CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
II - O Lobo e a Zorra
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno I, Nº 2, Fevereiro
de 1899, Série I, p. 45-47
(da Tradição oral - Brinches)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
O
Lobo e a Zorra

"Era
uma vez uma zorra
um dia, ao passar por um monturo
encontrou umas botas velhas e enfiou-as nas mãos
para não se enlamear
depois de muito andar
sem encontrar nada meteu-se no mato e encontrou o compadre
lobo
-
Ó comadre zorra, onde comprou essas botas?
- Fui eu que as fiz!
- Quanto custariam umas para mim?
-As minhas custaram três carneiros, duas ovelhas e
quatro borregos
para o compadre, poderiam custar um
boi, quatro carneiros, três ovelhas e uns cinco ou
seis carneiros
- OH, isso é muito caro
- Como as patas do compadre são muito grandes precisam
de mais cabedal!...
O
lobo pensando que as botas o livrariam de alguma pua que
o impedisse de caçar, aceitou e foi à procura
das referidas cabeças de gado
Logo que conseguiu foi entregá-los à zorra
e combinaram a entrega
-
uns quinze dias, - respondeu a zorra
Passados
os quinze dias o lobo foi à procura da comadre, mas
não a encontrou
Voltou ao outro dia e mais
outro
e começou a desconfiar que fora enganado
e jurou vingar-se
"Andando
a pensar no engano, um dia, por acaso, encontrou a comadre:
-
Então maldita comadre, as minhas botas?
- Não se zangue compadre. É que a pele do
boi é muito rija e precisa de mais uns dias para
a cortimenta. - respondeu ela com muita doçura!!!
O
lobo não acreditou e ameaçou-a. Ela deitou
a fugir e meteu-se num buraco, mas com tanta pressa que
deixou o rabanzoilo de fora. O lobo apanhou-lho e gritou:
-
Agora não me escapas. Ficas assinalada.
Ao
sair do buraco, a zorra aflita tenta descobrir como havia
ela de se confundir com as outras. Subiu a um outeiro e
deu dois regougos e apareceram todas as zorras daqueles
sítios
Ela apresentou-se
disse que era
nova naqueles sítios e que lhes queria ensinar uma
dança muito divertida que tinha aprendido num país
donde acabava de vir
Para aprender a dança
elas teria de atar todas os rabos umas à outras
e logo que as viu atadas, a matreira da zorra gritou:
-
Hoje já não posso ensinar mais que em além
uma jolda (quadrilha) de caçadores com uma matilha
de podengos
Salve-se quem ouder!!!
Deitaram
todas a correr e, na carreira desordenada foram arrancando
os rabos umas às outras que era o que ela queria
Um
outro dia o lobo encontra-a e grita:
-
agora é que não me escapas
és
tu a única sem rabo que eu arranquei.
- Eu, compadre lobo?!!! Eu sou nova aqui e donde eu venho
nenhuma zorra tem rabo e as daqui também
quer
ver? - E convidou o compadre para ir ao tal outeiro
onde deu dois regougos
e o lobo pode ver então
que era moda as zorras não usarem rabo
E
aí o lobo lá se convenceu que não era
aquela que o tinha enganado!!!
