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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
XII - "Animaes fugindo à morte"
Por António ALEXANDRINO
In Tradição I vol. Anno II, Nº 7, Serpa Julho de 1900, Volume II, pp. 107, 108 e 109
(da Tradição oral - Brinches)


[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]

Animaes fugindo à morte

"ERA uma vez um gallo; e como elle sabia que estava em quinta-feira de comadres, receava não chegar á quarta-feira de cinza. Por isso deixou os companheiros, sem lhes dizer nada, e metteu-se por um caminho, para ver se assim se livrava da faca.

Perto do caminho que o gallo levava, havia um monte (casa de campo), e ao pé d'esse monte andava um rebanho de patos. Um dos patos perguntou ao gallo:
- "O' compadre gallo, então para onde vai você, sósinho?"
Respondeu-lhe o gallo:
- "Oh! oh! então você não sabe em que altura do anno a gente está?"
- "Espere," - disse o pato - "deixe-me cá fazer bem as contas…"
Depois de ter pensado um pedaço, olhou para o gallo e disse-lhe:
- "Estâmos em quinta-feira de comadres!"
- "Exacto",- respondeu o gallo - de como eu tenho muita vontade de cantar na quaresma, vou-me safando, ainda assim algum diabo não se lembre de me cortar as güélas."
- "E eu vou com você, compadre, porque agora, no entrudo, tambem costuma morrer muita gente da minha família.
O gallo, contente com a resolução do pato, disse-lhe:
- "Pois venha, compadre, que a união faz a força."

E marcharam ambos.
No outro dia, pela manhã, passaram por outro monte, onde andava um rebanho de perus, e um destes perguntou-lhes:
- "Ó compadre gallo e compadre pato, então para onde vão logo de amanhecida?"
Respondeu o gallo:
- "Não ha que ver, isto para aqui está tudo parvo. Então você tambem não sabe em que altura do anno a gente está?"
O peru lá fez as suas contas, e respondeu:
- "Estâmos em sexta-feira de comadres!."
- "Exactamente," -disse o gallo - "e eu mais aqui o compadre pato, como queremos chegar á quaresma, vâmos fugindo com as güélas á faca."
- "E eu tambem vou, ainda assim…" - respondeu o peru.

E lá continuaram os tres a sua jornada. Mais adiante, encontraram outro monte, e, no monturo, estava um cão, que lhes perguntou:
- "O' compadre gallo, compadre pato e compadre peru, então para onde vão perdidos?"
- "Nós não vâmos perdidos, compadre, nós o que vâmos é fugindo com as güélas á faca, porque depois d'amanhã é domingo gordo."
- "E eu tambem vou com vocês" - disse o cão- "porque ainda agora roubei um pão, e o pateiro (caseiro do monte) disse que me havia de partir o lombo com um cacête."
Os outros, é claro, ficaram muito contentes, porque já levavam na companhia um defensor muito mais valente.

Mais adiante, encontraram um rebanho de carneiros, e um dos que andava de ponta perguntou:
- "O' compadre gallo, compadre pato, compadre peru e compadre cão, o que andam vocês fazendo aqui por estes campos?"
Responde o gallo: - "Olhe, eu, o compadre pato e o compadre peru, vâmos fugindo com as güélas á faca, e o compadre cão com o lombo a um cacête."
- "Pois olhem," - diz o carneiro - "como na segunda-feira ha um casamento e eu não quero lá ir, quer dizer que vou com vocês, ainda assim não me obriguem a ir á funcção."
E, juntando-se o carneiro aos outros animaes, puzeram-se de novo a caminho.

No dia seguinte, viram num outro monte um gato deitado á soalheira. O gato, apenas viu o cão, ouriçou-se todo, mas o gallo acudiu logo dizendo:
- "O' compadre gato, não tenha medo que o compadre cão não lhe faz mal. Bem basta o trabalho em que elle e nós estamos mettidos! Olhe, eu, o compadre pato, o compadre peru e o compadre carneiro, vamos fugindo com as güélas á faca; e elle com o lombo a um cacête."
- "Se eu soubesse" - diz o gato - "que o compadre cão não me fazia nada, tambem ia, porque hontem roubei a carne do jantar, e o pateiro disse que havia de dar-me um tiro."
O cão, ouvindo isto, disse para o gato:
- O' compadre, visto isso, póde vir foito, que não lhe faço mal."
O gato, ouvindo falar o cão com tanta franqueza, metteu-se tambem na companhia, e lá continuaram todos a sua jornada.

Mais adiante, encontraram no caminho um alforge, e o gallo disse:
- Oh diabo! como havemos nós agora de levar este alforge?"
Responde o carneiro:
- "Como eu sou o que tem mais força, ponham-no lá ás minhas costas, que eu o levo."

Mais adiante encontraram uma cabeça de lobo, e diz o cão:
- "O' compadre carneiro! deixe lá metter esta cabeça ahi numa enxáca, porque isto póde servir-nos de muito."

Effectivamente, ao chegarem a uma altura, viram uma matilha de lobos no meio dum valle. O carneiro, assim que avistou os lobos, ficou com muito medo, mas o cão, que era valente e esperto, disse-lhe:
- "O' compadre! não tenha medo. Você quer ver como elles fogem por essas chapadas (ladeiras) acima?"
Tirou a cabeça do alforge, deu dois latidos e mostrou-a aos lobos. Estes logo que viram a cabeça dum seu similhante, desataram a correr, e desappareceram immediatamente.

Nesse dia., poz-se o sol, estando: elles perto dum monte (casa) de ladrões; e, como não viram ninguem por ali, diz o gato:
- "O' compadres, isto é d'inverno, e como eu não estou acostumado a dormir ao relento, o melhor é entrarmos n'este monte".
A proposta do gato foi approvada, e os animaes resolveram-se todos a entrar. Diz logo o gato:
- "Eu deito-me além na borralheira." Diz o carneiro: "E eu fico aqui atraz da porta." Diz o gallo: "E eu vou além para aquelle puleiro."
- "Nesse caso," - disse o cão - "eu mais o compadre pato e o compadre peru vâmos para aquella casa."

Mal elles tinham acabado d'occupar os seus logares, sentiram chegar uma data d'homens á porta. E ouviram dizer a um delles: "Eu vou ver se ainda ha para ali alguma brasa."
E, dizendo isto, dirigiu-se logo para a lareira. O gato, assim que o ladrão lhe chegou ao pé, deitou-se a elle e arranhou-lhe a cara toda.

O ladrão, sentindo se ferido, principiou a andar ás apalpadélas, a ver se encontrava alguma coisa com que podesse defender-se; mas como sentia nos olhos uns algueiros (argueiros), começou a esfregá-los. E o carneiro, vendo que elle não saía d'ali, deitou-se a elle ás marrocadas (marradas). O ladrão ainda conseguiu safar-se, mas depois de bem moido. Os outros ladrões, quando viram o companheiro todo ensanguentado, ficaram admirados, e o capitão perguntou-lhe:
- "Então o que foi isso?!" - "Ih! Jesus! foi um ladrão dum cardador que me deu com as cardas na cara, deixando-me a escorrer sangue; e quando eu andava á busca dalguma coisa com que podesse defender-me, um diabo dum alvanéo (pedreiro) deitou-me uma colherada de cal para os olhos, que me ia cegando, e ainda não contentes com isto, salta de lá um malhador… e já o diabo malhava bem! Se não encontro a porta tão depressa, matavam-me com certeza, porque estão lá uns poucos, e a um diabo dum hespanhol, só o que eu lhe entendia, era: grú grú grú… grú grú grú… Mas ainda assim, do que eu tinha mais medo, era d'outro diabo, que só o que dizia, era: tragam-m'o cá, tragam-m'o cá…

(Da tradição oral- Brinche.)
ANTÓNIO ALEXANDRINO

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ADIVINHAS (só como exemplo):

O que é aquilo que quanto maior é menos se vê? A ESCURIDÃO
O que é aquilo que anda à roda e não dispõe? A DOBADOIRA
O que é aquilo que se aperta numa mão e não cabe num caixão? O varejão

 

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