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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
XI - "O Zé Valente"
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno II, Nº 2, Fevereiro de 1900, Vollume II, pp. 29 e 30… e depois Anno II Nº 3, Serpa, Março de 1900, pp. 45 e 46
(da Tradição oral - Brinches)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


"O Zé Valente"

ERA uma vez uma viuva, que tinha um filho tão corajoso que contando já dezasete annos d'edade, ainda não tinha encontrado coisa nenhuma que lhe mettesse mêdo. Por isso, na aldeia só era conhecido pelo nome de Zé-Valente.

Este rapaz era afilhado dum padre, a quem elle ajudava á missa. Além disso tocava os sinos e fazia outros serviços.

O padre e padrinho, d'uma occasião, querendo experimentar até onde chegava a valentia do afilhado, arranjou dois bonecos de palha de centeio, vestiu-os de branco e poz um na torre da egreja, agarrado ao badalo do sino, fingindo que estava tocando ás almas (Toque d'almas: coniste em nove hadaládas, dadas no sino da freguezia, ás 8 horas da noite, d'inverno, e ás 9 horas da noite, de verão.), o outro, no meio da escada da torre. E elle, embrulhado num lençol, poz-se á porta da egreja, mas do lado de dentro.

O rapaz quando viu que eram horas d'ir tocar ás almas, foi para a egreja; e assim que abriu a porta viu logo um vulto branco. Olhou para o vulto branco e disse-lhe: "O' amigo! desvia-te para o lado, que eu quero passar, para ir tocar ás almas."
o vulto não respondeu nem se mecheu. O rapaz tornou a dizer-lhe que se disviasse, para elle passar; mas o vulto continuou na mesma. O rapaz então, pregou-lhe uma valente cacheirada, com uma cachelra de ferro, que elle nunca deixava, deitando o vulto a terra. Depois de derrubar o vulto, subiu pela torre. Quando chegou ao meio das escadas, viu outro vulto branco, e, cuidando que era o mesmo que elle tinha derrubado á porta da egreja, disse-lhe: "O' ladrão! já tu aqui estás?!" E immediatamente deu-lhe outra cacheirada. Depois continuou a subir até chegar ao cimo da escada. Ahi, vendo um outro vulto, e suppondo que era ainda o mesmo, já não lhe disse nada: pegou-lhe nas pernas e deitou-o da torre para baixo. Em seguida, tocou ás almas e voltou para casa.

No outro dia foi a casa do padrinho para ir a algum mandado, mas o padre assim que o viu, disse-lhe: "põe-te na rua, tratante, e não tornes mais a esta casa".

O rapaz ficou muito admirado, e, desconfiando que tinha sido o padrinho que lhe tinha querido metter mêdo, foi para casa e contou á mãe tudo o que lhe tinha acontecido. Depois disse: "Mãe, eu vou correr mundo e só volto quando tiver encontrado uma coisa, que me metta medo". E antes que a mãe dissesse qualquer coisa, pegou na cacheira e saiu.

Havia já uns poucos de dias que elle tinha saido de casa, quando uma tarde, quasi ao pôr do sol, chegou a um monte onde pediu agasálho. Mas o lavrador, como não lh'o podia dar, disse-lhe:
- "O' rapaz! tu vês aquelle monte, que está naquella altura, no meio das brênhas?"
- "Vêjo, sim senhor" - respondeu o rapaz.
- "Pois bem, eu não posso dar-te o que me pedes, e se não queres dormir ao frio, vai para além. Mas acautela-te, porque dizem, que quem lá vai, não torna."
- "Pois fez bem em me dizer isso, porque agora, ainda que me deixasse aqui ficar, já eu não queria."

O lavrador disse depois á mulhér, que desse ao rapaz um pão, um pedaço de toucinho, uma linguiça e uma tigéla de fogo, para elle fazer a ceia. A mulhér do lavrador assim fez, e o Zé Valente, logo que chegou ao monte, arranjou um braçado de lenha, acendeu o lume, e tratou de fazer uma friginada (fritada) com a carne que levava.

Assim que poz a ceia ao lume, quando elle ouve uma voz vinda de cima da chaminé, dizendo: "ái que caio… ái que caio…" Zé Valente, ouvindo isto, pegou logo na cacheira; olhou para cima e disse: "cái á vontade, mas não me caias em cima da friginada." Assim que estas palavras foram ditas, caiu um par de pernas, a que Zé Valente não deu cavaco, continuando, a dar voltas á carne, que estava dentro da tigéla.

D'ahi a bocadinho, ouviu a mesma voz dizendo outra vez: "ái que caio… ái que caio… " Deu a mesma resposta, e viu cair um corpo sem cabeça (tronco), que se uniu ás pernas. Zé Valente, então, disse: "Ora se tu has de cair todo, porque não caes logo duma vez?" Dito isto, caiu a cabeça, que foi unir-se ao corpo, transformando-se este num gigante!

O gigante, encostando os cotovêllos aos joelhos e a cabeça às mãos, disse para o Zé Valente: "Olha, eu sou uma alma penada, que só tinha entrada no ceu, quando encontrasse uma pessoa que não tivesse medo de mim; e como tu és essa pessoa, quero recompensar-te o serviço que me fizeste. Além, naquelle canto, está enterrado um azado cheio de peças de dez mil reis; cava com esse enxadão e leva-o."

ZÉ-VALENTE depois d'ouvir isto, levantou a cacheira e disse: "O' amigo! cava lá tu, que tens muito melhor corpo do que eu." O gigante, em vista d'esta ameaça, pegou no enxadão e desatou a cavar até descobrir o alado. O Zé Valente, assim que viu o azado, disse para o gigante: "Bom, agora já te pódes ir embora, que já não me fazes falta". O gigante desappareceu, e o Zé Valente deitou-se a dormir muito descançadamente.

No outro dia, de madrugada, como era costume, o padre, o sacristão e mais quatro homens que levavam a tumba, foram buscar o defuncto da "alma penada". Mas o padre, assim que entrou, levou uma valente cacheirada, e o sacristão e os homens que levavam a tumba fugiram, imaginando que tinha sido a "alma do outro mundo" que tinha batido no padre.

Nesse mesmo dia, quando o Zé Valente viu que eram horas, marchou, e á tarde encontrou no meio duma serra muito fragosa, um palacete com a porta aberta. Bradou, e, como ninguem lhe respondesse, entrou, indo dar a uma sala, onde estava uma mesa posta com tres talhéres, tres copos, tres garrafas com vinho e tres guardanapos. Como elle estava farto d'andar, chegou se à mesa e bebeu um copo de vinho de cada garrafa. E disse depois comsigo: "Deixa-me ver se encontro para aqui alguma cama para descançar um pedaço". E, desaldrabando uma porta, viu um quarto com tres camas e tres lavatorios, e cada lavatorio com a sua toalha. As bacias eram muito finas e as toalhas muito brancas.
Zé Valente lavou as mãos nas tres bacias e limpou-se a todas as toalhas, e deitou-se tambem nas tres camas.

Ao fim de pouco tempo do Zé Valente se ter deitado, entraram tres individuos no palacio, e chegando a casa do jantar, diz um delles: "Na minha garrafa falta um copo de vinho!" Diz outro: "Na minha, falta outro copo!" Diz o terceiro: "E na minha, tambem falta!" Foram depois para o quarto, e diz um: "Na minha bacia lavou-se gente!" Diz logo outro: "Na minha tambem se lavou gente!" Diz o terceiro: "E na minha, tambem!"

Quando foram deitar-se, diz um delles: "Na minha cama esteve gente deitada!" Diz outro: "Na minha. tambem!" Respondeu então o Zé Valente: "E nesta cá estou eu. Se alguem quizer dormir commigo, durma, porque eu é que já daqui me não levanto."

Os homens. admirados de tanta ousadia, perguntaram-lhe quem era elle. Zé Valente respondeu simplesmente, que andava a ver se encontrava alguma coisa, neste mundo, que lhe mettesse medo. Os individuos depois disseram-lhe que elles eram tres principes, que andavam em guerra e que matavam muita gente, mas quando voltavam, já encontravam tudo vivo, outra vez! Zé Valente, ouvindo isto, respondeu: "Pois bem. A'manhã tambem eu vou para ver o que isso é!"

No outro dia quizeram dar-lhe uma espada, mas elle não a acceitou, dizendo, que tinha bastante com a sua cacheirinha. E marcharam todos para o sitio da guerra. Assim que lá chegaram, começaram a peleja. Nesse dia mataram muita gente, e voltaram os quatro muito mais cedo para o palacio.

No outro dia, levantaram-se e foram outra vez para a guerra, e quando lá chegaram não viram ninguem morto! DIZ, então, o Zé Valente: "Olhem, eu hoje não vou para o palacio, quero ver o que isto é!"

Depois da peleja e do inimigo fugir, fizeram uma méda de cadaveres, e Zé Valente ficou de guarda, em observação. Ahi por volta das dez ou onze horas da noite, viu elle aproximar-se uma velha com uma panella na mão. A velha chegou-se á méda, puxou por um cadaver, untou-lhe o pescoço com o que levava dentro da panella e uniu a cabeça ao corpo, e o corpo poz-se de pé. Zé Valente deixou a velha fazer esta operação a mais dois ou tres cadaeres, depois deu-lhe uma valente pancada, matou-a e pegou na panella. E voltou para o palacio, chegando lá ainda antes de romper a manhã.

No outro dia os principes ainda queriam ir para a guerra, mas o Zé Valente disse-lhes: "Não é preciso, porque está tudo morto. Quem dava vida aos cadaveres era a velhaca duma velha, que lhes untava os pescoços com o unto que está aqui nesta panella. E para verem se é ou não verdade, cortem-me lá as guélas". Os principes não queriam, mas elle teimou tanto, que por fim fizeram-lhe a vontade. Mas, depois, quando lhe foram untar o pescoço, com a atrapalhação em que estavam, em logar de lhe porem a cara para a frente, puzeram-lh'a para traz. Quando elle se viu assim, disse: "Bem. Agora já encontrei uma coisa de que tenho medo; por conseguinte, ponham-me lá a cara ás direitas, para ir para casa da minha mãe, porque fiquei de voltar logo que encontrasse uma coisa de que eu tivesse medo".

Os principes puzeram-lhe a cara ás direitas, e Zé Valente voltou para casa da mãe, passando pelo monte onde lhe apparecera a alma penada, para levar o dinheiro que estava dentro do azado.

(Da tradição oral - Brinches)
ANTONIO ALEXANDRINO.

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ADIVINHAS

O que é aquilo, que tem dentes e não come;
e tem barbas e não é homem?
Uma cabeça de alho
Qual é a coisa que sobe e desce oiteiros
e está sempre no mesmo sítio?
Uma estrada
O que é aquillo, que quando maior é,
menos pesa?
Um buraco
O que é aquillo que quanto mais rôto está,
menos buracos tem?
Uma rêde
O que é aquillo que tem corôa e não diz missa,
e tem pernas e não anda?

Uma trempe

(Panela de ferro)

 

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