TEXTOS
DE APOIO - a ARTE DE CONTAR e de enCANTAR
-
as MIL E UMA NOITES ou as MIL NOITES E UMA... Selma
Lagerloff... Perl
Buck... Tiago
de Mello a minha Avó
-
O HOMEM QUE SABIA CONTAR
-
no LE MONDE - Os efabuladores...
-
TEXTOS ANTIGOS - as regras... - os CONTADORES DE HISTÓRIAS...
-
A TRADIÇÃO DOS CONTADORES DE HISTÓRIAS
- A IMPORTÂNCIA DE CONTAR HISTÓRIAS
-
O TIO ZÉ MOLEIRO -
-
Zé da SERRA

as
MIL E UMA NOITES ou as MIL NOITES E UMA... Selma Lagerloff...
Perl Buck...
...
uma introdução... que pretende ser um apanhado das
mil noites e uma...
...
tinha eu uma quantidade de sonhos a transformar em realidade com
a varinha de condão, que uma fada madrinha me veio oferecer,
quando, subitamente, como ninguém queria sonhos fantásticos
e sonhos de encantar empacotados numa caixa que mais parecia uma
máquina, um dia de Abril, a bruxa serpente lançou
o seu mau olhado na minha caixa de magia donde saiam letras e
fantasias de espantar... e assim ficaram, outra vez, só
na cabeça daquele ceifeiro que segava erva para cavalos
e assim poder viver do produto da venda que os cavaleiros pagavam
com uns míseros tostões...
...
ao ver-me triste, a fada madrinha disse que iria pedir ajuda a
uma outra fada sua amiga que tinha uma varinha de condão
que ensinava os génios prisioneiros a saírem da
sua lamparina mágica, para se porem ao serviço dos
seus amos e para deleite e formação da turba, que
gostava de Contos e Lendas de enC(o)ant(r)ar...
...
levado, então, pelos conselhos e ajudas da fada madrinha
e consultando os livros de Magia que ela tinha nos seus tesouros...
fui de viagem até aos meus tempos de lendas e estórias
e de contos de enC(o)ant(r)ar...
...
e parei nas primeira páginas das Mil Noites e Uma...
....e
disse Scheherazade para a sua irmã Dinazarde: (adaptado)
Minha
boa irmã, preciso do vosso socorro num assunto importantíssimo
que é de vida ou de morte; peço-vos que não
mo recuseis. Esta noite, vai o meu pai levar-me ao sultão
para ser sua esposa... e como sabeis, desde aquela grande desgraça
com a sultana, que ele próprio matou e o seu concubino,
todas as mulheres que tiverem a graça de ser esposas do
sultão, terão essa ventura de só a viverem
uma noite... No dia seguinte, logo ao nascer do sol, a mulher
é entregue ao Grão Vizir, nosso pai, que não
tem outro remédio senão mandar matá-la e
depois encontrar outra esposa para essa noite...
Não vos assuste este nova. Com a tua ajuda, estou disposta
a livrar-me da morte e a livrar todo o povo desta grande consternação
em que vive temendo pelas suas filhas... O que te peço
é muito simples. Quando estiver junto do sultão,
vou suplicar-lhe que me permita deixar-vos dormir junto à
câmara nupcial, para que possa gozar, nesta última
noite, da vossa companhia, ali bem perto... Se alcançar
esta graça, como espero, logo de manhã muito cedo,
antes do nascer do sol, lembrai-vos de me acordar e dizer mais
ou menos estas palavras:
"Minha
irmã, se não dormis, rogo-vos, esperando o dia,
que não tarda em aparecer, que me conteis um desses belos
contos que sabeis..." (Volume I, Tomo I, p. 34, antes da
1ª Noite)
E
assim aconteceu... e como, ao nascer do sol, o primeiro conto
ia ainda a meio "quando o génio estava decidido a
matar o pobre mercador... ou pescador..." e o sultão
tinha de partir para as suas orações e os seus afazeres...
foi-lhe concedido mais um dia de vida... e depois outro... e depois
outro... até aos mil que foram as mil noites e uma...
...
é, possivelmente, o que espero deste milagroso aparecimento
da Fada Madrinha... que estes contos sirvam para nos enC(o)ANT(r)AR...
e assim nos livrarmos da morte que nos espera... ao menos que
a esperança não morra e a vida nos apareça
como alguma coisa digna de ser vivida... descobrindo algo de bom
e belo para nós e para os outros...
O
que é que vai acontecer?
Nunca
se sabe como acontece nos contos de fadas e estórias de
enC(o)ant(r)ar, quando se liberta o Génio da Lâmpada
e se abrem as portas do Sonho e da Fantasia...
Como
nos contos das mil noites e uma...
...estes
contos não terão lógica nem sequência
e podem ser dominados só pelo inesperado e pelo absurdo
das circunstâncias mais inverosímeis, tendo por fronteiras
só a pura fantasia do delírio e da imaginação
do insólito e do mistério e o atrevimento e o encanto
do fascínio e do deslumbramento... onde o amor é
uma fonte de volúpias e de êxtases que nos podem
levar para outros Mundos na imensidão do cosmos, onde a
lei natural, a lei do amor, superior a todas as interdições,
barreiras e preconceitos, levará o ser humano a mergulhar
nesse mar imenso que é a mar... amar...
E
assim, para tornar a começar, cabem aqui alguns versos
que o meu amigo Thiago de Melo me ofereceu com dedicatória
no dia vinte de Julho de 1975 (nos meus 37 anos!!! meu Deus!!!),
do seu poema ESTATUTOS DO HOMEM,
de Santiago do Chile, em Abril de 1964:
...
Artigo 8. ? "Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor"
...
Artigo 11. - "Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo
12. - "Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
Tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begónia na lapela.
Parágrafo
único - Só uma coisa proibida:
amar sem amor.

E,
já agora, também uma palavras arrancadas de um livro
da minha outra apaixonada que nunca vi e de quem nunca tinha ouvido
falar até perto dos meus cinquenta anos, a Selma Lagerlöf,
in HISTÓRIAS MARAVILHOSAS,
Editorial Minerva, 1952, logo a abrir nas Recordações
que não Esquecem:
"Tinha
eu cinco anos quando sofri o primeiro desgosto, e tão profundo
que me é difícil dizer se, desde então, tive
outro maior. Foi quando a minha avó morreu.
"Era hábito seu sentar-se todos os dias no sofá
de canto do seu quarto e contar-nos histórias.
"Lembro-me bem da avó a desfiar histórias,
umas após outras, de manhã à noite, enquanto
nós, as crianças a ouvíamos muito quietas,
sentadas ao seu lado. Era uma vida esplêndida! Não
creio que outras crianças além de nós tivessem
uma infância tão feliz!
"Assim, não será de estranhar que eu fale um
pouco a respeito da avó. Ainda hoje a vejo, com o seu cabelo
branco de neve, o corpo levemente inclinado, e os dedos, muito
ágeis, a mover agulhas de meia, todo o dia...
"Lembro-me, também, de que, sempre que terminava uma
história, me passava a mão pela cabeça e
dizia:
"? Tudo isto é tão verdadeiro como estarmos,
eu aqui e tu aí, a ver-nos uma à outra."
...
depois
"...
a grande solidão em que ficámos quando ela se foi...
aquela manhã em que vimos o sofá vazio..."
...
"Calaram-se as histórias e canções que
embelezavam a nossa casa, encerradas naquele caixão negro,
donde nunca mais voltaram!"
"E então, qualquer coisa de muito doce nos faltou
na vida. Foi como se nos houvessem expulsado de um mundo maravilhoso,
cujas portas, constantemente abertas para nós, se tivessem
fechado de súbito e para sempre. E ninguém mais
havia que fosse capaz de as abrir!"
Isto não é verdade, pois não?!!! É
mentira. A própria neta desta avó transformou-se
numa excepcional Contadora de Histórias que entusiasmou
e continua a entusiasmar as crianças grandes e pequenas
de todo o mundo e a povoar-lhes os seus mundos de fantasia e de
sonhos!!! E por isso lhe foi atribuído o Prémio
Nobel da Literatura, a primeira Mulher a recebê-lo...

É assim que eu lembro, mais ou menos a minha avó...
Não no sofá de canto, mas na cadeira de balouço,
que ela tinha trazido do Brasil e desde há uns anos eu
transporto comigo para onde quer que vá e ocupa sempre
o lugar principal da sala como se transportasse comigo aquela
sala e aquela casa dos meus avós lá na serra e onde,
sucessivamente, a vejo sentada o costurar ou a fazer malha pendurada
dos seus óculos redondos de metal e donde, quase sempre
calada ou com poucas palavras, governava toda aquela imensa casa
e família que, de repente, com a morte do meu avô,
era ela ainda muito jovem, lhe ficou inteiramente confiada...
ou o meu pai a ler o jornal ou a chamar-nos para as "contas"
do dia ou para as grandes decisões... e até a mãe,
apesar de mal ter tempo para se sentar um pouco, pois a recordação
é de vê-la sempre a girar, sempre com montes de coisas
para fazer..., inclusive ir com a vassoura debaixo do braço
a casa de uma ou outra vizinha doente para lhe varrer a casa e
fazer-lhe um pouco de companhia, apesar da lide da casa e dos
seus oito filhos e "invasões" constantes!!!
É,
sentado nesta cadeira, virada para a Varanda Aberta sobre o Vale
do Zêzere, que naqueles tempos não tinha casas em
frente para lhe cortar os horizontes, que eu me vejo muitas vezes
a desfiar histórias que nunca saberei contar e exorcizar
assim aquela tristeza imensa da Selma quando disse, precipitadamente
com certeza, levada por aquela grande perda:
"Calaram-se
as histórias e canções que embelezavam a
nossa casa, encerradas naquele caixão negro, donde nunca
mais voltaram!"
"E então, qualquer coisa de muito doce nos faltou
na vida. Foi como se nos houvessem expulsado de um mundo maravilhoso,
cujas portas, constantemente abertas para nós, se tivessem
fechado de súbito e para sempre. E ninguém mais
havia que fosse capaz de as abrir!"
Ora, como isto não pode ser verdade, e os netos que ouviram
as histórias de encantar também um dia virão
a ser avós...
Aí vai... um, dois, três... era uma vez... e as portas
de um mundo maravilhoso vão-se abrir...

Para
mim já se abriram...
Fui ao tesouro do livro das "Mil e Uma Noites" e andei
à procura das frases dispersas por aqueles milhares de
páginas que me impressionaram quando li o Livro... afinal
as histórias podem-nos livrar da morte...
"...
Aos que nos contarem a sua história e o motivo que os
trouxe a esta casa, não lhes façais mal nenhum...,
porém não poupeis os que se recusarem dar-nos esta
satisfação."
(p. 150, 36ª Noite de Histórias encadeadas, sabiamente
interrompidas em suspenso ao nascer do sol, a hora marcada para
o Sultão mandar matar a "esposa de uma noite"...
"Tendo
o mariola (o moço de recados) percebido que não
se tratava senão de contar a sua história para se
livrar de ser morto pelos sete escravos de Zobeida armados com
os seus alfanges, tomou a palavra e contou a sua história,
o modo como a irmã de Zobeida o tinha requisitado para
a acompanhar nas compras do mercado e... de como foi até
casa das três irmãs, que eram servidas por aqueles
terríveis escravos e tinham duas cadelas pretas..."
(p. 152, 37ª Noite)
Decisão do Califa GIAFAR (p. 244, 62ª Noite):
"Quero mandar escrever as suas histórias, que bem
merecem ter um lugar nos anais do meu reinado."
"Sei
uma história mais maravilhosa... Como vossa majestade gosta
de ouvir histórias deste género, estou pronto a
contar-vo-la, com a condição de que, se a
achardes mais maravilhosa do que aquela que acabais de ouvir,
dareis perdão ao meu escravo..."
(p.368, 93ª Noite e começa a história de NOUREDDIN
ALI e de BEDREDDIN HASSAN)
"Achou
o Califa Haroun Alraschid tão maravilhosa esta história,
que concedeu, sem hesitar, a graça do perdão ao
escravo Rihan;"
(p.436, 122ª Noite... - fim do 1º Livro do 1º Volume
... em que Shariar, seduzido pela bela contadora de histórias
ainda hesita em mandar matá-la... e pensa para consigo,
se seria ajuizado e digno de um Sultão da sua estirpe,
deixar-se encantar pela magia das estórias, ou se devia
dar execução, de imediato, à jura que fizera
desde que descobrira a infidelidade da sua primeira Sultana:
"A
boa sultana conta histórias muito extensas; e quando uma
vez tem principiado uma não há meio de recusar ouvi-la
toda. Não sei se devia mandar matá-la hoje; mas
não; não nos precipitemos: a história
que contará é talvez mais interessante que todas
as que contou até agora, e não devo privar-me do
gosto de a ouvir. ..").
"Achou
o sultão a história tão interessante que
recomendou ao seu historiógrafo particular que a escrevesse
com todas as circunstâncias..."
(1º Volume, 2º Livro, p. 16, 128ª Noite)
"Se
jamais alguma história mereceu ser escrita em letras
de ouro, é a deste corcunda."
(p. 172, 184ª Noite, diz o Barbeiro, o 7º irmão,
o Silencioso, depois das Histórias dos seus seis irmãos.)
"O
sultão, arrebatado de alegria de alegria e de admiração,
ordenou que se escrevesse a história do corcunda com
a do barbeiro para que a memória delas, que tanto merecia
ser conservada, não se apagasse em tempo algum."
"... e o califa achou esta estória tão extraordinária,
que ordenou a um famoso historiador que a escrevesse com todas
as circunstâncias... e fosse guardada com letras de oiro
nos seus arquivos donde muitas cópias, tiradas desse original,
a fizeram pública, mais tarde..."
(p.222, II vol., livro 3, lá para o fim de uma longa História
de GANEN, filho de ABOU AIBU, O ESCRAVO DE AMOR, que começa
na p. 163, e pode ir até à p. 286, se lhe metermos
na sequência, a História do PRÍNCIPE ZEYN
ALASNAM e DO REI DOS GÉNIO... Aqui, onde já o narrador
perdeu o conta das noites em que Sheherazade seduzia o sultão
com as suas histórias e ele, claro, não se decidia
a mandar matá-la.)
"O
califa Haron Alraschid dava a Cogi Hassan uma atenção
tão grande, que não percebeu o fim da sua história
senão pelo seu silêncio. Disse: "Cogia Hassan,
havia muito tempo que não tinha ouvido cousa que me desse
tanto gosto, ... Quero também que contes a minha história
ao guarda do meu tesouro, para que a faça pôr
por escrito, e que nele seja conservada com o diamante.""
(p.182, II vol. livro 4, isto no fim de uma longa série
de histórias encadeadas e inseridas misturadas com a HISTÓRIA
DE ALADIN, OU A LÂMPADA MARAVILHOSA.)
"Tinham-se já passado mil e uma noites nestes inocentes
passatempos que haviam contribuído muito para diminuir
as prevenções desagradáveis do sultão
contra a fidelidade das mulheres... Lembrava-se do valor com Sheherazade
se expusera voluntariamente a ser sua esposa, sem recear a morte,
à qual sabia que estava destinada no dia seguinte, como
as outras que a precederam...."
"Bem vejo, amável Sheherazade, que sois inesgotável
nos vossos pequemos contos; há bastante tempo que com
eles me divertis; abrandaste a minha cólera e de boa vontade
renuncio, em abono vosso, à lei cruel que me impusera;
tendes toda a protecção minha, e quero que sejais
considerada como a libertadora de todas as senhoras, que deviam
ser imoladas ao meu justo ressentimento."
"... O Grão Vizir foi o primeiro que soube esta agradável
nova da própria boca do sultão. Espalhou-se logo
pela cidade e pelas províncias, o que atraiu ao sultão
e à amável Sheherazade, sua esposa, mil bênçãos
de todos os povos do império das Índias."
(Volume II., Tomo IV, p. 448, 1001ª Noite)
A
estória do Velho Segador de Erva... O CEIFEIRO...

ou
a estória de um CEIFEIRO... um mercador... príncipes...
e princesas...
ou
talvez a estória de como as estórias se reproduzem
e criam riqueza através da comunicação...
ou da ajuda "desinteressada" de um amigo mercador...
... e assim começa a primeira estória a do Velho
Segador de Erva... O CEIFEIRO...
Eis
um conto de encantar da Índia.
É o primeiro conto do livro de Pearl S. BucK,
in
HISTÓRIAS MARAVILHOSAS DO ORIENTE,
edição livros do Brasil, Lisboa,
com direitos de autor, desde 1965, By Pearl S. Buck and Kenyon
Angel,
que me proponho reescrever e recontar.
Fala
de um velho de coração simples,
que vive numa cabana de colmo, no meio da floresta,
e, mesmo pobre e sem nada para dar,
está decidido a ser generoso e a compartilhar
o pouco que foi guardando ao longo dos anos...
... Este gesto desinteressado
vai provocar uma espiral de dádivas verdadeiramente assombrosas...
Dá e torna a dar o que lhe é dado... até
que...
ao fazer os outros felizes encontra a sua própria felicidade...
... pareceu-me talvez a melhor parábola do segredo da comunicação...
O
HOMEM QUE SABIA CONTAR
de Malba Tahan - Júlio César de Mello
e Souza (1895 - 1974) - Editorial Pressença, 2001

p.11
- Cap II - neste Capítulo Beremiz Samir, o Homem que Sabia
Contar, conta a história da sua vida...
p.
13 - Beremiz era um génio alegre e comunicativo. muito
moço ainda - pois não completara vinte e seis anos
- era dotado de uma inteligência extremamente viva e uma
notável aptidão para a ciência dos números.
Formulava, às vezes, sobre os acontecimentos mais banais
da vida, comparações inesperadas que denotavam grande
agudeza de espírito e raro talento matemático. Sabia,
também, contar histórias e narrar episódios
que muito ilustravam as suas palestras, já de si atraentes
e curiosas.

Quando
eu era pequenino
acabado de nascer
eu mal sabia falar
e gostava de ouvir contar
contos para adormecer!
Eram mouros, eram fadas
vindas pelas madrugadas
ou em noites de luar...
Eram as lindas donzelas
encerradas em castelos
tranças louras, olhos belos,
tristes, tristes, a chorar!
Eu ficava impressionado
com tudo aquilo que ouvia...
depois, quando adormecia,
punha-me a sonhar com elas...
Agora que já sei ler
nas folhas que os livros têm
nelas aprendo também
contos lindos, coisas belas...
e tudo o que os livros ensinam
com carinho e com amor...
É milagre redentor
de suas letras singelas!
Poema
do Tio Zé Moleiro, Ribeira dos Aivados, Porto Covo, O poeta
de cabelos brancos e olhos azuis que me contou tantas lendas,
contos, patranhas e poesia... tantas histórias com tanta
fantasia... e conhece com os pés e com as mãos,
cada pedra e cada recanto das falésias do mar entre Porto
Covo e Vila Nova de Mil Fontes, a ponto de me ensinar o esconderijo
secreto onde tem a sua cana de pescar... Com ele, a minha homenagem
à poesia popular e aos contadores de histórias,
que seriam a continuação normal desta/s publicação/ões.
In O MEU LIVRO DO TIO ZÉ MOLEIRO - Ribeira da Azenha, Porto
Covo, obra em elaboração desde 1989.
TUDO
NASCE DA TERRA na SERRA
TUDO
NASCE DA TERRA
TUDO
NASCE DA TERRA
COMO AS ÁRVORES E AS SEARAS
QUE NOS DÃO OS FRUTOS E O PÃO PARA COMER
E COMO AS FONTES
QUE NOS DÃO A ÁGUA A CORRER PARA BEBER...
TUDO
NASCE DA TERRA
COMO A ERVA, AS AVES, AS PLANTAS E AS FLORES
QUE ENCHEM OS NOSSOS SETE SENTIDOS
DE MIL CHEIROS, DE MIL CORES, DE MIL SONS,
DE MIL GOSTOS E DE SENSAÇÕES
DE MIL SENTIMENTOS e EMOÇÕES...
TUDO
NASCE DA TERRA COMO O VENTO, O AR
QUE ENCHE O NOSSO CORPO DE ENERGIA
A IMAGINAÇÃO DE FANTASIA
E TODO O NOSSO SER DE UM DESLUMBRAMENTO
QUES SE TRANSFORMA EM FASCÍNIO
EM ENCANTAMENTO...
NUM DESAFIO CONSTANTE A SERMOS CRIADORES...
"SEREIS COMO DEUSES..."
ASSIM
É A LÍNGUA QUE FALAMOS
A LÍNGUA MATERNA
A VOZ DO VENTRE DA TERRA
TERA QUE É MUDA e INERTE mas FALANTE...
ASSIM É A CULTURA!
AQUILO QUE SENTIMOS e PENSAMOS
AQUILO QUE APRENDEMOS, SABEMOS e FALAMOS!
AQUILO QUE VIVEMOS, DIZEMOS e ENSINAMOS...
ESTÁ
EM JOGO A NOSSA IDENTIDADE
ESTÁ EM JOGO A NOSSA
AUTENTICIDADE!!!
COMO PESSOAS
COMO INDIVÍDUOS
COMO SERES INTEGRADOS NUMA SOCIEDADE
INTEGRADOS NUM MUNDO QUE ABARCA A HUMANIDADE
COMO HABITANTES DUM COSMOS QUE ABARCA UM UNIVERSO
DE MILHARES DE GALÁXIAS EM CONSTANTE CRESCIMENTO...

Recolha
de alguns TEXTOS sobre a ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS...
e o que é ou não é a LITERATURA POPULAR...
ou a ORAL ou ORATURA ou a LIETERATURA TRADICIONAL...
ou os VALORES DA CULTURA TRADICIONAL ou POPULAR ou de BASE ou
identificadora e uma IDENTIDADE CULTURAL...
| nº
|
TÍTULO
|
AUTOR/es
|
OBRA
ou...
|
DATA
|
RESUMO
/Notas
|
Pág.
|
|
|
Les
rendez-vous des conteurs
|
MARYSE
WOLINSKI
|
LE
MONDE
|
02.08.1981
|
Cont.
Hist. à roda da França...
|
|
|
|
A
Importância de Contar Histórias e a Tradição dos Contadores
|
G.
DOBRELAERE
|
Pedagogia
da Expressão
|
anos
80 ??
|
As
tradições perdidas e algumas técnicas...
|
|
|
|
Os
Recitadores da Primária
|
Pierre
FERRAN
|
L’EDUCATION
ESTHÉTIQUE ‑ luxe ou nécessité
|
|
|
|
|
|
Realização
da Autonomia
|
Bruno
BETTELHEIM
|
PSICANÁLISE
dos CONTOS de FADAS
|
1ª
1975/6 (Fr.)
4ª
(Prt) Bertrand, 1991. pp. 174-191.
|
Fantasia,
(Imaginação) recuperação (cura), escape (libertação) e consolação
(satisfação)!
|
|
|
|
A
Arte de Contar Contos de Fadas
|
Bruno
BETTELHEIM
|
PSICANÁLISE
dos CONTOS de FADAS
|
1ª
1975/6 (Fr.)
4ª
(Prt) Bertrand, 1991. pp. 174-191.
|
Contar
ou ler com envolvimento...
|
|
|
|
Literatura
Popular: O QUE É?
|
M.
VIEGAS GUERREIRO
|
GUIA
DE RECOLHA de LITERATURA POPULAR
|
??
Ministério da Educação, 1976
|
O
respeito e as regras...
|
|
|
|
Literatura
Popular: importância da
|
M.
VIEGAS GUERREIRO
|
para
a HISTÓRIA da LITERATURA POPULAR PORTUGUESA
|
ICLP
e Min. Educação, 1978, 2ª 1983, 31-34
|
O
desprezo e a falta de estudos...
A
nossa Identidade...
|
|
|
|
Culture
Populaire: qu’est-ce que la?
|
Georges
CALVET
|
ANNALISES
de l’UNIVERSITÉ de TOULOUSE - LE MIRAIL
|
Université
de Toulouse - le Mirail,
??
|
Há?
e a autêntica? é analfabeta?
E
o perigo da cultura industrializada?
|
|
Les
rendez-vous des conteurs
LE
MONDE DIMANCHE 2 AOUT 1981
MARYSE WOLINSKI

|
Les
rendez-vous des conteurs
LE
MONDE DIMANCHE 2 AOUT 1981
MARYSE WOLINSKI
|
UM ENCONTRO
DE CONTADORES DE (H)ISTÓRIAS
Tradução
livre de José Rabaça Gaspar
|
|
Les
rendez-vous des conteurs
Une
quinzaine de conteurs professionnels font revivre les histoires
des veillées. Une amicale de magiciens qui trient
les mots et les phrases et en font des images.
"J'ai
marché un peu. J'ai marché encore. J'ai marché
par monts et par plaines. J'ai planté l'aiguille.
J'ai planté la laine. J'ai grimpé dessus pour
surveiller les alentours..." Et gratte la tampona pour
donner le ton de la suite du conte.
Un
personnage, cette fille. Assise en tailleur sur la scène.
Pieds nus. Drapée dans une houle de soies multicolores
recouvrant un saroual nacarat, des cheveux de jais, ondulant
en auréole vaporeuse autour du visage plein, nu,
des yeux de braise sur teint mat, un teint aux nuances méditerranéennes.
Comme son langage pigmenté d'accent gréco-judéo-pied-noir.
Jouant de cet instrument indien, tout aussi majes-tueux.
Une
conteuse, Catherine Zarkat. Conteuse professionnelle. Depuis
peu, mais elle en vit de ses contes, égrenés
au fil des soirées dans les maisons de la culture
ou les cafés-théâtres, des après-midi
dans les écoles ou les maisons de jeunes. Depuis
un na, elle va de ville en village, sa tampona sous le bras
et sa verve colorée à la bouche.
Un
soir, dans une salle de l'abbaye de Royaumont, devant un
public d'enfants et d'adultes mélés, sur une
scène de fortune, dressée entre deux voûtes,
ils sont cinq. Cinq conteurs chargés d'assurer une
veillée de contes. Et Catherine Zarkat. forme généreuse
et brune et chaleureuse, dit un conte turc. Un de ces contes
de mensonges où le héros affirme avoir bercé
son père dans son berceau et avoir bu avec ses yeux.
Comme cela, des Mille et Une Nuits aux contes populaires,
ils enchainent, jouant de leur visage et de leur voix, de
leur corps et de leur récit.
Renaissance
De
tels spectacles, il y en a maintenant de plus en plus à
travers la France. Et il y en aura tout l'été.
Et les conteurs. ces nouveaux baladins, affinent leur répertoire.
Avec succès. Le cante renait, revit.
Un nouvel engouement Qui étonne les conteurs eux-mémes,
ces passionnés de récits dont certains remontent
à la nuit des temps, nés peut-être à
l'autre bout du monde, comme la blonde Cendrillon qui n'a
pas été imaginée par Perrault. Des
contes au cannevas commun à de nombreux pays mais
dont l'originalité varie en fonction des détails,
fioritures incrustées au cours des siécles
par les conteurs locaux. Les biblio-thécaires sont
soudain obligées de répondre à une
demande importante des enfants, adolescents, étudiants
et adultes. Renouveau d'une tradition perdue. Un regain
d'in-térêt qui a coïncidé avec
la sortie en 1976 du livre de Bruno Bettelheim Psycha-nalyse
des contes de fées (1).
Résultat:
les ventes en librairie ont progressé considérablement,
les collections se sont multipliées chez les éditeurs,
comme les thèses et les livres de réflexion
sur le sujet (2), des cours sont dispensés du lycée
à l'université, et les conteurs se profes-sionnalisent
et produisent ici et là.
Le premier de tous. l'"initiateur", a renoué
avec la tradition dans les années soixante-dix. Un
vrai nom de baladin, Bruno de la Salle. Parti d'un rêve
créé, recréé, autour duquel
il n'a cessé de broder sur une scène de café-théâtre.
Un rêve mûre-ment rêvé, éveillé,
par cet acteur-poète. Du rêve au conte, il
a franchi le pas, à l'occasion de soirées
amicales d'abord, et malgré quelques réticences,
car pour lui, "un conteur n'est pas seulement un diseur
de contes. C'est comme un sorcier, quelqu'un qui possède
un don".
Et
pendant que Bruno de la Salle "tourne" en France
avec son Petit Chape-ron rouge, version fin de siècle,
dans les bibliothèques pilotes ouvertes aux enfants,
les responsables tentent d'instaurer, chaque mercredi, l'heure
du conte. Une initiative qui plaît et prend de l'ampleur.
Et pour toutes ces bibliothécaires-conteuses, Bruno
de la Salle devient le maître à conter, se
pique au jeu et se met à organiser des ren-contres,
colloques week-ends de réflexion. Et notamment celui
de Vannes en 1977.
D'aucuns
sont de tradition orale. Des conteurs formés au berceau
qui racontent dans les écoles, les maisons de la
culture ou autres centres culturels, les récits de
leur fo-lklore: histoire de Jha le bouffon, personnage populaire
de tradition orale tunisienne, et autres contes des Mille
et Une Nuits. Parmi eux, Mohamed Belhalfaoui, un uni-versitaire-conteur,
et le cinéaste tunisien Naceur Khémir. Auteur
de plusieurs livres de contes (3), Naceur Khémir
est un conteur né, un charmeur. Il a baigné
toute son enfance et son adolescence dans les récits
fantastiques des vieux de Korba, son vi-llage natal, dans
les "contes à propos", contes dont la chute
est un proverbe qu'utili-sait sa mère pour tenter
de le mettre au pas, les "contes saisonniers"
liés aux tâches paysannes, les "contes
féminins" chuchotés par les femmes "emmurées"
de sa famille
ou du village.
Le
travail des autres est plutôt d'origine livresque:
Bladé, Pourtat. Deulin, ou les conteurs célèbres,
Andersen, les frères Grimm, pour ne citer qu'eux.
Mais tous ces conteurs, toujours à l'écoute
de récits traditionnels au hasard de leurs déplacements
et sans vouloir jouer les folkloristes ? ils s'y refusent
au {contraire, ? suscitent les confidences de ceux qui ont
entendu les derniers conteurs de village. Et ils enregistrent
ces thèmes retrouvés, recréant, réinventant,
redessinant avec leur "pate" ces histoires du
folklore local. Le conte n'est jamais un produit fini. A
preuve, les qua-tre-vingt-seize versions de Jean de l'Ours
ou les quatre-vingt-deux du Petit Poucet dénombrées
à ce jour.
Au
cours de ces rencontres, des vocations sont nées:
Annie Kiss, Jacques Coutureau, Catherine Zarkat, Richard
Abecera, Anne Queseman et Laurent Breman du Théâtre
à Bretelles. Les conteurs professionnels d'aujourd'hui.
Ils sont une quin-zaine à vivre de ce métier,
avec chacun sa particularité, voire sa spécianlité.
Veillées
Les
occasions ne manquent plus pour se produire, les veillées
de contes et nuits blanches ne sont plus exceptionnelles,
et 1es conteurs sont désormais au rendez-vous des
grandes fêtes. Et si d'aventure des veillées
pour adultes ou des matinées pour les plus jeunes
les réunissent, ils ne sont pas contre. A Royaurnont,
par exem-ple. Lorsque Catherine Zarkat a terminé
son envolée dans une citrouille d'où elle
repère ses personnages, il a suffi de quelques notes
de tampona pour qu'Annie Kiss s'empare de l'émotion
de la salle. Sans briser le charme. Une fée, Annie
Kiss, tout droit sortie de ses contes, le regard bleu lointain
et le sourire séraphique. Une con-teuse à
voix nue. Bibliothécaire de formation, elle a travaillé
à la bibliothèque de Clamart, ce "véritable
loboratoire expérimental", où elle a
appris à conter avant d'apprendre aux autres. En
effet, c'est dans des stages de formation et aux autres
ateliers de contes (4) qu'elle initie les amateurs aux techniques
de concentration, maitrise de la respiration, techniques
vocales ou de mémorisation.
De
vrais baladins
"Le
conte est une culture d'adultes, adaptée à
l'enfant", disent en choeur les conteurs. Néanmoins,
les enfants dont l'imagination n'a pas encore été
bridée savent si bien écouter les contes,
et avec les conteurs partir pour un voyage merveilleux.
Ils savent les écouter, mais aussi les dire. Sur
la scène de Royaumont, les Montre-Petits? ces "fils
de la parole, fille elle-méme du mensonge",
comme ils se présentent ? se lancent dans les aventures
de Jean-le-sot, à la recherche de sa raison. Ils
sont neuf dans la troupe, neuf conteurs, sept enfants et
deux adultes dont Richard Abecera,un gaillard brun, tout
chevelu, encore un de la vieille garde soixante-huitarde,
éducateur de formation et conteur doué d'un
humour décapant. Richard Abecera se refuse à
toute concession vis-à-vis des enfants et dit les
contes de sa voix grasse, tels qu'il les a retrouvés
dans leur forme première.
Pendant
les vacances scolaires, il part en tournée, à
vélo, avec les Montre-Petits. Mais Richard Abecera
se produit aussi seul. Passionné de récits
des collec-teurs, des analyses et psychanalyses de contes
de fées. Son nouveau dada, les con-tes érotiques.
Pas faciles à consulter consulter!
Au
Théatre à Bretelles, its sont deux amoureux
des contes, des mots, des images: Laurent Berman et Anne
Quesemand, un architecte et une enseignante. Des vrais baladins,
ces deux-là. Ils faisaient ta manche en I968, sillonnant
les quartiers, se produisant d'abord dans une fanfare avec
quelques amis, puis chantant tes airs de la Commune. Beau
succès! Et de chanson en historiette, flirtant toujours
un peu avec la fiction, d'amourette en passion pour te conte,
its sont devenus conteurs. Leur spectacle s'articule autour
d'un texte d'actuatité: un rouleau de cinquante mètres
de superbes dessins à l'encre de Chine se dévide
dans le castelet-écran, bleu et or. Si-multanément,
Ils content leur "collage d'histoires", le chantent
ou laissent la parole à ta musique. Leurs instruments:
une trompette et un accordéon.
Ils
ont rencontré leur chance, expliquent-ils, dans la
floraison des fêtes de quartiers et grandes fêtes
politiques. Et ces saltimbanques au verbe populaire et con-testataire,
et dont les propos ne devraient pas s'émousser au
fil du succès, sont pas-sés de ta rue aux
centres culturels, écoles, bibliothèques ou
comités d'entreprise. Et ils ont même dispensé
des cours de Théatre à Bretelles. Aux syndicalistes
des P.T.T., notamment, à la recherche d'idées
nouvelles pour formuler leurs revendications. Un nouveau
genre pour te conte?
(1)
Psychanalyse des contes de fées, Bruno Bettelheim,
collection "Réponses", Robert Laffont.
(2) La petit fille dans la forèt des contes, Pierre
Péju, collection Réponses, Robert Laffont.
(3) Contes des Mille et Une Nuits, du 3 au 7 août,
à l'abbaye de Sénanque. livres de contes de
Naceur Khémir ont été publiés
aux éditions Maspero.
(4) Notamment ceux organisés par l'Age d'or de France
en collaboration avec La Joie par les li-vres. Renseignements:
1, rue Denis-Poisson, 75017 PARIS.
|
Encontro
de Contadores d'Istórias
Uma
quinzena de narradores profissionais preparam-se para dar
vida a histórias contadas ao serão. É
um encontro amigável de mágicos que organizam
as palavras e as frases para as transformarem em imagens
fantásticas.
"Eu
andei um pouco. Caminhei um pouco mais ainda. Galguei por
montes, vales e atravessei planícies sem fim. Plantei
grãos de trigo. Plantei se mentes de lã. Subi
ao cimo dos montes para descobrir os imensos horizontes
.
E,
neste momento, dá um rufo de tambor para definir
o tom para o curso história.
É
uma personagem singular, aquela rapariga. Sentada de pernas
cruzadas sobre o palco. Pés descalços. Envolvida
num mar de panos multicoloridos de seda que cobrem um sari
nacarado, uma cabeleira em juba desenhando uma aureola nebulosa
em torno do rosto cheio, límpido, nu, olhos brilhantes
a faiscar num fundo escuro, uma tez de características
mediterrânicas; como a sua linguagem pigmentada de
um sotaque greco-judaico-pé-descalço; ela
toca aquele simples instrumento indiano, ao mesmo tempo
majestoso.
Uma
"contadora de istórias", esta Catherine
Zarkat. "Contadora de Istórias", profissional.
É ainda uma principiante, mas ela vive de contar
os seus contos, ao longo dos serões promovidos pelas
Casas de Cultura ou Cafés-Teatro, ou tardes em Escolas
ou Casas da Juventude. Depois, sem mais, parte de aldeia
em aldeia, cidade em cidade, o tambor debaixo do braço,
a sua verve colorida na sua boca expressiva.
Numa
tarde, numa sala da Abadia de Royaumont, perante uma audiência
de crianças e adultos misturados, um palco improvisado
erguido entre dois arcos da Abadia, são cinco. Cinco
"contadores de istórias" empenhados em
garantir uma agradável vigília histórias.
E Catherine Zarkat, com o seu semblante escuro, a sua presença
generosa e acolhedora, conta um conto turco. É um
desses contos cheios de mentiras e invenções
em que o herói afirma ter embalado o seu pai no seu
berço de bebé, e ter bebido através
dos seus olhos. São assim, contos das Mil e Uma Noites
de cariz popular, que se encadeiam uns nos outros, jogando
com as expressões do rosto e a modulação
da voz jogando com o movimento dos seus corpos e o ritmo
das suas histórias.
Um
Renascimento!
Espectáculos
como este estão, agora, a aparecer, cada vez mais,
por toda a França. Vai haver mais durante todo o
verão. E estes "contadores d'istórias",
estes novos baladeiros, refinar os seus repertórios.
Estão a ter reconhecido êxito. A canção
e a arte de "contar e encantar" renascem.
Uma
nova moda. Uma nova moda que surpreende os próprios
"contadores d'istórias", amantes dessas
histórias, muitas delas que remontam a tempos imemoriais,
porventura nascidas no outro extremo do mundo, como a loira
Cinderela que não terá sido com certeza imaginado
por Perrault. Histórias tradicionais comuns a muitos
países, mas cuja originalidade varia em função
de pequenos detalhes, floreados e variantes que foram sendo
inseridos ao longo dos séculos pelos narradores locais.
Os bibliotecários foram subitamente obrigados a dar
resposta a uma procura cada vez maior por parte de crianças,
adolescentes, estudantes e adultos. É a renovação
de uma tradição perdida. A revitalização
do interesse que coincidiu com o lançamento do livro,
em 1976, por Bruno BETTELHEIM "A Psicanálise
do Conto de Fadas". (1).
Resultado:
as vendas nas livrarias têm crescido consideravelmente,
as colecções têm aumentado entre editores,
tal como tem acontecido como as teses e os livros de reflexão
sobre o assunto (2), aparecem cursos sobre o tema desde
as escolas às universidades, e os narradores profissionalizam-se
e actuam aqui e ali.
O
primeiro de todos, o "Iniciador, voltou à tradição
nos anos setenta. Um verdadeiro paladino destes novos baladeiros,
Bruno de La Salle. Nasceu a partir de um sonho criado, recriado,
em torno do qual ele não tem deixado de enriquecer
e reinventar em cada representação arriscada
num Café Teatro. Um sonho longamente amadurecido,
repetidamente sonhado e despertado por esse actor poeta.
Do conto ao sonho, ele foi avançando em serões
amigáveis, primeiro, e, apesar de algumas reticências,
ele foi avançando sempre, porque, para ele, "um
contador de histórias não é apenas
um DEZEDOR d'histórias. É como um mágico,
alguém que tem um dom."
E,
enquanto Bruno de La Salle "dá a sua volta"
à França, com o "Capuchinho Vermelho"
versão do final do século, nas bibliotecas
piloto abertas às crianças, os responsáveis
estão a tentar estabelecer, todas as quartas-feiras,
"A Hora do Conto". É uma iniciativa que
agrada e é está em crescendo. E para todos
estes bibliotecários-narradores, Bruno de la Salle
tornou-se o "mestre da arte de contar", orgulha-se
disso e começa a organizar reuniões, simpósios
de fim-de-semana de reflexão. De assinalar o de Vannes,
em 1977.
Alguns
vêm da tradição oral. Há narradores
treinados desde o berço que contam nas escolas, casas
de cultura e outros centros culturais, histórias
do seu folklore: Jha história do bobo, uma tradição
oral popular da Tunísia, e outros contos das Mil
e Uma Noites. Entre eles, Mohamed Belhalfaoui, um universitário
narrador e o cineasta tunisino Khemir Naceur. Autor de vários
livros de contos (3), Naceur Khemir é um narrador
nato, um encantador. Ele passou toda a sua infância
e adolescência embrenhado nas fantásticas histórias
dos velhos de Korba, sua terra natal, que incluem "contos
a propósito de
" que são contos
que partem de um provérbio utilizado pela sua mãe
para tentar mete-lo na linha, os " contos sazonais"
relacionados com as tarefas agrícolas, as "histórias
de mulheres" sussurradas pelas mulheres "isoladas
- protegidas" da sua família ou aldeia.
O
trabalho dos outros é mais de origem livresca: Blade,
Pourtat. Deulin ou famosos contadores como, Andersen, os
irmãos Grimm, entre outros. Mas todos estes "contadores",
sempre atentos à escuta das histórias tradicionais
que vão bebendo aleatoriamente a partir de suas viagens,
pretendem brincar aos folcloristas? Eles recusam essa ideia
e, mas, por outro lado, procuram suscitar as confidências
e segredos daqueles que tiveram o privilégio de ouvir
os últimos narradores da aldeia. E eles registam
estes temas reencontrados, recriando, reinventando, recontando
"à sua maneira", estas histórias
do folclore local. A história nunca é um produto
acabado. Prova, as oitenta e seis versões de "Jean
de l'Ours" (João de Calais?) ou as oitenta e
duas do "Pequeno Polegar" contados até
agora.
No
decorrer destes encontros, aparecem vocações:
Annie Kiss, Jacques Coutureau, Catherine Zarkat, Richard
Abecera, Anne Queseman e Laurent Breman do Teatro em Bretelles.
Os Narradores Profissionais, hoje, são uma quinzena
a viver da sua profissão, cada um com a sua especialidade
e particularidade.
Vigílias
As
oportunidades não faltam para que estes serões
aconteçam, as vigílias de contos e noites
em branco já não são excepcionais,
e os Narradores estão agora nos Encontros dos Principais
Eventos. Se por acaso, acontece que os serões para
adultos e as manhãs para jovens os põem em
contacto, eles não são contra.
Em Royaurnont, por exemplo, quando Catherine Zarkat acabou
o seu voo numa abóbora, donde fez aparecer os seus
personagens, bastaram apenas alguns rufos de tambor, para
que Annie Kiss se apodere da emoção que pairava
na sala. Sem quebrar o feitiço. Uma fada, Annie Kiss,
uma personagem saída como que por magia de dentro
das suas histórias, olhos azuis profundos e um sorriso
seráfico. Uma contadora de voz nua. Bibliotecária
por formação, ela trabalhava na biblioteca
de Clamart, esse "verdadeiro laboratório experimental",
onde ela aprendeu a contar antes de se atrever a ensiná-lo
aos outros. De facto, é nos estágios de formação
e outras oficinas de contos (4), que ela inicia os amadores
nas técnicas de concentração, no domínio
da respiração e nas técnicas vocais
ou de memorização.
Verdadeiros
Trovadores
"A
"Arte de Contar Istórias" "é
uma cultura de adultos, adaptada às crianças",
afirmam em coro os "contadores". No entanto, as
crianças cuja imaginação ainda não
foi controlada, sabem ouvir muito bem as histórias
e, com os "contadores", partir para uma viagem
maravilhosa. Eles sabem ouvi-las, muito bem, mas também
as sabem "dizer". Naquela representação
em em Royaumont, "Os Montre-Petits", esses "filhos
da palavra, ela própria filha da mentira ",
como eles se apresentam? Se lançam nas aventuras
de João o Parvo, à procura da sua razão.
Eles são nove no elenco, nove "contadores",
sete crianças e dois adultos dos quais Richard Abecera,
um rapazola moreno, cabeludo, a lembrar um dos antigos guarda
do "sessenta-huitard", educador de formação
e um talentoso contador de um humor corrosivo. Richard Abecera
recusa qualquer concessão em relação
às crianças e conta as suas histórias
com a sua voz grossa, tal como ele as encontrou em sua forma
original.
Durante
as férias escolares, ele parte em digressão,
de bicicleta, com os "Montre-Petits".
Mas Richard Abecera também representa a solo. Apaixonado
das narrativas dos "coleccionadores", das análises,
e das psicanálises dos Contos de Fadas. Sua nova
aventura, os contos eróticos. Não é
fácil a consulta. Consultar!
No
Teatro em Brettelles, são dois "amantes"
de contos, de palavras, de imagens: Lawrence Berman e Anne
Quesemand, um arquitecto e uma professora. Verdadeiros saltimbancos,
estes dois. Eles estão no seu pico de forma em 1968,
percorrendo os bairros de Paris, primeiro integrados numa
banda com alguns amigos e, em seguida, cantam as áreas
da Comuna. Um sucesso! E, de uma canção para
uma historieta, jogando sempre, um pouco, com a ficção,
em amorosa paixão com os contos, tornam-se "Contadores
d'Istórias". O espectáculo gira em torno
de um texto da actualidade: um rolo de cinquenta metros
de belos desenhos a tinta da china é projectado no
cavalete que serve de tela, azul e ouro. Ao mesmo tempo,
eles contam a sua "colagem de histórias",
cantam ou deixam a palavra para a sua música. Instrumentos:
trompete e um acordeão.
Conheceram-se
a sua sorte, explicam eles, na floração das
festas de bairro e nos festivais políticos importantes.
E esses saltimbancos de linguagem popular e de palavra contestatária,
e cujas propósitos se não destinavam ao sucesso,
de repente, passam da sua rua aos centros culturais, escolas,
bibliotecas ou comissões de empresas. E eles ainda
se dão ao luxo de darem um Curso de Teatro em Bretelles.
Por exemplo aos sindicalistas dos PTT à procura de
novas ideias para formular as suas reivindicações.
Um
novo tipo de conto?
(1)
Psicanálise dos contos de fadas, Bruno BETTELHEIM,
Colecção "Respostas", Robert Laffont.
(2) A pequena menina na Floresta dos Contos, Pierre Péju,
Colecção Respostas, Robert Laffont.
(3) Histórias da Mil e Uma Noites, a partir de 3
a 7 de Agosto, na Abadia de Senanque. Livro de Contos de
Naceur Khemir que foram publicados pela Maspero.
(4) Em especial aqueles organizados pela Golden Age da França,
em colaboração com La Joie par les li-vres.
Informações: 1, rue-Denis Poisson, 75017 PARIS.
|
A
TRADIÇÃO DOS CONTADORES DE HISTÓRIAS
A IMPORTÂNCIA D CONTAR HISTÓRIAS
in
PEDAGODIA da EXPRESSÃO
de G. Dobrelaere
(Nota:
Esta cópia, feita a partir de uma tradução
que parece muita precipitada, e baseada nu-mas fotocópias
bastante deterioradas, não é uma transcrição
fiel nem da tradução do livro a que não tive
acesso, nem é fiel à traduçaão em
que me baseio. É uma leitura minha do que con-segui ler
dos apontamentos que me chegaram.)
Na praça central de Marraqueche, em Marrocos, ? uma cidade
com mais de trezentos mil habitantes, situada no sopé do
Alto Atlas, uma cidade que faz como que a ligação
entre o Norte de África e o deserto do Sara e já
foi a capital dos Almorávidas e Almóadas, e se distingue
por ter indústrias alimentares e têxteis ? realizam-se
todas as actividades que podem mostrar a vida de uma comunidade
em movimento e comunicação. As pessoas encontram-se
ali para tomar chá, negociar camelos ou para ouvir os contadores
de histórias. No meio deste fervilhar de vida e mo-vimento
há sempre, pelo menos, cerca de dez contadores de histórias
que disputam um considerá-vel círculo de ouvintes
atentos. Podem-se ouvir ali histórias ou contos de todos
os tipos. Contos de arrepiar com vampiros assassinos, outros maravilhosos
em que aparecem génios e princesas e duendes; outros ainda
com referências históricas em que se relatam feitos
de conquistas e vitórias; e ainda outros que dão
conta de toda a genealogia do profeta; aparecem também
os científicos ou de ficção científica
e até aqueles em que aparecem as receitas para todos os
males e doenças da humanidade ou revelam como prevenir
todos esses males e doenças.
O
que se passa nesta praça de Marraqueche, acontecia também
em Paris ou Londres, ou qualquer outra grande cidade, há
menos de cem anos, sobretudo se, essa cidade, era um porto de
mar ou cruzamento de grandes vias de comerciantes ou peregrinos,
aventureiros ou viajantes. O que aconteceu, é que, progressivamente,
as imagens difundidas em larga escala pelos cartazes, as histórias
divulgadas pelo cinema e televisão, os programas de rádio,
os discos e os meios moder-nos de divulgação, encurralaram
e foram remetendo para segundo plano estas formas de expres-são
e comunicação mais delicadas e empenhadas que desafiavam
unicamente a imaginação das pessoas e dependiam
completamente do "contador de histórias" ao vivo
que as tornavam únicas e irrepetíveis.
Entretanto,
se, presentemente, a amior parte dos adultos já não
se deixam cativar por his-tórias, talvez com as crianças
ainda não aconteça o mesmo, apesar da concorrência
dos livros de BD e dos terrivelmente sedutores programas de televisão
com desenhos animados quase perma-nentes e absorventes. Talvez
possa acontecer que, as nossas crianças, ainda encontrem
nestas narrativas, um alimento mais suculento e variado, do que
em qualquer outro modo de expressão mais adequado aos adultos
e imaginado e produzido para eles mas sem o contacto directo e
en-volvente que a história ao vivo pode proporcionar.
O
TESOURO DOS CONTOS
Mesmo que os livros disponíveis ou a biblioteca, ou ainda
o ambiente em que vivem não proporcionem uma grande quantidade
de histórias, contos, lendas ou narrativas, os educadores
e aqueles que convivem com as crianças, podem dar largas
à suas capacidades de adaptação, vari-ando
as suas interpretações e adaptando-se aos diversos
tipos de auditórios e de situações.
Há muitas espécies de histórias. Elas podem
ir desde aquelas que procuram relatar com realismo possível
uma aventura vivida como uma expedição aos pólos
ou uma viagem a lugares exóticos, ou pode ser uma lenda
em que o maravilhoso dourado é a nota dominante, ou ainda
pode ser o relato de uma epopeia medieval com cavaleiros, princesas
e dragões; ou uma fábula africana cheia de colorido,
como uma história d caça passada nas superfícies
geladas da Lapónia ou um conto oriental repleto de magia
e de mistério...
Todos estes tipos de contos podem ser a encarnação
do génio e da identidade cultural de um povo. o problema
é que nos encontramos, cada vez mais, numa situação
em que a educação nos obriga a ter em conta as diversas
formas de expressão e a tornar acessíveis as mais
variadas origens e manifestações de cultura.
O nosso repertório terá de ser, necessariamente
internacional e intercultural, e já não será
exclusivamente didáctico e moralista como acontecia nos
contos exemplares e nas fábulas adop-tadas como modelo
em determinadas épocas. É evidente que não
podemos privar as nossas crian-ças de poderem ter umas
perspectivas etnográficas e históricas tão
alargadas quanto possível. O problema que é preciso
seriamente reflectir, é que, perante a avalanche de produtos
acabados, produzidos pelos meios e comunicação dominantes,
e perante o comodismo ou falta de iniciativas para estar atento
e recolher e produzir e dar a devida divulgação
aos valores culturais locais, es-tamos a correr o risco de um
completo desenraizamento, quando o desejável seria, ser
levado a conhecer os valores de outras culturas devido a. e porque
conhecermos e darmos o devido lugar, aos valores culturais que
definem e dão alicerces à nossa identidade cultural
e por conseguinte dariam sentido e segurança ao mundo que
povoa o imaginário das nossas crianças e adolescentes,
para que, uma vez que sabem apreciar aquilo que é seu e
gostando de si próprios e da sua cultura, sejam levados
a descobrir e saber apreciar aquilo que distingue, marca e identifica
os outros dife-rentes. Mas se os adultos, os pais e educadores
dessas crianças perderam essas referências e valo-res,
o que é que vai acontecer? Possivelmente vamos ficar presas
de uma cultura uniformizante e dominadora em que as diferenças,
em vez de nos enriquecerem, vão desaparecer, tornando o
mundo mais pobre e desinteressante.
E
não é só este o problema que se levanta.
Temos de nos preocupar também com a necessidade de propor
temas, em relação aos quais se possa exercitar,
livremente, a imaginação.
Mas,
raciocinando em cadeia, temos de, ao mesmo tempo, pensar que a
imaginação não significa só, evasão,
ou aquilo que poderíamos chamar poesia pura ou o maravilhoso.
É verdade que a imaginação tem as suas raízes
nos anseios e necessidades vitais da criança, mas terá
de conseguir uma educação prática que a não
desligue da realidade e conduzi-la a uma inserção
cada vez mais completa no seu ambiente cultural e social.
REALISMO
E MARAVILHOSO
É evidente que o recurso ao maravilhoso é importante
e indispensável nesta arte de contar histórias.
Quais são os problemas que se levantam e o que é
preciso Ter na devida conta?
É preciso ter em conta a idade.
Se por exemplo admitimos que até aos cinco anos de idade,
uma vez que os limites da lógica ainda não estão
adquiridos, se podem dar largas às asas da fantasia e usar
ou até abusar do insólito e dos elementos extravagantes,
a partir de certa idade, é importante ter a noção
de que se podem correr vários riscos.
Podemos estar a correr o risco de chocar o sentido crítico
das crianças que vai pensar que as estamos a gozar ou a
querer enganar, ou perante um grupo daqueles que já se
julgam e estão a ser uns homenzinhos, corremos o risco
de perder a nossa autoridade, dando aso a admitir que, afinal,
o educador, não terá "os seus cinco alqueires
bem medidos" ou que não terá o sentido pre-ciso
das realidades.
Por outro lado, perante uma assembleia demasiado crédula
ou ingénua, podemos estar a correr o risco de julgarem
como verdadeiro tudo o que dissermos, o que pode ter consequências
imprevisíveis.
Há ainda a considerar a notável diferença
entre a ingenuidade e a candura própria dos simples e até
dos poetas que têm a capacidade de espanto e admiração
perante o maravilhoso até das coisas mais simples e do
quotidiano, e a ingenuidade bacoca, ou aquilo que costumamos co-nhecer
como um "pobre de espírito" que não é
exactamente o mesmo do que ter e ou cultivar o "espírito
de pobreza" ou a capacidade de ser maravilhar perante a beleza
manifesta nas coisas mais simples da vida e que podemos encontrar
a cada passo. A diferença é tão notável
que são ou poem ser exactamente o oposto, como modo de
ser e como atitude ou maneira de encarar a vida.
Mas não acabam aqui os perigos e as confusões.
Em que medida é que poderemos, por assim dizer, "brincar"
e divagar com o maravilhoso profano, sem termos na devida conta
que já talvez não possamos fazer o mesmo em relação
ao maravilhoso sagrado ou religioso, e ainda por cima em relação
a diferentes crenças e religiões dos nossos educandos
ou das suas famílias? Poderá acontecer que, à
medida que o espírito crítico da criança
se for desenvolvendo, e ao dar conta da "falsidade"
ou das "fantasias" do maravilhoso profano, até
que ponto é que não será levada a rejeitar
todas "as crenças infantis" incluindo as do maravilhoso
religioso?
É,
com certeza, da máxima importância, alimentar e desenvolver
o sentido do maravilhoso sagrado nas crianças, ou se o
não têm, haverá necessidade de o ajudar e
reencontrar. Por outro lado, seria lamentável, que para
evitar esse risco, tivéssemos de privar as crianças
de ter acesso à sensibilização poética
e estética que se pode cultivar com o maravilhoso do conto
profano.
O segredo e a arte estará em conseguir aliar as duas coisas
e fazer intervir o fantástico profano ao lado do maravilhoso
religioso, sem confusões nem agressões.
O
MARAVILHOSO E O FANTÁSTICO
Para nos situarmos vamos tentar esclarecer conceitos que parecem
sinónimos mas não são.
O maravilhoso é um sistema lógico no qual basta
admitir o postulado para aceitar as con-sequências. Por
exemplo no maravilhoso cristão, desde que se acredite na
omnipotência de Deus, isso implica que estamos autorizados
a acreditar em todos os milagres.
Há também o maravilhoso feérico, profano
que nos leva a aceitar como normais as inter-venções
das fadas, dos génios ou dos duendes, desde que os consideramos
detentores de um po-der cujos limites são definidos pelo
próprio desenrolar da história.
Podemos ainda considerar o maravilhoso mágico como aquele
que confere a determinados objectos um poder benéfico ou
maléfico proporcional à intenção ou
carga simbólica que se lhe quiser atribuir em determinada
conto.
É este maravilhoso , ou os seus diversos tipos, que continuam
a ser familiares e sedutores para as crianças, como para
os adultos considerados ingénuos ou "pobres e espírito".
Abusar desta constatação e como que encarcerar os
mais jovens neste sistema tão impla-cável e previsível,
temos de concordar que não é educativo nem particularmente
libertador ou gratificante.
Já não acontecerá o mesmo com o fantástico.
O FANTÁSTICO é a excepção, é
a quebra de uma regra. É podemos dizer, a fantasia do maravi-lhoso.
Se, por um lado, o fantástico pode ser aterrorizador pela
quebra do normal e pelo inespe-rado que minaria o sentimento de
confiança e segurança do previsível e esperado,
o facto é que também poed ser e é geralmente
humorístico e sabemos como é importante cultivar
o humor, o riso e como isto é particularmente apreciado
pelos mais pequenos possivelmente até aos dez anos.
Mas, quais são os limites do fantástico?
Julgamos que basta um pouco de bom senso para os poder definir.
Os limites estarão na-quilo que podemos chamar de verosimilhança
que pode levar a criança a aceitar ou rejeitar a fic-ção,
como afinal acontece com os adultos.
Talvez com alguns exemplos nos possamos aperceber melhor dos limites
ditados pelo bom senso.
"... Um dia, ele viu, na floresta, um gigante que acabava
de arrancar pela raiz, e só com uma mão, uma meia
dúzia de grandes carvalhos, como se acabasse de colher
um ramo de flo-res.... depois, agarrando numa das árvores,
fez com ela um laço para atar as outras cinco e, dando-lhe
um nó, pôs o molho às costas e levou-as para
casa..."
Qualquer
criança, ao ouvir uma história que meta gigantes,
poderá admitir que ele possa arrancar uma ou várias
árvores de grande porte como se colhesse flores ou arrancasse
algumas ervas, mas usar uma das árvores para fazer um laço
e dar com ela um nó, talvez a leva a pensar que a árvore
se ia partir a qualquer momento.
"...
A certa distância dali, encontrava-se um caçador
que estava de joelhos, com a arma apoiada, a fazer pontaria com
muito cuidado. Um soldado que ia a passar perguntou-lhe:
? Olá caçador, para onde é que tu estás
a fazer pontaria com tanto cuidado?
então o caçador respondeu:
? Há uma mosca poisada num ramo, a duas léguas daqui,
e eu vou meter-lhe uma bala no olho do lado esquerdo."
Perante uma situação destas, a criança que
certamente já viu uma mosca e já viu ou tem mais
ou menos a ideia do tamanho de uma bala, sabe perfeitamente que
a bala é muito maior que a própria mosca, quanto
mais querer que fique dentro do pequeno olho do insecto. Talvez
não seja muito difícil evitar cair no ridículo
de situações como estas o que não tem nada
a ver com os jogos dos disparates ou as histórias de contra
senso como os do "Era e não Era, andava na ser-ra..."
e outras, em que o jogo e a brincadeira procuram exactamente ironizar
e brincar com o "churrilho" ed disparates ou "enfiada
de petas"...
(Este exemplo foi tirado de umas notas de Grimm "Os seis
companheiros que conseguiam tudo"! Será preciso ver,
exactamente o enquadramento, o contexto em que este exemplo é
referido.)
A
IMPORTÂNCIA das IMAGENS (as metáforas e o colorido
na arte de contar)
Quer se trate de uma história mais realista ou mais fantástica,
não nos podemos esquecer de que toda uma boa história
terá de ser rica em imagens. Uma história sem o
colorido a alimentar e desafiar a fantasia dos ouvintes perderá
todo o interesse e não pode ser uma boa história.
Além disso, as imagens poedm e devem ir ao encontro da
sensibilidade própria dos meni-nos e meninas - ouvintes,
ajudarão a aumentar o seu vocabulário, ao mesmo
tempo que terão de ser acessíveis, dentro dos limites
do vocabulário que já dominam, e poderão
assim ser progressi-vamente interiorizadas e posteriormente ser
utilizadas e aplicadas pela própria criança quando
sentir necessidade de as aplicar a novas situações.
Não é novidade para nenhum educador atento, ficar
admirado ao ouvir uma criança empregar um termo novo que
não se esperaria fazer parte do seu vocabulário
activo, numa situação inesperada que nos faz sorrir
mas nos indioca que terá apreendido correctamente determinada
palavra ou expressão.
A imagem terá de substituir, na história, a palavra
ou conceitos abstractos que tenhamos necessidade de introduzir
para tornar a história plausível e interessante.
Não adiantará muito dizer que o menino da história
era bom ou mau, mas já terá sentido dizer que o
menino partilhava os seus rebuçados com os colegas ou que
o outro menino andava sempre à pancada ou a empurrar e
incomodar o vizinho do lado...
A utilização de imagens, pode mesmo alargar o campo
de observação e, em vez de dizer que havia "um
velho corvo que..." posso dizer que o corvo da história
"... tinha debicado tanto que já não tinha
penas à volta do bico... e..." Talvez possa ajudar
pensar em perífrases adequadas que não façam
perder o fio da história mas ajudem a perceber melhor,
ou na utilização atempada de uma certa dose de exagero
ou hipérbole, como as artistas fazem nas caricaturas para
que a fantasia possa ajudar o que poderemos chamar de visualismo
e a criança ou o ouvinte vá vendo aquilo que ouve
e fique cativado e seduzido pela história. Dizer que, no
Brasil, por exemplo há uma ave que tem o bico muito grande,
poderá levar os ouvintes a confundir o tucano com uma cegonha,
mas apresentar o tucano como uma ave que tem o bico tão
grande como todo o seu corpo, talvez consiga dar uma ideia mais
aproximada daquela ave desconhecida, sobretudo se não tivermos
uma imagem-fotografia ou desenho para mostrar como é.
Este jogo de imagens além de poder complementar aquilo
que escapa à simples observa-ção para dar
a conhecer outras coisas a que se não tem acesso, poderá
e deverá ir despertando e alimentando o espírito
poético e estético dos pequenos ouvintes. Pôr
por exemplo os "alfaiates a anunciarem que tinham conseguido
fabricar um tecido maravilhoso com os olhares"... pode ser
uma imagem cativante e incentivadora.
AS
PERSONAGENS
A
criança, como aliás sucede com qualquer ouvinte
ou leitor de uma história, interessar-se-à pela
narrativa porque, ou se nela encontrar uma personagem com quem
se possa identificar ou uma personagem que facilmente possa identificar
com alguém das suas relações. Pode também
aconte-cer que o poder de evocação seja tão
forte que o herói, de facto, desempenha ou desempenhou
um papel real na sociedade em que a criança está
inserida.
Assim,
é, importante que as personagens das histórias que
contamos sejam variadas e bastante numerosas. Entretanto, se forem
demasiadas, pode cair-se no excesso e não será muito
possível acompanhar e dar relevo ao seu desempenho na decorrer
da narração. Para uma história normal, dez
personagens podem já ser demasiados. Se são demasiados
e podem levantar problemas emba-raços ao desenrolar da
acção, será prudente fazê-los "sair"
com precisão e sem hipótese de re-gresso.
E a caracterização? Convém encontrar os traços,
quer dizer palavras precisas para caracterizar as personagens.
às vezes, um pormenor físico é pode ser muito
útil... "O capitão do barco pirata tinha ficado
com o nariz cortado por um golpe de sabre, o que o tornava parecido
com a medo-nha caveira pintada na sua bandeira."
A
ACÇÃO
Estas
personagens vão agir. O ingrediente fundamental da narrativa,
sobretudo da narrativa oral, é a acção. As
longas descrições e prolongados raciocínios
podem fazer perigar toda a maneira de contar e de se ouvir uma
história. As histórias serão mais interessantes
se forem férteis em inci-dentes e peripécias imprevistas.
O contador de histórias não se pode deixar manietar
pelos cuida-dos de ter de compor e descrever o espaço e
os lugares onde decorre a acção, como terão
de fa-zer os romancistas, nem pode ficar como que escrava do tempo
que é imposta ao dramaturgo.
O
gesto e a entoação podem permitir-lhe criar um clima
de mistério que levaria várias páginas a
um romancista e para a cena resultar no palco, talvez o dramaturgo
tivesse de recorrer a um cená-rio cuidadosamente preparado.
Então é preciso saber usá-los com mestria.
A
demasiada preocupação de manter um ritmo vivo na
acção, pode fazer-nos cair na armadilha de queimarmos
etapas e não dar a devida atenção à
unidade global, bem como à articulação articula-da
ou espirada das diversas sequências ou episódios
que terão de conter os ingredientes necessá-rios
e suficientes para criar o atractivo e interesse para os episódios
seguintes. Nada mais aborre-cido para os ouvintes e delicado para
o contador que em determinada altura, ao dar conta que se precipitou,
tem de voltar atrás e completar um pormenor que lhe escapou
numa sequência anteri-or e afinal não era um pormenor
sem importância mas fulcral para o desenvolvimento da história.
Não confundir isto com a técnica muito presente
em muitos contos orientais em que dentro de um conto vão
nascendo outros contos e é então necessário
ter muitas vezes presente o episódio que deu origem ao
encadeamento, como acontece tantas vezes em várias passagens
das mil e uma noites. Além disso há uma forma característica,
muito própria da civilização oriental, de
contar histórias. Tudo tem a ver com o ritmo e a dinâmica
a imprimir à narrativa. É preciso evitar estar constantemente
a voltar atrás, "ah, mas há bocado esqueci-me
que...", "mas era preciso saber que..." a não
ser que seja absolutamente indispensável e, portanto, só
como excepção.
A
CONCLUSÃO e a célebre MORAL da história.
Toda
a história tem de ter necessariamente um fim. O final é
importante para tranquilizar a crian-ça. Isto não
impede que o herói apareça em novas aventuras ou
usar uma vez ou outra a técnica da expectativa para saber
daqui a pouco ou noutra altura, como é que afinal vai continuar
a histó-ria. Onde e quando é que se deve para deixar
vivo o interesse para se continuar a ouvir? As per-sonagens de
um conto ficam, muitas vezes, a fazer parte do imaginário
da criança. Pode normal-mente criar-se um final em que
a porta fique aberta para novos episódios.
E
"a moral da história"? Que dizer? É necessária?
É desejável? É útil?
Em
primeiro lugar é fácil verificar que não
é parte integrante da arte de contar histórias.
Já não pertence à narrativa em si. Não
é necessária, portanto. Não faz necessariamente
parte da história e o perigo é poderá vir
exactament de cada um quer tirar a moral que lhe convém.
Ao contar a su-posta vida de Camões, uns podem concluir
que tendo morrido na miséria é essa a moral da histó-ria:
os poetas e os artistas, par ao serem, terão de ser pobres
e miseráveis; ou então, em propa-ganda ou contrapropaganda,
vamos poder utilizar este episódio para censurar as autoridades
ou responsáveis para a falta de atenção a
valores que teriam de ser mais protegidos e respeitados!!! Isto
dito assim, talvez não se possa chamar a "moral da
história" mas uma forma hábil ou mais ou menos
perversa de utilizar uma história!!!...
Pode
dizer-se, entretanto, que se poderia usar a história para
dar uma formação moral e religiosa às crianças.
Nos Evangelhos, a utilização das parábolas
para veicular ensinamentos e exemplos são uma prova de
que isso é possível e, possivelmente, bem conseguido.
Talvez seja prudente, entretanto, não confundir os géneros.
Se
fizermos deste tipo de conclusão uma norma absoluta ou
demasiado frequente vamos, com certeza, levar as crianças
ou os ouvintes a confundir uma história com um sermão,
"afinal onde é que me querem levar..., ou o que é
que me querem impingir...", e assim fazer perder grande parte
do interesse ou do encanto ou da magia que a história pode
ter por si.
Nas histórias que contamos aparecerão porventura
sempre em confronto e exclusão os bons, bons e os maus,
mesmo maus e os defeitos destes são normalmente sempre
exagerados e levam a ex-cesso que vão provocar a sua desgraça
e castigo que será aplicado pelo herói que é
sempre bome justiceiro e portador da espada da virtude omnipotente!!!
Tem de conseguir-se cada vez mais, mesmo nas histórias
do fantástico, que o simulacro do real, a verosimilhança
esteja presente e que a muitos dos preconceitos e intolerância
desapareçam para serem o mais próximos da realidade
ou "à semelhança" da realidade. Ou antes,
mesmo nas histórias mais mirabolantes, afinal, aparece
sempre o aspecto humano como nós o conhecemos e desejamos,
com os seus limites, as suas vir-tudes e defeitos, em que aparece
a dor, o sofrimento a morte a vida e o amor.
Além
de saber escolher e arquitectar uma história, é
preciso ainda aprender a arte de CONTAR UMA HISTÓRIA.
TÉCNICA
DA HISTÓRIA - Alguns aspectos técnicos a ter em
conta e a treinar para ir aperfei-çoando A ARTE DE CONTAR
HISTÓRIAS.
A
VOZ
É
por de mais evidente a importância da voz na técnica
de contar histórias. Dada a complexidade de estudar o problema
na sua globalidade, limitar-nos-emos, agora, a abordar alguns
aspectos e acrescentar alguns conselhos simples.
As palavras articuladas são uma sequência de sons
e por isso convém saber aquilo que é funda-mental
para saber o que é o som na a acústica.
A
DURAÇÃO
A POTÊNCIA
A ALTURA
O TIMBRE
Para
tudo isto e para cada uma destas coisas seria necessário
saber respirar bem, uma coisa que infelizmente, apesar de todos
respirarem pois caso contrário não estariam vivos,
o certo é que é raro encontrar quem saiba respirar
bem e saiba usar bem a sua respiração.
A DURAÇÃO, no caso da VOZ, chama-se ELOCUÇÃO.
A DICÇÃO e a velocidade com que articulamos os sons.
Temos, quase sempre uma ELOCUÇÃO demasiado rápida
como se estivéssemos a con-versar e partíssemos
do princípio que a maior parte das coisas, são entendidas
pelo nosso ou pelos nossos interlocutores, porque falamos normalmente
de assuntos em que todos estão "dentro do assunto"!
Ora a narração, embora se deseje que se aproxime
o máximo de uma conversa informável e agradável,
não é para copiar os defeitos mas as qualidades
de uma boa conversação e, uma his-tória,
necessita, da parte dos ouvintes, uma maior atenção
para que possam apreender os elemen-tos essenciais da história
o que por vezes implica não perder uma única palavra
de cada uma das frases. É preciso facilitar esse esforço
de atenção, procurando ser simples e conciso mas
sem pre-cipitações e usando de toda a ponderação.
Articular bem as palavras e usar de ponderação não
quer dizer cair na monotonia e provo-car o sono! Certas passagens
precisarão mesmo de ser contadas num ritmo mais vivo mas
que tem de ser sempre compreensível.
Um bom exercício para treinar a fala é ler em voz
alta e procurar distinguir o que é um ponto (contar por
exemplo mentalmente até três), um ponto e vírgula
(contar até dois) e uma vírgula (contando mentalmente
até um).
A
POTÊNCIA pode entender-se como o alcance. Claro que tem
de estar relacionado com a altura da VOZ. Entretanto, regular
a potência, será como regular o som de um rádio
para que a audição seja a ideal. É preciso
saber adaptar a potência às condições
acústicas que se têm em pre-sença. Estamos
numa sala? A sala é grande ou é pequena? A sala
é grande mas falamos só para um grupo que está
ali mesmo à nossa roda? Há outros grupos a trabalhar
na mesma sala? A sala faz eco, por estar demasiado vazia? Tudo
são aspectos a Ter em conta.
Uma vez encontrada a potência média ideal para as
circunstâncias não vamos usar sempre a mesma potência.
Para prender a atenção talvez seja importante começar
a história com uma voz suave. Uma vez criada a expectativa,
os ouvintes, se estão interessados em ouvir, cala-se e
até pedem aos outros para se calarem. Uma vez conquistada
a atenção, manter a potência normal para não
cansar e para poder subir e tom sempre que aquilo que contamos
o exija e ilustre me-lhor e para podermos sussurrar ou quase balbuciar
aquelas passagens em que é preciso dar um ar de mistério,
segredo ou intriga, ou confidência...
Um bom exercício é talvez recitar um conto em voz
alta experimentando as várias alturas, desde o murmúrio,
passando à potência normal, depois subindo um ou
dois escalões até voltar ao princípio e depois
aplicar essas variantes às passagens adequadas.
A ALTURA pode talvez chamar-se o registo que a constituição
anatómica de cada um permite atingir com as suas cordas
vocais. Normalmente, por exemplo, as mulheres podem ser soprano,
contralto e os homens têm mais tendência para ser
tenor, barítono ou baixo.
Infelizmente, a maior parte das pessoas, não sabem ou não
são capazes de descobrir qual é a melhor tonalidade
que se adequa às suas cordas vocais depois de atingirem
o seu crescimento completa e estável. Involuntariamente,
ou porque nunca ninguém lhe chamou a atenção
para isso, procura-se imitar a maneira de falar do pai ou da mãe
e mesmo pessoas que utilizam a voz diaria-mente para comunicar
e precisam de a saber gerir, como professores e educadores, têm
o chama-do vício profissional que pode ser, tanto o de
falarem precipitadamente para ensinarem tudo mui-to depressa,
como o de falarem muito alto para se imporem e pensarem que assim
são mais e me-lhor ouvidos. Todos terão na memória
a recordação daquela voz irritante que se impunham
de tal maneira que ninguém já a ouvia ou entendia
fosse o que fosse.
Se cada pessoa não consegue encontrar a seu próprio
registo e não o souber gerir, (cha-ma-se a isso saber colocar
a voz) está a sujeitar as cordas vocais e uma tensão
constante altamen-te prejudicial, primeiro porque não corresponde
à intenções que lhe queremos dar e depois
por ficar sujeita a graves consequências que pode ser ficar
afónico ou ter de ser operado.
Para falar bem é preciso treinar a sensibilidade e a musicalidade.
Não basta Ter a voz bem colocada. A partir daí é
preciso saber dosear tanto a potência como a altura de acordo
com a intenção do que estamos a querer transmitir.
A maneira como atacamos uma nova frase ou uma nova sequência
e o modo como acabamos as frases e criamos a expectativa para
a sequência seguinte podem dar um sentido completamente
diferente ao texto que lemos ou dizemos. Sem a variação
de todo este conjunto de matizes a narração será
monóto-na, desinteressante e possívelmente ininteligível.
Como exercício é aconselhado a seguir com um piano
a altura da voz e descobrir qual é para nós a melhor
nota e em que escala..., quer dizer aquela em que a nossa voz
tem mais ampli-tude e à vontade.. Deve conservar-se essa
nota para, por exemplo, para psalmodiar um texto, como treino,
passando depois ao exercício de descobrir as variantes
musicais de acordo com o sentido da frase, subindo e descendo
em relação a "nossa" nota dominante.
O TIMBRE
É
outro factor que caracteriza a colocação da voz.
Não basta conseguir fazer trabalhar correctamente as nossas
cordas vocais, mas é preciso, mas é preciso saber
aproveitar a sua ressonância. É como se tocássemos
uma viola sem a sua cai-xa. A caixa de ressonância das nossas
cordas vocais são o peito, a cavidade bocal e os ossos
ca-vos da face. Conforme fizermos ressoar de preferência
um ou outro destes órgãos, que de um modo geral
faemos de maneira perfeitamente inconciente ou por instinto, teremos
como resultado aquilo a que vulgarmente chamamos de uma "voz
da cabeça", "voz da garganta" ou "voz
do pei-to".
Uma boa voz não pode negligenciar nenhum destes amplificadores,
mas, por exemplo, no final dos contos, deve permitir que o som
seja projectado para diante, para os dentes, os lábios
e a língua, para se obter um maior rendimento e efeito.
Claro que, se é importante saber como se diz, como se pronuncia
o final de uma história, é importante, sem dúvida,
saber o que se diz, o que é que é importante para
reter no final de uma história e a emoção
que vai perdurar. Se for algo fra-co, sem sentido, não
restará nada, por melhor que tenha sido dito e projectado
pela voz. esta difi-culdade costuma ser resolvida pelos contadores
de histórias, recorrendo aos finais tradicionais que às
vezes são surpreendentes: "Vitória, vitória!
Acabou-se a história." "Novelo enrolado, conto
acabado." "Meada enleada ou meada dobada, história
acabada!" "E depois? Depois, morreram as vacas e ficaram
os bois!" E depois casaram, tiveram muitos filhos e foram
felizes para sempre.." "E ainda hoje lá estão,
conversando ao serão, comendo pão com melão."
"Era uma vez um papa, um rei e um bispo, juntaram-se (morreram)
os três, não sei mais do que isto." ... ....
Para sentir aquelas diferenças das diversas caixas de ressonância
da voz, poderemos dar conta dos registos mais graves ou elevados,
colocando, à vez, a mão sobre o peito, a garganta
e o nariz, para sentir as vibrações produzidas.
Basta até esticar o braço e colocá-lo sucessivamente,
ao mesmo tempo que se articulam um som qualquer, à altura
do peito, subindo depois para a gar-ganta e para a cabeça...
Pode também fazer-se o seguinte exercício. Tentar
proferir um som sem abrir a boca, e depois abrir a boca e baixar
a cabeça, bloqueando a conduta acústica dos sons.
Assim pode to-mar-se consciência da importância que
há em sentir a materialidade dos sons, quando falamos em
voz alta.
A RESPIRAÇÃO - O FÔLEGO
Não se pode dissociar um som do instrumento e do material
que o produz. As cordas vo-cais são accionadas pelo ar
e a quantidade de ar necessário depende do fôlego
e portanto da respi-ração e da quantidade de ar
que soubermos ou formos capazes de armazenar, e ainda da maneira
como o soubermos dosear para uma correcta articulação.
O fôlego condiciona, não só, a potência
da nossa voz, como também o modo como con-seguimos articular
na perfeição uma frase mais ou menos extensa ou
uma sucessão de frases que precisam de ser adequadamente
encadeadas umas nas outras. Sem termos uma quantidade de ar suficiente
armazenado, algumas das frases que precisariam de sair com mais
força e convicção, terminarão num
triste e inaudível assobio como um balão que se
esvaziou. O ar armazena-se nos pulmões, mas por exemplo
os bebés armazenam-no na barriga, é ver um bebé
a chorar como vai buscar à barriga o ar de que precisa
para conseguir aquela chinfrineira que pões qualquer pessoa
em alvoroço e faz correr os pais para acudir imediatamente,
e esta é uma técnica que esquecemos mas que os cantores
de ópera tiveram de reaprender e os solistas ou cantores
de grupos corais como os alentejanos treinam reaprendendo ou executam
por instinto, armazenando o ar na barriga e fazendo-o chegar aos
pulmões com golpes de contracção na barriga
e assim conseguirem efeitos vocais que nos surpreendem.
Um bom exercício para medir o nosso fôlego é
fazer uma boa inspiração e contar em voz alta o
tempo que for possível. Treinando a técnica de respiração,
expelindo bem todo o ar, e, ao inspirar, depois de encher bem
os pulmões, fazer passá-lo para a barriga, conseguindo
aquilo que podemos chamar "barriga de grávida",
sustendo depois uns segundos o ar armazenado, fechando a boca
e bloqueando os músculos do recto, expirar depois lentamente,
ou contar ou cantar até se extinguir... Semana após
semana, se este exercício for treinado regularmente, qualquer
um pode dar conta dos progressos obtidos.
A ARTICULAÇÃO
A articulação está condicionada pelo funcionamento
institivo da língua, dos lábios e dos dentes. Claro
que tudo isto pode ser treinado e melhorado. O carácter
instintivo da fala leva-nos, por vezes, ou normalmente, a articular
de modo insuficiente sobretudo o final das palavras e mui-to mais
o final das frases. Pode reparar-se que há sílabas
que são completamente escamoteadas, os finais quase não
se ouvem, deduzem-se, e grande número de consoantes não
têm nitidez. Em Portugal, por exemplo, é frequente
ouvir, quando se fala com um estrangeiro que aprendeu a nos-sa
língua, queixar-se que não consegue entender porque
comemos o final das palavras e das fra-ses. É ver, como
este nosso comodismo ou aplicação da lei do menor
esforço é elogiado pelos "nuestros hermanos"
de Espanha que, pelo mesmo motivo e pelo natural complexo de superiori-dade
com que cada um considera a sua língua a língua
perfeita, nos mimoseiam não entendendo patavina do que
dizemos mesmo espanholado ou fazem questão de fazer de
conta que não enten-dem nada!
Um exercício para corrigir este defeito é procurar,
nos ensaios e treinos, ler um texto em que todas sílabas
e as consoantes serão exageradamente articuladas, exceptuando
talvez as sibi-lantes para evitar o ridículo desnecessário.
A
ATITUDE ou POSTURA ou A FORMA de ESTAR "de pé"
mesmo que se esteja sentado.
Talvez seja oportuno reescrever aqui, para exercício, o
poema de Mário Cesariny, "A Arte de Inventar Personagens"
in "Manual de Prestidigitação", 1980:
"Pomo-nos
bem de pé, com os braços muito abertos
e olhos fitos na linha do horizonte
Depois chamamo-los docemente pelos seus nomes
e os personagens aparecem."
Poderemos Ter a melhor voz do mundo e levarmos a melhor das histórias
para contar, mas ficarmos pela mediocridade na arte de contar
histórias se não cuidarmos da nossa postura, da
nossa atitude, da nossa forma, mesmo aquela a que chamamos informal
e despreocupada, para contar uma história, adaptada a cada
circunstância e a cada ambiente. Veja-se, como numa grande
roda de amigos, ou num convívio de festa, aqueles que melhor
se impõem são os que sabem ou aqueles que por sorte
ou distribuição de lugares, estão melhor
colocados em relação aos ouvintes e sabem aproveitar
a maneira de se fazerem ouvir. Também podemos assistir
ao movimento do grupo de ouvintes que, interessado em ouvir algo,
se coloca estrategicamente à roda do contador para melhor
o ouvir.
A ORIENTAÇÃO - a POSIÇÃO estratégica
face aos ouvintes.
É
evidente que a orientação, a posição
que o contador toma perante os seus ouvintes é primordial.
Se a boca não estiver orientada para os auditores, se estiver
tapada pela mão ou pelo livro ou pelo papel, haverá
com certeza deficiências e interferências na audição.
Talvez valha a pena dar conta que nem sempre a posição
central será a ideal e a mais efi-caz. Nas chamadas mesas
redondas, daria a impressão que todos os pontos seriam,
por isso mes-mo, de igual peso para uma boa comunicação.
Basta observar as chamadas mesas redondas feitas na televisão
ou em palco que pressupõem uma assistência par além
da mesa redonda para verificar que não é assim..
Como a nossa maneira característica e civilizacional ocidental,
nós estamos ha-bituados a ler, e até a observar,
da esquerda para a direita, se, em vez do centro, em que teremos
tendência para ignorar frequentemente a parte esquerda da
plateia, nos colocarmos mais à direita do público,
podemos verificar como conseguiremos focar sem grande esforço
os ouvintes mais distantes que ficarão à nossa esquerda,
à direita da plateia, e podemos mesmo assim dar a sufici-ente
atenção aos que ficam à nossa direita, esquerda
da assistência, porque, uma vez que estão mais perto,
mais facilmente se pode tornar significativo um olhar, um gesto
uma atenção, que, para os que estão mais
longe, terá de ser mais expressivo, demorado e a exigir
um esforço maior. Claro que tudo depende da dimensão
da sala e do número de ouvintes e dos meios que tivermos
para comunicar. Estamos a falar, em princípio, da comunicação
directa sem apoio de aparelha-gem.
A ESTABILIDADE não é menos importante. Quer estejamos
em pé ou sentados, que será a posição
mais normal para um contador de histórias, a posição
correcta é como deixamos entender atrás estar "bem
de pé", isto é, os pés devem estar solidamente
assentes no chão e as mãos não têm
que se agitar nervosamente ou colocadas ao acaso dando a impressão
de insegu-rança e de "não saber o que fazer
com elas"! A partir da posição de segurança
e estabilidade, cada gesto, aqueles que forem absolutamente necessários,
terá um significado particularmente expres-sivo e significativo,
com um alcance proporcional à sua raridade e oprtunidade.
A opção pelo "deambular" pelo meio da
assistência, a chamada "comunicação paripatécti-ca",
é uma opção que necessita de grande calma
e sangue frio, e será um teste ao poder de comu-nicação
do contador que ao optar por privilegiar determinados ouvintes
ou grupo de ouvintes, sabe contudo que esta a arrastar o olhar
e a atenção de toda uma plateia. Pode haver textos
ou histórias ou circunstâncias particulares que resultem
mais eficazes por esta opção, mas cuidado com a
preparação técnica e psicológica para
uma intervenção deste tipo.
O
CONTACTO com o público é assegurado pelo olhar.
Não há nada mais desagradável do que o ouvinte
que se sente pura e simplesmente ignorado. Nada mais frustrante
do que aquela grande maioria de alunos que numa sala nunca se
sentiu olhado e interpelado pelo professor ou pelo comunicador.
Muitos desistem e acham isso perfeitamente normal e pagam-nos
com a mes-ma moeda: estão completamente a leste do que
se passa e depois queixamo-nos de que "nos far-támos
até de dizer e repetir as coisas, e que os alunos, burros
ou surdos, ou distraídos, pura e simplesmente não
ouviram nada do que dissemos"!!! é uma abordagem que
normalmente as pes-soas não fazem ou não gostam
muito de fazer!... Se damos a impressão de "estar
a falar para as paredes", como muitos dizem, queixando-se,
o facto é que muitas vezes é exactamente isso que
acontece. Levamos o nossa história ou a nossa lição
muito bem preparada, o "nosso peixe muito bem preparado para
vender" e pronto, quem quiser que apanhe e que compre. Mas
como, em comunicação, não se trata de um
negócio de compra e venda, antes de "o prazer de comunicar",
perdemos o nosso tempo ao interromper sucessivamente a história
a mandar calar ou pedir a atenção deste e daquele
ou daquele grupo, quando, se nos dirigirmos expressivamente para
eles o os captarmos com o olhar, teremos, possivelmente, lisonjeados
por se sentirem centro das aten-ções, a sua adesão
e colaboração. Às vezes basta um gesto ou
um olhar de poucos segundos, pois logo a seguir a nossa atenção
e o olhar terá de estar necessariamente noutro ponto ou
noutro grupo a fazer sentir a todos que têm o mesmo peso
e a mesma importância como interlocutores e destinatários
que podem a qualquer momento passar a emissores, comunicadores,
a pôe em mo-vimento todo o sistema de comunicação.
Este contacto visual com o público é aliás,
para um bom comunicador, o melhor baróme-tro, ou o melhor
meio de ir apreciando as suas reacções, levando-nos
inclusivamente a modificar a narrativa ou a maneira como a estávamos
a contar, se nos parecer necessário, caso estivermos preparados
e tivermos capacidade para isso.
A
DESCONTRACÇÃO
Tudo
o que foi dito até aqui a respeito da VOZ e da ATITUDE,
pode talvez resumir-se numa única palavra a DESCONTRACÇÃO
que pressupõe ainda toda a segurança que vem da
experiência e do domínio perfeito de saber ler, construir
e contar uma história.
Se ao encarar o nosso auditório estivermos com a garganta
apertada, as mãos trémulas e sem dominarmos perfeitamente
o que temos para dizer, tudo soará a falso e sem sentido.
Se encararmos os ouvintes com perfeita segurança e descontraídos,
depois de respirarmos profundamente, daremos pelo menos a impressão
de uma segurança tranquila e de uma força que despertará
a confiança dos ouvintes.
O
TEXTO e/ou A ARQUITECTURA da HISTÓRIA
Já
vimos antes, qual devia ser a natureza da história.
Temos de saber agora alguns pormenores acerca da maneira de a
apresentar.
Em
primeiro lugar é preciso assumir que uma história,
em princípio, só é verdadeiramente contada,
quando é contada de viva voz - dita oralmente, nunca ou
muito raramente é lida.
Isto não significa, primeiro que não tenha um texto
a servir-lhe de base, e depois, muito menos, que seja preciso
aprender e recitar de cor, tal e qual, o texto como foi escrito.
É tudo mais simples e no fundo mais complicado do que tudo
isso.
É pura e simplesmente preciso dominar completamente a história,
conhecer o seu enredo, perceber o encadeamento da suas sequências
e funções nucleares, vitais para a progressão
da ac-ção, saber onde encaixar os outros ingredientes
tais como os indícios e os informantes a respeito do tempo
e do espaço, para que nada se perca e não seja preciso
andar às voltas ou às arrecuas, e após isto
e de a ter arquitectado na mente ter a capacidade para a construir
a narração, improvi-sando e reconstruindo-a se for
preciso, e articulá-la finalmente com as nuances vocais
necessárias para a transmitir e a comunicar ao auditório.
Para se conseguir uma narração viva talvez seja
importante usar palavras que evoquem as cores, os sons, os perfumes,
as sensações, os sabores, os sentimentos e os sonhos
que o conto pode despertar... Sempre que possível, e isso
é quase sempre possível nas histórias, uma
palavra que pretenda transmitir algo de abstracto, será
sempre substituída por algo que exprima a sua concretização
material ou compreensível pelo auditório. Temos
de banir resolutamente todas as palavras difíceis que,
previsivelmente, não caibam no âmbito do vocabulário,
ao menos passivo, do auditório, sobretudo se forem crianças.
Devemos no entanto tentar que esse vocabulário seja o mais
variado e rico possível, procurando estar atentos a algum
termo que precise de uma explica-ção imediata que
tem de ser rápida e eficaz para que o fio da história
não se perca.
Isto pressupõe que o texto foi prévia e cuidadosamente
analisado, que se tem o domínio de toda a sua estrutura
e do modo como está articulado e que todo o conjunto obedece
a uma lógica em que se veja perfeitamente o seu princípio
o desenvolvimento e o seu termo a conclusão.
Esta estruturação permitirá às crianças
e o todo o tipo de ouvintes a compreensão da pro-gressão
a narrativa.
Talvez seja importante estudar a entoação e estudar
a pausa conveniente entre cada parte ou sequência. Talvez
seja oportuno encontrar a "expressão de apoio"
ou o "leit motiv" mais ade-quado para aquela história
e descobrir os bordões de recurso sem cair no fastidioso
"e depois... como vínhamos dizendo..." "e
depois aconteceu..." "e depois...", mas fazendo,
por exemplo surgir os personagens no local diferente que abre
a nova sequência e pôlos em movimento... "...
eis que os nossos amigos se encontram agora no meio do bosque...
ou na confusão da grande cidade, e...".
A
DURAÇÃO. Uma história de mais de um quarto
de hora, vinte minutos, para um públi-co jovem, pode correr
o risco de perder todo o interesse e encanto que poderia ter.
Quinze, vinte minutos é o limite máximo de atenção
que uma criança em perfeitas condições poderá
Ter, o que normalmente não acontece pois há sempre
outras solicitações...
Tudo
isto pode parecer muito complicado, sobretudo articular todos
estes condicionalis-mos e ter consciência deles de um modo
separado e depois ter de os executar em simultâneo e, além
disso, criar as condições ideais para que tudo possa
acontecer na perfeição.
É
tudo mais simples e mais complicado. Dominada a técnica
e criado o à vontade necessá-rio, o " bom contador
de histórias" disporá de uma versatilidade
que lhe permitirá actuar nas mais diversas e adversas situações
e circunstâncias.
É
preciso treinar e aperfeiçoar a nossa técnica.
É preciso treinar sozinho e depois, para se pôr à
prova e tirar as dúvidas, treinar em gru-po.
Em grupo, propor um tema ou deixar um tema livre a cada um para
falar exactamente du-rante três minutos, com a articulação
perfeita desde a introdução, ao desenvolvimento,
à conclu-são.
Pode também inventar-se uma história. Um começa,
tem de levar pelo menos um minuto ou o que for estipulado e o
outro a seguir, todos, terão que dar uma continuidade lógica
ao des-envolvimento, correndo ao sabor da imaginação
e da criatividade de cada um a ver se conseguem uma arquitectura
lógica, sólida e inovadora....
A
grande prova, para além dos exercícios de treino
será a oportunidade de em grupo de trabalho, cada um contar
a sua história em que terá de obedecer a todas as
condições e respeitar todas as regras que foram
estudadas e serão exigidas por um público jovem.
Feita a narração, cada um comentará as qualidades
e defeitos em função dos critérios estudados
e em função de um público previsível...
Será rotativo... Todos contam de depois os comentários...
Um conto poe sessão e o resto será debate?... Há
muitas maneiras de se organizar, sobretudo se a meta em vista
é aprender e melhorar a técnica e não uma
questão de competição...!
O AMBIENTE
Em
princípio o conto é concebido para permitir uma
evasão e alimentar a nossa necessida-de de viver a fantasia
e a criatividade.
Apesar disso, ou exactamente por isso, é com certeza necessário
criar as condições para que isso possa acontecer.
Encontrar um lugar esplêndido ao ar livre e não reparar
que as crianças ficaram sentadas na erva húmida
ou mal sentadas, em assentos que não são estáveis,
claro que teremos todas as condições para estarem
constantemente distraídas. Se ficarmos perto de uma fonte
de barulho ou de permanente apelo a distracção,
claro que não obteremos qualquer sucesso. Uma vez instalados
comodamente e prontos para contar a nossa história, talvez
não tenhamos reparado que eles fica-ram de frente para
o sol! Nem o contador nem o ouvinte devem Ter que suportar esse
incómodo que não lhes permitirá a concentração
devida.
Talvez seja possível sentá-las em círculo
ou em filas, de modo a ficarmos suficientemente longe para as
podermos olhar a todas em conjunto e suficientemente perto para
não termos que esforçar demasiado a voz para nos
fazermos ouvir.
O mais importante será criar o ambiente ou o desejo para
ouvir a história e não impô-la como obrigação
ou muito menos como castigo.
É preciso que as crianças sintam que temos tanto
prazer em contar a história como elas em ouvi-la.
É preciso entrar por assim dentro do conto e vivê-lo.
Ouvir o trovão quando falarmos do raio, sentir o frio quando
passarmos por uma tempestade e o medo quando passarmos por um
bosque tenebroso e ver as cores e os perfumes quando atravessarmos
um prado cheio de ervas e flores...
Enfim, talvez seja preciso esquecer tudo o que aprendemos antes,
para finalmente estar-mos em condições de ser capazes
de contar uma história como deve ser...
É nessa altura que a maravilha se realizará e por
magia, Bagdad ou o deserto, ou a monta-nha ou os vales estarão
ali presentes no canto que escolhermos para contar o conto e com
ele encantarmos e nos encantarmos...
Assim
a história terá como resultado
? o alargamento do conhecimento e mesmo do vocabulário
e
? o estímulo da imaginação.
Em
resumo estudar neste trabalho:
1.
A tradição dos contadores de histórias
2. O Maravilhoso e o Fantástico
3. As técnicas de contar histórias
Do livro:
Pedagogia da Expressão
G. Dobrelaere
(Trabalho adaptado a partir de fotocópias de 1985,
em Novembro de 1997).
Está
em elaboração para ser completado logo que possível...
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