|
|
CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
XI - "O Zé Valente"
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno II, Nº 2, Fevereiro
de 1900, Vollume II, pp. 29 e 30
e depois Anno II Nº
3, Serpa, Março de 1900, pp. 45 e 46
(da Tradição oral - Brinches)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
"O Zé Valente"
ERA uma
vez uma viuva, que tinha um filho tão corajoso que
contando já dezasete annos d'edade, ainda não
tinha encontrado coisa nenhuma que lhe mettesse mêdo.
Por isso, na aldeia só era conhecido pelo nome de Zé-Valente.
Este rapaz
era afilhado dum padre, a quem elle ajudava á missa.
Além disso tocava os sinos e fazia outros serviços.
O padre
e padrinho, d'uma occasião, querendo experimentar até
onde chegava a valentia do afilhado, arranjou dois bonecos
de palha de centeio, vestiu-os de branco e poz um na torre
da egreja, agarrado ao badalo do sino, fingindo que estava
tocando ás almas (Toque d'almas: coniste em nove hadaládas,
dadas no sino da freguezia, ás 8 horas da noite, d'inverno,
e ás 9 horas da noite, de verão.), o outro,
no meio da escada da torre. E elle, embrulhado num lençol,
poz-se á porta da egreja, mas do lado de dentro.

O rapaz
quando viu que eram horas d'ir tocar ás almas, foi
para a egreja; e assim que abriu a porta viu logo um vulto
branco. Olhou para o vulto branco e disse-lhe: "O' amigo!
desvia-te para o lado, que eu quero passar, para ir tocar
ás almas."
o vulto não respondeu nem se mecheu. O rapaz tornou
a dizer-lhe que se disviasse, para elle passar; mas o vulto
continuou na mesma. O rapaz então, pregou-lhe uma valente
cacheirada, com uma cachelra de ferro, que elle nunca deixava,
deitando o vulto a terra. Depois de derrubar o vulto, subiu
pela torre. Quando chegou ao meio das escadas, viu outro vulto
branco, e, cuidando que era o mesmo que elle tinha derrubado
á porta da egreja, disse-lhe: "O' ladrão!
já tu aqui estás?!" E immediatamente deu-lhe
outra cacheirada. Depois continuou a subir até chegar
ao cimo da escada. Ahi, vendo um outro vulto, e suppondo que
era ainda o mesmo, já não lhe disse nada: pegou-lhe
nas pernas e deitou-o da torre para baixo. Em seguida, tocou
ás almas e voltou para casa.
No outro
dia foi a casa do padrinho para ir a algum mandado, mas o
padre assim que o viu, disse-lhe: "põe-te na rua,
tratante, e não tornes mais a esta casa".
O rapaz
ficou muito admirado, e, desconfiando que tinha sido o padrinho
que lhe tinha querido metter mêdo, foi para casa e contou
á mãe tudo o que lhe tinha acontecido. Depois
disse: "Mãe, eu vou correr mundo e só volto
quando tiver encontrado uma coisa, que me metta medo".
E antes que a mãe dissesse qualquer coisa, pegou na
cacheira e saiu.
Havia
já uns poucos de dias que elle tinha saido de casa,
quando uma tarde, quasi ao pôr do sol, chegou a um monte
onde pediu agasálho. Mas o lavrador, como não
lh'o podia dar, disse-lhe:
- "O' rapaz! tu vês aquelle monte, que está
naquella altura, no meio das brênhas?"
- "Vêjo, sim senhor" - respondeu o rapaz.
- "Pois bem, eu não posso dar-te o que me pedes,
e se não queres dormir ao frio, vai para além.
Mas acautela-te, porque dizem, que quem lá vai, não
torna."
- "Pois fez bem em me dizer isso, porque agora, ainda
que me deixasse aqui ficar, já eu não queria."
O lavrador
disse depois á mulhér, que desse ao rapaz um
pão, um pedaço de toucinho, uma linguiça
e uma tigéla de fogo, para elle fazer a ceia. A mulhér
do lavrador assim fez, e o Zé Valente, logo que chegou
ao monte, arranjou um braçado de lenha, acendeu o lume,
e tratou de fazer uma friginada (fritada) com a carne que
levava.

Assim
que poz a ceia ao lume, quando elle ouve uma voz vinda de
cima da chaminé, dizendo: "ái que caio
ái que caio
" Zé Valente, ouvindo
isto, pegou logo na cacheira; olhou para cima e disse: "cái
á vontade, mas não me caias em cima da friginada."
Assim que estas palavras foram ditas, caiu um par de pernas,
a que Zé Valente não deu cavaco, continuando,
a dar voltas á carne, que estava dentro da tigéla.
D'ahi
a bocadinho, ouviu a mesma voz dizendo outra vez: "ái
que caio
ái que caio
" Deu a mesma
resposta, e viu cair um corpo sem cabeça (tronco),
que se uniu ás pernas. Zé Valente, então,
disse: "Ora se tu has de cair todo, porque não
caes logo duma vez?" Dito isto, caiu a cabeça,
que foi unir-se ao corpo, transformando-se este num gigante!
O gigante,
encostando os cotovêllos aos joelhos e a cabeça
às mãos, disse para o Zé Valente: "Olha,
eu sou uma alma penada, que só tinha entrada no ceu,
quando encontrasse uma pessoa que não tivesse medo
de mim; e como tu és essa pessoa, quero recompensar-te
o serviço que me fizeste. Além, naquelle canto,
está enterrado um azado cheio de peças de dez
mil reis; cava com esse enxadão e leva-o."
ZÉ-VALENTE
depois d'ouvir isto, levantou a cacheira e disse: "O'
amigo! cava lá tu, que tens muito melhor corpo do que
eu." O gigante, em vista d'esta ameaça, pegou
no enxadão e desatou a cavar até descobrir o
alado. O Zé Valente, assim que viu o azado, disse para
o gigante: "Bom, agora já te pódes ir embora,
que já não me fazes falta". O gigante desappareceu,
e o Zé Valente deitou-se a dormir muito descançadamente.
No outro
dia, de madrugada, como era costume, o padre, o sacristão
e mais quatro homens que levavam a tumba, foram buscar o defuncto
da "alma penada". Mas o padre, assim que entrou,
levou uma valente cacheirada, e o sacristão e os homens
que levavam a tumba fugiram, imaginando que tinha sido a "alma
do outro mundo" que tinha batido no padre.

Nesse
mesmo dia, quando o Zé Valente viu que eram horas,
marchou, e á tarde encontrou no meio duma serra muito
fragosa, um palacete com a porta aberta. Bradou, e, como ninguem
lhe respondesse, entrou, indo dar a uma sala, onde estava
uma mesa posta com tres talhéres, tres copos, tres
garrafas com vinho e tres guardanapos. Como elle estava farto
d'andar, chegou se à mesa e bebeu um copo de vinho
de cada garrafa. E disse depois comsigo: "Deixa-me ver
se encontro para aqui alguma cama para descançar um
pedaço". E, desaldrabando uma porta, viu um quarto
com tres camas e tres lavatorios, e cada lavatorio com a sua
toalha. As bacias eram muito finas e as toalhas muito brancas.
Zé Valente lavou as mãos nas tres bacias e limpou-se
a todas as toalhas, e deitou-se tambem nas tres camas.
Ao fim
de pouco tempo do Zé Valente se ter deitado, entraram
tres individuos no palacio, e chegando a casa do jantar, diz
um delles: "Na minha garrafa falta um copo de vinho!"
Diz outro: "Na minha, falta outro copo!" Diz o terceiro:
"E na minha, tambem falta!" Foram depois para o
quarto, e diz um: "Na minha bacia lavou-se gente!"
Diz logo outro: "Na minha tambem se lavou gente!"
Diz o terceiro: "E na minha, tambem!"
Quando
foram deitar-se, diz um delles: "Na minha cama esteve
gente deitada!" Diz outro: "Na minha. tambem!"
Respondeu então o Zé Valente: "E nesta
cá estou eu. Se alguem quizer dormir commigo, durma,
porque eu é que já daqui me não levanto."
Os homens.
admirados de tanta ousadia, perguntaram-lhe quem era elle.
Zé Valente respondeu simplesmente, que andava a ver
se encontrava alguma coisa, neste mundo, que lhe mettesse
medo. Os individuos depois disseram-lhe que elles eram tres
principes, que andavam em guerra e que matavam muita gente,
mas quando voltavam, já encontravam tudo vivo, outra
vez! Zé Valente, ouvindo isto, respondeu: "Pois
bem. A'manhã tambem eu vou para ver o que isso é!"
No outro
dia quizeram dar-lhe uma espada, mas elle não a acceitou,
dizendo, que tinha bastante com a sua cacheirinha. E marcharam
todos para o sitio da guerra. Assim que lá chegaram,
começaram a peleja. Nesse dia mataram muita gente,
e voltaram os quatro muito mais cedo para o palacio.
No outro
dia, levantaram-se e foram outra vez para a guerra, e quando
lá chegaram não viram ninguem morto! DIZ, então,
o Zé Valente: "Olhem, eu hoje não vou para
o palacio, quero ver o que isto é!"
Depois
da peleja e do inimigo fugir, fizeram uma méda de cadaveres,
e Zé Valente ficou de guarda, em observação.
Ahi por volta das dez ou onze horas da noite, viu elle aproximar-se
uma velha com uma panella na mão. A velha chegou-se
á méda, puxou por um cadaver, untou-lhe o pescoço
com o que levava dentro da panella e uniu a cabeça
ao corpo, e o corpo poz-se de pé. Zé Valente
deixou a velha fazer esta operação a mais dois
ou tres cadaeres, depois deu-lhe uma valente pancada, matou-a
e pegou na panella. E voltou para o palacio, chegando lá
ainda antes de romper a manhã.

No outro
dia os principes ainda queriam ir para a guerra, mas o Zé
Valente disse-lhes: "Não é preciso, porque
está tudo morto. Quem dava vida aos cadaveres era a
velhaca duma velha, que lhes untava os pescoços com
o unto que está aqui nesta panella. E para verem se
é ou não verdade, cortem-me lá as guélas".
Os principes não queriam, mas elle teimou tanto, que
por fim fizeram-lhe a vontade. Mas, depois, quando lhe foram
untar o pescoço, com a atrapalhação em
que estavam, em logar de lhe porem a cara para a frente, puzeram-lh'a
para traz. Quando elle se viu assim, disse: "Bem. Agora
já encontrei uma coisa de que tenho medo; por conseguinte,
ponham-me lá a cara ás direitas, para ir para
casa da minha mãe, porque fiquei de voltar logo que
encontrasse uma coisa de que eu tivesse medo".
Os principes
puzeram-lhe a cara ás direitas, e Zé Valente
voltou para casa da mãe, passando pelo monte onde lhe
apparecera a alma penada, para levar o dinheiro que estava
dentro do azado.
(Da tradição
oral - Brinches)
ANTONIO ALEXANDRINO.
-------------------
ADIVINHAS
O
que é aquilo, que tem dentes e não come;
e tem barbas e não é homem? |
Uma
cabeça de alho |
|
Qual
é a coisa que sobe e desce oiteiros
e está sempre no mesmo sítio? |
Uma
estrada |
|
O
que é aquillo, que quando maior é,
menos pesa? |
Um
buraco |
|
O
que é aquillo que quanto mais rôto está,
menos buracos tem? |
Uma
rêde |
|
O
que é aquillo que tem corôa e não
diz missa,
e tem pernas e não anda? |
Uma
trempe
(Panela
de ferro)
|
|
|