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TEXTOS
COM LINGUAGEM CARACTERÍSTICA
Serra da Estrela
Alentejo
Seixal
1.
Carta do Pastor – Manteigas - Serra da Estrela
2.
Anedota da Cortiça
3.
Crónica de Manuel Loendrero
4.
Carta a Fialho de Almeida
5.
Cantiga ao Desafio
6.
Lenda de Beja
7.
SEIXAL - (Imaginar D. Nuno em
F. Lopes e depois moinhos e convento - as 7 Quintas - Corroios...)
CARTA
(imaginada) - de um PASTOR (imaginado)
ao
autor destas letras que é pura ficção...
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Cuarta
invuentuada dum puastuor invuentuado da Suerra da Estruela
avuantada no luixo e duirigiuda ao senuor Zué dua Suerra do
Vuale do Zeuzuere...
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Mantueigas,
1978, Natual
Muituo Exuluentuíssimo senhuor duoutuor:
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original
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tradução
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estueja
vuossumuecê cum dueus e nua cumpanhuia dus que muais cuere
qu’eu i muais a muinha puatriuarca estuamos buem, cuando a
buocuarra dos cuântaros e muais a du suouto du conçuelho luá
puás buandas da luapa, nu nuos muostra os duentes arrueganhuados
e nuão nus avuanta pelos uares cuomo umua puena ou nuos vuem
cuma tuempestuade de nueves ou de granuizo caté pulas nuesgas
das puedras dua cuaubana se muete e a muodos c’abuala com
o demónho (demoncre) dua cubuertura du cuolmo pru a ribueira
aciuma... atué pra lá duas luamueiras ou inda pra ciuma duos
cuovuões...
tuempo duanuado ueste que
nu nuos dueixa tumuar tuento nu guado que nuem um puouco se
puode dueixar da muão, pur vuia dus luobos que suão luobos
e por vuia dus uoutros que suão juente muas uainda muto piuore
cós luobos...
a muinha puatriarca uma anduadueira
buenza a dueus, uanda cu as muãos chueiinhas de fruieiras
cu muais puaruecem as chuagas do nuosso senhuor nu çuéu stueja...
uó senhuor duoutor!
... duão cuá uma sustuância
à buarriuga dum uhomem cu nuem um caldudo de cuastuanhas puiluadas,...
uessa fuoi muesmo de cuabo
d’isquuadra...
... uinda cum fruio de muil
demoncres e uas paluavras a suaírem dua buoca e a fazuerem
aqulas buolas de nuvem e a misturuarem-se co nevueiro qu’estuava
levuado dum ruaio...
... e uele q’era muau d’assuar
uassim ua muodos carreluampuado da cubeça puor muor dus guases
da guuerra...
...puobre muas cum buocuado
de centuei nuegro e um cueijo...
...i uisto
uera um nu muais acabuar... nuem me cuero a lembruar duacuela
do Afuonso Cuosta a me procurar o que se dizuia do Afuonso
Cuosta que intué uera de Sueia i tuem uma cuasa nas puenhas
douruadas... oH! atuão duizem que uele ué um gruande maluandro
que nuem acreduita im dueus e nuossa senhuora!!!
vuou acabuar.
Uinté muais
vuer... u sueu criaduo...
Mantueigas, muil nuoveçuentos
ui stuenta ui uoito,
Juaquim Suono..
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Esteja
vocemecê com Deus e na companhia dos que mais quer que eu
e mais a minha Patriarca estamos bem, quando a bocarra dos
Cântaros e mais a do Souto do Concelho lá para as bandas da
lapa, não nos mostra os dentes arreganhados e não nos aventa
pelos ares como uma pena ou nos vem com uma tempestade de
neves ou de granizo que até pelas nesgas das pedras da cabana
se mete e a modos que abala com o demónio da cobertura de
colmo pela ribeira acima... até para lá das Lameiras ou ainda
para cima dos Covões...
Tempo danado
este que não nos deixa tomar tento no gado que nem um pouco
se pode deixar da mão, por via dos lobos que são lobos e por
via dos outros que são gente mas ainda muito pior que lobos...
A minha
Patriarca uma andadeira, benza-a Deus, anda com as mãos cheiinhas
de frieiras que mais parecem as chagas do Nosso Senhor, no
Céu esteja...
... dão
cá uma sustância à barriga dum homem que nem um caldudo de
castanhas piladas...
...Essa
foi mesmo de cabo de esquadra...
... ainda
com um frio de mil demoncres e as palavras a saírem da boca
e a fazerem aquelas bolas de nuvem e a misturarem-se com o
nevoeiro qu’estava levado dum raio...
... e ele
q’era mau d’assoar assim a modos arrelampado da cabeça por
mor dos gases da guerra...
... Pobre
mas com um bocado de centeio negro e um queijo...
...E isto
era um não mais acabar... Nem me quero alembrar daquela do
Afonso Costa a me procurar o que se dizia do Afonso Costa
que até era de Seia e tem uma casa nas Penhas Douradas...
Oh! Atão, o que haviam de dizer... dizem que ele é um grande
malandro que nem acredita em Deus e Nossa Senhora!!!
Vou acabar.
Até mais
ver... O seu criado
Manteigas,
mil novecentos e setenta e oito.
Joaquim
Sono...
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ALENTEJO
2.3 ‑ Outros
Exemplos
2.3.1 ‑ Um alentejano
em Lisboa – Anedota
UMA
ANEDOTA
UM ALENTEJANO
EM LISBOA com O DINHEIRO DA CORTIÇA...
Um alentejano, que tinha vendido a sua cortiça - naquele
ano a campanha até tinha corrido bem - resolve, um dia, mandar o
filho depositar o dinheiro, no banco, a Lisboa.
O filho, depois de ouvir atentamente o mandado do pai, pega
num taçalho de pão com linguiça, deita a golpelha ao ombro, monta-se
no seu burro e, ale que se faz tarde, abala a caminho de Lisboa.
Aquilo a viage foi um atoco, mas correu a modos...
Chegando a Lisboa! Aquilo é que era um esbarrunto... Ia ficando
cada vez mais encegueirado e escaranpantado com toda aquela mexida!!1
Como, para dar conta do mandado, durante a viage, lá mais
para o fim, por vezes tinha passado p’ra diante às lebres, estava
capaz ded cuspir n’um empinge.
Deitou a mão à golpelha, acomodou-se ali mesmo naquela relva
mesmo à beira do Marquês de Pombal e vá de lançar a naifa ao taçalho
de pão e à linguiça... O Banco tinha tempo de abocanher a dinherama...
Entrementes, passavam por ali os ardinas a nunciar os jornais...
- Óóóólha o séclo ... - Óóóólha o séclo ... (Olha o Século!!!)
- É u diáááriu de notíííícias... - É u diáááriu de notíííícias...
(É o Diário de Notícias!)
Ouvindo aquele estramelo, o nosso homem arribitou as orelhas,
pôs-se de palanque e cheirando-lhe a esturo, amonta-se muito espedito
e toca a ir a escape que isto não está para moengas... ora essa!
Chega a casa sem mais enleios e pergunta-lhe o pai:
- Atão, filho, já fizeste o avio tã depressa?!!! Estavam
os Bancos fechados?!!! No adregaste a dar cum eles?!!!
- Cal banco, cal quê, mê paie! Atão chega um home a Lisboa,
assenta-se na erva a mastigar um taroco mesmo c’o olho no banco
qu’ê ben’o via e vá de mexida... Sem dar barrunto, aparecem ali
uns uns girigotos aos saltos ... a gritar. - Ólho cerquem-no...
Ólho cerquem-no... É u dinheiro da cortiça... É u dinheiro da cortiça...
ê nem m’enteri lá muto bem, entes que me ditassem as galfárrias...
abali... De figos a brebas inda dava uma espreitadela a ver se me
alcançavam... mas aqui ‘stá o dinheirinho, pois qu’inté, aqui é
qu’ele ‘stá bem seguro.
COMENTÁRIOS
- Através de uma pequena anedota, , como exemplo, podemos
aperceber-nos, através da LINGUAGEM, dos UNIVERSOS DIFERENTES em
que as pessoas se movem...
O riso, aqui, que parecer nascer de uma simples dificuldade
auditiva, nasce, bem vistas as coisas, afinal, não só de um vocabulário
que não faz parte do MUNDO em que se move, mas a falta desse vocabulário,
ou a sua errada leitura que aqui é audição, que o não deixa perceber,
e o põe em fuga, é, afinal, a falta do OBJECTO - concretamente dos
JORNAIS, que provoca a hilaridade pelo seu desconcerto e inesperado...
- É da experiência comum, que as pessoas, o sujeito
receptor, não ouve o que se lhe diz, aquilo que o emissor lhe quer
transmitir, mas aquilo que corresponde ao seu universo de compreensão,
ou aquilo que tem capacidade para compreender...
Aplicando rapidamente diversos instrumentos operatórios
que nos parecem mais adequados para esta pequena NARRATIVA, desde
o levantamento e confronto vocabular à breve aplicação do
modelo actancial; às variadas leituras que nos pode permitir
uma rápida análise estrutural.
1- Basta uma superficial observação de um breve levantamento
e confronto vocabular para darmos conta de dois UNIVERSOS DIFERENTES:
o do campo ALENTEJO e dos MONTES onde não chegam os jornais, e o
da cidade LISBOA, o MUNDO CIVILIZADO onde o pregão dos jornais faz
parte do quotidiano rotineiro.
A falsa interpretação, leitura, audição, é o climax
da anedota que nos leva ao riso.
2- Mais uma breve aplicação do modelo actancial
e vemos como o sujeito, pai,
envia o personagem principal, o filho,
para, segundo uma mentalidade que não é deles, colocar o dinheiro em segurança objectivo
a atingir, - num banco!!!,
em Lisboa!!! com todos
os perigos e demora de uma longa viagem, de burro!!! E eis-nos já
perante o desconcerto a provocar a hilaridade, sem sequer precisarmos
de esperar pelo desfecho.
Assinalar como adjuvantes:
o pai do filho e o filho do
pai por se dispor a executar a sua ordem; detectar como oponentes
do filho os ardinas, que não são oponentes, mas representam os jornais,
um universo diferente, simplesmente desconhecido e não necessário
para ele, transformam-se por isso mesmo, por não se conhecer, em
possíveis oponentes e até ladrões e criminosos!!! Isto, põe ainda
em evidência a mentalidade desconfiada de grupos ou multidões ou
povos ou religiões que se desconhecem...
O destinador,
como papel de juíz ou esclarecedor, que é provocado pelo espanto
do pai pela rapidez do regresso!!! e perante o espanto nos parece
ser o pai que desempenha esse papel de juiz, é afinal o leitor,
ouvinte, como acontece na maioria das anedotas, que dá conta do
ridículo, do jogo de ironias, da incompatibilidade entre os dois
mundos, duas culturas, mentalidades diferentes.
O/s destinatário/s - à partida e imediatamente, são
o pai e o filho, mas como o pai e o filho nos são, desde o início,
apresentados como alentejanos, ainda por cima com dinheiro da cortiça,
quenuma leitura rápida é um dinheiro fácil, é só deixar passar o
tempo e cortar a cortiça!... Finalmente, OS DESTINADORES verdadeiros
ou no pensamento do emissor, enunciador da anedota, são primeiro
os ALENTEJANOS em geral e depois OS NOVOS RICOS ou ricos sem Cultura
ou sem a nossa cultura.
Enfim. a partir daqui um Mundo de leituras que envolveriam
desde a Psicologia, à Ciências Sociais e até a Economia e a Política...
Estou a exagerar, propositadamente, para, a partir deste exemplo
ver como é fundamental o estudo de contos, lendas, anedotas, relatos
do quotidiano para se conhecer a mentalidade e a maneira de ser
de um povo, de uma
região, e poder intervir de um modo válido no seu desenvolvimento,
respeitando a sua identidade e capacidades...
3- Uma análise estrutural como mais complexa
e dispondo de outras variáveis para nos permitir uma visão mais
global, podendo até englobar as anteriores, pode, por isso, permitir-nos,
uma visão mais completa de todo um mundo de reflexões a que uma
pequena anedota nos pode levar, podendo ensinar-nos muita coisa
a aplicar por qualquer pessoa para puro recreio e divertimento,
pode servir de reflexão para professores, pais e educadores, que
acham que explicam tudo muito bem e são de uma indiscutível competência,
mas que pode esbarrar e esbarra com um universo diferente na pessoa
dos alunos, filhos educandos... e esta distracção pode ter consequências
desastrosas tanto na verbalização de simples ordens e directivas,
como no processo ensino aprendizagem...
O estudo dos três cenários / sequências, a partida,
a estada em Lisboa, a chegada; com as suas catálises, informantes
e indícios (ícones, símbolos), vide cortiça/riqueza - o taçalho
de pão com linguiça/ o sustento suficiente; o burro / meio de transporte
eficaz; o Marquês / a grandeza ofuscante..., os ardinas- jornais
/a cultura; a casa - o monte / a segurança; o banco / a miragem
distante...
Teríamos um mundo para diversos especialistas das mais
diversas áreas.
Anedota
contada por alunas da Escola do Magistério Primário, Beja, 1985
e depois adaptada, In: LER EDUCAÇÃO – Revista da Escola superior
de Educação de Beja, N.ºs 17/18, Março Dez. de 1995, com o título
A LITERATURA (CULTURA) TRADICIONAL e o Desenvolvimento e a urgente
criação de um INSTITUTO ALENTEJANO DE CULTURA / DESENVOLVIMENTO,
pp. 167 – 220.
(Cortiça
como ligação entre Alentejo e o Seixal – Mundet)
Crónicas
de Manuel Loendrêro - Moura - Alentejo
MEMÓRIAS DE MANUEL LOENDRÊRO
in A PLANÍCIE, 15/02/8
Vinha ê
uma vez pá vila a cavalo no burro pa fazê o avio, condo
óvi atrás de mim um altemoven de esgalha bordão
por a estrada adiente.
Passô por mim ca força toda... Tamein si nã
passassi más valia uma botas e condo começô
a subiri a barrêra do ôto lado da estrada, dê
um estralo e começô às panderêtas até
que se parô. "olhó! - pensi eu - já está
escangalhado". Fui lá ó pei pa vê o que
tinha acontecido. Tava o home arroda de um pineu. Pergunti-lhe donde
ele era e disse quera de Lisboa.
Pá, tá tudo dito - pensi eu. Vinha-me imbora condo
o vi priparado pa mudá o pineu mas volti pa trás,
porque vi o baboso, que nã tinha gêto ninhum páquilo.
Dexi-me do burro, desviio e comeci a mudar a roda, mas vi logo caquilo
nã era só do pineu. Espoji-me no chão e espreti
pa debaxo do carro pa vê o qué caquela moenga tinha
e vi o enxo e a jente, tudo entrotado.
Condo ia a livantar-me vi o home mexendo num ninho d'abêsperas.
- Que bichos são estes? - preguntou eli.
- Nã mexa nisso! Nã as trilhe! - Griti-lhe eu. Tá
bem dexa!
Foi mêmo o quele foi fazeri. As abêsperas alivantaram
voio e hôve uma que le deu uma nicada nos bêços
cu fez dar um berro, ôtra foi-se ó burro. O burro assim
cas viu zunindo de roda das orelhas, escarampatô-se e esgalhô
fugindo por a chapada árriba.
Ê rasgui fugindo atrás deli pó apanhari. Daí
a podaço condo volti todo esbrazeado, tava o ôtro cum
lenço nos bêços quêxando-se.
- Vocei é mesmo enchaparrado - disse-le. - Atã vocei
na sabe que na se pode mexeri num ninho d'asbesperas? E vá
lá teve sorti...
Ati o burro a uma arve e fui veri so home tinha os beços
munto anchados. Hei mãe! Tava cumas beiçoletas que
pareciom o bebrum dum penico! Atão o bocana nã queria
pôr pomada naquilo?! Lá o convenci a pori lama nos
bêços porque pá picada na há melhori.
Condo estava cos beços enlameados, disse-le cu melhor era
vir cumigo à vila à busca dum mecânico. Montô-se,
em cima do burro e lá fomos. O engraçado é
que condo chigámos e me desmonti, olhi pa trás e ele
nã estava lá. Devi ter escorregado da albarda, porque
eles sabem andari de cu tremido, mas de burro, anda cá se
queres... Já no volti pa trás, porque tinha de fazê
o avio à minha Bia e despois fechavam as lojas. Tóoouuu!
M.L.
Com
autorização do autor, Engenheiro Santa Maria, In:
LER EDUCAÇÃO - Revista da Escola superior de Educação
de Beja, N.ºs 17/18, Março Dez. de 1995, com o título
A LITERATURA (CULTURA) TRADICIONAL e o Desenvolvimento e a urgente
criação de um INSTITUTO ALENTEJANO DE CULTURA / DESENVOLVIMENTO,
pp. 167 - 220.
e em: Canto do Conversar(e) in http://geocities.com/Joraga2000 Janeiro
de 2001.
Carta
a Fialho de Almeida
Carta de um Pastor Alentejano, de Vila de Frades, ao seu amigo Fialho
d'Almeida
Mê caro
Zé Valentim:
Nô ôtro
dia 'tava ê ali à bêra do maticuenho de palaio,
ali memo onde o barranco bate c'oa semeada... 'Tava assim a modos
qu'esmorraçando.. Ajitei-me dentro do gabinardo e assenti-me
no marco. Enroli um cigarro e cando ia a puxar do zarapatusco de
modo a acender, di c'os olhos numa velhaca... Era um rego cheio
de carne, ó cumpadre!!! Imaparelhê-me cum ela e meti
o ferro à cara... Fiz-le dois fogachos, mas a mangana foi-se-me
imbora mais a p. que a pariu!!!
Texto ditado pelo professor Manuel Pedro, num café, em Beja,
1981
Estes são dois textos que evidentemente tentam trazer para
o escrito as marcas de oralidade. Dois textos que foram escolhidos
só como exemplo de outros relatos do quotidiano que tardam
em aparecer numa grande obra de algum autor alentejano e a precisarem
de um estudo aturado da fonética e da fonologia desta tão
característica maneira de falar.
É evidente a tentativa de registar a melodia, a musicalidade
solta da fala a libertar-se do empecilho da pontuação
que nos aprisiona a escrita na escrita. Há um ritmo e um
jogo de aliterações característicos da linguagem
oral... Há um valor conotativo em expressões a desenharem
um visualismo narrativo para que o ouvinte veja o que lhe é
contado...
E-Mail: joraga@netc.pt - joraga2000@yahoo.com.br
Com
autorização do recitador, Dr. Manuel Pedro In: LER
EDUCAÇÃO - Revista da Escola superior de Educação
de Beja, N.ºs 17/18, Março Dez. de 1995, com o título
A LITERATURA (CULTURA) TRADICIONAL e o Desenvolvimento e a urgente
criação de um INSTITUTO ALENTEJANO DE CULTURA / DESENVOLVIMENTO,
pp. 167 - 220.
O FALAR
ALENTEJANO
M'nina que
tá à j'nela
Regand'o
lind'cravêro
Ó há-de ser para mim
Ó p'ró mê rico pracêro.
Ê nã
sô p'ra vocêi
Nê p'ró sê rico pracêro
Que me tá mê pai criendo
P'ró más lind' sapatêro.
Ó m'enina
ê sô sapatêro
Hê-d'ir p'rá sapataria
Hê-d'le fazer uns sapatos
Cá maior galantaria.
Ê nã
quer'os sês sapatos
Dê-os lá a quê qu'séra
Qu'o marot' que tal diz
Nã mereec' uma mulhéra.
Entes ê
qu'ria ser carnêro
Enxertado na raiz
Ê nã qu'ria ser marido
Da magana que tal diz.
Entes ê
qu´ria ser porco
Que fossasse num velado
Ê nã qu'ria ser ispôsa
Dum tã frac' namorado.
A
cantiga que é aqui transcrita foi recolhida numa das aldeias
do termo de Beja e, apesar de uma ou outra característica
local, pode ser considerada representativa dos falares do grupo
alentejano - uma das variantes do português meridional.
Entre os traços fonéticos destes falares, podem destacar-se
como mais característicos
- a monotongação generalizada do ditongo ei - cravêro...
pracêro...
- a redução de outros ditongos em situação
de próclise - mê rico... nâ quero... quê
qu'sera...
- o alongamento das sílabas tónicas finais - vocêi...
mulhéra...
- a alteração do timbre de algumas vogais tónicas
nasais (neste caso por palatalização - criendo...
entes...
- A velocidade de elocução (ou a lei do menor esforço)
produz, nos falares do Sul, mais do que nos do Norte, a elisão
de vogais átonas - j'nela... qu'sera...
No léxico encontram-se de onde em onde, termos como magana,
que, para ouvidos habituados à norma de outras regiões,
podem surgir como forma de calão. Aliás, este facto
é corrente em quase todos os falares regionais.
(Página
449 de (Obra? sobre portugal das Selecções..., de
Autor?)... Por erro de anotação, não se consegue
ler a referência, na fotocópia, nem da obra, nem do
autor desta citação. Do facto, pedimos desculpa e
talvez algum leitor possa referenciar e emendar a falha, de que
pedimos desculpa.)

(Um coro Alentejano - desfilando em Beja 1978)
Uma LENDA de
BEJA - O TOURO e a COBRA...
UMA LENDA DE
BEJA
(O que é TRADIÇÃO, fidelidade
à TRADIÇÃO? Estagnação? Paragem?...
ou criatividade e actualização que responda aos anseios
do presente e se abra para o futuro?...)
UMA
VERSÃO
in
PINTADO DE FRESCO - Biblioteca Municipal de Beja Nº 0 Set.
de 1993
O nosso Portugal
é um país de lendas.Todas as terras, principalmente
no sul, têm as suas lendas e Beja Também tem a sua.
A lenda tem passado de geração para geração
e com certeza não deixará de ser contada.Ela diz-nos
que:
"Muito antes dos lusitanos, o local onde hoje se encontra a
nobre cidade de Beja com as suas muralhas romanas, era um pequeno
povo que vivia em cabanas cobertas de colmo, que apenas se empregavam
no exercício da caça.
Todos estes
campos ubérrimos de pão que vemos hoje, era um compacto
matagal, impossível em alguns pontos de ser penetrado pelo
homem.E uma serpente, uma serpente monstro que tudo matava, tudo
triturava. Era horrível preocupação do povo
que habitava no local, que mais tarde, no tempo dos romanos, se
havia de chamar Pax-Júlia, e presentemente se chama Beja.Um
ardil porém, germinou no cérebro de um habitante deste
região:Envenenar um touro, deitá-lo para onde existia
a tal serpente.Aprovada por todos esta ideia, o touro foi envenenado
e deitado para o local indicado.
A luta foi tremenda
entre as duas feras.por fim, o touro foi atingido pelos efeitos
do veneno. Já mortalmente ferido pelas investidas da serpente
monstro e vencido, serviu de bom repasto à serpente vencedora.Mas...
alguns dias depois, a serpente fora encontrada morta ao lado dos
restos do touro salvador.
"Por isso,
encontramos a cabeça do touro, no escudo de Beja.
Recolha feita por:Catarina Espada - Alexandra Melão

UMA
ESTÓRIA DESTA LENDA
Esta LENDA tem
uma história muito especial no que me diz respeito. Durante
cinco seis anos, pedi aos alunos que trouxessem histórias
que conhecessem, para melhor darmos outras Narrativas de grandes
autores e darmos a Narrativa.
- que não
havia LENDAS em Beja! As pessoas já não sabiam dessas
coisas! Uma aluna da noite, já adulta contou-me vagos retalhos.
"Havia uma cobra que metia muito medo... e depois lá
a mataram...a minha mãe contava-ma mas já não
me lembro..." Uns anos depois, uma aluna que quase não
falava, pediu para contar o que a avó contava. Nas aulas
seguintes apareceram sucessivamente várias versões
até que recolhemos oito. Surpreendentemente, cheguei a casa
e fui descobrir uma lenda em seis páginas que tinha escrito
num serão, uns anos antes! Quem ma tinha contado? Como se
mantêm e renovam as lendas?
Depois disto, à mesa dum café, perguntei a várias
pessoas se sabiam e como era afinal a Lenda de Beja.
Muito calmamente
o mestre João Rocha começou a contar:
LENDA
DE BEJA - UMA VERSÃO
Nos tempos antigos,
quando aqui ainda havia muitas matas, apareceu aí uma cobra
muito grande que matava a população e destruía
tudo.Aflitos com a situação, a população
juntou-se e procurou encontrar uma solução.foram ter
aí com o lavrador que tinha o melhor gado e pediram-lhe o
maior touro para o lançarem contra a cobra.A cobra matou-o,
engoliu-o e ficou a hibernar.Foi então que a população
se levantou e com forquilhas, enxadas e varapaus, deu cabo da cobra.É
por isso que temos a cabeça de um touro nas muralhas e nas
armas da cidade.
In:
LENDAS DE BEJA - O TOURO E A COBRA e Outras LENDAS - inédito
de JRG, com publicação parcial na Revista Arquivo
de Beja, vols. I, série III, de Abril de 96, sob o Título:
A/s LENDA/s do TOURO E DA COBRA - UMA LENDA DE BEJA?.
SEIXAL
- TEXTOS

TRAÇOS
CARACTERÍSTICOS DO SEIXALENSE
In
- Retalhos da Minha Terra – Monografia do Concelho do Seixal, de
Manuel Oliveira Rebelo, Câmara Municipal do Seixal, 2ª edição, 1990,
pp. 21 a 23:
«O
estabelecimento das diversas indústrias atraiu ao Seixal, nestes
últimos cinquenta anos, numerosas famílias que aqui se fixaram procedentes
dos mais variados pontos do País e até da vizinha Espanha, as quais
não deixaram de exercer profunda influência nos hábitos tradicionais
da antiga população, constituída na sua quase totalidade por humildes
e corajosos pescadores - almas simples e enamoradas dos perigos
e seduções do mar imenso e dominador.
Do
afluxo de braços que demandaram emprego, da confluência e cruzamento
de indivíduos oriundos das Beiras, Estremadura, Algarve, etc., uma
nova realidade etnológica surgiu no panorama do velho burgo piscatório,
alterando o carácter e fisionomia social do seu povo que nem por
isso deixou de continuar vinculado à sua primitiva origem histórica.
Se
o seixalense actual traz no sangue a fortaleza de ânimo dos beirões,
a bravura dos estremenhos e a alegria dos algarvios, no fundo ele
permanece originariamente marítimo de olhar perdido na contemplação
do infinito, escutando em si mesmo a longínqua voz oceânica, reminiscências
de um passado distante e doloroso que os tempos sepultaram e hoje
ainda o acompanham nas profundidades e recessos da alma.
Que
se não confunda, porém, tendência contemplativa com apatia que também
coabita no seixalense e constitui, a par de um sentimentalismo por
vezes exagerado, um dos seus principais defeitos.
Do
seu sentido contemplativo emerge a vocação para a arte, o sentimento
de artista que mergulha suas raízes na musicalidade dos mares, na
sinfonia das ondas e no murmúrio dos ventos; ao passo que a sua
apatia repousa nas grandes temporadas ãe força inactividade, em
que por via das fortes e prolongadas invernias os barcos de pesca
jaziam inermes e solitários na praia, aguardando as tripulações
o fim da ressaca para se fazerem de novo ao ma r e expulsar a miséria
que entretanto se havia instalado em seus lares.
Se
observarmos com a agudeza do psicólogo. descobriremos que o seixalense
traz no olhar vago e profundo a tragédia de uma vida de dor e de
dificuldades que os séculos diluíram; na alma, a grandeza da sua
humildade e do seu desinteresse que anos de lutas e canseiras forjaram;
na boca, a praga e o louvor dos que sofrem e dos que levam uma existência
sem horizontes; no aspecto, o anónimo servidor da grei: o pescador.
o carpinteiro, o calaf'ate, o moleiro e o corticeiro, tudo isto
ele tem sido no decorrer da sua aventura histórica, na obscuridade
do seu esforço criador e no caminhar incessante para o futuro feliz
que ambiciona.
O
seixalense sulcou os mares. construiu barcos, transformou o trigo
em pão. bateu-se pela independência e pela liberdade,
combateu em África e na Flandres e morreu a arder em febre
em Cabo Verde e no Oriente, sob climas adversos, com os olhos postos
na família distante e no altar da universal pátria de Camões.
Nem
sempre a sua vida foi feita de egoísmos e cobardias, de invejas
e outras inferioridades inerentes à própria natureza humana, que
uma ampla e generosa formação do carácter e uma rasgada instrução
hão-de eliminar em grande parte para o completo triunfo da espécie.
Que
os seixalenses de hoje se orgulhem dos seus antepassados e se inspirem
nos seus exemplos de sacrifício, coragem, heroicidade, renúncia,
solidariedade e patriotismo, e saibam, pela aplicação da inteligência,
pelo esforço e pelo trabalho reprodutor, conquistar os bens morais,
espirituais e materiais que estão na base da relativa felicidade
humana.»
Manuel Oliveira Rebelo
(Segundo
o mesmo autor, v. P. 25 – Seixal – “Antes de existir como povoação,
Seixal foi o nome de uma praia, onde abundava o seixo utilizado
para lastro das embarcações.”
p.43
– Arrentela, a mais remota povoação do concelho...
p.
45 – Torre da Marinha, em recuados tempos... marinhas de sal e a
indústria de lanifícios...
p.
51 ‑ Amora, que o Sol ao nascer doira... Rio Judeu por causa
de um judeu David-Negro...
p.
53 – “Em 1853 Amora foi elevada a sede de freguesia... com os lugares
de Corroios, Santa Marta, Vale de milhaços, Foros, Cruz de Pau,
correr d´Agua, Marco Severino, Fogueteiro, Paivas e Caldinhos.
Fogueteiro?
– O nome virá de uma fábrica de fogo de artifício que os alentejanos
vindos nos anos 60 ainda conheceram ou ouviram falar... (Informação
da Dr.ª Ana Margarida Ramos).
Quinta
da Princesa e a comovente história do seu nome? (?Vide p. 55).
Ainda
se podem colher elementos, talvez para muitas histórias e lendas,
a partir dos vários capítulos desta pequena Monografia do concelho
do Seixal e doutras publicações referidas no final...
55
- Campos e paisagens do concelho do Seixal ‑ 59 – Filhos mais
notáveis do Concelho do Seixal ‑ 65 – Os pescadores do Seixal
‑ 75 – A Construção Naval ‑ 77 – Os Moinhos ‑
79 – Os Vidros ‑ 81 – Os Lanifícios ‑ 83 – Sabão – Cortumes
– Conservas ‑ 85 – A Cortiça89 – O Plástico ‑ 91 A Siderurgia
... e outras indústrias...
(Recolha
dos Ex-Libris e Profissões mais marcantes da Zona)
3.2
‑ Eis a Costa do Sangue
de Joaquim Pessoa
e
– Pranto de Maria Parda de Gil Vicente – Ver:
O Tejo e a Margem Sul Na Poesia Portuguesa – Antologia , recolha,
introdução e notas por João Carlos L. PereiraCâmara Municipal do
Seixal, 1993.
Poema
de Joaquim Pessoa
Eis
a costa do sangue. Aqui nasci e ouvi cantar os homens.
a
cantar e a sofrer, aprendi o amor e a justiça.
Com
eles aprendi o verdadeiro nome de todas as coisas. Através
deles,
pude ver o negro focinho do lobo tingido de sangue. E vi
o
falcão devorar as entranhas da gaivota.
Era
pequeno, lembro-me, e neste lugar o sangue rompia, de
Súbito,
por detrás de tudo, como uma violenta e rápida tempes-
tade
de Maio. Então, os homens juntavam-se ou dispersavam,
furiosos
e ameaçadores, às vezes tristemente calados, com uma
doce
coragem feita de resignação magoada.
Com
estes homens, aqui, na costa do sangue, aprendi a cantar.
Depois
vi-os morrer. E os seus nomes guardei-os. Como um
Vinho.
Uma lição.
Por
isso o meu canto é um recado. Por isso o meu nome é uma
canção.
(Uma
panorâmica do Seixal e os seixos que lhe dão o nome de origem.
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