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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
VII - "O Grão de Milho"
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno I, Nº 6, Junho
de 1899, Série I, pp. 29 e 30
(da Tradição oral - Brinches)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
O
GRÃO DE MILHO
«Havia
uma mulher casada e que vivia com um grande desgosto porque
não tinha filhos.
Muitas
vezes dava consigo a pensar: Quem me dera ter um filho, mesmo
que fosse só do tamanho de um grão de milho
E foi o que veio a acontecer

Um
dia que ela não podia ir levar o jantar ao marido que
trabalhava no campo e nem tinha por quem o mandar disse em
desabafo:
Logo hoje que não posso e não tenho ninguém
quem é que há-de levar o jantar? O meu filho
com certeza não será capaz
Ora essa! Então não sou?... Aparelhe a Senhora
minha Mãe a burra e logo vai ver
A mulher albardou a burra, montou o filho em cima e pôs-lhe
a cesta do jantar adiante
Vai então e depressa e diz ao teu pai que, logo que
acabe o jantar, venha um instante aqui a casa que +e um assunto
urgente
As
pessoas que viam passar a burra, com um cesto em cima e sem
ninguém a segurar comentavam muito admiradas
Quando
chegou junto do pai, este olhou muito admirado e o rapaz teve
de gritar que estava ali
Então, o homem, lá
foi tirar o cesto da janta e desceu-o
Ao
meio-dia jantaram e no fim o rapaz deu-lhe o recado da mãe
Atão fica aí a tomar conta dos bois enquanto
eu vou e volto
e sobretudo, não os deixes ir
para aquele coival
Ainda
bem o homem não tinha partido, desatou a chover e o
Grão de Milho não encontrou melhor sítio
para se abrigar e foi meter-se dentro duma couve
Os
bois, mal se viram sem guarda, logo se atiraram ao coival
que era mais apetitoso e um comeu a couve onde estava o Grão
de Milho e papou-o
Quando
o pai chegou e viu os bois no coival, logo viu que dera asneira
e desatou a bradar pelo filho
Este gritou da barriga
do boi:
Ó pai, mate o nosso boi Lobato, que eu lhe darei dinheiro
para três ou quatro
O
pai lá se convenceu e matou o boi
e como habitual,
deitaram as tripas fora, onde ia o Grão de Milho.
Um
lobo que passou enquanto os pais amanhavam o boi, comeu as
tripas e engoliu o Grão de Milho
logo a seguir,
quando o lobo ia para assaltar um rebanho, gritava o Grão
de Milho: Ó pastor, aí vai lobo
e assim
o lobo ficou sem se poder governar
Esganado com fome
o lobo teve de comer umas ervas ruins e apanhou uma diarreia
Com a diarreia saiu o Grão de Milho e foi levar-se
ao barranco
Vendo-se
finalmente livre, ao correr para casa, caiu a noite, e teve
de se refugiar numa gruta
Ora era essa uma gruta onde
os ladrões iam dormir e escondiam o que roubavam
Daí
a bocado chegou uma grande quadrilha com um roubo muito grande
e logo se puseram a contar o dinheiro. No fim puseram-se a
dividi-lo uma parte a cada um
Então e para mim? Então e para mim? Gritava
o Grão de Milho a cada volta
Aqueles
valentões apanharam tal susto que antes de acabarem
a repartição, desataram fugir com o que puderam
e deixaram a maior parte
Ao
outro dia, o Grão de Milho foi a casa, disse ao pai
para aparelhar três boas bestas e fosse com ele
Lá foram à dita gruta
Carregaram as três
bestas com os sacos que encheram e o Grão de Milho
lá ia dizendo:
Então pai, não lhe dizia: "Se matar o boi
Lobato, eu lhe darei dinheiro para três ou quatro?!"
(da
Tradição oral - Brinches)
António ALEXANDRINO

(Ver
tb, por exemplo, no cantinho
dos miudos
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