|
|
CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
XII - "Animaes fugindo à morte"
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno II, Nº 7, Serpa
Julho de 1900, Volume II, pp. 107, 108 e 109
(da Tradição oral - Brinches)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
Animaes
fugindo à morte

"ERA
uma vez um gallo; e como elle sabia que estava em quinta-feira
de comadres, receava não chegar á quarta-feira
de cinza. Por isso deixou os companheiros, sem lhes dizer
nada, e metteu-se por um caminho, para ver se assim se livrava
da faca.

Perto
do caminho que o gallo levava, havia um monte (casa de campo),
e ao pé d'esse monte andava um rebanho de patos. Um
dos patos perguntou ao gallo:
- "O' compadre gallo, então para onde vai você,
sósinho?"
Respondeu-lhe o gallo:
- "Oh! oh! então você não sabe em
que altura do anno a gente está?"
- "Espere," - disse o pato - "deixe-me cá
fazer bem as contas
"
Depois de ter pensado um pedaço, olhou para o gallo
e disse-lhe:
- "Estâmos em quinta-feira de comadres!"
- "Exacto",- respondeu o gallo - de como eu tenho
muita vontade de cantar na quaresma, vou-me safando, ainda
assim algum diabo não se lembre de me cortar as güélas."
- "E eu vou com você, compadre, porque agora, no
entrudo, tambem costuma morrer muita gente da minha família.
O gallo, contente com a resolução do pato, disse-lhe:
- "Pois venha, compadre, que a união faz a força."

E marcharam
ambos.
No outro dia, pela manhã, passaram por outro monte,
onde andava um rebanho de perus, e um destes perguntou-lhes:
- "Ó compadre gallo e compadre pato, então
para onde vão logo de amanhecida?"
Respondeu o gallo:
- "Não ha que ver, isto para aqui está
tudo parvo. Então você tambem não sabe
em que altura do anno a gente está?"
O peru lá fez as suas contas, e respondeu:
- "Estâmos em sexta-feira de comadres!."
- "Exactamente," -disse o gallo - "e eu mais
aqui o compadre pato, como queremos chegar á quaresma,
vâmos fugindo com as güélas á faca."
- "E eu tambem vou, ainda assim
" - respondeu
o peru.
E lá
continuaram os tres a sua jornada. Mais adiante, encontraram
outro monte, e, no monturo, estava um cão, que
lhes perguntou:
- "O' compadre gallo, compadre pato e compadre peru,
então para onde vão perdidos?"
- "Nós não vâmos perdidos, compadre,
nós o que vâmos é fugindo com as güélas
á faca, porque depois d'amanhã é domingo
gordo."
- "E eu tambem vou com vocês" - disse o cão-
"porque ainda agora roubei um pão, e o pateiro
(caseiro do monte) disse que me havia de partir o lombo com
um cacête."
Os outros, é claro, ficaram muito contentes, porque
já levavam na companhia um defensor muito mais valente.

Mais adiante,
encontraram um rebanho de carneiros, e um dos que andava
de ponta perguntou:
- "O' compadre gallo, compadre pato, compadre peru e
compadre cão, o que andam vocês fazendo aqui
por estes campos?"
Responde o gallo: - "Olhe, eu, o compadre pato e o compadre
peru, vâmos fugindo com as güélas á
faca, e o compadre cão com o lombo a um cacête."
- "Pois olhem," - diz o carneiro - "como na
segunda-feira ha um casamento e eu não quero lá
ir, quer dizer que vou com vocês, ainda assim não
me obriguem a ir á funcção."
E, juntando-se o carneiro aos outros animaes, puzeram-se de
novo a caminho.

No dia
seguinte, viram num outro monte um gato deitado á
soalheira. O gato, apenas viu o cão, ouriçou-se
todo, mas o gallo acudiu logo dizendo:
- "O' compadre gato, não tenha medo que o compadre
cão não lhe faz mal. Bem basta o trabalho em
que elle e nós estamos mettidos! Olhe, eu, o compadre
pato, o compadre peru e o compadre carneiro, vamos fugindo
com as güélas á faca; e elle com o lombo
a um cacête."
- "Se eu soubesse" - diz o gato - "que o compadre
cão não me fazia nada, tambem ia, porque hontem
roubei a carne do jantar, e o pateiro disse que havia de dar-me
um tiro."
O cão, ouvindo isto, disse para o gato:
- O' compadre, visto isso, póde vir foito, que não
lhe faço mal."
O gato, ouvindo falar o cão com tanta franqueza, metteu-se
tambem na companhia, e lá continuaram todos a sua jornada.

Mais adiante,
encontraram no caminho um alforge, e o gallo disse:
- Oh diabo! como havemos nós agora de levar este alforge?"
Responde o carneiro:
- "Como eu sou o que tem mais força, ponham-no
lá ás minhas costas, que eu o levo."

Mais adiante
encontraram uma cabeça de lobo, e diz o cão:
- "O' compadre carneiro! deixe lá metter esta
cabeça ahi numa enxáca, porque isto póde
servir-nos de muito."
Effectivamente,
ao chegarem a uma altura, viram uma matilha de lobos
no meio dum valle. O carneiro, assim que avistou os lobos,
ficou com muito medo, mas o cão, que era valente e
esperto, disse-lhe:
- "O' compadre! não tenha medo. Você quer
ver como elles fogem por essas chapadas (ladeiras) acima?"
Tirou a cabeça do alforge, deu dois latidos e mostrou-a
aos lobos. Estes logo que viram a cabeça dum seu similhante,
desataram a correr, e desappareceram immediatamente.
Nesse
dia., poz-se o sol, estando: elles perto dum monte (casa)
de ladrões; e, como não viram ninguem por
ali, diz o gato:
- "O' compadres, isto é d'inverno, e como eu não
estou acostumado a dormir ao relento, o melhor é entrarmos
n'este monte".
A proposta do gato foi approvada, e os animaes resolveram-se
todos a entrar. Diz logo o gato:
- "Eu deito-me além na borralheira." Diz
o carneiro: "E eu fico aqui atraz da porta."
Diz o gallo: "E eu vou além para aquelle
puleiro."
- "Nesse caso," - disse o cão - "eu
mais o compadre pato e o compadre peru vâmos
para aquella casa."
Mal elles
tinham acabado d'occupar os seus logares, sentiram chegar
uma data d'homens á porta. E ouviram dizer a um delles:
"Eu vou ver se ainda ha para ali alguma brasa."
E, dizendo isto, dirigiu-se logo para a lareira. O gato,
assim que o ladrão lhe chegou ao pé, deitou-se
a elle e arranhou-lhe a cara toda.
O ladrão,
sentindo se ferido, principiou a andar ás apalpadélas,
a ver se encontrava alguma coisa com que podesse defender-se;
mas como sentia nos olhos uns algueiros (argueiros), começou
a esfregá-los. E o carneiro, vendo que elle
não saía d'ali, deitou-se a elle ás marrocadas
(marradas). O ladrão ainda conseguiu safar-se, mas
depois de bem moido. Os outros ladrões, quando viram
o companheiro todo ensanguentado, ficaram admirados, e o capitão
perguntou-lhe:
- "Então o que foi isso?!" - "Ih! Jesus!
foi um ladrão dum cardador que me deu com as cardas
na cara, deixando-me a escorrer sangue; e quando eu andava
á busca dalguma coisa com que podesse defender-me,
um diabo dum alvanéo (pedreiro) deitou-me uma colherada
de cal para os olhos, que me ia cegando, e ainda não
contentes com isto, salta de lá um malhador
e já o diabo malhava bem! Se não encontro a
porta tão depressa, matavam-me com certeza, porque
estão lá uns poucos, e a um diabo dum hespanhol,
só o que eu lhe entendia, era: grú grú
grú
grú grú grú
Mas
ainda assim, do que eu tinha mais medo, era d'outro diabo,
que só o que dizia, era: tragam-m'o cá,
tragam-m'o cá
(Da tradição
oral- Brinche.)
ANTÓNIO ALEXANDRINO
------------------------------------
ADIVINHAS
(só como exemplo):
|
|
O
que é aquilo que quanto maior é menos se
vê? |
A
ESCURIDÃO |
|
|
O
que é aquilo que anda à roda e não
dispõe? |
A
DOBADOIRA |
|
|
O
que é aquilo que se aperta numa mão e não
cabe num caixão? |
O
varejão |
|