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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
IX - "O Era e não Era"
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno I, Nº 9, Setembro de 1899, Série I, pp. 143 e 144
(da Tradição oral - Brinches)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]

O ERA E NÃO ERA

"Havia numa aldeia dois compadres; um era muito rico e outro muito pobre. O rico não tinha família, e o pobre tinha dois filhos.
Um dos filhos, achava o pae que era parvo e o outro muito esperto.

Aquelle que o pae julgava parvo, pô-lo a guardar gado, e o outro, queria que fosse padr-e. Mas, como, para fazer o filho padre, o pae não tinha dinheiro, foi ter com o compadre rico e pediu-lho emprestado, dizendo que o filho lhe pagaria em dizendo missa.
O compadre rico emprestou o dinheiro ao compadre pobre, e o filho deste foi para a escola.

Mas, desgraçadamente, o rapaz nunca foi capaz de passar do "livro de seis vinténs"! Ora, o compadre rico, sabendo disto, foi a casa do compadre pobre e disse-lhe:
"Então, compadre! como hás-de (O povo pronuncia: há-des) tu agora pagar o que me deves, se o teu filho nem ao menos foi capaz de passar do "livro de seis vinténs"?! Mas olha, há um meio de me pagares. Sabes que meio é?"
"Eu não, senhor compadre" - respondeu o compadre pobre.
"Pois bem. Esse meio é arranjarem-me uma mentira que seja maior que o Padre-nosso. Dou-lhes para isso sete dias; e no fim desse tempo, se a tiverem arranjado, perdoo-te a dívida."

Em vista disto, o pae e o filho (esperto) puzeram-se a combinar que mentira haviam d'arranjar. Estavam já no sexto dia, e não arranjavam nada, se o filho, que elle achava parvo, não viesse a casa essa noite.

Esse filho, vendo-os muito tristes da sua vida, perguntou-lhes:

"Então, o que teem, que estão tão tristes?"

O pae contou-lhe o que havia, e elle respondeu:

"Bem. Não lhe dê isso cuidado, que eu vou a casa do meu padrinho.

" No outro dia, foi logo a casa do padrinho, e, assim que lá chegou, disse-lhe:

"Sabe, padrinho, o que eu venho cá fazer hoje? Venho contar-lhe um caso."

"Era uma vez um era e não era,
que andava lavrando na serra,
com um boi calhandro e outro carrapato,
quando lhe foi a noticia
que o pae era morto e a mãe por nascer.
Vae, o homem o que havia de fazer?
Poz os bois ás costas e o arado a comer.

"D'ali foi por um valle abaixo
e encontrou um ninho de cartáxo com cinco ovos de bitárda (abetarda).
Deitou-os á burra preta e tirou-os a burra parda,
saindo-lhe dois leões, que nem galgões.
Um dia foi á caça com os seus galgões,
e subindo um valle abaixo,
viu uma laranjeira carregada de romãs.
Foi acima della e colheu marmellos.
Veiu para baixo e apanhou maçãs.
Nisto, vem de lá o dono do meloal e diz lhe:
"Ó seu amigo!
quem lhe deu a Vócê licença de colher favas do olival que não é seu?"
E atirando-lhe com um tarrão (torrão), deu-lhe com um melão,
que, acertando-lhe na testa, lhe fez sangue num artelho.

D'ali foi contar umas colmeias, não as deu contadas.
Foi contar as abelhas, faltava-lhe uma.
Foi á busca da abelha, encontrou sete lobos comendo nella.
Assim que viu isto, atirou-lhes com uma machadinha que levava.
Os lobos fugiram, deixando ainda uma perna da abelha.

"Aquella perna, espremeu-a, e ainda lhe deu sete canadas de mel.
"Mas, como não tinha onde o metter,
tirou um piolho e fez da pelle um surrão e deitou-lhe o mel dentro.
"Foi á busca da machadinha, não a encontrou,
E puxando fogo ao matto, ardeu o ferro e ficou-lhe o cabo;
mas o barbeiro, trabalhando sete dias e sete noites, saiu-lhe um anzol.

"Um dia foi á pesca e apanhou uma burra com cangalhas e tudo.
"A burra, com o trabalho, fez-se-lhe uma matadura,
e elle foi logo a casa do ferreiro para lhe ensinar alguma coisa.
O ferreiro ensinou-lhe um alqueire de favas torradas.

"Ora, com o calor das favas, a burra morreu,
tendo por isso de a levar para o almargem.
Dahi a tempos, passou por aquelle sitio
e viu um faval nascido no lombo da burra.

"Ficou muito admirado;
e, quando foi tempo de ceifar o faval,
foi lá e encontrou-lhe dentro uma porca javarda com sete javardinhos.
Assim que a viu atirou-lhe logo com a fouce que levava,
e o cabo tanchou-se-lhe no rabo.

"A javarda. como se sentia ferida,
começou a fugir para todos os lados,
de maneira que, com a foice ceifava,
com as ventas limpava,
e com as patas debulhava.

"E o faval, padrinho, deu tantas favas,
que vendeu sete quarteiros
e ainda mandou ao padrinho um presente,
que era muito mais que as que vendeu!"

- "Ó afilhado!" - respondeu o padrinho - "isso é mentira! … "
- "Pois, padrinho, foi isso mesmo que eu cá vim fazer, para lhe pagar o que meu pae lhe devia."

(Da tradição oral)
(Brinches).
ANTONIO ALEXANDRINO.

(Pode ver outras variantes em várias recolhas como... contos populares do Alentejo)

 

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