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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
VIII - "A Zorra e a Cegonha"
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno I, Nº 7, Julho
de 1899, Série I, pp. 111 e 112
(da Tradição oral - Brinches)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
A
ZORRA E A CEGONHA
"Uma
vez, uma zorra que andava muito invejosa pois ouvia dizer
em toda a parte que as cegonhas eram muito espertas quis encontrar
uma para a enganar
Nesse
dia, encontrou uma cegonha num vale e convidou-a para ir jantar
com ela no dia do seu aniversário
No dia
combinado a cegonha apareceu em casa da zorra e ela acabava
de tirar umas papas do lume e tiro-as para arrefecer
Logo que arrefeceram deitou-as numa laje e convidou a cegonha
a comer dizendo que estava que nem "ginja-marmelo"
(o que quer dizer excelentes
)
Puseram-se
a comer, mas enquanto a zorra lambia tudo, a cegonha, coitada,
só depenicava pois não conseguia apanhar com
o bico

Tendo
percebido que tinha sido enganada para a envergonhar, a cegonha,
sem se dar por achada, convidou a zorra para o seu aniversário
que seria daí a uns dias
até já
tinha encomendado em borreguinho para a festa! A zorra ficou
logo com água a crescer na boca pois há tempos
que não apanhava um cordeiro tenrinho!
Ora quando
a zorra chegou a casa da comadre cegonha, esta tinha preparado
um apetitoso brorrego, mas serviu-o em salada, numa "amentolia"
(almotolia - muito afunilada em cima e larga em baixo
)
Ora com esta habilidade, a cegonha, com o bico, comeu a carne
toda e a zorra que não podia meter a língua
na amentolia, ficou a ver navios

Nem teve
tempo para se mostrar zangada pois logo no fim do jantar armou-se
uma valente trovoada e como a zorra se queria vingar, perguntou
o que era aquilo
A zorra explicou: aquilo são "vodas del cielo"
e eu vou para lá agora pois há sempre comida
com fartura. Quer a comadre vir comigo para ver com seus próprios
olhos!
A zorra
que tinha ficado esfomeada aceitou o convite e lá foi
nas costas da cegonha
Quando se viu lá muito
alto começou a arrepender-se
Então a cegonha,
quando passava por cima de um grande rochedo
fez uma
volta mais apertada e a zorra caindo a pique gritava para
o rochedo: "Arreda, arreda, rochedo
arreda, arreda,
penedo
arreda, rocha que te parto
arreda, pedra
que te parto
(da Tradição
oral - Brinches)
António ALEXANDRINO
(Ver
em Metáforas
infantis;e no Sótão
da Inês e Fábulas
de La Fontaine - Livro I - Fábula nº 18...)
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