CONTOS & LENDAS
A ARTE DE enCANTAR
na LITERATURA POPULAR PORTUGUESA

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CONTOS & LENDAS

Serra da Estrela

ALENTEJO
uma TEIA infindável de Contos & Lendas

 

04 - FFrazão - LENDAS PORTUGUESAS de Fernanda Frazão

ALMA ALENTEJANA – área de Estudos sobre o Alentejo.

LISTA DE AUTORES E OBRAS - notas

 

CONTOS E LENDAS DO ALENTEJO em Diversas Obras e Autores, para estimular a recolha, estudo e divulgação dos Valores Culturais do ALENTEJO –

 

04 – FFrazão – LENDAS PORTUGUESAS de Fernanda Frazão - ed. Amigos do Livro, s/d, 1986?
 – V Volume – 18 Lendas

 

LENDAS DO ALÉM-TEJO

V Volume

 

«LENDAS PORTUGUESAS»

Investigação, recolha e textos de: Fernanda FRAZÃO, ed. AMIGOS DO LIVRO EDITORES, Lisboa, 1984?

 

 

Título

Local

Pág V vol

 

1.                 

A Senhora do Cais

Setúbal

7

2.                 

Lenda da Costa da Caparica

Almada – Caparica

17

3.                 

Sesimbra - (o Pescador Zimbra e Maria)

Sesimbra

23

4.                 

Lenda de Alcácer do Sal

Alcácer do Sal

29

5.                 

Grândola

Grândola

35

6.                 

Lenda de Mileu

Veiros – Estremoz

39

7.                 

Lenda de Maia - Ammaya

Portalegre – Ammaya

43

8.                 

Estremoz (Estremoços – Tremoceiro)

Estremoz

49

9.                 

O Lidador - Beja

Beja

53

10.              

Alvito – (Alvitre – Alvíssaras)

Alvito – Beja

61

11.              

Giraldo Giraldes, "O Sem-Pavor”

Évora

65

12.              

O Milagre de Ourique

Ourique – Castro Verde

73

13.              

O Barbadão – Pêro Esteves

Veiros – Ermida NS Mileu

81

14.              

Lenda da Fonte Mouro

Beja – a nordeste

85

15.              

A Tesourinha da Moura

Mértola – arredores

89

16.              

A Casa da Moura Zaida

Avis – anta Casa da Moura

93

17.              

Lenda de Moura Salúquia

Moura

99

18.              

As Arcas de Montemor

Montemor-o-Novo

107

Uma organização e montagem para uso dos alunos da ESCOLA DO MAGISTÉRIO PRIMÁRIO DE BEJA

para estudo, análise, adaptação e investigação no meio, sob a orientação dos professores de Língua Portuguesa e Literatura Infantil:

José Rabaça Gaspar e

Maria Eduarda Faria da Rosa (ABRIL/MAIO de 1986)

 

Em Agosto Setembro de 2009, esta digitalização destina-se aos elementos da Alma Alentejana que se empenham na recolha, estudo e divulgação dos Valores Culturais do Alentejo: na CEPA – Centro de Estudos Patrimoniais do Alentejo; AnimAlentejo ou IAC/D…

 

01 A Senhora do Cais – Setúbal

 

 

Ester, uma judia, esposa de D. Manuel Vaz de Castro, apaixona-se por Valentim, um pescador, que todos os dias, quando ia para ao faina do mar, se quedava a olhar para a varanda onde Ester, todas as tardes, olhava o mar… e a debandada dos pescadores… O pai, o Ti Augusto, bem o avisou do perigo… Enfim, D. Manuel acaba por matar o pescador e o seu corpo é atirado ao mar… Ester foi para um convento…

 

Final

 

«Por uma sem-razão qualquer, numa tarde em que o mar não permitia a ocupação dos braços nas redes, os pescadores pegaram a discutir. Exaltaram-se os ânimos de tal maneira que, de empurrão em empurrão, daí a pouco estava todo o cais numa desordem de corpos e facas. No turbilhão dos homens, a imagem de Nossa Senhora venerada pelos pescadores foi atirada ao mar.

O Ti Augusto, que assistia à cena de pancadaria sem tomar partido e com um certo ar ausente e desprendido, viu a imagem ir pelos ares e mergulhar no mar. Imediatamente se atirou atrás dela: que seria dos homens sem a sua Senhora para adorar?! Nadou até ao local onde a vira cair e mergulhou para a ir arrancar à areia do fundo. Quando voltou à tona, vinha pálido como se tivesse encontrado algum fantasma de náufrago.

 

Na praia, sentado com a imagem na mão, olhava-a com um olhar parado de espanto.

Os outros pescadores, que tinham suspendido a batalha sem-razão quando o viram entrar no mar, acorreram ao vê-lo sem palavra e sem cor.

 

- Ti Augusto, ó Ti Augusto! Então homem? Ó Ti Augusto, o que é, não se sente bem?

 

Murmurou finalmente o velho, enquanto duas gotas de mar lhe escorriam das pestanas já escassas, caindo sobre a Senhora que tinha na mão:

- Um milagre, é um milagre, homens! É a Nossa Senhora do Cais, mas o rosto, o rosto é o da judia!...

 

A imagem ainda hoje está no seu velho nicho. O que nem toda a gente sabe é que a sua face tem esta história antiga.»

02 - Lenda da Costa da Caparica – Almada – Caparica

2

Lenda da Costa da Caparica

Almada – Caparica

17

«... E as pessoas foram contar ao Rei, que como senhor das gentes tem de ser dono das mentes. E o Rei mandou chamar a Mulher:

- Mulher, dizem que és bruxa!

- Real senhor, já sou só uma velha.

- Dizem que és poderosa, que fazes ouro e malefícios?!

- Oh, meu senhor! Sou tão pobre que só tenho esta capa desde que nasci.

Quedou-se o Rei a pensar. Olhou a Mulher e viu que era verdade. Mandou-a embora com vergonha de ter visto o que os outros não tinham visto.

O tempo fluiu como passam os dias e as noites. O mundo todos os dias foi sendo outro e outro. Só as gentes não mudaram o seu pensar e, por isso, um dia, quando souberam da morte da Mulher pelo dobre dos sinos da Senhora do Monte, acorreram à velha morada, cheias de curiosidade.

Ali estava o corpo da Mulher, agora sim, só, estendido no mesmo catre que servira ao velho companheiro. Sobre o corpo a velha capa, sobre a capa um papel, para o rei. Nesse papel ela dizia:

«Meu senhor. Deixo-vos a capa que tenho desde que nasci. Encontrei nela todo o ouro que diziam que eu tinha: foi o meu velho companheiro que, antes de se ir embora, aí o meteu. Eu nunca o tinha visto e agora que vi não preciso dele. Utilizai-o nesta terra para que todos tirem dele o que mais desejarem. Afi- nal, a minha capa era uma capa rica. Que o meu Deus vos abençoe.»


03 - Sesimbra – (o Pescador Zimbra e Maria)  

3

Sesimbra – (o Pescador Zimbra e Maria)

Sesimbra

23

A estória de Zimbra e Maria contra o tirano opressor… (o nome de Sesimbra..)

 

«Era senhor daquelas terras um homem tirânico que de todos exigia vassalagem…

«Certo dia, Zimbra e Maria decidiram casar… e ele recusou ao tirano o direito que exigia a todas as donzelas…

 

Zimbra e os casais amigos criaram uma nova aldeia junto a praia…

 

«Quando soube disto, o tirano teve uma fúria imparável. Juntou quanta gente pôde e, sequioso de vingança, jurou não parar enquanto não desfizesse todas as esperanças de Zimbra e dos rebeldes.

Mas Zimbra e os habitantes do novo povoado sabiam o que os esperava. A pé firme, como quem espera o embate bruto do mar, esperaram a hoste do senhor. Estavam dispostos a tudo por Zimbra que lhes dera a sua coragem:

- Se Zimbra quiser...

E Zimbra quis, mais uma vez. Quando aquela bruta onda de gente embateu nos seus corpos, resistiram serenos porque tinham o conhecimento íntimo de que a fúria dura um momento. Calmos, desfecharam os seus golpes no inimigo que sobre eles se abatia e num gesto de sabedoria mataram o tirano e todos os seus homens.

Ficaram livres do jugo secular e injustificável dos tiranos da terra. Agora era-lhes possível fazer do seu povoado uma terra de verdadeiros pescadores:

- Se Zimbra quiser...

 

E Zimbra, pela terceira e última vez, quis. De tal modo o quis que, muito tempo depois, quando Afonso Henriques conquistou o velho castelo fronteiro ao mar, era Sesimbra que lhe chamavam.»

04 - Lenda de Alcácer do Sal

4

Lenda de Alcácer do Sal

Alcácer do Sal

29

A estória de Almira e D. Gonçalo…

 Uma estória de Almira, a menina que ficou esquecida, abandonada, quando D. Afonso II (1217) conquistou a SALÁCIA, como se chamava então… e os mouros fugiram em debandada… foi criada no castelo como cristã e sabia que se chamava ALMIRA… aprendeu alaúde, que tocava como ninguém e fazia poesia… e assim rivalizava com qualquer trovador…

Até que apareceu um cavaleiro de nomo D. Gonçalo… a quem ela, secretamente, dedicou uma canção apixonada “Meus olhos, lembro-vos eu.”…

 «D. Gonçalo ouvia. D. Gonçalo ouvia, mas não se atrevia. Bem sabia D. Gonçalo que aqueles «meus olhos» eram seus. Mas D. Gonçalo ouvia e não se atrevia.

Até que, uma noite, D. Gonçalo ouviu e atreveu-se.

Almira tocava alaúde baixinho, quase em surdina, como um suspiro interior. O cavaleiro, encostado às ameias do terraço da torre, ergueu timidamente a voz, e os olhos, e cantou:

 Mais digna de ser servida

Que senhora deste mundo,

Vós sois o meu deus segundo

Vós sois meu bem desta vida.

Vós sois aquela que amo

Por vosso merecimento,

Com tanto contentamento

Que, por vós a mim desamo.

 

A vós só é mais devlda

Lealdade neste mundo

Pois sois o meu deus segundo

E meu prazer desta vida.

 

Almira ouviu. Sentiu a vida fugir-lhe por um instante sem tempo. Depois, quando conseguiu voltar a ser, endireitou seu corpo de espiga, olhou o cavaleiro e, sussurrando como um vento que mal toca a copa das árvores, disse, apenas:

- Oh!, meu senhor D. Gonçalo!

 

O resto não conta a lenda, mas diz quem sabe que em certas noites de luar de Agosto ouvem-se os sussurros dos dois amantes que eternamente se quiseram encantados nas muralhas da velha Salácia romana.

05 – Grândola

5

Grândola

Grândola

35

   

GRÂNDOLA

(Insignificante em 1527… veio a receber FORAL, 20 anos depois devido a D. Jorge de Lencastre, filho legitimado de D. João II…)

 «Diz a tradição que o fundamento do pedido do foro da vila se situa no facto que vou contar:

«Certo dia, estava D. Jorge à janela do seu palácio, viu sair do mato um enorme javali que passou quase por debaixo da varanda. À pressa, mandou ajuntar todos os seus monteiros, subiram para os cavalos e partiram, rápidos, à desfilada em perseguição do animal. Mas o bicho conseguiu escapar e, segundo D. Jorge, porque nesse dia faltara à montaria o seu mais destro e ousado caçador.

Este, porém, faltara por ter de comparecer a uma audiência judicial em Alcácer do Sal, e não por negligência. A sua ausência forçada fora devida ao facto de Grândola ser tão insignificante que nem serviço de justiça tinha.

D. Jorge, para obstar a que seus homens se ausentassem dali e evitar a repetição deste desagradável incidente, solicitou a D. João II que concedesse foral de vila e justiças a Grândola, o que veio a acontecer em 22 de Outubro de 1544. A partir de então, a nova vila começou a progredir. D. Jorge mandou construir boas casas de habitação e atraiu à vila inúmeras famílias nobres e ricas que também edificaram casas para residência permanente.»

06 - Lenda de Mileu - Veiros – Estremoz

6

Lenda de Mileu

Veiros - Estremoz

39

 

Lenda de Mileu (Ver outra NS Mileu perto da Guarda Estação)

«Perto de Estremoz – numa localidade chamada Veiros… existe uma ermida medieval… - a ermida de Nossa Senhora de Mileu…

«Os cristãos, que andavam amanhando os campos em redor do castelo, dando-se conta do número imenso de mouros que cavalgava sobre eles, debandaram em completa desordem para se recolherem nas muralhas de Veiros. Em correria cega de pavor, avançavam em grandes magotes para a única porta do castelo ainda aberta quando, de súbito, foram obrigados a estacar. Em frente uma mulher sereníssima, com uma criança sentada no seu braço esquerdo, sorria aos fugitivos levantando o braço livre como quem manda parar.

Ante o apavorado espanto dos portugueses, bradou-lhes a mulher:

- Atrás, portugueses, atrás! Para cada mil eu! Eu combaterei por vós!

- Cada mil, eu – exclamaram a um tempo os fugitivos atónito - receosos. - Cada mil, eu!

Tão rápida foi esta cena, como rápido o restabelecimento da ordem e da coragem. Com súbito ânimo, voltaram para trás os camponeses e, juntamente com os doze cavaleiros do castelo, desbarataram o poderoso exército mouro. E conta-se que nem um único inimigo ficou vivo sobre o campo.

07 - Lenda de Maia - Ammaya - Portalegre

7

Lenda de Maia

Portalegre - Ammaya

43

 

  Lenda de Maia – AMMAYA – Portalegre

 «Maia, filha de Lísias, ocupava os seus dias nas margens do ribeiro, cuidando do seu rebanho. Diz-se que era formosa e serena e que as suas horas eram de uma alegria profunda. Talvez por isso, Tobias, guardador de rebanhos, se sentava a seu lado, dias e dias, tocando a flauta de Pã, descuidado e inocente.

Um dia, porém, apareceu Dolme, o vagabundo, que, enfeitiçado pelo som da flauta e entusiasmado pela beleza calma de Maia, irrompeu entre os pastores amedrontando-os com a sua súbita aparição. Tobias, sobressaltado, correu a esconder-se atrás de um rochedo; Maia, enleada, pegou docemente na sua cabaça e enchendo-a no ribeiro ofereceu-a hospitaleira ao recém-chegado.

Aceitou Dolme a oferta, mas, propositadamente, ao recebê-lo, deixou cair a cabaça e agarrou Maia, que, estupefacta e assustada, chamou Tobias. Veio o pastor em seu auxílio e empurrou Dolme para o afastar da amiga. O vagabundo, porém, era astucioso, ágil, habituado a lutar pelo que desejava. Enrolou-se com Tobias num combate sem tréguas e, num golpe de força, cravou-lhe no peito o machado de pedra que consigo trazia.»

08 - Estremoz (Estremoços – Tremoceiro) – Estremoz

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Estremoz (Estremoços – Tremoceiro)

Estremoz

49

Estremoz (Estremoços – Tremoceiro)

 «… o escudo de armas foi decidido pela população do lugar, quando D. Afonso III lhe concedeu o primeiro foral, em 1258.

Nessa época dos primórdios da nacionalidade, chegou à colina, onde hoje se ergue Estremoz, um grupo de pessoas provenientes de Castelo Branco, gente foragida, não se sabe bem por que razão. O grupo era constituído por várias famílias que, dada a sua situação, encontraram naquele local praticamente ermo, um refúgio seguro. Contudo, para se abrigarem não acharam senão uma frondosa árvore de tremoços que durante algum tempo lhes serviu de tecto.

Com o tempo chegaram àquela povoação nascente outras pessoas que foram ficando e construindo novas casas, até que o aglomerado se tornou suficientemente importante para merecer a atenção de D. Afonso III. O Rei, ao conceder aos habitantes da vila a sua carta de foral, inquiriu que nome e armas deveria dar ao povoado, ao que lhe respondeu o povo que se lhe chamasse Estremoços (nome que então era dado aos tremoços) e que nas armas da cidade fosse incluído o Tremoceiro, o Sol e a Lua. O Tremoceiro porque de debaixo dele surgira a povoação, o Sol e a Lua porque haviam sido os únicos bens que tinham achado aquando da sua chegada.

09 - O Lidador – Beja

9

O Lidador - Beja

Beja

53

O Lidador – Beja

  «Depois de deixar o sinal da sua espada em muitas armaduras árabes, Gonçalo Mendes da Maia vibrou pela derradeira vez a arma, abrindo o crânio de um cavaleiro mouro. Nesse esforço jorrou-lhe o sangue pela ferida, de tal maneira que caiu morto no campo. Assim morria um cavaleiro curtido por mais de oitenta anos de combate!

 A batalha, porém, não terminara ainda. Apesar dos olhos turvados pelas lágrimas e do cansaço de muitas horas de luta, Mem Moniz e Lourenço Viegas retomaram a batalha com uma fúria insana. Pouco depois uma espadeirada do Viegas abriu em dois o crânio de Ali-Abu-Hassan, gritando enquanto as lágrimas se misturavam ao sangue jorrado do inimigo:

- Lidador! Lidador! Foi o toque da fugida, a morte do rei de Tânger.

10 - Alvito – (Alvitre – Alvíssaras) – Alvito – Beja

10

Alvito – (Alvitre – Alvíssaras)

Alvito - Beja

61

Alvito – (Alvitre – Alvíssaras) - Alvito – Beja

 «Havia nesse dia uma corrida de touros e quando os homens tratavam de os meter nos curros, um deles escapou. Desatou a correr pela povoação fora e, atrás dele, algumas pessoas. O animal corria furiosamente, quem sabe se para escapar à morte que adivinhava esperá-lo.

 Como estava um dia muito quente, pouco a pouco os perseguidores do touro foram desistindo, até que só ficaram dois, mais resistentes e corajosos, que acabaram por capturar o bicho.

 Levaram-no de volta à povoação, depois de terem descansado os três sob um chaparro. Quando entraram na vila com o touro preso por uma corda, levaram-no até ao meio da praça, gritando:

 - Alvitre, alvitre! - que quer dizer alvíssaras.

 Daqui, explica o povo, nasceu o nome de Alvito.»

11 - Giraldo Giraldes, "O Sem-Pavor” – Évora

11

Giraldo Giraldes, "O Sem-Pavor”

Évora

65

Giraldo Giraldes, "O Sem-Pavor” – Évora  

«A partir desse instante, tudo foi fácil para o guerreiro. Dentro da câmara da torre, puxou da espada e degolou a moura e o mouro sem um gesto de indecisão, sem um sentimento de piedade. Foi tão rápido que não lhes deu tempo para alarmes, para um gesto sequer.

 Depois, fez sinal aos companheiros, que subiram pelo mesmo processo que ele e, uma vez todos juntos, conquistaram facilmente a cidade adormecida e descansada.

 Instalado como senhor da grande Yebora, Giraldo decidiu entregá-la ao rei de quem era vassalo, apesar da aparente liberdade de movimentos de que gozava. Assim, mandou um seu escudeiro, Pedro Álvares Cogominho, levar as chaves da cidade a Coimbra, onde Afonso Henriques tinha a corte, e este, em troca do inestimável serviço, nomeou-o alcaide-mor de Évora, enviando-lhe, simultaneamente, soldados e colonos cristãos.

 Giraldo Giraldes aceitou o cargo que o rei lhe enviou como recompensa, mas o sossego de uma cidade entregue aos afazeres da paz não era de molde a contentar o seu espírito aventureiro e um dia partiu para novas conquistas, muitas delas lado a lado com Afonso I.

12 - O Milagre de Ourique – Ourique – Castro Verde

12

O Milagre de Ourique

Ourique – Castro Verde

73

   

O Milagre de Ourique – Ourique – Castro Verde

 «Os guerreiros cristãos, porém, levaram a melhor. Em breve, os mouros sobreviventes fugiram pela planície fora, deixando o solo pejado de corpos mutilados de cadáveres e moribundos. Do lado cristão também eram muitos os mortos e feridos, mas os sobreviventes proclamavam a vitória gritando excitados:

 - Real! Real! Por Monso, Rei de Portugal!

 Diz a tradição que nesse momento, e em memória do acontecimento, o rei pôs no seu pendão cinco escudos, representando os cinco reis mouros que derrotara. Pô-los em cruz, pela cruz de Nosso Senhor, e dentro de cada um mandou bordar trinta dinheiros, que por tanto vendera Judas a Jesus Cristo.

 Esta é a patriótica lenda com que os Portugueses quiseram perpetuar um facto que na realidade foi bem diverso.

13 - O Barbadão – Pêro Esteves – Veiros – Ermida NS Mileu

13

O Barbadão – Pêro Esteves

Veiros – Ermida NS Mileu

81

 

O Barbadão – Pêro Esteves

Veiros – Ermida NS Mileu

 «Num destes passeios conheceu Inês Feres, filha de um homem-bom da vila de Veiros, sem foros de fidalguia. Conta a lenda que D. João se enamorou de Inês e a raptou, numa altura em que Pêro Esteves andava na guerra, cometendo um acto considerado desonroso para consigo mesmo e para com a donzela.

 Não se sabe quanto tempo durou o entusiasmo de D. João, mas é provável que durante alguns anos o Mestre tenha vivido com Inês Feres, que dele teve, pelo menos, dois filhos: D. Afonso, futuro duque de Bragança, e D. Beatriz, que casou com um conde inglês.

 Segundo diz a tradição, Pêro Esteves, sabendo da desonra de Inês enquanto estava na guerra, voltou a Veiros, onde deixou crescer a barba e nunca mais, em vida sua, pôs os olhos naquela sua única filha.

 

Foi a partir de então que as gentes da vila, reconhecendo naquela barba crescida e insólita um sinal de extrema honradez moral, passaram a alcunhar Pêro Esteves de «o Barbadão».

14 - Lenda da Fonte Mouro – Beja – a nordeste

14

Lenda da Fonte Mouro

Beja – a nordeste

85

 

Lenda da Fonte Mouro

Beja – a nordeste

 «Assim, numa noite de Agosto, em que o luar inundava a perder de vista a planície alentejana, Atanásio chegou ao portal da horta onde já Aldonça o esperava, acocorada junto a um muro para se esconder na sombra. Ao ver chegar o amante encheu-se-Ihe o coração de alegria e de gratidão por Alá. Ergueu os olhos ao céu numa muda oração de agradecimento pelo paraíso que antevia abrir-se-Ihe e, nesse momento exacto, um estranho caso aconteceu:

 Aldonça transformou-se em fonte, Atanásio transmudou-se em serpente.

 Conta a lenda que a Alá não aprazia esta união de diferentes religiões e, por isso, encantou para todo o sempre aquele par de namorados.

 Dizem as gentes da terra que em noites de luar, especialmente em Agosto, se vê muitas vezes a cobra bebendo naquela fonte as longas saudades de Aldonça.

15 - A Tesourinha da Moura – Mértola – arredores

15

A Tesourinha da Moura

Mértola - arredores

89

A Tesourinha da Moura

Mértola - arredores

 «Ao chegar a casa contou à mulher o que lhe acontecera e por fim, quando ia a tirar os figos do bolso do colete, encontrou no lugar deles seis moedas de ouro. A mulher desatou logo a ralhar com ele:

 - Ó homem, pois então a moura dá-te figos que são ouro e tu só trazes isto?! Valha-te Deus, que estás mas é a ficar taralhouco! Vai mas é buscar o resto, antes que a cobra volte à cova, vai depressa, ouviste?!

 O homem, que não sabia bem se havia de temer mais o bicho ou a mulher, lá foi, dizendo mal à sua vida. E quando passou pela cobra, disse-lhe, para que ela não desconfiasse:

- Adeus, senhora moura! Vou outra vez ao campo, que me esqueci de uma coisa!

 Mas a moura sabia tudo:

- Não vais, não! Não te esqueceste de nada, o que tu querias era mais figos, mas já não há! Olha, leva daqui qualquer coisa que te sirva.

 E estendeu ao homem o seu açafate da costura, donde ele sacou uma tesourinha com cabos de ouro e pedras preciosas. Partiu e a moura ficou a dizer-lhe adeus com um estranho sorriso.

 A caminho de casa, o homem, que ia distraído com os seus pensamentos, escorregou à beira de uma ladeira, caiu, espetou a tesoura no peito e morreu.

16 - A Casa da Moura Zaida – Avis – anta Casa da Moura

16

A Casa da Moura Zaida

Avis – anta Casa da Moura

93

  A Casa da Moura Zaida

Avis – anta Casa da Moura  

«Ante a quantidade e variedade das riquezas, o rapaz sentia-se incapaz de escolher.

- Anda, é tudo teu!

- Tudo meu, tudo meu?!

- Ora diz-me: entre tudo isto, o que preferes?

- Estou doido, senhora, doido! Não sei, não sei... olhe, senhora moura, basta-me a senhora! Não quero mais nada…

Acabadas que foram de proferir estas palavras tudo ruiu como se não tivesse passado de um sonho. A moura e o rapaz viram-se, subitamente, frente à anta intacta. Ao lado de ambos, sob o chapéu da anta, estavam duas arcas, uma de ébano, outra de marfim, cheias de maravilhosas jóias rebrilhando fantásticas ao sol. Do lado de fora esperava-os uma mula branca, também ela rica de jaezes.

 O rapaz colocou as arcas nos alforges da mula e sentou a moura em cima do animal, depois de lhe beijar a mão. Desceram o monte, ela a cavalo na besta, ele segurando-lhe as rédeas.

Estava um dia maravilhoso de sol e nunca mais ninguém os viu.

Ficou a anta, a Casa da Moura, e ficou a lenda para eu vo-la contar.»

17 - Lenda de Moura Salúquia – Moura

17

Lenda de Moura Salúquia

Moura

99

 

Lenda de Moura Salúquia

MOURA  

«Entraram os falsos mouros como uma rajada de sangue. Impossível resistir ao seu ímpeto. A população, porém, quando percebeu o ardil, tentou a todo o custo impedir que os cristãos chegassem ao palácio de Salúquia.

Esta, pálida mas serena, sem lágrimas já para chorar, mandou encerrar as portas do seu palácio. Trouxeram-lhe as chaves no momento exacto em que os irmãos Rodrigues chegavam às suas portas. Vendo que os cristãos se preparavam para as arrombar, Salúquia, lentamente, cheia de dignidade, subiu ao ponto mais alto do minarete, apertou as chaves numa das mãos e, elevando uma prece a Alá, num impulso rapidíssimo atirou-se para o vazio. Um imenso grito doloroso soou de todas as bocas: «Salúquia!»

 Por momentos, logo depois do baque do corpo no chão do terraço, pararam mouros e cristãos, parou a própria Natureza. Na esplanada do castelo estava agora o corpo da moura apertando as chaves numa mão. Um fio de sangue escorria mansamente da sua boca entreaberta.

 Correu um cristão com o intuito de lhe arrebatar brutalmente as chaves, mas um gesto de Álvaro Rodrigues deteve-o. Esmagado pela heroicidade daquela mulher, curvou-se para lhe limpar do rosto belíssimo o sangue da sua própria traição. Nesse momento, da dobra do manto de Brafma caiu uma rosa branca, estranhamente manchada de sangue, que foi pousar suavemente sobre os lábios frios de Salúquia. A flor cumpria a derradeira súplica do mouro enamorado e trazia-lhe o beijo nupcial.»

 E desde aí esta terra cristã passou a chamar-se MOURA…

As Arcas de Montemor – Montemor-o-Novo

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As Arcas de Montemor

Montemor-o-Novo

107

 

As Arcas de Montemor

Montemor-o-Novo

«Achou-os porque era fácil achá-los. Trouxe-os pela mão à presença do senhor de Montemor, que entretanto gastara todo o ódio, todo o medo amealhara no convencimento dá solidão irremissível. Por isso, talvez, o terem-lhe encontrado uns olhos vazios e mortos.

- Aqui estão eles, senhor.

- Não vejo! Onde?! Sombras, sombras horríveis... Não os vejo... Só estas sombras, e tenho medo!

-Pai, pai... perdoa-me! Perdoa-me pelo que eu nunca diria! Perdoa-lhe pelo que ele sabia e te disse!

- Senhor, aqui estamos... Casámos... Dá-nos a tua bênção, que queremos viver na paz e contigo! De repente o velho começou baixo a falar, sozinho:

 - Casados?! Nunca! Pensam que eu conheço o perdão, que estou um pouco velho, um pouco louco! - E acrescentou, num tom em crescendo: - Casados? E querem-se felizes? Ah, ah, ah, amaldiçoados, isso sim! Vós e todos os vossos até ao fim dos tempos! Mas... aqui tendes a minha prenda, gozai-vos dela. Olhai bem, olhai e escolhei porque uma destas arcas está cheia de ouro e a outra... de peste! Escolhei, escolhei... ah, ah, ah!

Assustados, fugiram ambos quando o velho louco se chegou bem perto deles com o seu hálito de insânia. Nunca mais ninguém os viu, mas é provável que tenham sido os pais de todo o Montemor inteiro, porque até hoje ainda ninguém ousou abrir as duas arcas nupciais enterradas no recinto do velho castelo, uma cheia de ouro, outra cheia de peste.»

 

 

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