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04
– FFrazão – LENDAS
PORTUGUESAS de Fernanda Frazão - ed.
Amigos do Livro, s/d, 1986?
–
V Volume – 18 Lendas
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LENDAS
DO ALÉM-TEJO
V
Volume
«LENDAS
PORTUGUESAS»
Investigação,
recolha e textos de: Fernanda FRAZÃO, ed. AMIGOS DO LIVRO EDITORES, Lisboa, 1984?
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Nº
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Título
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Local
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Pág V vol
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Uma organização
e montagem para uso dos alunos da ESCOLA DO MAGISTÉRIO PRIMÁRIO
DE BEJA
para
estudo, análise, adaptação e investigação no meio, sob a
orientação dos professores de Língua Portuguesa e Literatura
Infantil:
José
Rabaça Gaspar e
Maria
Eduarda Faria da Rosa (ABRIL/MAIO
de 1986)
Em Agosto
Setembro
de 2009, esta digitalização destina-se aos elementos da
Alma Alentejana
que se empenham na recolha, estudo e divulgação dos Valores
Culturais do Alentejo: na CEPA
– Centro de Estudos Patrimoniais do Alentejo; AnimAlentejo ou IAC/D…
01
A Senhora do Cais – Setúbal
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Ester,
uma judia, esposa de D. Manuel Vaz de Castro, apaixona-se
por Valentim, um pescador, que todos os dias, quando
ia para ao faina do mar, se quedava a olhar para a
varanda onde Ester, todas as tardes, olhava o mar…
e a debandada dos pescadores… O pai, o Ti Augusto,
bem o avisou do perigo… Enfim, D. Manuel acaba por
matar o pescador e o seu corpo é atirado ao mar… Ester
foi para um convento…
Final
«Por
uma sem-razão qualquer, numa tarde em que o mar não
permitia a ocupação dos braços nas redes, os pescadores
pegaram a discutir. Exaltaram-se os ânimos de tal
maneira que, de empurrão em empurrão, daí a pouco
estava todo o cais numa desordem de corpos e facas.
No turbilhão dos homens, a imagem de Nossa Senhora
venerada pelos pescadores foi atirada ao mar.
O Ti
Augusto, que assistia à cena de pancadaria sem tomar
partido e com um certo ar ausente e desprendido, viu
a imagem ir pelos ares e mergulhar no mar. Imediatamente
se atirou atrás dela: que seria dos homens sem a sua
Senhora para adorar?! Nadou até ao local onde a vira
cair e mergulhou para a ir arrancar à areia do fundo.
Quando voltou à tona, vinha pálido como se tivesse
encontrado algum fantasma de náufrago.
Na praia,
sentado com a imagem na mão, olhava-a com um olhar
parado de espanto.
Os outros
pescadores, que tinham suspendido a batalha sem-razão
quando o viram entrar no mar, acorreram ao vê-lo sem
palavra e sem cor.
- Ti Augusto, ó Ti Augusto! Então
homem? Ó Ti Augusto, o que é, não se sente bem?
Murmurou
finalmente o velho, enquanto duas gotas de mar lhe
escorriam das pestanas já escassas, caindo sobre a
Senhora que tinha na mão:
- Um
milagre, é um milagre, homens! É a Nossa Senhora do
Cais, mas o rosto, o rosto é o da judia!...
A imagem ainda hoje está no seu velho nicho. O que nem
toda a gente sabe é que a sua face tem esta história
antiga.»
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02
- Lenda
da Costa da Caparica – Almada – Caparica
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2
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Lenda
da Costa da Caparica
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Almada
– Caparica
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17
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«... E as pessoas foram contar ao Rei, que como senhor das
gentes tem de ser dono das mentes. E o Rei mandou chamar
a Mulher:
-
Mulher, dizem que és bruxa!
- Real senhor, já sou só uma velha.
- Dizem que és poderosa, que fazes ouro e malefícios?!
- Oh, meu senhor! Sou tão pobre que só tenho esta
capa desde que nasci.
Quedou-se o Rei a pensar. Olhou a Mulher e viu que
era verdade. Mandou-a embora com vergonha de ter visto o
que os outros não tinham visto.
O tempo fluiu como passam os dias e as noites. O mundo todos
os dias foi sendo outro e outro. Só as gentes não mudaram
o seu pensar e, por isso, um dia, quando souberam da morte
da Mulher pelo dobre dos sinos da Senhora do Monte, acorreram
à velha morada, cheias de curiosidade.
Ali estava o corpo da Mulher, agora sim, só, estendido no
mesmo catre que servira ao velho companheiro. Sobre o corpo
a velha capa, sobre a capa um papel, para o rei. Nesse papel
ela dizia:
«Meu
senhor. Deixo-vos a capa que tenho desde que nasci. Encontrei
nela todo o ouro que diziam que eu tinha: foi o meu velho
companheiro que, antes de se ir embora, aí o meteu. Eu nunca
o tinha visto e agora que vi não preciso dele. Utilizai-o
nesta terra para que todos tirem dele o que mais desejarem.
Afi- nal, a minha capa era uma capa rica. Que o meu Deus
vos abençoe.»
03
- Sesimbra
– (o Pescador Zimbra e Maria)
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3
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Sesimbra
– (o Pescador Zimbra e Maria)
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Sesimbra
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23
|
A
estória de Zimbra e Maria contra o tirano opressor… (o nome
de Sesimbra..)
«Era senhor daquelas terras um homem tirânico que de todos
exigia vassalagem…
…
«Certo
dia, Zimbra e Maria decidiram casar… e ele recusou ao tirano
o direito que exigia a todas as donzelas…
Zimbra
e os casais amigos criaram uma nova aldeia junto a praia…
«Quando soube disto, o tirano teve uma fúria imparável.
Juntou quanta gente pôde e, sequioso de vingança, jurou
não parar enquanto não desfizesse todas as esperanças de
Zimbra e dos rebeldes.
Mas
Zimbra e os habitantes do novo povoado sabiam o que os esperava.
A pé firme, como quem espera o embate bruto do mar, esperaram
a hoste do senhor. Estavam dispostos a tudo por Zimbra que
lhes dera a sua coragem:
-
Se Zimbra quiser...
E
Zimbra quis, mais uma vez. Quando aquela bruta onda de gente
embateu nos seus corpos, resistiram serenos porque tinham
o conhecimento íntimo de que a fúria dura um momento. Calmos,
desfecharam os seus golpes no inimigo que sobre eles se
abatia e num gesto de sabedoria mataram o tirano e todos
os seus homens.
Ficaram livres do jugo secular e injustificável dos
tiranos da terra. Agora era-lhes possível fazer do seu povoado
uma terra de verdadeiros pescadores:
- Se Zimbra quiser...
E
Zimbra, pela terceira e última vez, quis. De tal modo o
quis que, muito tempo depois, quando Afonso Henriques conquistou
o velho castelo fronteiro ao mar, era Sesimbra que lhe chamavam.»

04
- Lenda de Alcácer do Sal
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4
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Lenda
de Alcácer do Sal
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Alcácer
do Sal
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29
|
A
estória de Almira e D. Gonçalo…
Uma
estória de Almira, a menina que ficou esquecida, abandonada,
quando D. Afonso II (1217) conquistou a SALÁCIA, como se
chamava então… e os mouros fugiram em debandada… foi criada
no castelo como cristã e sabia que se chamava ALMIRA… aprendeu
alaúde, que tocava como ninguém e fazia poesia… e assim
rivalizava com qualquer trovador…
Até
que apareceu um cavaleiro de nomo D. Gonçalo… a quem ela,
secretamente, dedicou uma canção apixonada “Meus olhos,
lembro-vos eu.”…
«D.
Gonçalo ouvia. D. Gonçalo ouvia, mas não se atrevia. Bem
sabia D. Gonçalo que aqueles «meus olhos» eram seus. Mas
D. Gonçalo ouvia e não se atrevia.
Até que,
uma noite, D. Gonçalo ouviu e atreveu-se.
Almira
tocava alaúde baixinho, quase em surdina, como um suspiro
interior. O cavaleiro, encostado às ameias do terraço da
torre, ergueu timidamente a voz, e os olhos, e cantou:
Mais
digna de ser servida
Que
senhora deste mundo,
Vós
sois o meu deus segundo
Vós
sois meu bem desta vida.
Vós
sois aquela que amo
Por
vosso merecimento,
Com
tanto contentamento
Que,
por vós a mim desamo.
A vós
só é mais devlda
Lealdade
neste mundo
Pois
sois o meu deus segundo
E meu
prazer desta vida.
Almira
ouviu. Sentiu a vida fugir-lhe por um instante sem tempo.
Depois, quando conseguiu voltar a ser, endireitou seu corpo
de espiga, olhou o cavaleiro e, sussurrando como um vento
que mal toca a copa das árvores, disse, apenas:
- Oh!,
meu senhor D. Gonçalo!
O resto
não conta a lenda, mas diz quem sabe que em certas noites
de luar de Agosto ouvem-se os sussurros dos dois amantes
que eternamente se quiseram encantados nas muralhas da velha
Salácia romana.

05
– Grândola
GRÂNDOLA
(Insignificante
em 1527… veio a receber FORAL, 20 anos depois devido a D.
Jorge de Lencastre, filho legitimado de D. João II…)
«Diz
a tradição que o fundamento do pedido do foro da vila se
situa no facto que vou contar:
«Certo
dia, estava D. Jorge à janela do seu palácio, viu sair do
mato um enorme javali que passou quase por debaixo da varanda.
À pressa, mandou ajuntar todos os seus monteiros, subiram
para os cavalos e partiram, rápidos, à desfilada em perseguição
do animal. Mas o bicho conseguiu escapar e, segundo D. Jorge,
porque nesse dia faltara à montaria o seu mais destro e
ousado caçador.
Este,
porém, faltara por ter de comparecer a uma audiência judicial
em Alcácer do Sal, e não por negligência. A sua ausência
forçada fora devida ao facto de Grândola ser tão insignificante
que nem serviço de justiça tinha.
D. Jorge,
para obstar a que seus homens se ausentassem dali e evitar
a repetição deste desagradável incidente, solicitou a D.
João II que concedesse foral de vila e justiças a Grândola,
o que veio a acontecer em 22 de Outubro de 1544. A partir de então,
a nova vila começou a progredir. D. Jorge mandou construir
boas casas de habitação e atraiu à vila inúmeras famílias
nobres e ricas que também edificaram casas para residência
permanente.»

06
- Lenda de Mileu - Veiros – Estremoz
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6
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Lenda
de Mileu
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Veiros
- Estremoz
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Lenda
de Mileu (Ver outra NS Mileu perto da Guarda Estação)
«Perto
de Estremoz – numa localidade chamada Veiros… existe uma
ermida medieval… - a ermida de Nossa Senhora de Mileu…
«Os cristãos,
que andavam amanhando os campos em redor do castelo, dando-se
conta do número imenso de mouros que cavalgava sobre eles,
debandaram em completa desordem para se recolherem nas muralhas
de Veiros. Em correria cega de pavor, avançavam em grandes
magotes para a única porta do castelo ainda aberta quando,
de súbito, foram obrigados a estacar. Em frente uma mulher
sereníssima, com uma criança sentada no seu braço esquerdo,
sorria aos fugitivos levantando o braço livre como quem
manda parar.
Ante o
apavorado espanto dos portugueses, bradou-lhes a mulher:
- Atrás,
portugueses, atrás! Para cada mil eu! Eu combaterei por
vós!
- Cada
mil, eu – exclamaram a um tempo os fugitivos atónito - receosos.
- Cada mil, eu!
Tão rápida
foi esta cena, como rápido o restabelecimento da ordem e
da coragem. Com súbito ânimo, voltaram para trás os camponeses
e, juntamente com os doze cavaleiros do castelo, desbarataram
o poderoso exército mouro. E conta-se que nem um único inimigo
ficou vivo sobre o campo.

07
- Lenda de Maia - Ammaya - Portalegre
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7
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Lenda
de Maia
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Portalegre
- Ammaya
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Lenda
de Maia – AMMAYA – Portalegre
«Maia,
filha de Lísias, ocupava os seus dias nas margens do ribeiro,
cuidando do seu rebanho. Diz-se que era formosa e serena
e que as suas horas eram de uma alegria profunda. Talvez
por isso, Tobias, guardador de rebanhos, se sentava a seu
lado, dias e dias, tocando a flauta de Pã, descuidado e
inocente.
Um dia,
porém, apareceu Dolme, o vagabundo, que, enfeitiçado pelo
som da flauta e entusiasmado pela beleza calma de Maia,
irrompeu entre os pastores amedrontando-os com a sua súbita
aparição. Tobias, sobressaltado, correu a esconder-se atrás
de um rochedo; Maia, enleada, pegou docemente na sua cabaça
e enchendo-a no ribeiro ofereceu-a hospitaleira ao recém-chegado.
Aceitou
Dolme a oferta, mas, propositadamente, ao recebê-lo, deixou
cair a cabaça e agarrou Maia, que, estupefacta e assustada,
chamou Tobias. Veio o pastor em seu auxílio e empurrou Dolme
para o afastar da amiga. O vagabundo, porém, era astucioso,
ágil, habituado a lutar pelo que desejava. Enrolou-se com
Tobias num combate sem tréguas e, num golpe de força, cravou-lhe
no peito o machado de pedra que consigo trazia.»

08
- Estremoz (Estremoços – Tremoceiro) – Estremoz
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Estremoz
(Estremoços – Tremoceiro)
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Estremoz
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Estremoz
(Estremoços – Tremoceiro)
«…
o escudo de armas foi decidido pela população do lugar,
quando D. Afonso III lhe concedeu o primeiro foral, em 1258.
Nessa
época dos primórdios da nacionalidade, chegou à colina,
onde hoje se ergue Estremoz, um grupo de pessoas provenientes
de Castelo Branco, gente foragida, não se sabe bem por que
razão. O grupo era constituído por várias famílias que,
dada a sua situação, encontraram naquele local praticamente
ermo, um refúgio seguro. Contudo, para se abrigarem não
acharam senão uma frondosa árvore de tremoços que durante
algum tempo lhes serviu de tecto.
Com o
tempo chegaram àquela povoação nascente outras pessoas que
foram ficando e construindo novas casas, até que o aglomerado
se tornou suficientemente importante para merecer a atenção
de D. Afonso III. O Rei, ao conceder aos habitantes da vila
a sua carta de foral, inquiriu que nome e armas deveria
dar ao povoado, ao que lhe respondeu o povo que se lhe chamasse
Estremoços (nome que então era dado aos tremoços) e que
nas armas da cidade fosse incluído o Tremoceiro, o Sol e
a Lua. O Tremoceiro porque de debaixo dele surgira a povoação,
o Sol e a Lua porque haviam sido os únicos bens que tinham
achado aquando da sua chegada.

09
- O Lidador – Beja
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9
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O
Lidador - Beja
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Beja
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O
Lidador – Beja
«Depois
de deixar o sinal da sua espada em muitas armaduras árabes,
Gonçalo Mendes da Maia vibrou pela derradeira vez a arma,
abrindo o crânio de um cavaleiro mouro. Nesse esforço jorrou-lhe
o sangue pela ferida, de tal maneira que caiu morto no campo.
Assim morria um cavaleiro curtido por mais de oitenta anos
de combate!
A
batalha, porém, não terminara ainda. Apesar dos olhos turvados
pelas lágrimas e do cansaço de muitas horas de luta, Mem
Moniz e Lourenço Viegas retomaram a batalha com uma fúria
insana. Pouco depois uma espadeirada do Viegas abriu em
dois o crânio de Ali-Abu-Hassan, gritando enquanto as lágrimas
se misturavam ao sangue jorrado do inimigo:
-
Lidador! Lidador! Foi o toque da fugida, a morte do rei
de Tânger.

10
- Alvito – (Alvitre – Alvíssaras) – Alvito – Beja
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Alvito
– (Alvitre – Alvíssaras)
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Alvito
- Beja
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Alvito
– (Alvitre – Alvíssaras) - Alvito – Beja
«Havia
nesse dia uma corrida de touros e quando os homens tratavam
de os meter nos curros, um deles escapou. Desatou a correr
pela povoação fora e, atrás dele, algumas pessoas. O animal
corria furiosamente, quem sabe se para escapar à morte que
adivinhava esperá-lo.
Como
estava um dia muito quente, pouco a pouco os perseguidores
do touro foram desistindo, até que só ficaram dois, mais
resistentes e corajosos, que acabaram por capturar o bicho.
Levaram-no
de volta à povoação, depois de terem descansado os três
sob um chaparro. Quando entraram na vila com o touro preso
por uma corda, levaram-no até ao meio da praça, gritando:
-
Alvitre, alvitre! - que quer dizer alvíssaras.
Daqui,
explica o povo, nasceu o nome de Alvito.»

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- Giraldo Giraldes, "O
Sem-Pavor” – Évora
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Giraldo
Giraldes, "O
Sem-Pavor”
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Évora
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Giraldo
Giraldes, "O
Sem-Pavor”
– Évora
«A partir desse instante, tudo foi fácil para o guerreiro.
Dentro da câmara da torre, puxou da espada e degolou a moura
e o mouro sem um gesto de indecisão, sem um sentimento de
piedade. Foi tão rápido que não lhes deu tempo para alarmes,
para um gesto sequer.
Depois,
fez sinal aos companheiros, que subiram pelo mesmo processo
que ele e, uma vez todos juntos, conquistaram facilmente
a cidade adormecida e descansada.
Instalado
como senhor da grande Yebora, Giraldo decidiu entregá-la
ao rei de quem era vassalo, apesar da aparente liberdade
de movimentos de que gozava. Assim, mandou um seu escudeiro,
Pedro Álvares Cogominho, levar as chaves da cidade a Coimbra,
onde Afonso Henriques tinha a corte, e este, em troca do
inestimável serviço, nomeou-o alcaide-mor de Évora, enviando-lhe,
simultaneamente, soldados e colonos cristãos.
Giraldo
Giraldes aceitou o cargo que o rei lhe enviou como recompensa,
mas o sossego de uma cidade entregue aos afazeres da paz
não era de molde a contentar o seu espírito aventureiro
e um dia partiu para novas conquistas, muitas delas lado
a lado com Afonso I.

12
- O Milagre de Ourique – Ourique – Castro Verde
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12
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O
Milagre de Ourique
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Ourique
– Castro Verde
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O
Milagre de Ourique – Ourique – Castro Verde
«Os
guerreiros cristãos, porém, levaram a melhor. Em breve,
os mouros sobreviventes fugiram pela planície fora, deixando
o solo pejado de corpos mutilados de cadáveres e moribundos.
Do lado cristão também eram muitos os mortos e feridos,
mas os sobreviventes proclamavam a vitória gritando excitados:
-
Real! Real! Por Monso, Rei de Portugal!
Diz
a tradição que nesse momento, e em memória do acontecimento,
o rei pôs no seu pendão cinco escudos, representando os
cinco reis mouros que derrotara. Pô-los em cruz, pela cruz
de Nosso Senhor, e dentro de cada um mandou bordar trinta
dinheiros, que por tanto vendera Judas a Jesus Cristo.
Esta
é a patriótica lenda com que os Portugueses quiseram perpetuar
um facto que na realidade foi bem diverso.

13
- O Barbadão – Pêro Esteves – Veiros – Ermida NS Mileu
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13
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O
Barbadão – Pêro Esteves
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Veiros
– Ermida NS Mileu
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81
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O
Barbadão – Pêro Esteves
Veiros
– Ermida NS Mileu
«Num destes passeios conheceu Inês Feres, filha de
um homem-bom da vila de Veiros, sem foros de fidalguia.
Conta a lenda que D. João se enamorou de Inês e a raptou,
numa altura em que Pêro Esteves
andava na guerra, cometendo um acto considerado desonroso
para consigo mesmo e para com a donzela.
Não
se sabe quanto tempo durou o entusiasmo de D. João, mas
é provável que durante alguns anos o Mestre tenha vivido
com Inês Feres, que dele teve, pelo menos, dois filhos:
D. Afonso, futuro duque de Bragança, e D. Beatriz, que casou
com um conde inglês.
Segundo diz a tradição, Pêro Esteves, sabendo da desonra
de Inês enquanto estava na guerra, voltou a Veiros, onde
deixou crescer a barba e nunca mais, em vida sua, pôs os
olhos naquela sua única filha.
Foi a partir de então que as gentes da vila, reconhecendo
naquela barba crescida e insólita um sinal de extrema honradez
moral, passaram a alcunhar Pêro Esteves de «o Barbadão».

14
- Lenda da Fonte Mouro – Beja – a nordeste
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14
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Lenda
da Fonte Mouro
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Beja
– a nordeste
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Lenda
da Fonte Mouro
Beja
– a nordeste
«Assim, numa noite de Agosto, em que o luar inundava
a perder de vista a planície alentejana, Atanásio chegou
ao portal da horta onde já Aldonça o esperava, acocorada
junto a um muro para se esconder na sombra. Ao ver chegar
o amante encheu-se-Ihe o coração de alegria e de gratidão
por Alá. Ergueu os olhos ao céu numa muda oração de agradecimento
pelo paraíso que antevia abrir-se-Ihe e, nesse momento exacto,
um estranho caso aconteceu:
Aldonça transformou-se em fonte, Atanásio transmudou-se
em serpente.
Conta a lenda que a Alá não aprazia esta união de
diferentes religiões e, por isso, encantou para todo o sempre
aquele par de namorados.
Dizem as gentes da terra que em noites de luar, especialmente
em Agosto, se vê muitas vezes a cobra bebendo naquela fonte
as longas saudades de Aldonça.

15
- A Tesourinha da Moura – Mértola – arredores
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15
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A
Tesourinha da Moura
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Mértola
- arredores
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89
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A
Tesourinha da Moura
Mértola
- arredores
«Ao
chegar a casa contou à mulher o que lhe acontecera e por
fim, quando ia a tirar os figos do bolso do colete, encontrou
no lugar deles seis moedas de ouro. A mulher desatou logo
a ralhar com ele:
-
Ó homem, pois então a moura dá-te figos que são ouro e tu
só trazes isto?! Valha-te Deus, que estás mas é a ficar
taralhouco! Vai mas é buscar o resto, antes que a cobra
volte à cova, vai depressa, ouviste?!
O
homem, que não sabia bem se havia de temer mais o bicho
ou a mulher, lá foi, dizendo mal à sua vida. E quando passou
pela cobra, disse-lhe, para que ela não desconfiasse:
- Adeus,
senhora moura! Vou outra vez ao campo, que me esqueci de
uma coisa!
Mas
a moura sabia tudo:
- Não
vais, não! Não te esqueceste de nada, o que tu querias era
mais figos, mas já não há! Olha, leva daqui qualquer coisa
que te sirva.
E
estendeu ao homem o seu açafate da costura, donde ele sacou
uma tesourinha com cabos de ouro e pedras preciosas. Partiu
e a moura ficou a dizer-lhe adeus com um estranho sorriso.
A
caminho de casa, o homem, que ia distraído com os seus pensamentos,
escorregou à beira de uma ladeira, caiu, espetou a tesoura
no peito e morreu.

16
- A Casa da Moura Zaida – Avis – anta Casa da Moura
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16
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A
Casa da Moura Zaida
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Avis
– anta Casa da Moura
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A
Casa da Moura Zaida
Avis – anta
Casa da Moura
«Ante a quantidade e variedade das riquezas, o rapaz sentia-se
incapaz de escolher.
- Anda,
é tudo teu!
- Tudo
meu, tudo meu?!
- Ora
diz-me: entre tudo isto, o que preferes?
- Estou
doido, senhora, doido! Não sei, não sei... olhe, senhora
moura, basta-me a senhora! Não quero mais nada…
Acabadas
que foram de proferir estas palavras tudo ruiu como se não
tivesse passado de um sonho. A moura e o rapaz viram-se,
subitamente, frente à anta intacta. Ao lado de ambos, sob
o chapéu da anta, estavam duas arcas, uma de ébano, outra
de marfim, cheias de maravilhosas jóias rebrilhando fantásticas
ao sol. Do lado de fora esperava-os uma mula branca, também
ela rica de jaezes.
O
rapaz colocou as arcas nos alforges da mula e sentou
a moura em cima do animal, depois de lhe beijar a mão. Desceram
o monte, ela a cavalo na besta, ele segurando-lhe as rédeas.
Estava
um dia maravilhoso de sol e nunca mais ninguém os viu.
Ficou
a anta, a Casa da Moura, e ficou a lenda para eu vo-la contar.»
 
17
- Lenda de Moura Salúquia – Moura
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17
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Lenda
de Moura Salúquia
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Moura
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Lenda
de Moura Salúquia
MOURA
«Entraram os falsos mouros como uma rajada de sangue.
Impossível resistir ao seu ímpeto. A população, porém, quando
percebeu o ardil, tentou a todo o custo impedir que os cristãos
chegassem ao palácio de Salúquia.
Esta,
pálida mas serena, sem lágrimas já para chorar, mandou encerrar
as portas do seu palácio. Trouxeram-lhe as chaves no momento
exacto em que os irmãos Rodrigues chegavam às suas portas.
Vendo que os cristãos se preparavam para as arrombar, Salúquia,
lentamente, cheia de dignidade, subiu ao ponto mais alto
do minarete, apertou as chaves numa das mãos e, elevando
uma prece a Alá, num impulso rapidíssimo atirou-se para
o vazio. Um imenso grito doloroso soou de todas as bocas:
«Salúquia!»
Por momentos, logo depois do baque do corpo no chão
do terraço, pararam mouros e cristãos, parou a própria Natureza.
Na esplanada do castelo estava agora o corpo da moura apertando
as chaves numa mão. Um fio de sangue escorria mansamente
da sua boca entreaberta.
Correu um cristão com o intuito de lhe arrebatar brutalmente
as chaves, mas um gesto de Álvaro Rodrigues deteve-o. Esmagado
pela heroicidade daquela mulher, curvou-se para lhe limpar
do rosto belíssimo o sangue da sua própria traição. Nesse
momento, da dobra do manto de Brafma caiu uma rosa branca,
estranhamente manchada de sangue, que foi pousar suavemente
sobre os lábios frios de Salúquia. A flor cumpria a derradeira
súplica do mouro enamorado e trazia-lhe o beijo nupcial.»
E desde aí esta terra cristã passou a chamar-se MOURA…

As
Arcas de Montemor – Montemor-o-Novo
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As
Arcas de Montemor
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Montemor-o-Novo
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As
Arcas de Montemor
Montemor-o-Novo
«Achou-os
porque era fácil achá-los. Trouxe-os pela mão à presença
do senhor de Montemor, que entretanto gastara todo o ódio,
todo o medo amealhara no convencimento dá solidão irremissível.
Por isso, talvez, o terem-lhe encontrado uns olhos vazios
e mortos.
- Aqui
estão eles, senhor.
- Não
vejo! Onde?! Sombras, sombras horríveis... Não os vejo...
Só estas sombras, e tenho medo!
-Pai,
pai... perdoa-me! Perdoa-me pelo que eu nunca diria! Perdoa-lhe
pelo que ele sabia e te disse!
- Senhor,
aqui estamos... Casámos... Dá-nos a tua bênção, que queremos
viver na paz e contigo! De repente o velho começou baixo
a falar, sozinho:
-
Casados?! Nunca! Pensam que eu conheço o perdão, que estou
um pouco velho, um pouco louco! - E acrescentou, num tom
em crescendo: - Casados? E querem-se felizes? Ah, ah, ah,
amaldiçoados, isso sim! Vós e todos os vossos até ao fim
dos tempos! Mas... aqui tendes a minha prenda, gozai-vos
dela. Olhai bem, olhai e escolhei porque uma destas arcas
está cheia de ouro e a outra... de peste! Escolhei, escolhei...
ah, ah, ah!
Assustados, fugiram ambos quando o velho louco se chegou
bem perto deles com o seu hálito de insânia. Nunca mais
ninguém os viu, mas é provável que tenham sido os pais de
todo o Montemor inteiro, porque até hoje ainda ninguém ousou
abrir as duas arcas nupciais enterradas no recinto do velho
castelo, uma cheia de ouro, outra cheia de peste.»

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