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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
VI - A MORTE DE TRÊS GALLEGOS
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno I Nº 5, Maio de 1899, Série I, p. 77, 78
(da Tradição oral - Brinches)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]

A MORTE DE TRÊS GALLEGOS

«Numa occasião vieram ao Alemtejo fazer azeite, tres gallegos (mestres de lagar de azeite), que combinaram voltar juntos, á sua terra (*).
Assim que cá chegaram, foi cada um para o seu lagar; mas como os lagares não acabassem a moenda ao mesmo tempo, succedeu que o mestre do lagar que fechou primeiro, foi a um dos outros dois lagares, e disse para o lagareiro:
- "O' camarada! einton queres alguma cousja lá para a terra! Sce quisjéres, eu martxo para lá ámanhan."
Respondeu o outro:
- "Oh diabo! einton nós non combinámos boltar juntos?!"

"Pois é herdade, mas como sçabes, ficando eu cá, fásço mais despêsja, e eu bim para ganhar - e non para gastar. J
- "Pois sçim, mas olha: sce queres, ficas aqui comigo, e eu dou-te de comer e dormir".
- "Pois bem, nêsce cásjo fico."

Passados dois dias, fechou tambem aquelle lagar, e em seguida marcharam ambos os gallegos caminho do lagar, onde se achava o terceiro gallego. Dirigindo-se a este, participaram-lhe que estavam de marcha para a terra. Mas elle, que não queria ficar só, disse aos dois camaradas:

- "Fiquem mais tres ou quatro dias, até eu acabar; eu lhes dou de comer, e dormimos aqui todos."

Os outros dois camaradas acceitaram a proposta, e ali se conservaram até fechar o lagar.
Depois, puzeram-se os tres gallegos a caminho, quando o mais velho diz para os outros:

- "O' rapazes! nós bâmos fâsjer uma cousja:"
Perguntam os outros:
"Einton o que é, camarada?"
"E' non entrarmos em poboasções, ainda ascim, nalguma estalagem, os ladrões non sçaiban que nós lebâmos dinheiro. E einton, o melhor é dormirmos scempre no campo."
- "E' herdade, tem rasjão" - responderam os dois camaradas.

Como a jornada era grande e o pão se acabou ao fim de oito dias, os gallegos passando por umas amoreiras carregadas de fructo já maduro, subiu cada um para a sua arvore, afim de saciarem a fome, comendo amoras. Nesse mesmo dia, escureceu-se-lhes num escampado (descampado), onde havia tres azinheiras muito grandes. Diz o mais velho:

- "O' rapásjes! o melhor é sçubirmos cada um para scima da sçua asjinheira por causja dos bitxos.
Effectivamente, cada um subiu para cima da sua azinheira; mas dahi a pedaço chegou uma quadrilha de ladrões, que se foi pôr debaixo da azinheira do meio. E estenderam uma manta no chão para contarem o dinheiro que tinham roubado esse dia.
Quando se ia principiar a contar o dinheiro, diz o capitão para um dos ladrões:

- "O' fulano! acende lá uma fogueira para se ver melhor."
Acendeu-se a fogueira, e como era de palha de centeio, desenrolou-se uma grande chama e uma enorme fumaceira, a ponto que o pobre gallego, que estava em cima da azinheira, teve de começar a mecher-se. Os ladrões, ouvindo barulho em cima da arvore, olharam e viram o gallego todo afflicto. Mas não lhe perdoaram! Obrigaram-no a descer, apanharam-lhe o dinheiro e depois mataram-no.
Nesta occasião, diz um dos ladrões: - "Caramba! Já havia muito tempo que não via um diabo com o sangue tão negro!"

Ouvindo isto, respondeu um dos outros gallegos:
- "Pudéra! não ha de ter o sçangue negro, sce elle comeu amóras!...."

Os ladrões olhando para a azinheira donde vinham estas palavras, viram outro gallego, que obrigaram da mesma forma a descer, para o roubarem e matarem.
Quando o estavam matando, diz um outro ladrão:
- "Este diabo morreu por falar."
- (Por isço eu" -diz o terceiro gallego - "estou aqui muito caladinho."
- "Olá!" - disseram os ladrões - "você tambem ahi está? … Pois então venha cá para baixo, que lhe queremos tambem fazer as contas."
O pobre do gallego não teve mais remedio senão descer da azinheira, e os ladrões fizeram-lhe o mesmo que tinham feito aos outros dois.

(Da tradição oral)
(Brinches).
ANTONIO ALEXANDRINO.

(*) Os mestres de lagar d'azeite ou lagareiros eram antigamente, nesta região, individuos vindos das nossas provincias do Norte. Ainda hoje se vêem desses homens em varios lagares da margem esquerda do Guadiana.
O mister de lagareiro, entre os habitantes da Beira, era - segundo a tradição - tão estimado, que os paes, ao lançarem a benção aos filhos, diziam: "Deus te taça arcebispo ou lagareiro no Alemtejo."
Na bôca do povo - e ainda a proposito de gallegos - corre a seguinte quadra:

"O gallego lá da Beira,
Baptisado na caldeira,
Com vergonha d'ir á missa,
Com sapatos de cortiça,"

 

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