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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
V - O LOBO E AS TRÊS FORTUNAS
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno I Nº 5, Maio
de 1899, Série I, p. 76, 77
(da Tradição oral - Brinches)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

O
LOBO E AS TRÊS FORTUNAS
Um
dia, um lobo que já há três dias não
conseguia caçar nada para comer, acordou resfriado
e deu três espirros
Pensou que seria bom augúrio
e disse para consigo:
- Hoje é o meu dia de sorte e parece que vou ter três
fortunas

Logo que
se pôs a caminho e deu com dois carneiros guerreando
Chegou-se a eles sem sentirem e passou-lhes um raspanete:
Que desordem
é essa? Aqui já não há rei nem
roque?
Ó senhor lobo
bem sabemos que nos mata e come,
mas primeiro resolva-nos aqui uma dúvida: este meu
amigo que é doutro rebanho diz que esta pastagem é
do dono dele e aquela é que é do meu dono, mas
eu digo que não
Ora o senhor lobo podia ver se
este marco está em endireito com aquele além
O lobo armado em marcador de extremas, pôs-se a olhar
muito atento, até que levou uma valente marrocada que
o deixou sem sentidos

Ao acordar
da pancada, lá pensou que as três fortunas seriam
mais de azar
mas lá seguiu o seu caminho e logo
avistou no meio de um vale uma égua muito velha e magra
e uma filha que andavam pastando
- Ora aí estará
a minha primeira fortuna. A mãe está velha e
magra e a filha é muito nova para me fazer mal
Pediu desculpa á égua e disse que teria de a
matar pois há dias que não comia
Aí a égua até disse que se lhe fizesse
primeiro um favor, até lhe dava a filha que seria um
melhor petisco
e qual era o favor? Ora é só
tirar um cravo ou uma pua que se me cravos na pata e não
pára de me incomodar
- Ora, por tão pouco e tão bom petisco, vamos
lá a isso - e mal se armou em alveitar de bestas, levou
tamanho coice que lhe escangalhou os queixos e ela e a filha
correram para casa do dono

Ainda
atordoado, passado um oiteiro, encontrou uma porca com bacorinhos
Ando tão dorido e com tanta fome, senhora poça,
que tenho de comer os teus porquinhos
Ó senhor lobo, eu nem me importo, mas ainda não
foram baptizados
Se os senhor os baptizar
depois
vai-os comendo e vão-lhe fazer melhor proveito
É só subir para cima do bocal daquele poço,
eu vou-lhe dando os porquinhos um a um, você deita-lhes
a água e pode comê-los
Mal o apanhou na borda do poço, armado em baptizador
de porcos, a porca deu-lhe tal trombada que ele caiu para
dentro do poço
Ela fugiu com os filhos e ele
teve muita sorte em conseguir sair do poço.
Em seguida
encontrou uma vaca e reparou que tinha uma corda atada na
pata traseira
- Mas que sorte! Como as três fortunas
me saíram mal, eu chego ali, agarro a corda, enleio
a vaca, a vaca cai e aí está o meu almoço
de três dias!
Agarrou a corda
e mal sentiu, a vaca deitou a correr
e levou de arrojo pelo chão a caminho da casa do dono
até que a corda se partiu
e ele ficou em mísero
estado!!!
Mas ainda
disse, lastimando-se:
"Quem te manda lobo ser marcadore de extremas, alveitar
de bestas e baptizador de porcos? E, se a corda não
se parte, ou o nó não se desata, inda ia morrer
a casa do dono da vaca!"
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