CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
IV - O Pedro Malas-Artes
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno I Nº 4, Abril
de 1899, Série I, p. 47
(da Tradição oral - Brinches)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
O
PEDRO MALAS-ARTES
"Um
lavrador e uma lavradora, que viviam num monte, viram que
precisavam de um moço para os ajudar nos trabalhos
do campo.
Diz
a lavradora, um dia, para o lavrador:
- Tu devias ir à vila procurar um rapaz para nos aviar
os mandados, para ir ao mato e ao poço, e para guardar
os poços
Vai mas não me tragas nenhum
que se chame Pedro. Não queremos Pedros cá em
casa
de modo nenhum
Mal
chegou à vila o lavrador encontra um rapaz:
- Ó moço, tu queres concertar-te lá para
o nosso monte, para aviar os mandados, para ir ao mato e ao
poço, e para guardar os poços?
- Quero, sim senhor.
- Como te chamas?
- Pedro.
- Oh! Diabo. Não me serves - e continuou caminho à
procura de outro rapaz
Andou,
andou e encontrou outro rapaz que era o mesmo disfarçado
e foi o mesmo
Procurou, procurou e, sempre que perguntava
o nome: era Pedro
- Oh! diado
Então nesta terra só há
Pedros!!!
- E quantos moços o senhor procurar tantos Pedros há-de
achar
- pois era ele o Pedro Malas-Artes, exactamente
aquele que a mulher do lavrador não queria de maneira
nenhuma
-
Mas que remédio! O que não tem remédio,
remediado está. Queres então vir tu para os
serviços que eu procuro?
- Quero, sim senhor, mas com uma condição: "Aquele
que se zangar, perde o que há-de ganhar"
- Trato feito. O que é preciso que faças bem
o trabalho
Chegaram
ao monte e logo que a mulher soube o nome, logo se pôs
a barafustar
Mas como não havia outro com outro
nome aceitaram - "Pois ele sempre há-de fazer
o que lhe mandarem". Como o rapaz disse que sim, a lavradora
mostrou-se conforme.
Logo
no primeiro dia mandaram-no ao mato. Logo que ouviu a ordem
o moço tratou de arranjar quantas cordas podia e, mal
chegou ao mato, começou o enrolar as cordas todas à
roda dele
a enrolar
a enrolar
e andou nisto
horas e horas
Os
outros serviços esperavam e, fartos de esperar, diz
o lavrador:
- Olha bem isto! Parece que o rapaz não vem de lá
hoje. - e já para o zangado: - Não tenho outro
remédio senão ir à busca dele
mas
lembrou-se da contrata e lá foi para o mato em busca
do rapaz.
Quando
o encontrou naqueles preparos tentou perguntar, sem se zangar,
o que é que estava a fazer?
- Eu, senhor meu amo, ando enrolando o mato todo e assim que
o conseguir levo o mato todo lá para casa e não
vai ser preciso voltar a buscar mais. Isto é que é
serviço!!!
Perante tamanho disparate, o lavrador ia a zangar-se, mas
logo se lembrou do que tinham acordado no acto de concertar
e lá teve que apanhar algum mato com o rapaz para levarem
algum para casa
Logo
depois mandaram-no ao poço buscar água
Ele fez o mesmo: apanhou quantas cordas podia e, chegando
lá, pôs-se a enrolar o bocal do poço
Como nunca mais aparecia
lá foi o lavrador, ainda
mais zangado, mas sem o poder mostrar, pegou numa quarta e
lá foi direito ao poço. Ao ver outro disparate
igual, perguntou e o moço respondeu:
- Atão não é melhor enrolar aqui o bocal
do poço e arrastá-lo para casa e já não
é preciso vir buscar a água!!! O meu amo está
zangado? - Não que ideia? E tu, estás? - Não,
de maneira nenhuma!!!
E lá tiveram que encher a quarta e levá-la para
casa.
Mandaram-no
depois guardar os poços
- mas vê lá
não os metas nalgum atasqueiro!
O moço soltou os porcos, andou, andou e logo encontrou
um grande lamaçal. De que é que se havia de
lembrar? Foi esconder os porcos por detrás de uma altura,
cortou-lhes os rabos e as orelhas e veio enterrá-las
à vista no lamaçal, duas orelhas adiante e um
rabo atrás e correu ao monte a gritar que os poços
estavam atascados. Logo correu o lavrador aflito e não
via senão orelhas e rabos
Ia a zangar-se, mas
não podia
Tentou salvar um puxando as orelhas
e os rabos mas como estas lhe ficavam nas mãos, mandou
o Pedro ao monte, para pedir à lavradora que lhe desse
as três enxadas maiores que lá tivesse
Chego o moço ao monte e diz para a patroa:
- Ó Senhora minha ama, o senhor meu amo que me desse
as três taleigas maiores com dinheiro que cá
tiver
- Qual quê, não pode ser
-
ai não acredita? Atão enha aqui à porta
e perguntamos se não são ordens dele
Chegaram
à porta do monte, à vista do amo e gritou o
Pedro: - Senhor meu amo, atão não são
as três maiores? - São as três maiores,
com mil diabos
E
a lavradora lá teve que dar as três
Logo
que se apanhou com as três taleigas, Pedro rasgou a
fugir pelo outro lado do monte
encontrou uma ovelha
tirou-lhe as tripas e meteu-as por baixo da camisa
encontrou
uma lavadeiras a lavar num barranco e pediu-lhes uma navalha
elas tinham uma navalha
e ele rasgou a camisa dizendo
à mulheres que as tripas pesavam muito e queria ficar
mais leve para fugir ainda mais que levava muitas pressas
Quando
o lavrador, já desesperado de esperar, veio ao monte
e a mulher lhe conta o engano, deitou a correr pelo caminho
por onde o Pedro tinha fugido
encontrou a ovelha morta,
mas não ligou com as pressas
e logo a seguir
encontrou as lavadeiras no barranco
- Atão viram por aqui um rapaz assim assim
- Vimos,
sim senhor
e até nos pediu esta navalha emprestada
para se livrar das tripas que lhe pesavam muito
e rasgou
a barriga e logo caíram essas tripas todas
e
deitou a fugir que nem um raio
Então o lavrador pediu a navalha, por favor, para fazer
o mesmo e logo ali ficou estendido
E
assim, o Pedro Malas-Artes se viu livre do amo
e pode
gozar o dinheiro que roubou
"
-------------------------------
Ver
versão
do Algarve
Outras
adaptações

|