CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
I
"O compadre Bernardo"
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno I, Nº 2, Fevereiro
de 1899, Série I, pp. 29 e 30
(da Tradição oral - Brinches)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
O
COMPADRE BERNARDO e a COMADRE MORTE
 
(Ver
tb Beira Baixa Adolfo Coelho)
(Beira Baixa) Adolfo Coelho - in Contos Populares Portugueses
«Havia,
numa aldeia que não era muito grande, um casal com
tantos filhos que já tinham convidado todas as pessoas
para padrinho de algum deles
Mas
o chefe do casal, que se chamava Bernardo, tinha uma regra:
não podia ter como compadre ou comadre alguém
por duas vezes
E
tiveram mais uma menina que era preciso baptizar
Deitou-se
Bernardo ao caminho disposto a convidar a primeira mulher
que encontrasse no caminho, mesmo desconhecida, e não
fosse madrinha de nenhuma outra irmã
Já
ao terceiro dia de jornada, encontrou no meio de uma charneca
donde só se via mato e céu, uma velha, muito
velha desconhecida:
-
Atão paa onde anda perdido, irmão?
- Não ando perdido
ando à procura duma
madrinha para a minha filha
- Se não quiser ir mais longe, eu ofereço-me
mas é melhor saber o eu nome, para poder decidir, caso
queira escolher outra
eu sou a Morte. Se aceitar lá
estarei de hoje a oito dias para a baptiso
e logo lhe
deu um taleigo de dinheiro para as primeiras despesas
Ia
dizer
mas com o taleigo nas mãos, chegou a casa
e logo a mulher:
-
Atão encontraste madrinha
- Encontrei. Chama-se Morte!!!
A mulher ia a dizer
mas quando viu o taleigo: Oh, até
podemos andar uns tempos sem trabalhar!!! E aceitaram
Chegou
o dia aprazado. A Morte compareceu e de volta do caminho da
igreja, a comadre chamou o compadre de lado e completou o
presente:
-
Não tenha o compadre Bernardo grande cuidado que até
pode fazer de médico
Sempre que for chamado para
um doente, eu lá estarei
e se me vir ao fundo
da cama, pode receitar o que quiser que a pessoa não
morre
E
assim foi
e a fama do compadre Bernardo correu mundo
até chegar aos ouvidos do rei que tinha uma filha muito
doente
Nenhum dos físicos chamados, nem os mais
afamados davam com a cura
um conselheiro do rei que
já tivera uma filha com a doença da princesa
e chamara o compadre Bernardo recomendou-lho.
O
compadre Bernardo compareceu e, mal entrou, ficou aterrado
e desmorecido (caiu-lhe a balsa em baixo
): a comadre
Morte estava presente e estava à cabeceira da cama
da princesa
De
repente teve uma ideia: Pediu aos criados que virassem a cama
às avessas
e a princesa ficou curada
A
comadre Morte foi atrás dele e ameaçou: Isso
não te ensinei eu. Mais uma esperteza e tu serás
o próximo
Ele
bem jurou que não repetiria, mas a ameaça ficou
a pairar
Chegou
a casa, contou tudo à mulher
despediu-se e foi-se
disfarçar:
-
Se a comadre Morte por aqui passar diz que não sabes
de mim há mais de três dias e que fui para fora
Andou
disfarçado por todo o lado e um dia até andou
na retouça com a rapaziada nova no meio do largo da
igreja
apareceu a comadre e perguntou à rapaziada:
-
Ó rapaziada, não viram por aqui o meu compadre
Bernardo?
E
logo ele muito confiado no disfarce:
-
Vimos, vimos
era aquele rapazola que deitou a fugir
logo que a comadre apareceu
-
AH sim?! É o mesmo. Como não está aqui
o meu compadre Bernardo, levo aqui este velho pelado!!!»

ver versão brasileira in Jangada
Brasil
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