CONTOS & LENDAS
A ARTE DE enCANTAR
na LITERATURA POPULAR PORTUGUESA

por JORAGA o acrónimo de JOsé RAbaça GAspar e outros mais de 1001 deNÓMIOS...

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LLL in MGiacometti

CONTOS & LENDAS

Serra da Estrela

ALENTEJO
uma TEIA infindável de Contos & Lendas

TEXTOS COM LINGUAGEM CARACTERÍSTICA
Serra da Estrela
Alentejo
Seixal

1. Carta do Pastor – Manteigas - Serra da Estrela

2. Anedota da Cortiça

3. Crónica de Manuel Loendrero

4. Carta a Fialho de Almeida

5. Cantiga ao Desafio

6. Lenda de Beja

7. SEIXAL - (Imaginar D. Nuno em F. Lopes e depois moinhos e convento - as 7 Quintas - Corroios...)

 

CARTA (imaginada) - de um PASTOR (imaginado)

ao autor destas letras que é pura ficção...

 

Cuarta invuentuada dum puastuor invuentuado da Suerra da Estruela avuantada no luixo e duirigiuda ao senuor Zué dua Suerra do Vuale do Zeuzuere...

Carta inventada dum Pastor inventado, da Serra da Estrela aventada ou deitada no lixo e dirigida ao senhor Zé da Serra do Vale do Zêzere...

 

Mantueigas, 1978, Natual

            Muituo Exuluentuíssimo senhuor duoutuor:

original

tradução

estueja vuossumuecê cum dueus e nua cumpanhuia dus que muais cuere qu’eu i muais a muinha puatriuarca estuamos buem, cuando a buocuarra dos cuântaros e muais a du suouto du conçuelho luá puás buandas da luapa, nu nuos muostra os duentes arrueganhuados e nuão nus avuanta pelos uares cuomo umua puena ou nuos vuem cuma tuempestuade de nueves ou de granuizo caté pulas nuesgas das puedras dua cuaubana se muete e a muodos c’abuala com o demónho (demoncre) dua cubuertura du cuolmo pru a ribueira aciuma... atué pra lá duas luamueiras ou inda pra ciuma duos cuovuões...

tuempo duanuado ueste que nu nuos dueixa tumuar tuento nu guado que nuem um puouco se puode dueixar da muão, pur vuia dus luobos que suão luobos e por vuia dus uoutros que suão juente muas uainda muto piuore cós luobos...

a muinha puatriarca uma anduadueira buenza a dueus, uanda cu as muãos chueiinhas de fruieiras cu muais puaruecem as chuagas do nuosso senhuor nu çuéu stueja...

uó senhuor duoutor!

 

... duão cuá uma sustuância à buarriuga dum uhomem cu nuem um caldudo de cuastuanhas puiluadas,...

uessa fuoi muesmo de cuabo d’isquuadra...

... uinda cum fruio de muil demoncres e uas paluavras a suaírem dua buoca e a fazuerem aqulas buolas de nuvem e a misturuarem-se co nevueiro qu’estuava levuado dum ruaio...

... e uele q’era muau d’assuar uassim ua muodos carreluampuado da cubeça puor muor dus guases da guuerra...

 

...puobre muas cum buocuado de centuei nuegro e um cueijo...

  ...i uisto uera um nu muais acabuar... nuem me cuero a lembruar duacuela do Afuonso Cuosta a me procurar o que se dizuia do Afuonso Cuosta que intué uera de Sueia i tuem uma cuasa nas puenhas douruadas... oH! atuão duizem que uele ué um gruande maluandro que nuem acreduita im dueus e nuossa senhuora!!!

vuou acabuar.

  Uinté muais vuer... u sueu criaduo...

 Mantueigas, muil nuoveçuentos ui stuenta ui uoito,

Juaquim Suono..

Esteja vocemecê com Deus e na companhia dos que mais quer que eu e mais a minha Patriarca estamos bem, quando a bocarra dos Cântaros e mais a do Souto do Concelho lá para as bandas da lapa, não nos mostra os dentes arreganhados e não nos aventa pelos ares como uma pena ou nos vem com uma tempestade de neves ou de granizo que até pelas nesgas das pedras da cabana se mete e a modos que abala com o demónio da cobertura de colmo pela ribeira acima... até para lá das Lameiras ou ainda para cima dos Covões...

Tempo danado este que não nos deixa tomar tento no gado que nem um pouco se pode deixar da mão, por via dos lobos que são lobos e por via dos outros que são gente mas ainda muito pior que lobos...

A minha Patriarca uma andadeira, benza-a Deus, anda com as mãos cheiinhas de frieiras que mais parecem as chagas do Nosso Senhor, no Céu esteja...

 

... dão cá uma sustância à barriga dum homem que nem um caldudo de castanhas piladas...

...Essa foi mesmo de cabo de esquadra...

... ainda com um frio de mil demoncres e as palavras a saírem da boca e a fazerem aquelas bolas de nuvem e a misturarem-se com o nevoeiro qu’estava levado dum raio...

... e ele q’era mau d’assoar assim a modos arrelampado da cabeça por mor dos gases da guerra...

... Pobre mas com um bocado de centeio negro e um queijo...

...E isto era um não mais acabar... Nem me quero alembrar daquela do Afonso Costa a me procurar o que se dizia do Afonso Costa que até era de Seia e tem uma casa nas Penhas Douradas... Oh! Atão, o que haviam de dizer... dizem que ele é um grande malandro que nem acredita em Deus e Nossa Senhora!!!

Vou acabar.

Até mais ver... O seu criado

Manteigas, mil novecentos e setenta e oito.

Joaquim Sono...

 

ALENTEJO

2.3 ‑ Outros Exemplos

2.3.1 ‑ Um alentejano em Lisboa – Anedota

UMA ANEDOTA

UM ALENTEJANO EM LISBOA com O DINHEIRO DA CORTIÇA...

            Um alentejano, que tinha vendido a sua cortiça - naquele ano a campanha até tinha corrido bem - resolve, um dia, mandar o filho depositar o dinheiro, no banco, a Lisboa.

            O filho, depois de ouvir atentamente o mandado do pai, pega num taçalho de pão com linguiça, deita a golpelha ao ombro, monta-se no seu burro e, ale que se faz tarde, abala a caminho de Lisboa.

            Aquilo a viage foi um atoco, mas correu a modos...

            Chegando a Lisboa! Aquilo é que era um esbarrunto... Ia ficando cada vez mais encegueirado e escaranpantado com toda aquela mexida!!1

            Como, para dar conta do mandado, durante a viage, lá mais para o fim, por vezes tinha passado p’ra diante às lebres, estava capaz ded cuspir n’um empinge.

            Deitou a mão à golpelha, acomodou-se ali mesmo naquela relva mesmo à beira do Marquês de Pombal e vá de lançar a naifa ao taçalho de pão e à linguiça... O Banco tinha tempo de abocanher a dinherama...

            Entrementes, passavam por ali os ardinas a nunciar os jornais...

            - Óóóólha o séclo ... - Óóóólha o séclo ... (Olha o Século!!!)

            - É u diáááriu de notíííícias... - É u diáááriu de notíííícias... (É o Diário de Notícias!)

            Ouvindo aquele estramelo, o nosso homem arribitou as orelhas, pôs-se de palanque e cheirando-lhe a esturo, amonta-se muito espedito e toca a ir a escape que isto não está para moengas... ora essa!

            Chega a casa sem mais enleios e pergunta-lhe o pai:

            - Atão, filho, já fizeste o avio tã depressa?!!! Estavam os Bancos fechados?!!! No adregaste a dar cum eles?!!!

            - Cal banco, cal quê, mê paie! Atão chega um home a Lisboa, assenta-se na erva a mastigar um taroco mesmo c’o olho no banco qu’ê ben’o via e vá de mexida... Sem dar barrunto, aparecem ali uns uns girigotos aos saltos ... a gritar. - Ólho cerquem-no... Ólho cerquem-no... É u dinheiro da cortiça... É u dinheiro da cortiça... ê nem m’enteri lá muto bem, entes que me ditassem as galfárrias... abali... De figos a brebas inda dava uma espreitadela a ver se me alcançavam... mas aqui ‘stá o dinheirinho, pois qu’inté, aqui é qu’ele ‘stá bem seguro.

COMENTÁRIOS

- Através de uma pequena anedota, , como exemplo, podemos aperceber-nos, através da LINGUAGEM, dos UNIVERSOS DIFERENTES em que as pessoas se movem...

O riso, aqui, que parecer nascer de uma simples dificuldade auditiva, nasce, bem vistas as coisas, afinal, não só de um vocabulário que não faz parte do MUNDO em que se move, mas a falta desse vocabulário, ou a sua errada leitura que aqui é audição, que o não deixa perceber, e o põe em fuga, é, afinal, a falta do OBJECTO - concretamente dos JORNAIS, que provoca a hilaridade pelo seu desconcerto e inesperado...

- É da experiência comum, que as pessoas, o sujeito receptor, não ouve o que se lhe diz, aquilo que o emissor lhe quer transmitir, mas aquilo que corresponde ao seu universo de compreensão, ou aquilo que tem capacidade para compreender...

Aplicando rapidamente diversos instrumentos operatórios que nos parecem mais adequados para esta pequena NARRATIVA, desde o levantamento e confronto vocabular à breve aplicação do modelo actancial; às variadas leituras que nos pode permitir uma rápida análise estrutural.

1- Basta uma superficial observação de um breve levantamento e confronto vocabular para darmos conta de dois UNIVERSOS DIFERENTES: o do campo ALENTEJO e dos MONTES onde não chegam os jornais, e o da cidade LISBOA, o MUNDO CIVILIZADO onde o pregão dos jornais faz parte do quotidiano rotineiro.

A falsa interpretação, leitura, audição, é o climax da anedota que nos leva ao riso.

2- Mais uma breve aplicação do modelo actancial e vemos como o sujeito, pai, envia o personagem principal, o filho, para, segundo uma mentalidade que não é deles, colocar o dinheiro em segurança objectivo a atingir, - num banco!!!, em Lisboa!!! com todos os perigos e demora de uma longa viagem, de burro!!! E eis-nos já perante o desconcerto a provocar a hilaridade, sem sequer precisarmos de esperar pelo desfecho.

Assinalar como adjuvantes: o pai do filho e o filho do pai por se dispor a executar a sua ordem; detectar como oponentes do filho os ardinas, que não são oponentes, mas representam os jornais, um universo diferente, simplesmente desconhecido e não necessário para ele, transformam-se por isso mesmo, por não se conhecer, em possíveis oponentes e até ladrões e criminosos!!! Isto, põe ainda em evidência a mentalidade desconfiada de grupos ou multidões ou povos ou religiões que se desconhecem...

O destinador, como papel de juíz ou esclarecedor, que é provocado pelo espanto do pai pela rapidez do regresso!!! e perante o espanto nos parece ser o pai que desempenha esse papel de juiz, é afinal o leitor, ouvinte, como acontece na maioria das anedotas, que dá conta do ridículo, do jogo de ironias, da incompatibilidade entre os dois mundos, duas culturas, mentalidades diferentes.

O/s destinatário/s - à partida e imediatamente, são o pai e o filho, mas como o pai e o filho nos são, desde o início, apresentados como alentejanos, ainda por cima com dinheiro da cortiça, quenuma leitura rápida é um dinheiro fácil, é só deixar passar o tempo e cortar a cortiça!... Finalmente, OS DESTINADORES verdadeiros ou no pensamento do emissor, enunciador da anedota, são primeiro os ALENTEJANOS em geral e depois OS NOVOS RICOS ou ricos sem Cultura ou sem a nossa cultura.

Enfim. a partir daqui um Mundo de leituras que envolveriam desde a Psicologia, à Ciências Sociais e até a Economia e a Política... Estou a exagerar, propositadamente, para, a partir deste exemplo ver como é fundamental o estudo de contos, lendas, anedotas, relatos do quotidiano para se conhecer a mentalidade e a maneira de ser de um povo, de  uma região, e poder intervir de um modo válido no seu desenvolvimento, respeitando a sua identidade e capacidades...

3- Uma análise estrutural como mais complexa e dispondo de outras variáveis para nos permitir uma visão mais global, podendo até englobar as anteriores, pode, por isso, permitir-nos, uma visão mais completa de todo um mundo de reflexões a que uma pequena anedota nos pode levar, podendo ensinar-nos muita coisa a aplicar por qualquer pessoa para puro recreio e divertimento, pode servir de reflexão para professores, pais e educadores, que acham que explicam tudo muito bem e são de uma indiscutível competência, mas que pode esbarrar e esbarra com um universo diferente na pessoa dos alunos, filhos educandos... e esta distracção pode ter consequências desastrosas tanto na verbalização de simples ordens e directivas, como no processo ensino aprendizagem...

O estudo dos três cenários / sequências, a partida, a estada em Lisboa, a chegada; com as suas catálises, informantes e indícios (ícones, símbolos), vide cortiça/riqueza - o taçalho de pão com linguiça/ o sustento suficiente; o burro / meio de transporte eficaz; o Marquês / a grandeza ofuscante..., os ardinas- jornais /a cultura; a casa - o monte / a segurança; o banco / a miragem distante...

Teríamos um mundo para diversos especialistas das mais diversas áreas.

Anedota contada por alunas da Escola do Magistério Primário, Beja, 1985 e depois adaptada, In: LER EDUCAÇÃO – Revista da Escola superior de Educação de Beja, N.ºs 17/18, Março Dez. de 1995, com o título A LITERATURA (CULTURA) TRADICIONAL e o Desenvolvimento e a urgente criação de um INSTITUTO ALENTEJANO DE CULTURA / DESENVOLVIMENTO, pp. 167 – 220.

(Cortiça como ligação entre Alentejo e o Seixal – Mundet)

 

Crónicas de Manuel Loendrêro - Moura - Alentejo
MEMÓRIAS DE MANUEL LOENDRÊRO
in A PLANÍCIE, 15/02/8

Vinha ê uma vez pá vila a cavalo no burro pa fazê o avio, condo óvi atrás de mim um altemoven de esgalha bordão por a estrada adiente.
Passô por mim ca força toda... Tamein si nã passassi más valia uma botas e condo começô a subiri a barrêra do ôto lado da estrada, dê um estralo e começô às panderêtas até que se parô. "olhó! - pensi eu - já está escangalhado". Fui lá ó pei pa vê o que tinha acontecido. Tava o home arroda de um pineu. Pergunti-lhe donde ele era e disse quera de Lisboa.
Pá, tá tudo dito - pensi eu. Vinha-me imbora condo o vi priparado pa mudá o pineu mas volti pa trás, porque vi o baboso, que nã tinha gêto ninhum páquilo.
Dexi-me do burro, desviio e comeci a mudar a roda, mas vi logo caquilo nã era só do pineu. Espoji-me no chão e espreti pa debaxo do carro pa vê o qué caquela moenga tinha e vi o enxo e a jente, tudo entrotado.
Condo ia a livantar-me vi o home mexendo num ninho d'abêsperas.
- Que bichos são estes? - preguntou eli.
- Nã mexa nisso! Nã as trilhe! - Griti-lhe eu. Tá bem dexa!
Foi mêmo o quele foi fazeri. As abêsperas alivantaram voio e hôve uma que le deu uma nicada nos bêços cu fez dar um berro, ôtra foi-se ó burro. O burro assim cas viu zunindo de roda das orelhas, escarampatô-se e esgalhô fugindo por a chapada árriba.
Ê rasgui fugindo atrás deli pó apanhari. Daí a podaço condo volti todo esbrazeado, tava o ôtro cum lenço nos bêços quêxando-se.
- Vocei é mesmo enchaparrado - disse-le. - Atã vocei na sabe que na se pode mexeri num ninho d'asbesperas? E vá lá teve sorti...
Ati o burro a uma arve e fui veri so home tinha os beços munto anchados. Hei mãe! Tava cumas beiçoletas que pareciom o bebrum dum penico! Atão o bocana nã queria pôr pomada naquilo?! Lá o convenci a pori lama nos bêços porque pá picada na há melhori. Condo estava cos beços enlameados, disse-le cu melhor era vir cumigo à vila à busca dum mecânico. Montô-se, em cima do burro e lá fomos. O engraçado é que condo chigámos e me desmonti, olhi pa trás e ele nã estava lá. Devi ter escorregado da albarda, porque eles sabem andari de cu tremido, mas de burro, anda cá se queres... Já no volti pa trás, porque tinha de fazê o avio à minha Bia e despois fechavam as lojas. Tóoouuu!
M.L.

Com autorização do autor, Engenheiro Santa Maria, In: LER EDUCAÇÃO - Revista da Escola superior de Educação de Beja, N.ºs 17/18, Março Dez. de 1995, com o título A LITERATURA (CULTURA) TRADICIONAL e o Desenvolvimento e a urgente criação de um INSTITUTO ALENTEJANO DE CULTURA / DESENVOLVIMENTO, pp. 167 - 220.
e em: Canto do Conversar(e) in http://geocities.com/Joraga2000 Janeiro de 2001.


Carta a Fialho de Almeida
Carta de um Pastor Alentejano, de Vila de Frades, ao seu amigo Fialho d'Almeida

Mê caro Zé Valentim:

Nô ôtro dia 'tava ê ali à bêra do maticuenho de palaio, ali memo onde o barranco bate c'oa semeada... 'Tava assim a modos qu'esmorraçando.. Ajitei-me dentro do gabinardo e assenti-me no marco. Enroli um cigarro e cando ia a puxar do zarapatusco de modo a acender, di c'os olhos numa velhaca... Era um rego cheio de carne, ó cumpadre!!! Imaparelhê-me cum ela e meti o ferro à cara... Fiz-le dois fogachos, mas a mangana foi-se-me imbora mais a p. que a pariu!!!
Texto ditado pelo professor Manuel Pedro, num café, em Beja, 1981
Estes são dois textos que evidentemente tentam trazer para o escrito as marcas de oralidade. Dois textos que foram escolhidos só como exemplo de outros relatos do quotidiano que tardam em aparecer numa grande obra de algum autor alentejano e a precisarem de um estudo aturado da fonética e da fonologia desta tão característica maneira de falar.
É evidente a tentativa de registar a melodia, a musicalidade solta da fala a libertar-se do empecilho da pontuação que nos aprisiona a escrita na escrita. Há um ritmo e um jogo de aliterações característicos da linguagem oral... Há um valor conotativo em expressões a desenharem um visualismo narrativo para que o ouvinte veja o que lhe é contado...
E-Mail: joraga@netc.pt - joraga2000@yahoo.com.br

Com autorização do recitador, Dr. Manuel Pedro In: LER EDUCAÇÃO - Revista da Escola superior de Educação de Beja, N.ºs 17/18, Março Dez. de 1995, com o título A LITERATURA (CULTURA) TRADICIONAL e o Desenvolvimento e a urgente criação de um INSTITUTO ALENTEJANO DE CULTURA / DESENVOLVIMENTO, pp. 167 - 220.


O FALAR ALENTEJANO

M'nina que tá à j'nela
Regand'o lind'cravêro
Ó há-de ser para mim
Ó p'ró mê rico pracêro.

Ê nã sô p'ra vocêi
Nê p'ró sê rico pracêro
Que me tá mê pai criendo
P'ró más lind' sapatêro.

Ó m'enina ê sô sapatêro
Hê-d'ir p'rá sapataria
Hê-d'le fazer uns sapatos
Cá maior galantaria.

Ê nã quer'os sês sapatos
Dê-os lá a quê qu'séra
Qu'o marot' que tal diz
Nã mereec' uma mulhéra.

Entes ê qu'ria ser carnêro
Enxertado na raiz
Ê nã qu'ria ser marido
Da magana que tal diz.

Entes ê qu´ria ser porco
Que fossasse num velado
Ê nã qu'ria ser ispôsa
Dum tã frac' namorado.

A cantiga que é aqui transcrita foi recolhida numa das aldeias do termo de Beja e, apesar de uma ou outra característica local, pode ser considerada representativa dos falares do grupo alentejano - uma das variantes do português meridional.
Entre os traços fonéticos destes falares, podem destacar-se como mais característicos
- a monotongação generalizada do ditongo ei - cravêro... pracêro...
- a redução de outros ditongos em situação de próclise - mê rico... nâ quero... quê qu'sera...
- o alongamento das sílabas tónicas finais - vocêi... mulhéra...
- a alteração do timbre de algumas vogais tónicas nasais (neste caso por palatalização - criendo... entes...
- A velocidade de elocução (ou a lei do menor esforço) produz, nos falares do Sul, mais do que nos do Norte, a elisão de vogais átonas - j'nela... qu'sera...
No léxico encontram-se de onde em onde, termos como magana, que, para ouvidos habituados à norma de outras regiões, podem surgir como forma de calão. Aliás, este facto é corrente em quase todos os falares regionais.

(Página 449 de (Obra? sobre portugal das Selecções..., de Autor?)... Por erro de anotação, não se consegue ler a referência, na fotocópia, nem da obra, nem do autor desta citação. Do facto, pedimos desculpa e talvez algum leitor possa referenciar e emendar a falha, de que pedimos desculpa.)


(Um coro Alentejano - desfilando em Beja 1978)



Uma LENDA de BEJA - O TOURO e a COBRA...

UMA LENDA DE BEJA
(O que é TRADIÇÃO, fidelidade à TRADIÇÃO? Estagnação? Paragem?... ou criatividade e actualização que responda aos anseios do presente e se abra para o futuro?...)

UMA VERSÃO

in PINTADO DE FRESCO - Biblioteca Municipal de Beja Nº 0 Set. de 1993

O nosso Portugal é um país de lendas.Todas as terras, principalmente no sul, têm as suas lendas e Beja Também tem a sua.
A lenda tem passado de geração para geração e com certeza não deixará de ser contada.Ela diz-nos que:
"Muito antes dos lusitanos, o local onde hoje se encontra a nobre cidade de Beja com as suas muralhas romanas, era um pequeno povo que vivia em cabanas cobertas de colmo, que apenas se empregavam no exercício da caça.

Todos estes campos ubérrimos de pão que vemos hoje, era um compacto matagal, impossível em alguns pontos de ser penetrado pelo homem.E uma serpente, uma serpente monstro que tudo matava, tudo triturava. Era horrível preocupação do povo que habitava no local, que mais tarde, no tempo dos romanos, se havia de chamar Pax-Júlia, e presentemente se chama Beja.Um ardil porém, germinou no cérebro de um habitante deste região:Envenenar um touro, deitá-lo para onde existia a tal serpente.Aprovada por todos esta ideia, o touro foi envenenado e deitado para o local indicado.

A luta foi tremenda entre as duas feras.por fim, o touro foi atingido pelos efeitos do veneno. Já mortalmente ferido pelas investidas da serpente monstro e vencido, serviu de bom repasto à serpente vencedora.Mas... alguns dias depois, a serpente fora encontrada morta ao lado dos restos do touro salvador.

"Por isso, encontramos a cabeça do touro, no escudo de Beja.
Recolha feita por:Catarina Espada - Alexandra Melão

UMA ESTÓRIA DESTA LENDA

Esta LENDA tem uma história muito especial no que me diz respeito. Durante cinco seis anos, pedi aos alunos que trouxessem histórias que conhecessem, para melhor darmos outras Narrativas de grandes autores e darmos a Narrativa.

- que não havia LENDAS em Beja! As pessoas já não sabiam dessas coisas! Uma aluna da noite, já adulta contou-me vagos retalhos. "Havia uma cobra que metia muito medo... e depois lá a mataram...a minha mãe contava-ma mas já não me lembro..." Uns anos depois, uma aluna que quase não falava, pediu para contar o que a avó contava. Nas aulas seguintes apareceram sucessivamente várias versões até que recolhemos oito. Surpreendentemente, cheguei a casa e fui descobrir uma lenda em seis páginas que tinha escrito num serão, uns anos antes! Quem ma tinha contado? Como se mantêm e renovam as lendas?
Depois disto, à mesa dum café, perguntei a várias pessoas se sabiam e como era afinal a Lenda de Beja.

Muito calmamente o mestre João Rocha começou a contar:

LENDA DE BEJA - UMA VERSÃO

Nos tempos antigos, quando aqui ainda havia muitas matas, apareceu aí uma cobra muito grande que matava a população e destruía tudo.Aflitos com a situação, a população juntou-se e procurou encontrar uma solução.foram ter aí com o lavrador que tinha o melhor gado e pediram-lhe o maior touro para o lançarem contra a cobra.A cobra matou-o, engoliu-o e ficou a hibernar.Foi então que a população se levantou e com forquilhas, enxadas e varapaus, deu cabo da cobra.É por isso que temos a cabeça de um touro nas muralhas e nas armas da cidade.

In: LENDAS DE BEJA - O TOURO E A COBRA e Outras LENDAS - inédito de JRG, com publicação parcial na Revista Arquivo de Beja, vols. I, série III, de Abril de 96, sob o Título: A/s LENDA/s do TOURO E DA COBRA - UMA LENDA DE BEJA?.

SEIXAL - TEXTOS

TRAÇOS CARACTERÍSTICOS DO SEIXALENSE

In - Retalhos da Minha Terra – Monografia do Concelho do Seixal, de Manuel Oliveira Rebelo, Câmara Municipal do Seixal, 2ª edição, 1990, pp. 21 a 23:

 

«O estabelecimento das diversas indústrias atraiu ao Seixal, nestes últimos cinquenta anos, numerosas famílias que aqui se fixaram procedentes dos mais variados pontos do País e até da vizinha Espanha, as quais não deixaram de exercer profunda influência nos hábitos tradicionais da antiga população, constituída na sua quase totalidade por humildes e corajosos pescadores - almas simples e enamoradas dos perigos e seduções do mar imenso e dominador.

Do afluxo de braços que demandaram emprego, da confluência e cruzamento de indivíduos oriundos das Beiras, Estremadura, Algarve, etc., uma nova realidade etnológica surgiu no panorama do velho burgo piscatório, alterando o carácter e fisionomia social do seu povo que nem por isso deixou de continuar vinculado à sua primitiva origem histórica.

Se o seixalense actual traz no sangue a fortaleza de ânimo dos beirões, a bravura dos estremenhos e a alegria dos algarvios, no fundo ele permanece originariamente marítimo de olhar perdido na contemplação do infinito, escutando em si mesmo a longínqua voz oceânica, reminiscências de um passado distante e doloroso que os tempos sepultaram e hoje ainda o acompanham nas profundidades e recessos da alma.

Que se não confunda, porém, tendência contemplativa com apatia que também coabita no seixalense e constitui, a par de um sentimentalismo por vezes exagerado, um dos seus principais defeitos.

Do seu sentido contemplativo emerge a vocação para a arte, o sentimento de artista que mergulha suas raízes na musicalidade dos mares, na sinfonia das ondas e no murmúrio dos ventos; ao passo que a sua apatia repousa nas grandes temporadas ãe força inactividade, em que por via das fortes e prolongadas invernias os barcos de pesca jaziam inermes e solitários na praia, aguardando as tripulações o fim da ressaca para se fazerem de novo ao ma r e expulsar a miséria que entretanto se havia instalado em seus lares.

Se observarmos com a agudeza do psicólogo. descobriremos que o seixalense traz no olhar vago e profundo a tragédia de uma vida de dor e de dificuldades que os séculos diluíram; na alma, a grandeza da sua humildade e do seu desinteresse que anos de lutas e canseiras forjaram; na boca, a praga e o louvor dos que sofrem e dos que levam uma existência sem horizontes; no aspecto, o anónimo servidor da grei: o pescador. o carpinteiro, o calaf'ate, o moleiro e o corticeiro, tudo isto ele tem sido no decorrer da sua aventura histórica, na obscuridade do seu esforço criador e no caminhar incessante para o futuro feliz que ambiciona.

O seixalense sulcou os mares. construiu barcos, transformou o trigo em pão. bateu-se pela independência e pela liberdade,  combateu em África e na Flandres e morreu a arder em febre em Cabo Verde e no Oriente, sob climas adversos, com os olhos postos na família distante e no altar da universal pátria de Camões.

Nem sempre a sua vida foi feita de egoísmos e cobardias, de invejas e outras inferioridades inerentes à própria natureza humana, que uma ampla e generosa formação do carácter e uma rasgada instrução hão-de eliminar em grande parte para o completo triunfo da espécie.

Que os seixalenses de hoje se orgulhem dos seus antepassados e se inspirem nos seus exemplos de sacrifício, coragem, heroicidade, renúncia, solidariedade e patriotismo, e saibam, pela aplicação da inteligência, pelo esforço e pelo trabalho reprodutor, conquistar os bens morais, espirituais e materiais que estão na base da relativa felicidade humana.»

Manuel Oliveira Rebelo

 

(Segundo o mesmo autor, v. P. 25 – Seixal – “Antes de existir como povoação, Seixal foi o nome de uma praia, onde abundava o seixo utilizado para lastro das embarcações.”

p.43 – Arrentela, a mais remota povoação do concelho...

p. 45 – Torre da Marinha, em recuados tempos... marinhas de sal e a indústria de lanifícios...

p. 51 ‑ Amora, que o Sol ao nascer doira... Rio Judeu por causa de um judeu David-Negro...

p. 53 – “Em 1853 Amora foi elevada a sede de freguesia... com os lugares de Corroios, Santa Marta, Vale de milhaços, Foros, Cruz de Pau, correr d´Agua, Marco Severino, Fogueteiro, Paivas e Caldinhos.

Fogueteiro? – O nome virá de uma fábrica de fogo de artifício que os alentejanos vindos nos anos 60 ainda conheceram ou ouviram falar... (Informação da Dr.ª Ana Margarida Ramos).

Quinta da Princesa e a comovente história do seu nome? (?Vide p. 55).

 

Ainda se podem colher elementos, talvez para muitas histórias e lendas, a partir dos vários capítulos desta pequena Monografia do concelho do Seixal e doutras publicações referidas no final...

55 - Campos e paisagens do concelho do Seixal ‑ 59 – Filhos mais notáveis do Concelho do Seixal ‑ 65 – Os pescadores do Seixal ‑ 75 – A Construção Naval ‑ 77 – Os Moinhos ‑ 79 – Os Vidros ‑ 81 – Os Lanifícios ‑ 83 – Sabão – Cortumes – Conservas ‑ 85 – A Cortiça89 – O Plástico ‑ 91 A Siderurgia ... e outras indústrias...

(Recolha dos Ex-Libris e Profissões mais marcantes da Zona)


3.2 ‑ Eis a Costa do Sangue de Joaquim Pessoa

e  Pranto de Maria Parda de Gil Vicente – Ver: O Tejo e a Margem Sul Na Poesia Portuguesa – Antologia , recolha, introdução e notas por João Carlos L. PereiraCâmara Municipal do Seixal, 1993.

 

Poema de Joaquim Pessoa

 

Eis a costa do sangue. Aqui nasci e ouvi cantar os homens.

a cantar e a sofrer, aprendi o amor e a justiça.

Com eles aprendi o verdadeiro nome de todas as coisas. Através

deles, pude ver o negro focinho do lobo tingido de sangue. E vi

o falcão devorar as entranhas da gaivota.

 

Era pequeno, lembro-me, e neste lugar o sangue rompia, de

Súbito, por detrás de tudo, como uma violenta e rápida tempes-

tade de Maio. Então, os homens juntavam-se ou dispersavam,

furiosos e ameaçadores, às vezes tristemente calados, com uma

doce coragem feita de resignação magoada.

Com estes homens, aqui, na costa do sangue, aprendi a cantar.

Depois vi-os morrer. E os seus nomes guardei-os. Como um

Vinho. Uma lição.

Por isso o meu canto é um recado. Por isso o meu nome é uma

canção.

 

(Uma panorâmica do Seixal e os seixos que lhe dão o nome de origem.

 

 

 

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