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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
IX - "O Era e não Era"
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno I, Nº 9, Setembro
de 1899, Série I, pp. 143 e 144
(da Tradição oral - Brinches)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
O
ERA E NÃO ERA

"Havia
numa aldeia dois compadres; um era muito rico e outro muito
pobre. O rico não tinha família, e o pobre tinha
dois filhos.
Um dos filhos, achava o pae que era parvo e o outro muito
esperto.
Aquelle
que o pae julgava parvo, pô-lo a guardar gado, e o outro,
queria que fosse padr-e. Mas, como, para fazer o filho padre,
o pae não tinha dinheiro, foi ter com o compadre rico
e pediu-lho emprestado, dizendo que o filho lhe pagaria em
dizendo missa.
O compadre rico emprestou o dinheiro ao compadre pobre, e
o filho deste foi para a escola.
Mas, desgraçadamente,
o rapaz nunca foi capaz de passar do "livro de seis vinténs"!
Ora, o compadre rico, sabendo disto, foi a casa do compadre
pobre e disse-lhe:
"Então, compadre! como hás-de (O povo pronuncia:
há-des) tu agora pagar o que me deves, se o teu filho
nem ao menos foi capaz de passar do "livro de seis vinténs"?!
Mas olha, há um meio de me pagares. Sabes que meio
é?"
"Eu não, senhor compadre" - respondeu o compadre
pobre.
"Pois bem. Esse meio é arranjarem-me uma mentira
que seja maior que o Padre-nosso. Dou-lhes para isso sete
dias; e no fim desse tempo, se a tiverem arranjado, perdoo-te
a dívida."

Em vista
disto, o pae e o filho (esperto) puzeram-se a combinar que
mentira haviam d'arranjar. Estavam já no sexto dia,
e não arranjavam nada, se o filho, que elle achava
parvo, não viesse a casa essa noite.
Esse filho,
vendo-os muito tristes da sua vida, perguntou-lhes:
"Então,
o que teem, que estão tão tristes?"
O pae
contou-lhe o que havia, e elle respondeu:
"Bem.
Não lhe dê isso cuidado, que eu vou a casa do
meu padrinho.

"
No outro dia, foi logo a casa do padrinho, e, assim que lá
chegou, disse-lhe:
"Sabe,
padrinho, o que eu venho cá fazer hoje? Venho contar-lhe
um caso."
"Era
uma vez um era e não era,
que andava lavrando na serra,
com um boi calhandro e outro carrapato,
quando lhe foi a noticia
que o pae era morto e a mãe por nascer.
Vae, o homem o que havia de fazer?
Poz os bois ás costas e o arado a comer.
"D'ali
foi por um valle abaixo
e encontrou um ninho de cartáxo com cinco ovos de bitárda
(abetarda).
Deitou-os á burra preta e tirou-os a burra parda,
saindo-lhe dois leões, que nem galgões.
Um dia foi á caça com os seus galgões,
e subindo um valle abaixo,
viu uma laranjeira carregada de romãs.
Foi acima della e colheu marmellos.
Veiu para baixo e apanhou maçãs.
Nisto, vem de lá o dono do meloal e diz lhe:
"Ó seu amigo!
quem lhe deu a Vócê licença de colher
favas do olival que não é seu?"
E atirando-lhe com um tarrão (torrão), deu-lhe
com um melão,
que, acertando-lhe na testa, lhe fez sangue num artelho.
D'ali
foi contar umas colmeias, não as deu contadas.
Foi contar as abelhas, faltava-lhe uma.
Foi á busca da abelha, encontrou sete lobos comendo
nella.
Assim que viu isto, atirou-lhes com uma machadinha que levava.
Os lobos fugiram, deixando ainda uma perna da abelha.
"Aquella
perna, espremeu-a, e ainda lhe deu sete canadas de mel.
"Mas, como não tinha onde o metter,
tirou um piolho e fez da pelle um surrão e deitou-lhe
o mel dentro.
"Foi á busca da machadinha, não a encontrou,
E puxando fogo ao matto, ardeu o ferro e ficou-lhe o cabo;
mas o barbeiro, trabalhando sete dias e sete noites, saiu-lhe
um anzol.
"Um
dia foi á pesca e apanhou uma burra com cangalhas e
tudo.
"A burra, com o trabalho, fez-se-lhe uma matadura,
e elle foi logo a casa do ferreiro para lhe ensinar alguma
coisa.
O ferreiro ensinou-lhe um alqueire de favas torradas.
"Ora,
com o calor das favas, a burra morreu,
tendo por isso de a levar para o almargem.
Dahi a tempos, passou por aquelle sitio
e viu um faval nascido no lombo da burra.
"Ficou
muito admirado;
e, quando foi tempo de ceifar o faval,
foi lá e encontrou-lhe dentro uma porca javarda com
sete javardinhos.
Assim que a viu atirou-lhe logo com a fouce que levava,
e o cabo tanchou-se-lhe no rabo.
"A
javarda. como se sentia ferida,
começou a fugir para todos os lados,
de maneira que, com a foice ceifava,
com as ventas limpava,
e com as patas debulhava.
"E
o faval, padrinho, deu tantas favas,
que vendeu sete quarteiros
e ainda mandou ao padrinho um presente,
que era muito mais que as que vendeu!"
- "Ó
afilhado!" - respondeu o padrinho - "isso é
mentira!
"
- "Pois, padrinho, foi isso mesmo que eu cá vim
fazer, para lhe pagar o que meu pae lhe devia."
(Da tradição
oral)
(Brinches).
ANTONIO ALEXANDRINO.

(Pode
ver outras variantes em várias recolhas como... contos
populares do Alentejo)
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