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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
X - "Três gallegos querendo falar à política"
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno I, Nº 12, Dezembro de 1899, Série I, pp. 190 e 191
(da Tradição oral - Brinches)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]

"Três gallegos querendo falar à política"

"Era duma vez tres gallegos, que resolveram vir ao Alemtejo, para aprender a falar á politica (Falar à politica, é uma expressão vulgar, que significa: falar correctamente).

No dia combinado, marcharam os homens. Encontrando uma cidade e passando perto d'um jardim, viram nesse jardim tres individuos de chapeu pinante (chapeu alto) a passear.

Diz logo um dos gallegos: "O' rapazjes, nós bâmos comesçar já por aqui: porque no Alemtejo sção poucos os que sçabem, mas os que sçabem... sçabem como aquelles que sçabem! E estes débem scaber. Pois bóscês não bêem como elles andam bestidos?!."

"Os outros dois gallegos concordaram, e o que teve a lembrança entrou logo para o jardim e foi esconder-se detraz do tarôco (tronco) duma arvore, á espera que os taes tres individuos passassem, a ver se lhes ouvia dizer alguma coisa. Effectivamente, quando os individuos passaram ao pé daquella arvore, disse um delles: "Nós todos três".

O gallego. assim que ouviu estas palavras, não esperou por mais nada, marchou a correr para o logar onde estavam os companheiros e disse-Ihes, endireitando-se todo:
- "O' rapazjes, eu já scêi diszer uma coisja."
- "Einton o que é, camarada?" -perguntaram-lhe os dois companheiros.
- "Nós todos três" - respondeu elle.

Como este gallego já sabia dizer uma coisa, foi um dos outros collocar-se por traz da mesma arvore, e ouviu dizer a um dos mesmos individuos que andavam passeando no jardim: - "Por tres alqueires de sall". O gallego, ouvindo isto, partiu immediatamente para junto dos companheiros e disse-Ihes:
"Eu tambem já scêi dizjer uma coisja, é: Por tres alqueires de sçal."

O terceiro gallego, então, querendo tambem aprender alguma coisa, foi pôr-se atraz da arvore; e, quando os taes individuos por ali passaram, disse um delles: "Tem razão, senhores!". O gallego, mal ouviu estas palavras, foi logo ter com os seus companheiros e disse-lhes: "Eu já scêi muito mais que bóscês!" Os outros, muito admirados, perguntaram-lhe porque? E elle respondeu-lhes: "Scêi muito mais que bóscês, porque já scei dizjer: Nós todos tres, por tres alqueires de sçal, tem rasjão, scenhores!"

O primeiro gallego, que tinha ido escutar dentro do jardim, ouvindo isto, estava já resolvido a ir pôr-se no mesmo sitio, mas como nesta occasião saissem do jardim os tres individuos, disse um dos outros gallegos:

- "Bem. Nós aqui já nun fazjêmos nada, e por consceguinte, o melhor é irmos para oitra terra." Os homens effectivamente marcharam, mas com tão pouca sorte que, na estrada por onde iam, estava um homem morto, e, ainda para mais pouca sorte, chegaram ao pé delle quasi ao mesmo tempo que a Justiça.

Um dos da justiça mandou logo aos gallegos fazer alto e perguntou lhes:
- "Vocês sabem quem era este homem? e sabem quem o matou?"
Ora, como na justiça vinham dois individuos de chapeu pinante, e os meus gallegos queriam mostrar que tambem sabiam falar á politica, disse logo um delles:
- "Nós todos três". Continua o outro: "E por tres alqueires de sçal". Accrescenta o terceiro: "Tem rasjão, scenhores!".

E' claro que a justiça, em vista destas declarações, metteu-os a todos numa cadeia, e, ainda a esta hora, elles lá estarão amaldiçoando a hora em que se lhes metteu na cabeça o aprender a falar á politica.".

(Da tradição oral)
Brinches
ANTONIO ALEXANDRINO.

 

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