CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
III - Dois gallegos encontrando-se (*)
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno I, Nº 2, Fevereiro
de 1899, Série I, p. 47
(da Tradição oral - Brinches)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
*Como
é que os ALENTEJANOS chamam e ouvem os BEIRÕES
(Cópia e adaptação para
manter a grafia da pornúncia por joraga, para Alma
Alentejana - Área Cultural - 2009.09)

Dois
gallegos encontrando-se
"Era
uma vez dois gallegos que marchavam no mesmo caminho, em direcção
opposta. Esbarrando um no outro, diz um delles:
-
"O' xeu diabo! bóxê é txégo
ou não entxêrga?"
-
"Entxêrga é prima irmã da albarda!"
respondeu o outro zangado.
-
"Albarda xerá boxê!"-diz o primeiro
ainda mais zangado "xe não fôxe porquê
já lh'eu cascaba!..."
-
"Xe não fôxe porquê, já eu
cascaba em bóxê!... Ó xeu diabo! quem
é bóxê?"
-
"Eu xou filho da Biubinha e neto do Carcabian, que nan
conhexe o bem que lhe fájem nem o pan que lhe dan.)
-
"Oh! diabo! xeremos nós irmão,.,?!
-
"Pois xeremos."
-
"Então que notixias me dás do nóxo
pae?"
-"O
nóxo pae morreu;" - diz seccamente o gallego "caiu
d'um coibal abaixo e fez trinta réis de despeja.
-
" E então a nóxa burra?"
-
"A nóxa burra tambem morreu"- respondeu o
gallego chorando.
-
Oh! diabo! então choras por nóxa burra, e nan
choras por nóxo pae?!"
-
A nóxa burra lebaba a gente a cabailo, e nóxo
pae não; e a burra custou dinheiro, e o pae não."
-
Bem, n'êxe cájo: adeus, adeus! e até á
oitra bista."
Da tradição oral Brinches)
ANTONIO ALEXANDRINO.
(*) Os laboriosos habitantes das nossas provincias
da Beira, são conhecidos, injustamente, no Alemtejo
pelo nome de gallegos. L.P.
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Ver
tb:in blogdaruanove
De
Fernando Namora - Retalhos da Vida de um Médico, transcrevem-se
os dois primeiros parágrafos do conto Um Homem do Norte:
"O
homem do Norte é, para o alentejano, o galego. O galego
que veio de longe, com a sua iniciativa e a sua miséria,
desbravar as desoladas charnecas do Sul. as vilas e as herdades
cresceram com a ajuda desses emigrantes, e o alentejano, lento,
inviolável, não esquece mais o melindre de ter
sido empurrado pela perseverança dessa gente que veio
de lugares onde um homem, de pernas alargadas, assenta um
pé em cada courela. São galegos. Galegos que
vieram comer o pão e colher alguns dos frutos da planície
imensa, das distâncias sem limites, onde os olhos se
dilatam de horizonte e a melancolia cresce como os lagos trigo.
Os alentejanos têm na memória os matos que chegavam
à soleira da porta, os minguados farrejiais que ninguém
pensava em alargar, mas não perdoam que outros tenham
colaborado na conquista da terra. Ainda hoje, quando chegam
os ranchos do norte, já raros, chegam como inimigos:
o camponês alentejano encara-os como competidores do
salário, o comerciante aborrece esses miseráveis
que disputam um centavo, contentando-se com broa e saramagos,
que se assustam com a vizinhança de cafés e
cinemas; e até o lavrador, que deles precisa e os chamou,
vê neles uma raça de servos.
O médico, que é quase sempre do Norte, o professor,
e sobretudo o que veio nos tempos da conquista da planície
e se fixou, gozando uma posição à custa
de nervos e economia, encontraram nos mais inesperados momentos
um insulto que representa uma nódoa desgraçada:
galegos!"
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