coisas belas...
e tudo o que os livros ensinam
com carinho e com amor...
É milagre redentor
de suas letras singelas!

Poema do Tio Zé Moleiro, Ribeira dos Aivados, Porto Covo, O poeta de cabelos brancos e olhos azuis que me contou tantas lendas, contos, patranhas e poesia... tantas histórias com tanta fantasia... e conhece com os pés e com as mãos, cada pedra e cada recanto das falésias do mar entre Porto Covo e Vila Nova de Mil Fontes, a ponto de me ensinar o esconderijo secreto onde tem a sua cana de pescar... Com ele, a minha homenagem à poesia popular e aos contadores de histórias, que seriam a continuação normal desta/s publicação/ões.
In O MEU LIVRO DO TIO ZÉ MOLEIRO - Ribeira da Azenha, Porto Covo, obra em elaboração desde 1989.

TUDO NASCE DA TERRA na SERRA

TUDO NASCE DA TERRA

TUDO NASCE DA TERRA
COMO AS ÁRVORES E AS SEARAS
QUE NOS DÃO OS FRUTOS E O PÃO PARA COMER
E COMO AS FONTES
QUE NOS DÃO A ÁGUA A CORRER PARA BEBER...

TUDO NASCE DA TERRA
COMO A ERVA, AS AVES, AS PLANTAS E AS FLORES
QUE ENCHEM OS NOSSOS SETE SENTIDOS
DE MIL CHEIROS, DE MIL CORES, DE MIL SONS,
DE MIL GOSTOS E DE SENSAÇÕES
DE MIL SENTIMENTOS e EMOÇÕES...

TUDO NASCE DA TERRA COMO O VENTO, O AR
QUE ENCHE O NOSSO CORPO DE ENERGIA
A IMAGINAÇÃO DE FANTASIA
E TODO O NOSSO SER DE UM DESLUMBRAMENTO
QUES SE TRANSFORMA EM FASCÍNIO
EM ENCANTAMENTO...
NUM DESAFIO CONSTANTE A SERMOS CRIADORES...
"SEREIS COMO DEUSES..."

ASSIM É A LÍNGUA QUE FALAMOS
A LÍNGUA MATERNA
A VOZ DO VENTRE DA TERRA
TERA QUE É MUDA e INERTE mas FALANTE...
ASSIM É A CULTURA!
AQUILO QUE SENTIMOS e PENSAMOS
AQUILO QUE APRENDEMOS, SABEMOS e FALAMOS!
AQUILO QUE VIVEMOS, DIZEMOS e ENSINAMOS...

ESTÁ EM JOGO A NOSSA IDENTIDADE
ESTÁ EM JOGO A NOSSA
AUTENTICIDADE!!!
COMO PESSOAS
COMO INDIVÍDUOS
COMO SERES INTEGRADOS NUMA SOCIEDADE
INTEGRADOS NUM MUNDO QUE ABARCA A HUMANIDADE
COMO HABITANTES DUM COSMOS QUE ABARCA UM UNIVERSO
DE MILHARES DE GALÁXIAS EM CONSTANTE CRESCIMENTO...

 

Recolha de alguns TEXTOS sobre a ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS...
e o que é ou não é a LITERATURA POPULAR...
ou a ORAL ou ORATURA ou a LIETERATURA TRADICIONAL...
ou os VALORES DA CULTURA TRADICIONAL ou POPULAR ou de BASE ou identificadora e uma IDENTIDADE CULTURAL...

TÍTULO

AUTOR/es

OBRA ou...

DATA

RESUMO /Notas

Pág.

 

Les rendez-vous des conteurs

MARYSE WOLINSKI

LE MONDE

02.08.1981

Cont. Hist. à roda da França...

 

 

A Importância de Contar Histórias e a Tradição dos Contadores

G. DOBRELAERE

Pedagogia da Expressão

anos 80 ??

As tradições perdidas e algumas técnicas...

 

 

Os Recitadores da Primária

Pierre FERRAN

L’EDUCATION ESTHÉTIQUE ‑ luxe ou nécessité

 

 

 

 

Realização da Autonomia

Bruno BETTELHEIM

PSICANÁLISE dos CONTOS de FADAS

1ª 1975/6 (Fr.)

4ª (Prt) Bertrand, 1991. pp. 174-191.

Fantasia, (Imaginação) recuperação (cura), escape (libertação) e consolação (satisfação)!

 

 

A Arte de Contar Contos de Fadas

Bruno BETTELHEIM

PSICANÁLISE dos CONTOS de FADAS

1ª 1975/6 (Fr.)

4ª (Prt) Bertrand, 1991. pp. 174-191.

Contar ou ler com envolvimento...

 

 

Literatura Popular: O QUE É?

M. VIEGAS GUERREIRO

GUIA DE RECOLHA de LITERATURA POPULAR

?? Ministério da Educação, 1976

O respeito e as regras...

 

 

Literatura Popular: importância da

M. VIEGAS GUERREIRO

para a HISTÓRIA da LITERATURA POPULAR PORTUGUESA

ICLP e Min. Educação, 1978, 2ª 1983, 31-34

O desprezo e a falta de estudos...

A nossa Identidade...

 

 

Culture Populaire: qu’est-ce que la?

Georges CALVET

ANNALISES de l’UNIVERSITÉ de TOULOUSE - LE MIRAIL

Université de Toulouse - le Mirail,

??

Há? e a autêntica? é analfabeta?

E o perigo da cultura industrializada?

 

Les rendez-vous des conteurs
LE MONDE DIMANCHE 2 AOUT 1981
MARYSE WOLINSKI

Les rendez-vous des conteurs

LE MONDE DIMANCHE 2 AOUT 1981
MARYSE WOLINSKI

UM ENCONTRO DE CONTADORES DE (H)ISTÓRIAS

Tradução livre de José Rabaça Gaspar

Les rendez-vous des conteurs

Une quinzaine de conteurs professionnels font revivre les histoires des veillées. Une amicale de magiciens qui trient les mots et les phrases et en font des images.

"J'ai marché un peu. J'ai marché encore. J'ai marché par monts et par plaines. J'ai planté l'aiguille. J'ai planté la laine. J'ai grimpé dessus pour surveiller les alentours..." Et gratte la tampona pour donner le ton de la suite du conte.

Un personnage, cette fille. Assise en tailleur sur la scène. Pieds nus. Drapée dans une houle de soies multicolores recouvrant un saroual nacarat, des cheveux de jais, ondulant en auréole vaporeuse autour du visage plein, nu, des yeux de braise sur teint mat, un teint aux nuances méditerranéennes. Comme son langage pigmenté d'accent gréco-judéo-pied-noir. Jouant de cet instrument indien, tout aussi majes-tueux.

Une conteuse, Catherine Zarkat. Conteuse professionnelle. Depuis peu, mais elle en vit de ses contes, égrenés au fil des soirées dans les maisons de la culture ou les cafés-théâtres, des après-midi dans les écoles ou les maisons de jeunes. Depuis un na, elle va de ville en village, sa tampona sous le bras et sa verve colorée à la bouche.

Un soir, dans une salle de l'abbaye de Royaumont, devant un public d'enfants et d'adultes mélés, sur une scène de fortune, dressée entre deux voûtes, ils sont cinq. Cinq conteurs chargés d'assurer une veillée de contes. Et Catherine Zarkat. forme généreuse et brune et chaleureuse, dit un conte turc. Un de ces contes de mensonges où le héros affirme avoir bercé son père dans son berceau et avoir bu avec ses yeux. Comme cela, des Mille et Une Nuits aux contes populaires, ils enchainent, jouant de leur visage et de leur voix, de leur corps et de leur récit.

Renaissance

De tels spectacles, il y en a maintenant de plus en plus à travers la France. Et il y en aura tout l'été. Et les conteurs. ces nouveaux baladins, affinent leur répertoire. Avec succès. Le cante renait, revit.
Un nouvel engouement Qui étonne les conteurs eux-mémes, ces passionnés de récits dont certains remontent à la nuit des temps, nés peut-être à l'autre bout du monde, comme la blonde Cendrillon qui n'a pas été imaginée par Perrault. Des contes au cannevas commun à de nombreux pays mais dont l'originalité varie en fonction des détails, fioritures incrustées au cours des siécles par les conteurs locaux. Les biblio-thécaires sont soudain obligées de répondre à une demande importante des enfants, adolescents, étudiants et adultes. Renouveau d'une tradition perdue. Un regain d'in-térêt qui a coïncidé avec la sortie en 1976 du livre de Bruno Bettelheim Psycha-nalyse des contes de fées (1).

Résultat: les ventes en librairie ont progressé considérablement, les collections se sont multipliées chez les éditeurs, comme les thèses et les livres de réflexion sur le sujet (2), des cours sont dispensés du lycée à l'université, et les conteurs se profes-sionnalisent et produisent ici et là.
Le premier de tous. l'"initiateur", a renoué avec la tradition dans les années soixante-dix. Un vrai nom de baladin, Bruno de la Salle. Parti d'un rêve créé, recréé, autour duquel il n'a cessé de broder sur une scène de café-théâtre. Un rêve mûre-ment rêvé, éveillé, par cet acteur-poète. Du rêve au conte, il a franchi le pas, à l'occasion de soirées amicales d'abord, et malgré quelques réticences, car pour lui, "un conteur n'est pas seulement un diseur de contes. C'est comme un sorcier, quelqu'un qui possède un don".

Et pendant que Bruno de la Salle "tourne" en France avec son Petit Chape-ron rouge, version fin de siècle, dans les bibliothèques pilotes ouvertes aux enfants, les responsables tentent d'instaurer, chaque mercredi, l'heure du conte. Une initiative qui plaît et prend de l'ampleur. Et pour toutes ces bibliothécaires-conteuses, Bruno de la Salle devient le maître à conter, se pique au jeu et se met à organiser des ren-contres, colloques week-ends de réflexion. Et notamment celui de Vannes en 1977.

D'aucuns sont de tradition orale. Des conteurs formés au berceau qui racontent dans les écoles, les maisons de la culture ou autres centres culturels, les récits de leur fo-lklore: histoire de Jha le bouffon, personnage populaire de tradition orale tunisienne, et autres contes des Mille et Une Nuits. Parmi eux, Mohamed Belhalfaoui, un uni-versitaire-conteur, et le cinéaste tunisien Naceur Khémir. Auteur de plusieurs livres de contes (3), Naceur Khémir est un conteur né, un charmeur. Il a baigné toute son enfance et son adolescence dans les récits fantastiques des vieux de Korba, son vi-llage natal, dans les "contes à propos", contes dont la chute est un proverbe qu'utili-sait sa mère pour tenter de le mettre au pas, les "contes saisonniers" liés aux tâches paysannes, les "contes féminins" chuchotés par les femmes "emmurées" de sa famille ou du village.

Le travail des autres est plutôt d'origine livresque: Bladé, Pourtat. Deulin, ou les conteurs célèbres, Andersen, les frères Grimm, pour ne citer qu'eux. Mais tous ces conteurs, toujours à l'écoute de récits traditionnels au hasard de leurs déplacements et sans vouloir jouer les folkloristes ? ils s'y refusent au {contraire, ? suscitent les confidences de ceux qui ont entendu les derniers conteurs de village. Et ils enregistrent ces thèmes retrouvés, recréant, réinventant, redessinant avec leur "pate" ces histoires du folklore local. Le conte n'est jamais un produit fini. A preuve, les qua-tre-vingt-seize versions de Jean de l'Ours ou les quatre-vingt-deux du Petit Poucet dénombrées à ce jour.

Au cours de ces rencontres, des vocations sont nées: Annie Kiss, Jacques Coutureau, Catherine Zarkat, Richard Abecera, Anne Queseman et Laurent Breman du Théâtre à Bretelles. Les conteurs professionnels d'aujourd'hui. Ils sont une quin-zaine à vivre de ce métier, avec chacun sa particularité, voire sa spécianlité.

Veillées

Les occasions ne manquent plus pour se produire, les veillées de contes et nuits blanches ne sont plus exceptionnelles, et 1es conteurs sont désormais au rendez-vous des grandes fêtes. Et si d'aventure des veillées pour adultes ou des matinées pour les plus jeunes les réunissent, ils ne sont pas contre. A Royaurnont, par exem-ple. Lorsque Catherine Zarkat a terminé son envolée dans une citrouille d'où elle repère ses personnages, il a suffi de quelques notes de tampona pour qu'Annie Kiss s'empare de l'émotion de la salle. Sans briser le charme. Une fée, Annie Kiss, tout droit sortie de ses contes, le regard bleu lointain et le sourire séraphique. Une con-teuse à voix nue. Bibliothécaire de formation, elle a travaillé à la bibliothèque de Clamart, ce "véritable loboratoire expérimental", où elle a appris à conter avant d'apprendre aux autres. En effet, c'est dans des stages de formation et aux autres ateliers de contes (4) qu'elle initie les amateurs aux techniques de concentration, maitrise de la respiration, techniques vocales ou de mémorisation.

De vrais baladins

"Le conte est une culture d'adultes, adaptée à l'enfant", disent en choeur les conteurs. Néanmoins, les enfants dont l'imagination n'a pas encore été bridée savent si bien écouter les contes, et avec les conteurs partir pour un voyage merveilleux. Ils savent les écouter, mais aussi les dire. Sur la scène de Royaumont, les Montre-Petits? ces "fils de la parole, fille elle-méme du mensonge", comme ils se présentent ? se lancent dans les aventures de Jean-le-sot, à la recherche de sa raison. Ils sont neuf dans la troupe, neuf conteurs, sept enfants et deux adultes dont Richard Abecera,un gaillard brun, tout chevelu, encore un de la vieille garde soixante-huitarde, éducateur de formation et conteur doué d'un humour décapant. Richard Abecera se refuse à toute concession vis-à-vis des enfants et dit les contes de sa voix grasse, tels qu'il les a retrouvés dans leur forme première.

Pendant les vacances scolaires, il part en tournée, à vélo, avec les Montre-Petits. Mais Richard Abecera se produit aussi seul. Passionné de récits des collec-teurs, des analyses et psychanalyses de contes de fées. Son nouveau dada, les con-tes érotiques. Pas faciles à consulter consulter!

Au Théatre à Bretelles, its sont deux amoureux des contes, des mots, des images: Laurent Berman et Anne Quesemand, un architecte et une enseignante. Des vrais baladins, ces deux-là. Ils faisaient ta manche en I968, sillonnant les quartiers, se produisant d'abord dans une fanfare avec quelques amis, puis chantant tes airs de la Commune. Beau succès! Et de chanson en historiette, flirtant toujours un peu avec la fiction, d'amourette en passion pour te conte, its sont devenus conteurs. Leur spectacle s'articule autour d'un texte d'actuatité: un rouleau de cinquante mètres de superbes dessins à l'encre de Chine se dévide dans le castelet-écran, bleu et or. Si-multanément, Ils content leur "collage d'histoires", le chantent ou laissent la parole à ta musique. Leurs instruments: une trompette et un accordéon.

Ils ont rencontré leur chance, expliquent-ils, dans la floraison des fêtes de quartiers et grandes fêtes politiques. Et ces saltimbanques au verbe populaire et con-testataire, et dont les propos ne devraient pas s'émousser au fil du succès, sont pas-sés de ta rue aux centres culturels, écoles, bibliothèques ou comités d'entreprise. Et ils ont même dispensé des cours de Théatre à Bretelles. Aux syndicalistes des P.T.T., notamment, à la recherche d'idées nouvelles pour formuler leurs revendications. Un nouveau genre pour te conte?

(1) Psychanalyse des contes de fées, Bruno Bettelheim, collection "Réponses", Robert Laffont.
(2) La petit fille dans la forèt des contes, Pierre Péju, collection Réponses, Robert Laffont.
(3) Contes des Mille et Une Nuits, du 3 au 7 août, à l'abbaye de Sénanque. livres de contes de Naceur Khémir ont été publiés aux éditions Maspero.
(4) Notamment ceux organisés par l'Age d'or de France en collaboration avec La Joie par les li-vres. Renseignements: 1, rue Denis-Poisson, 75017 PARIS.

Encontro de Contadores d'Istórias

Uma quinzena de narradores profissionais preparam-se para dar vida a histórias contadas ao serão. É um encontro amigável de mágicos que organizam as palavras e as frases para as transformarem em imagens fantásticas.

"Eu andei um pouco. Caminhei um pouco mais ainda. Galguei por montes, vales e atravessei planícies sem fim. Plantei grãos de trigo. Plantei se mentes de lã. Subi ao cimo dos montes para descobrir os imensos horizontes….

E, neste momento, dá um rufo de tambor para definir o tom para o curso história.

É uma personagem singular, aquela rapariga. Sentada de pernas cruzadas sobre o palco. Pés descalços. Envolvida num mar de panos multicoloridos de seda que cobrem um sari nacarado, uma cabeleira em juba desenhando uma aureola nebulosa em torno do rosto cheio, límpido, nu, olhos brilhantes a faiscar num fundo escuro, uma tez de características mediterrânicas; como a sua linguagem pigmentada de um sotaque greco-judaico-pé-descalço; ela toca aquele simples instrumento indiano, ao mesmo tempo majestoso.

Uma "contadora de istórias", esta Catherine Zarkat. "Contadora de Istórias", profissional. É ainda uma principiante, mas ela vive de contar os seus contos, ao longo dos serões promovidos pelas Casas de Cultura ou Cafés-Teatro, ou tardes em Escolas ou Casas da Juventude. Depois, sem mais, parte de aldeia em aldeia, cidade em cidade, o tambor debaixo do braço, a sua verve colorida na sua boca expressiva.

Numa tarde, numa sala da Abadia de Royaumont, perante uma audiência de crianças e adultos misturados, um palco improvisado erguido entre dois arcos da Abadia, são cinco. Cinco "contadores de istórias" empenhados em garantir uma agradável vigília histórias. E Catherine Zarkat, com o seu semblante escuro, a sua presença generosa e acolhedora, conta um conto turco. É um desses contos cheios de mentiras e invenções em que o herói afirma ter embalado o seu pai no seu berço de bebé, e ter bebido através dos seus olhos. São assim, contos das Mil e Uma Noites de cariz popular, que se encadeiam uns nos outros, jogando com as expressões do rosto e a modulação da voz jogando com o movimento dos seus corpos e o ritmo das suas histórias.

Um Renascimento!

Espectáculos como este estão, agora, a aparecer, cada vez mais, por toda a França. Vai haver mais durante todo o verão. E estes "contadores d'istórias", estes novos baladeiros, refinar os seus repertórios. Estão a ter reconhecido êxito. A canção e a arte de "contar e encantar" renascem.

Uma nova moda. Uma nova moda que surpreende os próprios "contadores d'istórias", amantes dessas histórias, muitas delas que remontam a tempos imemoriais, porventura nascidas no outro extremo do mundo, como a loira Cinderela que não terá sido com certeza imaginado por Perrault. Histórias tradicionais comuns a muitos países, mas cuja originalidade varia em função de pequenos detalhes, floreados e variantes que foram sendo inseridos ao longo dos séculos pelos narradores locais. Os bibliotecários foram subitamente obrigados a dar resposta a uma procura cada vez maior por parte de crianças, adolescentes, estudantes e adultos. É a renovação de uma tradição perdida. A revitalização do interesse que coincidiu com o lançamento do livro, em 1976, por Bruno BETTELHEIM "A Psicanálise do Conto de Fadas". (1).

Resultado: as vendas nas livrarias têm crescido consideravelmente, as colecções têm aumentado entre editores, tal como tem acontecido como as teses e os livros de reflexão sobre o assunto (2), aparecem cursos sobre o tema desde as escolas às universidades, e os narradores profissionalizam-se e actuam aqui e ali.

O primeiro de todos, o "Iniciador, voltou à tradição nos anos setenta. Um verdadeiro paladino destes novos baladeiros, Bruno de La Salle. Nasceu a partir de um sonho criado, recriado, em torno do qual ele não tem deixado de enriquecer e reinventar em cada representação arriscada num Café Teatro. Um sonho longamente amadurecido, repetidamente sonhado e despertado por esse actor poeta. Do conto ao sonho, ele foi avançando em serões amigáveis, primeiro, e, apesar de algumas reticências, ele foi avançando sempre, porque, para ele, "um contador de histórias não é apenas um DEZEDOR d'histórias. É como um mágico, alguém que tem um dom."

E, enquanto Bruno de La Salle "dá a sua volta" à França, com o "Capuchinho Vermelho" versão do final do século, nas bibliotecas piloto abertas às crianças, os responsáveis estão a tentar estabelecer, todas as quartas-feiras, "A Hora do Conto". É uma iniciativa que agrada e é está em crescendo. E para todos estes bibliotecários-narradores, Bruno de la Salle tornou-se o "mestre da arte de contar", orgulha-se disso e começa a organizar reuniões, simpósios de fim-de-semana de reflexão. De assinalar o de Vannes, em 1977.

Alguns vêm da tradição oral. Há narradores treinados desde o berço que contam nas escolas, casas de cultura e outros centros culturais, histórias do seu folklore: Jha história do bobo, uma tradição oral popular da Tunísia, e outros contos das Mil e Uma Noites. Entre eles, Mohamed Belhalfaoui, um universitário narrador e o cineasta tunisino Khemir Naceur. Autor de vários livros de contos (3), Naceur Khemir é um narrador nato, um encantador. Ele passou toda a sua infância e adolescência embrenhado nas fantásticas histórias dos velhos de Korba, sua terra natal, que incluem "contos a propósito de…" que são contos que partem de um provérbio utilizado pela sua mãe para tentar mete-lo na linha, os " contos sazonais" relacionados com as tarefas agrícolas, as "histórias de mulheres" sussurradas pelas mulheres "isoladas - protegidas" da sua família ou aldeia.

O trabalho dos outros é mais de origem livresca: Blade, Pourtat. Deulin ou famosos contadores como, Andersen, os irmãos Grimm, entre outros. Mas todos estes "contadores", sempre atentos à escuta das histórias tradicionais que vão bebendo aleatoriamente a partir de suas viagens, pretendem brincar aos folcloristas? Eles recusam essa ideia e, mas, por outro lado, procuram suscitar as confidências e segredos daqueles que tiveram o privilégio de ouvir os últimos narradores da aldeia. E eles registam estes temas reencontrados, recriando, reinventando, recontando "à sua maneira", estas histórias do folclore local. A história nunca é um produto acabado. Prova, as oitenta e seis versões de "Jean de l'Ours" (João de Calais?) ou as oitenta e duas do "Pequeno Polegar" contados até agora.

No decorrer destes encontros, aparecem vocações: Annie Kiss, Jacques Coutureau, Catherine Zarkat, Richard Abecera, Anne Queseman e Laurent Breman do Teatro em Bretelles. Os Narradores Profissionais, hoje, são uma quinzena a viver da sua profissão, cada um com a sua especialidade e particularidade.

Vigílias

As oportunidades não faltam para que estes serões aconteçam, as vigílias de contos e noites em branco já não são excepcionais, e os Narradores estão agora nos Encontros dos Principais Eventos. Se por acaso, acontece que os serões para adultos e as manhãs para jovens os põem em contacto, eles não são contra.
Em Royaurnont, por exemplo, quando Catherine Zarkat acabou o seu voo numa abóbora, donde fez aparecer os seus personagens, bastaram apenas alguns rufos de tambor, para que Annie Kiss se apodere da emoção que pairava na sala. Sem quebrar o feitiço. Uma fada, Annie Kiss, uma personagem saída como que por magia de dentro das suas histórias, olhos azuis profundos e um sorriso seráfico. Uma contadora de voz nua. Bibliotecária por formação, ela trabalhava na biblioteca de Clamart, esse "verdadeiro laboratório experimental", onde ela aprendeu a contar antes de se atrever a ensiná-lo aos outros. De facto, é nos estágios de formação e outras oficinas de contos (4), que ela inicia os amadores nas técnicas de concentração, no domínio da respiração e nas técnicas vocais ou de memorização.

Verdadeiros Trovadores

"A "Arte de Contar Istórias" "é uma cultura de adultos, adaptada às crianças", afirmam em coro os "contadores". No entanto, as crianças cuja imaginação ainda não foi controlada, sabem ouvir muito bem as histórias e, com os "contadores", partir para uma viagem maravilhosa. Eles sabem ouvi-las, muito bem, mas também as sabem "dizer". Naquela representação em em Royaumont, "Os Montre-Petits", esses "filhos da palavra, ela própria filha da mentira ", como eles se apresentam? Se lançam nas aventuras de João o Parvo, à procura da sua razão. Eles são nove no elenco, nove "contadores", sete crianças e dois adultos dos quais Richard Abecera, um rapazola moreno, cabeludo, a lembrar um dos antigos guarda do "sessenta-huitard", educador de formação e um talentoso contador de um humor corrosivo. Richard Abecera recusa qualquer concessão em relação às crianças e conta as suas histórias com a sua voz grossa, tal como ele as encontrou em sua forma original.

Durante as férias escolares, ele parte em digressão, de bicicleta, com os "Montre-Petits".
Mas Richard Abecera também representa a solo. Apaixonado das narrativas dos "coleccionadores", das análises, e das psicanálises dos Contos de Fadas. Sua nova aventura, os contos eróticos. Não é fácil a consulta. Consultar!

No Teatro em Brettelles, são dois "amantes" de contos, de palavras, de imagens: Lawrence Berman e Anne Quesemand, um arquitecto e uma professora. Verdadeiros saltimbancos, estes dois. Eles estão no seu pico de forma em 1968, percorrendo os bairros de Paris, primeiro integrados numa banda com alguns amigos e, em seguida, cantam as áreas da Comuna. Um sucesso! E, de uma canção para uma historieta, jogando sempre, um pouco, com a ficção, em amorosa paixão com os contos, tornam-se "Contadores d'Istórias". O espectáculo gira em torno de um texto da actualidade: um rolo de cinquenta metros de belos desenhos a tinta da china é projectado no cavalete que serve de tela, azul e ouro. Ao mesmo tempo, eles contam a sua "colagem de histórias", cantam ou deixam a palavra para a sua música. Instrumentos: trompete e um acordeão.

Conheceram-se a sua sorte, explicam eles, na floração das festas de bairro e nos festivais políticos importantes. E esses saltimbancos de linguagem popular e de palavra contestatária, e cujas propósitos se não destinavam ao sucesso, de repente, passam da sua rua aos centros culturais, escolas, bibliotecas ou comissões de empresas. E eles ainda se dão ao luxo de darem um Curso de Teatro em Bretelles. Por exemplo aos sindicalistas dos PTT à procura de novas ideias para formular as suas reivindicações.

Um novo tipo de conto?

(1) Psicanálise dos contos de fadas, Bruno BETTELHEIM, Colecção "Respostas", Robert Laffont.
(2) A pequena menina na Floresta dos Contos, Pierre Péju, Colecção Respostas, Robert Laffont.
(3) Histórias da Mil e Uma Noites, a partir de 3 a 7 de Agosto, na Abadia de Senanque. Livro de Contos de Naceur Khemir que foram publicados pela Maspero.
(4) Em especial aqueles organizados pela Golden Age da França, em colaboração com La Joie par les li-vres. Informações: 1, rue-Denis Poisson, 75017 PARIS.

 

A TRADIÇÃO DOS CONTADORES DE HISTÓRIAS
A IMPORTÂNCIA D CONTAR HISTÓRIAS

in PEDAGODIA da EXPRESSÃO
de G. Dobrelaere

(Nota: Esta cópia, feita a partir de uma tradução que parece muita precipitada, e baseada nu-mas fotocópias bastante deterioradas, não é uma transcrição fiel nem da tradução do livro a que não tive acesso, nem é fiel à traduçaão em que me baseio. É uma leitura minha do que con-segui ler dos apontamentos que me chegaram.)

Na praça central de Marraqueche, em Marrocos, ? uma cidade com mais de trezentos mil habitantes, situada no sopé do Alto Atlas, uma cidade que faz como que a ligação entre o Norte de África e o deserto do Sara e já foi a capital dos Almorávidas e Almóadas, e se distingue por ter indústrias alimentares e têxteis ? realizam-se todas as actividades que podem mostrar a vida de uma comunidade em movimento e comunicação. As pessoas encontram-se ali para tomar chá, negociar camelos ou para ouvir os contadores de histórias. No meio deste fervilhar de vida e mo-vimento há sempre, pelo menos, cerca de dez contadores de histórias que disputam um considerá-vel círculo de ouvintes atentos. Podem-se ouvir ali histórias ou contos de todos os tipos. Contos de arrepiar com vampiros assassinos, outros maravilhosos em que aparecem génios e princesas e duendes; outros ainda com referências históricas em que se relatam feitos de conquistas e vitórias; e ainda outros que dão conta de toda a genealogia do profeta; aparecem também os científicos ou de ficção científica e até aqueles em que aparecem as receitas para todos os males e doenças da humanidade ou revelam como prevenir todos esses males e doenças.

O que se passa nesta praça de Marraqueche, acontecia também em Paris ou Londres, ou qualquer outra grande cidade, há menos de cem anos, sobretudo se, essa cidade, era um porto de mar ou cruzamento de grandes vias de comerciantes ou peregrinos, aventureiros ou viajantes. O que aconteceu, é que, progressivamente, as imagens difundidas em larga escala pelos cartazes, as histórias divulgadas pelo cinema e televisão, os programas de rádio, os discos e os meios moder-nos de divulgação, encurralaram e foram remetendo para segundo plano estas formas de expres-são e comunicação mais delicadas e empenhadas que desafiavam unicamente a imaginação das pessoas e dependiam completamente do "contador de histórias" ao vivo que as tornavam únicas e irrepetíveis.

Entretanto, se, presentemente, a amior parte dos adultos já não se deixam cativar por his-tórias, talvez com as crianças ainda não aconteça o mesmo, apesar da concorrência dos livros de BD e dos terrivelmente sedutores programas de televisão com desenhos animados quase perma-nentes e absorventes. Talvez possa acontecer que, as nossas crianças, ainda encontrem nestas narrativas, um alimento mais suculento e variado, do que em qualquer outro modo de expressão mais adequado aos adultos e imaginado e produzido para eles mas sem o contacto directo e en-volvente que a história ao vivo pode proporcionar.

O TESOURO DOS CONTOS

Mesmo que os livros disponíveis ou a biblioteca, ou ainda o ambiente em que vivem não proporcionem uma grande quantidade de histórias, contos, lendas ou narrativas, os educadores e aqueles que convivem com as crianças, podem dar largas à suas capacidades de adaptação, vari-ando as suas interpretações e adaptando-se aos diversos tipos de auditórios e de situações.

Há muitas espécies de histórias. Elas podem ir desde aquelas que procuram relatar com realismo possível uma aventura vivida como uma expedição aos pólos ou uma viagem a lugares exóticos, ou pode ser uma lenda em que o maravilhoso dourado é a nota dominante, ou ainda pode ser o relato de uma epopeia medieval com cavaleiros, princesas e dragões; ou uma fábula africana cheia de colorido, como uma história d caça passada nas superfícies geladas da Lapónia ou um conto oriental repleto de magia e de mistério...
Todos estes tipos de contos podem ser a encarnação do génio e da identidade cultural de um povo. o problema é que nos encontramos, cada vez mais, numa situação em que a educação nos obriga a ter em conta as diversas formas de expressão e a tornar acessíveis as mais variadas origens e manifestações de cultura.
O nosso repertório terá de ser, necessariamente internacional e intercultural, e já não será exclusivamente didáctico e moralista como acontecia nos contos exemplares e nas fábulas adop-tadas como modelo em determinadas épocas. É evidente que não podemos privar as nossas crian-ças de poderem ter umas perspectivas etnográficas e históricas tão alargadas quanto possível. O problema que é preciso seriamente reflectir, é que, perante a avalanche de produtos acabados, produzidos pelos meios e comunicação dominantes, e perante o comodismo ou falta de iniciativas para estar atento e recolher e produzir e dar a devida divulgação aos valores culturais locais, es-tamos a correr o risco de um completo desenraizamento, quando o desejável seria, ser levado a conhecer os valores de outras culturas devido a. e porque conhecermos e darmos o devido lugar, aos valores culturais que definem e dão alicerces à nossa identidade cultural e por conseguinte dariam sentido e segurança ao mundo que povoa o imaginário das nossas crianças e adolescentes, para que, uma vez que sabem apreciar aquilo que é seu e gostando de si próprios e da sua cultura, sejam levados a descobrir e saber apreciar aquilo que distingue, marca e identifica os outros dife-rentes. Mas se os adultos, os pais e educadores dessas crianças perderam essas referências e valo-res, o que é que vai acontecer? Possivelmente vamos ficar presas de uma cultura uniformizante e dominadora em que as diferenças, em vez de nos enriquecerem, vão desaparecer, tornando o mundo mais pobre e desinteressante.

E não é só este o problema que se levanta. Temos de nos preocupar também com a necessidade de propor temas, em relação aos quais se possa exercitar, livremente, a imaginação.

Mas, raciocinando em cadeia, temos de, ao mesmo tempo, pensar que a imaginação não significa só, evasão, ou aquilo que poderíamos chamar poesia pura ou o maravilhoso. É verdade que a imaginação tem as suas raízes nos anseios e necessidades vitais da criança, mas terá de conseguir uma educação prática que a não desligue da realidade e conduzi-la a uma inserção cada vez mais completa no seu ambiente cultural e social.

REALISMO E MARAVILHOSO
É evidente que o recurso ao maravilhoso é importante e indispensável nesta arte de contar histórias.
Quais são os problemas que se levantam e o que é preciso Ter na devida conta?
É preciso ter em conta a idade.
Se por exemplo admitimos que até aos cinco anos de idade, uma vez que os limites da lógica ainda não estão adquiridos, se podem dar largas às asas da fantasia e usar ou até abusar do insólito e dos elementos extravagantes, a partir de certa idade, é importante ter a noção de que se podem correr vários riscos.
Podemos estar a correr o risco de chocar o sentido crítico das crianças que vai pensar que as estamos a gozar ou a querer enganar, ou perante um grupo daqueles que já se julgam e estão a ser uns homenzinhos, corremos o risco de perder a nossa autoridade, dando aso a admitir que, afinal, o educador, não terá "os seus cinco alqueires bem medidos" ou que não terá o sentido pre-ciso das realidades.
Por outro lado, perante uma assembleia demasiado crédula ou ingénua, podemos estar a correr o risco de julgarem como verdadeiro tudo o que dissermos, o que pode ter consequências imprevisíveis.
Há ainda a considerar a notável diferença entre a ingenuidade e a candura própria dos simples e até dos poetas que têm a capacidade de espanto e admiração perante o maravilhoso até das coisas mais simples e do quotidiano, e a ingenuidade bacoca, ou aquilo que costumamos co-nhecer como um "pobre de espírito" que não é exactamente o mesmo do que ter e ou cultivar o "espírito de pobreza" ou a capacidade de ser maravilhar perante a beleza manifesta nas coisas mais simples da vida e que podemos encontrar a cada passo. A diferença é tão notável que são ou poem ser exactamente o oposto, como modo de ser e como atitude ou maneira de encarar a vida.
Mas não acabam aqui os perigos e as confusões.
Em que medida é que poderemos, por assim dizer, "brincar" e divagar com o maravilhoso profano, sem termos na devida conta que já talvez não possamos fazer o mesmo em relação ao maravilhoso sagrado ou religioso, e ainda por cima em relação a diferentes crenças e religiões dos nossos educandos ou das suas famílias? Poderá acontecer que, à medida que o espírito crítico da criança se for desenvolvendo, e ao dar conta da "falsidade" ou das "fantasias" do maravilhoso profano, até que ponto é que não será levada a rejeitar todas "as crenças infantis" incluindo as do maravilhoso religioso?

É, com certeza, da máxima importância, alimentar e desenvolver o sentido do maravilhoso sagrado nas crianças, ou se o não têm, haverá necessidade de o ajudar e reencontrar. Por outro lado, seria lamentável, que para evitar esse risco, tivéssemos de privar as crianças de ter acesso à sensibilização poética e estética que se pode cultivar com o maravilhoso do conto profano.
O segredo e a arte estará em conseguir aliar as duas coisas e fazer intervir o fantástico profano ao lado do maravilhoso religioso, sem confusões nem agressões.

O MARAVILHOSO E O FANTÁSTICO

Para nos situarmos vamos tentar esclarecer conceitos que parecem sinónimos mas não são.
O maravilhoso é um sistema lógico no qual basta admitir o postulado para aceitar as con-sequências. Por exemplo no maravilhoso cristão, desde que se acredite na omnipotência de Deus, isso implica que estamos autorizados a acreditar em todos os milagres.
Há também o maravilhoso feérico, profano que nos leva a aceitar como normais as inter-venções das fadas, dos génios ou dos duendes, desde que os consideramos detentores de um po-der cujos limites são definidos pelo próprio desenrolar da história.
Podemos ainda considerar o maravilhoso mágico como aquele que confere a determinados objectos um poder benéfico ou maléfico proporcional à intenção ou carga simbólica que se lhe quiser atribuir em determinada conto.
É este maravilhoso , ou os seus diversos tipos, que continuam a ser familiares e sedutores para as crianças, como para os adultos considerados ingénuos ou "pobres e espírito".
Abusar desta constatação e como que encarcerar os mais jovens neste sistema tão impla-cável e previsível, temos de concordar que não é educativo nem particularmente libertador ou gratificante.

Já não acontecerá o mesmo com o fantástico.
O FANTÁSTICO é a excepção, é a quebra de uma regra. É podemos dizer, a fantasia do maravi-lhoso.
Se, por um lado, o fantástico pode ser aterrorizador pela quebra do normal e pelo inespe-rado que minaria o sentimento de confiança e segurança do previsível e esperado, o facto é que também poed ser e é geralmente humorístico e sabemos como é importante cultivar o humor, o riso e como isto é particularmente apreciado pelos mais pequenos possivelmente até aos dez anos.
Mas, quais são os limites do fantástico?
Julgamos que basta um pouco de bom senso para os poder definir. Os limites estarão na-quilo que podemos chamar de verosimilhança que pode levar a criança a aceitar ou rejeitar a fic-ção, como afinal acontece com os adultos.
Talvez com alguns exemplos nos possamos aperceber melhor dos limites ditados pelo bom senso.
"... Um dia, ele viu, na floresta, um gigante que acabava de arrancar pela raiz, e só com uma mão, uma meia dúzia de grandes carvalhos, como se acabasse de colher um ramo de flo-res.... depois, agarrando numa das árvores, fez com ela um laço para atar as outras cinco e, dando-lhe um nó, pôs o molho às costas e levou-as para casa..."

Qualquer criança, ao ouvir uma história que meta gigantes, poderá admitir que ele possa arrancar uma ou várias árvores de grande porte como se colhesse flores ou arrancasse algumas ervas, mas usar uma das árvores para fazer um laço e dar com ela um nó, talvez a leva a pensar que a árvore se ia partir a qualquer momento.

"... A certa distância dali, encontrava-se um caçador que estava de joelhos, com a arma apoiada, a fazer pontaria com muito cuidado. Um soldado que ia a passar perguntou-lhe:
? Olá caçador, para onde é que tu estás a fazer pontaria com tanto cuidado?
então o caçador respondeu:
? Há uma mosca poisada num ramo, a duas léguas daqui, e eu vou meter-lhe uma bala no olho do lado esquerdo."

Perante uma situação destas, a criança que certamente já viu uma mosca e já viu ou tem mais ou menos a ideia do tamanho de uma bala, sabe perfeitamente que a bala é muito maior que a própria mosca, quanto mais querer que fique dentro do pequeno olho do insecto. Talvez não seja muito difícil evitar cair no ridículo de situações como estas o que não tem nada a ver com os jogos dos disparates ou as histórias de contra senso como os do "Era e não Era, andava na ser-ra..." e outras, em que o jogo e a brincadeira procuram exactamente ironizar e brincar com o "churrilho" ed disparates ou "enfiada de petas"...
(Este exemplo foi tirado de umas notas de Grimm "Os seis companheiros que conseguiam tudo"! Será preciso ver, exactamente o enquadramento, o contexto em que este exemplo é referido.)

A IMPORTÂNCIA das IMAGENS (as metáforas e o colorido na arte de contar)

Quer se trate de uma história mais realista ou mais fantástica, não nos podemos esquecer de que toda uma boa história terá de ser rica em imagens. Uma história sem o colorido a alimentar e desafiar a fantasia dos ouvintes perderá todo o interesse e não pode ser uma boa história.
Além disso, as imagens poedm e devem ir ao encontro da sensibilidade própria dos meni-nos e meninas - ouvintes, ajudarão a aumentar o seu vocabulário, ao mesmo tempo que terão de ser acessíveis, dentro dos limites do vocabulário que já dominam, e poderão assim ser progressi-vamente interiorizadas e posteriormente ser utilizadas e aplicadas pela própria criança quando sentir necessidade de as aplicar a novas situações. Não é novidade para nenhum educador atento, ficar admirado ao ouvir uma criança empregar um termo novo que não se esperaria fazer parte do seu vocabulário activo, numa situação inesperada que nos faz sorrir mas nos indioca que terá apreendido correctamente determinada palavra ou expressão.
A imagem terá de substituir, na história, a palavra ou conceitos abstractos que tenhamos necessidade de introduzir para tornar a história plausível e interessante. Não adiantará muito dizer que o menino da história era bom ou mau, mas já terá sentido dizer que o menino partilhava os seus rebuçados com os colegas ou que o outro menino andava sempre à pancada ou a empurrar e incomodar o vizinho do lado...
A utilização de imagens, pode mesmo alargar o campo de observação e, em vez de dizer que havia "um velho corvo que..." posso dizer que o corvo da história "... tinha debicado tanto que já não tinha penas à volta do bico... e..." Talvez possa ajudar pensar em perífrases adequadas que não façam perder o fio da história mas ajudem a perceber melhor, ou na utilização atempada de uma certa dose de exagero ou hipérbole, como as artistas fazem nas caricaturas para que a fantasia possa ajudar o que poderemos chamar de visualismo e a criança ou o ouvinte vá vendo aquilo que ouve e fique cativado e seduzido pela história. Dizer que, no Brasil, por exemplo há uma ave que tem o bico muito grande, poderá levar os ouvintes a confundir o tucano com uma cegonha, mas apresentar o tucano como uma ave que tem o bico tão grande como todo o seu corpo, talvez consiga dar uma ideia mais aproximada daquela ave desconhecida, sobretudo se não tivermos uma imagem-fotografia ou desenho para mostrar como é.
Este jogo de imagens além de poder complementar aquilo que escapa à simples observa-ção para dar a conhecer outras coisas a que se não tem acesso, poderá e deverá ir despertando e alimentando o espírito poético e estético dos pequenos ouvintes. Pôr por exemplo os "alfaiates a anunciarem que tinham conseguido fabricar um tecido maravilhoso com os olhares"... pode ser uma imagem cativante e incentivadora.

AS PERSONAGENS

A criança, como aliás sucede com qualquer ouvinte ou leitor de uma história, interessar-se-à pela narrativa porque, ou se nela encontrar uma personagem com quem se possa identificar ou uma personagem que facilmente possa identificar com alguém das suas relações. Pode também aconte-cer que o poder de evocação seja tão forte que o herói, de facto, desempenha ou desempenhou um papel real na sociedade em que a criança está inserida.

Assim, é, importante que as personagens das histórias que contamos sejam variadas e bastante numerosas. Entretanto, se forem demasiadas, pode cair-se no excesso e não será muito possível acompanhar e dar relevo ao seu desempenho na decorrer da narração. Para uma história normal, dez personagens podem já ser demasiados. Se são demasiados e podem levantar problemas emba-raços ao desenrolar da acção, será prudente fazê-los "sair" com precisão e sem hipótese de re-gresso.
E a caracterização? Convém encontrar os traços, quer dizer palavras precisas para caracterizar as personagens. às vezes, um pormenor físico é pode ser muito útil... "O capitão do barco pirata tinha ficado com o nariz cortado por um golpe de sabre, o que o tornava parecido com a medo-nha caveira pintada na sua bandeira."

A ACÇÃO

Estas personagens vão agir. O ingrediente fundamental da narrativa, sobretudo da narrativa oral, é a acção. As longas descrições e prolongados raciocínios podem fazer perigar toda a maneira de contar e de se ouvir uma história. As histórias serão mais interessantes se forem férteis em inci-dentes e peripécias imprevistas. O contador de histórias não se pode deixar manietar pelos cuida-dos de ter de compor e descrever o espaço e os lugares onde decorre a acção, como terão de fa-zer os romancistas, nem pode ficar como que escrava do tempo que é imposta ao dramaturgo.

O gesto e a entoação podem permitir-lhe criar um clima de mistério que levaria várias páginas a um romancista e para a cena resultar no palco, talvez o dramaturgo tivesse de recorrer a um cená-rio cuidadosamente preparado. Então é preciso saber usá-los com mestria.

A demasiada preocupação de manter um ritmo vivo na acção, pode fazer-nos cair na armadilha de queimarmos etapas e não dar a devida atenção à unidade global, bem como à articulação articula-da ou espirada das diversas sequências ou episódios que terão de conter os ingredientes necessá-rios e suficientes para criar o atractivo e interesse para os episódios seguintes. Nada mais aborre-cido para os ouvintes e delicado para o contador que em determinada altura, ao dar conta que se precipitou, tem de voltar atrás e completar um pormenor que lhe escapou numa sequência anteri-or e afinal não era um pormenor sem importância mas fulcral para o desenvolvimento da história.
Não confundir isto com a técnica muito presente em muitos contos orientais em que dentro de um conto vão nascendo outros contos e é então necessário ter muitas vezes presente o episódio que deu origem ao encadeamento, como acontece tantas vezes em várias passagens das mil e uma noites. Além disso há uma forma característica, muito própria da civilização oriental, de contar histórias. Tudo tem a ver com o ritmo e a dinâmica a imprimir à narrativa. É preciso evitar estar constantemente a voltar atrás, "ah, mas há bocado esqueci-me que...", "mas era preciso saber que..." a não ser que seja absolutamente indispensável e, portanto, só como excepção.

A CONCLUSÃO e a célebre MORAL da história.

Toda a história tem de ter necessariamente um fim. O final é importante para tranquilizar a crian-ça. Isto não impede que o herói apareça em novas aventuras ou usar uma vez ou outra a técnica da expectativa para saber daqui a pouco ou noutra altura, como é que afinal vai continuar a histó-ria. Onde e quando é que se deve para deixar vivo o interesse para se continuar a ouvir? As per-sonagens de um conto ficam, muitas vezes, a fazer parte do imaginário da criança. Pode normal-mente criar-se um final em que a porta fique aberta para novos episódios.

E "a moral da história"? Que dizer? É necessária? É desejável? É útil?

Em primeiro lugar é fácil verificar que não é parte integrante da arte de contar histórias. Já não pertence à narrativa em si. Não é necessária, portanto. Não faz necessariamente parte da história e o perigo é poderá vir exactament de cada um quer tirar a moral que lhe convém. Ao contar a su-posta vida de Camões, uns podem concluir que tendo morrido na miséria é essa a moral da histó-ria: os poetas e os artistas, par ao serem, terão de ser pobres e miseráveis; ou então, em propa-ganda ou contrapropaganda, vamos poder utilizar este episódio para censurar as autoridades ou responsáveis para a falta de atenção a valores que teriam de ser mais protegidos e respeitados!!! Isto dito assim, talvez não se possa chamar a "moral da história" mas uma forma hábil ou mais ou menos perversa de utilizar uma história!!!...

Pode dizer-se, entretanto, que se poderia usar a história para dar uma formação moral e religiosa às crianças. Nos Evangelhos, a utilização das parábolas para veicular ensinamentos e exemplos são uma prova de que isso é possível e, possivelmente, bem conseguido. Talvez seja prudente, entretanto, não confundir os géneros.

Se fizermos deste tipo de conclusão uma norma absoluta ou demasiado frequente vamos, com certeza, levar as crianças ou os ouvintes a confundir uma história com um sermão, "afinal onde é que me querem levar..., ou o que é que me querem impingir...", e assim fazer perder grande parte do interesse ou do encanto ou da magia que a história pode ter por si.
Nas histórias que contamos aparecerão porventura sempre em confronto e exclusão os bons, bons e os maus, mesmo maus e os defeitos destes são normalmente sempre exagerados e levam a ex-cesso que vão provocar a sua desgraça e castigo que será aplicado pelo herói que é sempre bome justiceiro e portador da espada da virtude omnipotente!!! Tem de conseguir-se cada vez mais, mesmo nas histórias do fantástico, que o simulacro do real, a verosimilhança esteja presente e que a muitos dos preconceitos e intolerância desapareçam para serem o mais próximos da realidade ou "à semelhança" da realidade. Ou antes, mesmo nas histórias mais mirabolantes, afinal, aparece sempre o aspecto humano como nós o conhecemos e desejamos, com os seus limites, as suas vir-tudes e defeitos, em que aparece a dor, o sofrimento a morte a vida e o amor.

Além de saber escolher e arquitectar uma história, é preciso ainda aprender a arte de CONTAR UMA HISTÓRIA.

TÉCNICA DA HISTÓRIA - Alguns aspectos técnicos a ter em conta e a treinar para ir aperfei-çoando A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS.

A VOZ

É por de mais evidente a importância da voz na técnica de contar histórias. Dada a complexidade de estudar o problema na sua globalidade, limitar-nos-emos, agora, a abordar alguns aspectos e acrescentar alguns conselhos simples.
As palavras articuladas são uma sequência de sons e por isso convém saber aquilo que é funda-mental para saber o que é o som na a acústica.

A DURAÇÃO
A POTÊNCIA
A ALTURA
O TIMBRE

Para tudo isto e para cada uma destas coisas seria necessário saber respirar bem, uma coisa que infelizmente, apesar de todos respirarem pois caso contrário não estariam vivos, o certo é que é raro encontrar quem saiba respirar bem e saiba usar bem a sua respiração.

A DURAÇÃO, no caso da VOZ, chama-se ELOCUÇÃO. A DICÇÃO e a velocidade com que articulamos os sons.
Temos, quase sempre uma ELOCUÇÃO demasiado rápida como se estivéssemos a con-versar e partíssemos do princípio que a maior parte das coisas, são entendidas pelo nosso ou pelos nossos interlocutores, porque falamos normalmente de assuntos em que todos estão "dentro do assunto"!
Ora a narração, embora se deseje que se aproxime o máximo de uma conversa informável e agradável, não é para copiar os defeitos mas as qualidades de uma boa conversação e, uma his-tória, necessita, da parte dos ouvintes, uma maior atenção para que possam apreender os elemen-tos essenciais da história o que por vezes implica não perder uma única palavra de cada uma das frases. É preciso facilitar esse esforço de atenção, procurando ser simples e conciso mas sem pre-cipitações e usando de toda a ponderação.
Articular bem as palavras e usar de ponderação não quer dizer cair na monotonia e provo-car o sono! Certas passagens precisarão mesmo de ser contadas num ritmo mais vivo mas que tem de ser sempre compreensível.

Um bom exercício para treinar a fala é ler em voz alta e procurar distinguir o que é um ponto (contar por exemplo mentalmente até três), um ponto e vírgula (contar até dois) e uma vírgula (contando mentalmente até um).

A POTÊNCIA pode entender-se como o alcance. Claro que tem de estar relacionado com a altura da VOZ. Entretanto, regular a potência, será como regular o som de um rádio para que a audição seja a ideal. É preciso saber adaptar a potência às condições acústicas que se têm em pre-sença. Estamos numa sala? A sala é grande ou é pequena? A sala é grande mas falamos só para um grupo que está ali mesmo à nossa roda? Há outros grupos a trabalhar na mesma sala? A sala faz eco, por estar demasiado vazia? Tudo são aspectos a Ter em conta.
Uma vez encontrada a potência média ideal para as circunstâncias não vamos usar sempre a mesma potência. Para prender a atenção talvez seja importante começar a história com uma voz suave. Uma vez criada a expectativa, os ouvintes, se estão interessados em ouvir, cala-se e até pedem aos outros para se calarem. Uma vez conquistada a atenção, manter a potência normal para não cansar e para poder subir e tom sempre que aquilo que contamos o exija e ilustre me-lhor e para podermos sussurrar ou quase balbuciar aquelas passagens em que é preciso dar um ar de mistério, segredo ou intriga, ou confidência...

Um bom exercício é talvez recitar um conto em voz alta experimentando as várias alturas, desde o murmúrio, passando à potência normal, depois subindo um ou dois escalões até voltar ao princípio e depois aplicar essas variantes às passagens adequadas.

A ALTURA pode talvez chamar-se o registo que a constituição anatómica de cada um permite atingir com as suas cordas vocais. Normalmente, por exemplo, as mulheres podem ser soprano, contralto e os homens têm mais tendência para ser tenor, barítono ou baixo.
Infelizmente, a maior parte das pessoas, não sabem ou não são capazes de descobrir qual é a melhor tonalidade que se adequa às suas cordas vocais depois de atingirem o seu crescimento completa e estável. Involuntariamente, ou porque nunca ninguém lhe chamou a atenção para isso, procura-se imitar a maneira de falar do pai ou da mãe e mesmo pessoas que utilizam a voz diaria-mente para comunicar e precisam de a saber gerir, como professores e educadores, têm o chama-do vício profissional que pode ser, tanto o de falarem precipitadamente para ensinarem tudo mui-to depressa, como o de falarem muito alto para se imporem e pensarem que assim são mais e me-lhor ouvidos. Todos terão na memória a recordação daquela voz irritante que se impunham de tal maneira que ninguém já a ouvia ou entendia fosse o que fosse.
Se cada pessoa não consegue encontrar a seu próprio registo e não o souber gerir, (cha-ma-se a isso saber colocar a voz) está a sujeitar as cordas vocais e uma tensão constante altamen-te prejudicial, primeiro porque não corresponde à intenções que lhe queremos dar e depois por ficar sujeita a graves consequências que pode ser ficar afónico ou ter de ser operado.
Para falar bem é preciso treinar a sensibilidade e a musicalidade.
Não basta Ter a voz bem colocada. A partir daí é preciso saber dosear tanto a potência como a altura de acordo com a intenção do que estamos a querer transmitir. A maneira como atacamos uma nova frase ou uma nova sequência e o modo como acabamos as frases e criamos a expectativa para a sequência seguinte podem dar um sentido completamente diferente ao texto que lemos ou dizemos. Sem a variação de todo este conjunto de matizes a narração será monóto-na, desinteressante e possívelmente ininteligível.

Como exercício é aconselhado a seguir com um piano a altura da voz e descobrir qual é para nós a melhor nota e em que escala..., quer dizer aquela em que a nossa voz tem mais ampli-tude e à vontade.. Deve conservar-se essa nota para, por exemplo, para psalmodiar um texto, como treino, passando depois ao exercício de descobrir as variantes musicais de acordo com o sentido da frase, subindo e descendo em relação a "nossa" nota dominante.

O TIMBRE

É outro factor que caracteriza a colocação da voz.
Não basta conseguir fazer trabalhar correctamente as nossas cordas vocais, mas é preciso, mas é preciso saber aproveitar a sua ressonância. É como se tocássemos uma viola sem a sua cai-xa. A caixa de ressonância das nossas cordas vocais são o peito, a cavidade bocal e os ossos ca-vos da face. Conforme fizermos ressoar de preferência um ou outro destes órgãos, que de um modo geral faemos de maneira perfeitamente inconciente ou por instinto, teremos como resultado aquilo a que vulgarmente chamamos de uma "voz da cabeça", "voz da garganta" ou "voz do pei-to".
Uma boa voz não pode negligenciar nenhum destes amplificadores, mas, por exemplo, no final dos contos, deve permitir que o som seja projectado para diante, para os dentes, os lábios e a língua, para se obter um maior rendimento e efeito. Claro que, se é importante saber como se diz, como se pronuncia o final de uma história, é importante, sem dúvida, saber o que se diz, o que é que é importante para reter no final de uma história e a emoção que vai perdurar. Se for algo fra-co, sem sentido, não restará nada, por melhor que tenha sido dito e projectado pela voz. esta difi-culdade costuma ser resolvida pelos contadores de histórias, recorrendo aos finais tradicionais que às vezes são surpreendentes: "Vitória, vitória! Acabou-se a história." "Novelo enrolado, conto acabado." "Meada enleada ou meada dobada, história acabada!" "E depois? Depois, morreram as vacas e ficaram os bois!" E depois casaram, tiveram muitos filhos e foram felizes para sempre.." "E ainda hoje lá estão, conversando ao serão, comendo pão com melão." "Era uma vez um papa, um rei e um bispo, juntaram-se (morreram) os três, não sei mais do que isto." ... ....

Para sentir aquelas diferenças das diversas caixas de ressonância da voz, poderemos dar conta dos registos mais graves ou elevados, colocando, à vez, a mão sobre o peito, a garganta e o nariz, para sentir as vibrações produzidas. Basta até esticar o braço e colocá-lo sucessivamente, ao mesmo tempo que se articulam um som qualquer, à altura do peito, subindo depois para a gar-ganta e para a cabeça...
Pode também fazer-se o seguinte exercício. Tentar proferir um som sem abrir a boca, e depois abrir a boca e baixar a cabeça, bloqueando a conduta acústica dos sons. Assim pode to-mar-se consciência da importância que há em sentir a materialidade dos sons, quando falamos em voz alta.

A RESPIRAÇÃO - O FÔLEGO

Não se pode dissociar um som do instrumento e do material que o produz. As cordas vo-cais são accionadas pelo ar e a quantidade de ar necessário depende do fôlego e portanto da respi-ração e da quantidade de ar que soubermos ou formos capazes de armazenar, e ainda da maneira como o soubermos dosear para uma correcta articulação.
O fôlego condiciona, não só, a potência da nossa voz, como também o modo como con-seguimos articular na perfeição uma frase mais ou menos extensa ou uma sucessão de frases que precisam de ser adequadamente encadeadas umas nas outras. Sem termos uma quantidade de ar suficiente armazenado, algumas das frases que precisariam de sair com mais força e convicção, terminarão num triste e inaudível assobio como um balão que se esvaziou. O ar armazena-se nos pulmões, mas por exemplo os bebés armazenam-no na barriga, é ver um bebé a chorar como vai buscar à barriga o ar de que precisa para conseguir aquela chinfrineira que pões qualquer pessoa em alvoroço e faz correr os pais para acudir imediatamente, e esta é uma técnica que esquecemos mas que os cantores de ópera tiveram de reaprender e os solistas ou cantores de grupos corais como os alentejanos treinam reaprendendo ou executam por instinto, armazenando o ar na barriga e fazendo-o chegar aos pulmões com golpes de contracção na barriga e assim conseguirem efeitos vocais que nos surpreendem.

Um bom exercício para medir o nosso fôlego é fazer uma boa inspiração e contar em voz alta o tempo que for possível. Treinando a técnica de respiração, expelindo bem todo o ar, e, ao inspirar, depois de encher bem os pulmões, fazer passá-lo para a barriga, conseguindo aquilo que podemos chamar "barriga de grávida", sustendo depois uns segundos o ar armazenado, fechando a boca e bloqueando os músculos do recto, expirar depois lentamente, ou contar ou cantar até se extinguir... Semana após semana, se este exercício for treinado regularmente, qualquer um pode dar conta dos progressos obtidos.

A ARTICULAÇÃO

A articulação está condicionada pelo funcionamento institivo da língua, dos lábios e dos dentes. Claro que tudo isto pode ser treinado e melhorado. O carácter instintivo da fala leva-nos, por vezes, ou normalmente, a articular de modo insuficiente sobretudo o final das palavras e mui-to mais o final das frases. Pode reparar-se que há sílabas que são completamente escamoteadas, os finais quase não se ouvem, deduzem-se, e grande número de consoantes não têm nitidez. Em Portugal, por exemplo, é frequente ouvir, quando se fala com um estrangeiro que aprendeu a nos-sa língua, queixar-se que não consegue entender porque comemos o final das palavras e das fra-ses. É ver, como este nosso comodismo ou aplicação da lei do menor esforço é elogiado pelos "nuestros hermanos" de Espanha que, pelo mesmo motivo e pelo natural complexo de superiori-dade com que cada um considera a sua língua a língua perfeita, nos mimoseiam não entendendo patavina do que dizemos mesmo espanholado ou fazem questão de fazer de conta que não enten-dem nada!

Um exercício para corrigir este defeito é procurar, nos ensaios e treinos, ler um texto em que todas sílabas e as consoantes serão exageradamente articuladas, exceptuando talvez as sibi-lantes para evitar o ridículo desnecessário.

A ATITUDE ou POSTURA ou A FORMA de ESTAR "de pé" mesmo que se esteja sentado.

Talvez seja oportuno reescrever aqui, para exercício, o poema de Mário Cesariny, "A Arte de Inventar Personagens" in "Manual de Prestidigitação", 1980:

"Pomo-nos bem de pé, com os braços muito abertos
e olhos fitos na linha do horizonte
Depois chamamo-los docemente pelos seus nomes
e os personagens aparecem."

Poderemos Ter a melhor voz do mundo e levarmos a melhor das histórias para contar, mas ficarmos pela mediocridade na arte de contar histórias se não cuidarmos da nossa postura, da nossa atitude, da nossa forma, mesmo aquela a que chamamos informal e despreocupada, para contar uma história, adaptada a cada circunstância e a cada ambiente. Veja-se, como numa grande roda de amigos, ou num convívio de festa, aqueles que melhor se impõem são os que sabem ou aqueles que por sorte ou distribuição de lugares, estão melhor colocados em relação aos ouvintes e sabem aproveitar a maneira de se fazerem ouvir. Também podemos assistir ao movimento do grupo de ouvintes que, interessado em ouvir algo, se coloca estrategicamente à roda do contador para melhor o ouvir.


A ORIENTAÇÃO - a POSIÇÃO estratégica face aos ouvintes.

É evidente que a orientação, a posição que o contador toma perante os seus ouvintes é primordial. Se a boca não estiver orientada para os auditores, se estiver tapada pela mão ou pelo livro ou pelo papel, haverá com certeza deficiências e interferências na audição.
Talvez valha a pena dar conta que nem sempre a posição central será a ideal e a mais efi-caz. Nas chamadas mesas redondas, daria a impressão que todos os pontos seriam, por isso mes-mo, de igual peso para uma boa comunicação. Basta observar as chamadas mesas redondas feitas na televisão ou em palco que pressupõem uma assistência par além da mesa redonda para verificar que não é assim.. Como a nossa maneira característica e civilizacional ocidental, nós estamos ha-bituados a ler, e até a observar, da esquerda para a direita, se, em vez do centro, em que teremos tendência para ignorar frequentemente a parte esquerda da plateia, nos colocarmos mais à direita do público, podemos verificar como conseguiremos focar sem grande esforço os ouvintes mais distantes que ficarão à nossa esquerda, à direita da plateia, e podemos mesmo assim dar a sufici-ente atenção aos que ficam à nossa direita, esquerda da assistência, porque, uma vez que estão mais perto, mais facilmente se pode tornar significativo um olhar, um gesto uma atenção, que, para os que estão mais longe, terá de ser mais expressivo, demorado e a exigir um esforço maior. Claro que tudo depende da dimensão da sala e do número de ouvintes e dos meios que tivermos para comunicar. Estamos a falar, em princípio, da comunicação directa sem apoio de aparelha-gem.
A ESTABILIDADE não é menos importante. Quer estejamos em pé ou sentados, que será a posição mais normal para um contador de histórias, a posição correcta é como deixamos entender atrás estar "bem de pé", isto é, os pés devem estar solidamente assentes no chão e as mãos não têm que se agitar nervosamente ou colocadas ao acaso dando a impressão de insegu-rança e de "não saber o que fazer com elas"! A partir da posição de segurança e estabilidade, cada gesto, aqueles que forem absolutamente necessários, terá um significado particularmente expres-sivo e significativo, com um alcance proporcional à sua raridade e oprtunidade.
A opção pelo "deambular" pelo meio da assistência, a chamada "comunicação paripatécti-ca", é uma opção que necessita de grande calma e sangue frio, e será um teste ao poder de comu-nicação do contador que ao optar por privilegiar determinados ouvintes ou grupo de ouvintes, sabe contudo que esta a arrastar o olhar e a atenção de toda uma plateia. Pode haver textos ou histórias ou circunstâncias particulares que resultem mais eficazes por esta opção, mas cuidado com a preparação técnica e psicológica para uma intervenção deste tipo.

O CONTACTO com o público é assegurado pelo olhar. Não há nada mais desagradável do que o ouvinte que se sente pura e simplesmente ignorado. Nada mais frustrante do que aquela grande maioria de alunos que numa sala nunca se sentiu olhado e interpelado pelo professor ou pelo comunicador. Muitos desistem e acham isso perfeitamente normal e pagam-nos com a mes-ma moeda: estão completamente a leste do que se passa e depois queixamo-nos de que "nos far-támos até de dizer e repetir as coisas, e que os alunos, burros ou surdos, ou distraídos, pura e simplesmente não ouviram nada do que dissemos"!!! é uma abordagem que normalmente as pes-soas não fazem ou não gostam muito de fazer!... Se damos a impressão de "estar a falar para as paredes", como muitos dizem, queixando-se, o facto é que muitas vezes é exactamente isso que acontece. Levamos o nossa história ou a nossa lição muito bem preparada, o "nosso peixe muito bem preparado para vender" e pronto, quem quiser que apanhe e que compre. Mas como, em comunicação, não se trata de um negócio de compra e venda, antes de "o prazer de comunicar", perdemos o nosso tempo ao interromper sucessivamente a história a mandar calar ou pedir a atenção deste e daquele ou daquele grupo, quando, se nos dirigirmos expressivamente para eles o os captarmos com o olhar, teremos, possivelmente, lisonjeados por se sentirem centro das aten-ções, a sua adesão e colaboração. Às vezes basta um gesto ou um olhar de poucos segundos, pois logo a seguir a nossa atenção e o olhar terá de estar necessariamente noutro ponto ou noutro grupo a fazer sentir a todos que têm o mesmo peso e a mesma importância como interlocutores e destinatários que podem a qualquer momento passar a emissores, comunicadores, a pôe em mo-vimento todo o sistema de comunicação.
Este contacto visual com o público é aliás, para um bom comunicador, o melhor baróme-tro, ou o melhor meio de ir apreciando as suas reacções, levando-nos inclusivamente a modificar a narrativa ou a maneira como a estávamos a contar, se nos parecer necessário, caso estivermos preparados e tivermos capacidade para isso.

A DESCONTRACÇÃO

Tudo o que foi dito até aqui a respeito da VOZ e da ATITUDE, pode talvez resumir-se numa única palavra a DESCONTRACÇÃO que pressupõe ainda toda a segurança que vem da experiência e do domínio perfeito de saber ler, construir e contar uma história.
Se ao encarar o nosso auditório estivermos com a garganta apertada, as mãos trémulas e sem dominarmos perfeitamente o que temos para dizer, tudo soará a falso e sem sentido.
Se encararmos os ouvintes com perfeita segurança e descontraídos, depois de respirarmos profundamente, daremos pelo menos a impressão de uma segurança tranquila e de uma força que despertará a confiança dos ouvintes.

O TEXTO e/ou A ARQUITECTURA da HISTÓRIA

Já vimos antes, qual devia ser a natureza da história.
Temos de saber agora alguns pormenores acerca da maneira de a apresentar.

Em primeiro lugar é preciso assumir que uma história, em princípio, só é verdadeiramente contada, quando é contada de viva voz - dita oralmente, nunca ou muito raramente é lida.
Isto não significa, primeiro que não tenha um texto a servir-lhe de base, e depois, muito menos, que seja preciso aprender e recitar de cor, tal e qual, o texto como foi escrito.
É tudo mais simples e no fundo mais complicado do que tudo isso.
É pura e simplesmente preciso dominar completamente a história, conhecer o seu enredo, perceber o encadeamento da suas sequências e funções nucleares, vitais para a progressão da ac-ção, saber onde encaixar os outros ingredientes tais como os indícios e os informantes a respeito do tempo e do espaço, para que nada se perca e não seja preciso andar às voltas ou às arrecuas, e após isto e de a ter arquitectado na mente ter a capacidade para a construir a narração, improvi-sando e reconstruindo-a se for preciso, e articulá-la finalmente com as nuances vocais necessárias para a transmitir e a comunicar ao auditório.
Para se conseguir uma narração viva talvez seja importante usar palavras que evoquem as cores, os sons, os perfumes, as sensações, os sabores, os sentimentos e os sonhos que o conto pode despertar... Sempre que possível, e isso é quase sempre possível nas histórias, uma palavra que pretenda transmitir algo de abstracto, será sempre substituída por algo que exprima a sua concretização material ou compreensível pelo auditório. Temos de banir resolutamente todas as palavras difíceis que, previsivelmente, não caibam no âmbito do vocabulário, ao menos passivo, do auditório, sobretudo se forem crianças. Devemos no entanto tentar que esse vocabulário seja o mais variado e rico possível, procurando estar atentos a algum termo que precise de uma explica-ção imediata que tem de ser rápida e eficaz para que o fio da história não se perca.
Isto pressupõe que o texto foi prévia e cuidadosamente analisado, que se tem o domínio de toda a sua estrutura e do modo como está articulado e que todo o conjunto obedece a uma lógica em que se veja perfeitamente o seu princípio o desenvolvimento e o seu termo a conclusão.
Esta estruturação permitirá às crianças e o todo o tipo de ouvintes a compreensão da pro-gressão a narrativa.
Talvez seja importante estudar a entoação e estudar a pausa conveniente entre cada parte ou sequência. Talvez seja oportuno encontrar a "expressão de apoio" ou o "leit motiv" mais ade-quado para aquela história e descobrir os bordões de recurso sem cair no fastidioso "e depois... como vínhamos dizendo..." "e depois aconteceu..." "e depois...", mas fazendo, por exemplo surgir os personagens no local diferente que abre a nova sequência e pôlos em movimento... "... eis que os nossos amigos se encontram agora no meio do bosque... ou na confusão da grande cidade, e...".

A DURAÇÃO. Uma história de mais de um quarto de hora, vinte minutos, para um públi-co jovem, pode correr o risco de perder todo o interesse e encanto que poderia ter. Quinze, vinte minutos é o limite máximo de atenção que uma criança em perfeitas condições poderá Ter, o que normalmente não acontece pois há sempre outras solicitações...

Tudo isto pode parecer muito complicado, sobretudo articular todos estes condicionalis-mos e ter consciência deles de um modo separado e depois ter de os executar em simultâneo e, além disso, criar as condições ideais para que tudo possa acontecer na perfeição.

É tudo mais simples e mais complicado. Dominada a técnica e criado o à vontade necessá-rio, o " bom contador de histórias" disporá de uma versatilidade que lhe permitirá actuar nas mais diversas e adversas situações e circunstâncias.

É preciso treinar e aperfeiçoar a nossa técnica.
É preciso treinar sozinho e depois, para se pôr à prova e tirar as dúvidas, treinar em gru-po.
Em grupo, propor um tema ou deixar um tema livre a cada um para falar exactamente du-rante três minutos, com a articulação perfeita desde a introdução, ao desenvolvimento, à conclu-são.
Pode também inventar-se uma história. Um começa, tem de levar pelo menos um minuto ou o que for estipulado e o outro a seguir, todos, terão que dar uma continuidade lógica ao des-envolvimento, correndo ao sabor da imaginação e da criatividade de cada um a ver se conseguem uma arquitectura lógica, sólida e inovadora....

A grande prova, para além dos exercícios de treino será a oportunidade de em grupo de trabalho, cada um contar a sua história em que terá de obedecer a todas as condições e respeitar todas as regras que foram estudadas e serão exigidas por um público jovem. Feita a narração, cada um comentará as qualidades e defeitos em função dos critérios estudados e em função de um público previsível... Será rotativo... Todos contam de depois os comentários... Um conto poe sessão e o resto será debate?... Há muitas maneiras de se organizar, sobretudo se a meta em vista é aprender e melhorar a técnica e não uma questão de competição...!


O AMBIENTE

Em princípio o conto é concebido para permitir uma evasão e alimentar a nossa necessida-de de viver a fantasia e a criatividade.
Apesar disso, ou exactamente por isso, é com certeza necessário criar as condições para que isso possa acontecer.
Encontrar um lugar esplêndido ao ar livre e não reparar que as crianças ficaram sentadas na erva húmida ou mal sentadas, em assentos que não são estáveis, claro que teremos todas as condições para estarem constantemente distraídas. Se ficarmos perto de uma fonte de barulho ou de permanente apelo a distracção, claro que não obteremos qualquer sucesso. Uma vez instalados comodamente e prontos para contar a nossa história, talvez não tenhamos reparado que eles fica-ram de frente para o sol! Nem o contador nem o ouvinte devem Ter que suportar esse incómodo que não lhes permitirá a concentração devida.
Talvez seja possível sentá-las em círculo ou em filas, de modo a ficarmos suficientemente longe para as podermos olhar a todas em conjunto e suficientemente perto para não termos que esforçar demasiado a voz para nos fazermos ouvir.
O mais importante será criar o ambiente ou o desejo para ouvir a história e não impô-la como obrigação ou muito menos como castigo.
É preciso que as crianças sintam que temos tanto prazer em contar a história como elas em ouvi-la.
É preciso entrar por assim dentro do conto e vivê-lo. Ouvir o trovão quando falarmos do raio, sentir o frio quando passarmos por uma tempestade e o medo quando passarmos por um bosque tenebroso e ver as cores e os perfumes quando atravessarmos um prado cheio de ervas e flores...
Enfim, talvez seja preciso esquecer tudo o que aprendemos antes, para finalmente estar-mos em condições de ser capazes de contar uma história como deve ser...
É nessa altura que a maravilha se realizará e por magia, Bagdad ou o deserto, ou a monta-nha ou os vales estarão ali presentes no canto que escolhermos para contar o conto e com ele encantarmos e nos encantarmos...

Assim a história terá como resultado
? o alargamento do conhecimento e mesmo do vocabulário e
? o estímulo da imaginação.

Em resumo estudar neste trabalho:

1. A tradição dos contadores de histórias
2. O Maravilhoso e o Fantástico
3. As técnicas de contar histórias
Do livro:
Pedagogia da Expressão
G. Dobrelaere
(Trabalho adaptado a partir de fotocópias de 1985,
em Novembro de 1997).



Está em elaboração para ser completado logo que possível...

 

 

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