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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
XIII - "O Diabo e a sogra"
Por António ALEXANDRINO
(da
Tradição oral - Brinches)
In Tradição I vol. Anno II, Nº 9, Serpa,
Setembro de 1900, Volume II, pp. 142, 143 e Anno II, Nº
12, Serpa, Dezembro de 1900, Volume II, p. 191.
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

(img:
in - blog.uncovering.org
-)
"o
Diabo e a sogra"
"ERA
uma vez uma estalajadeira que tinha uma filha muito namoradeira,
mas, desgraçadamente, para casar, ninguem a queria.
Um bello dia, disse-lhe a mãe: "Ainda assim, tu
não casarás, ainda que seja com o diabo?!
Ora,
o diabo sabendo d'isto, apresentou-se um dia na estalagem,
fingindo que era negociante, e começou a namorar a
rapariga, pedindo-a logo em casamento. Como a mãe lhe
disse que sim, casaram d'ali a pouco tempo. Está claro
que o tratamento que elle dava á mulher, era como a
pessoa (o diabo)! Effectivamente, quando elle saía
a fazer alguma jornada, á volta, encerrava-se n'um
quarto com a mulher, tirava a chave da porta, e lá
vão estoiros para cima d'ella.
Em
vista d'este mau tratamento, desconfiou a mãe que a
filha estava casada com o diabo. E um dia disse á filha:
- "Parece-me, filha, que tu estás casada com o
diabo; e nós havemos de saber isso com certeza."
Respondeu a filha:
- "Então como havemos nós de saber isso?"
- "Olha, pega n'este rosario de contas, e em elle se
encerrando comtigo, que te comece a bater, atira-lhe com o
rosario para cima, porque se for o diabo, foge com certeza;
e deixa o resto por minha conta."
Effectivamente,
no outro dia, quando o diabo chegou a casa, encerrou-se logo
n'um quarto com a mulher. Mas a sogra, que andava desconfiada,
assim que elle fechou a porta, pegou n'uma garrafa e numa
rôlha e poz a bôca da garrafa ao buraco da fechadura
da porta, que era a unica saída que tinha o quarto.
A
filha, como já estava avisada, assim que elle lhe deu
a primeira pancada, atirou-lhe logo com o rosário para
cima. Mas como o diabo só podia fugir pelo buraco da
fechadura, entrou, sem querer, para dentro da garrafa.
A
velha assim que o apanhou dentro da garrafa, rolhou-a muito
bem e foi deitá-la para umas moitas. Já se vê,
que o diabo, vendo-se preso, só o que fazia era gritar:
"Quem me tira d'aqui, que o faço feliz! quem me
tira d'aqui, que o faço feliz!..."
Perto
das moitas onde estava a garrafa, havia um caminho por onde
já ninguém passava, porque ouviam gritar, e
não viam pessoa nenhuma. Por acaso veiu ali dar um
soldado, que perguntou qual era o caminho mais curto para
a terra aonde elle se dirigia. Todos lhe disseram que havia
um caminho, assim, assim, que era mais perto, mas que ninguem
ia por elle, porque estava lá um medo; e disseram-lhe
que medo era.
O
soldado, ouvindo isto, disse: "pois é mesmo por
esse caminho que eu hei d'ir". E marchou. Effectivamente,
quando se approximou do tal logar, ouviu as taes vozes que
lhe tinham dito, e foi-se chegando para ellas para ver o que
era. Depois de buscar muito, encontrou dentro d'uma moita
uma garrafa, d'onde saíam as vozes. Muito admirado,
perguntou:
-
"Então"que diabo é isto que está
aqui dentro?!"
- "O' camarada, " - responde o diabo - "sou
eu; sou o diabo que estou aqui encerrado. Se me soltares,
faço-te feliz."
- "Então quem diabo te engarrafou?" - perguntou
o soldado, cada vez mais admirado.
- "Foi minha sogra."
- "Então, de que maneira me hasde tu fazer feliz?
- "Olha, vou metter-me no corpo d'uma princeza, e só
de lá sáio quando tu mandares; e como é
uma princeza, com certeza que te hão de dar tudo quanto
pedires. E se quizeres pódes ficar rico."
O soldado, depois d'ouvir estas palavras, soltou o diabo,
que lhe pediu muito que não dissesse nada á
sogra.
Passados
dias, o soldado ouviu dizer que a princeza estava muito doente,
e que ninguem atinava com a molestia. E, lembrando-se da fala
que tinha tido com o diabo, apresentou-se em palacio e disse:
- "Eu sou capaz de curar a princeza, mas para isso é
preciso que me dêem cá uma certa continha."
- "Dou-te o dobro do que tu pedes," - respondeu
o rei - "se fores capaz de a curar."
- Bem, deixem-me só no quarto com ella, e d'aqui a
um quarto d'hora, ou ainda menos, está curada."
"
EM vista da promessa do soldado, consentiram em que elle ficasse
só com a princeza. Assim que o soldado se viu só,
disse: "O' amigo! aqui estou a ver se cumpres a tua palavra."
O
diabo saiu immediatamente do corpo da princeza, e esta apresentou-se
logo curada, ficando todos pasmados do que viam.
O diabo foi dali metter-se no corpo doutra princeza, e o soldado,
carregado de dinheiro, foi gosar dois meses de licença.
A
segunda princeza, assim que o diabo lhe entrou no corpo, sentiu
se logo, é claro, muito doente; e corno constasse,
que no reino de tal havia um homem que já tinha curado
uma princeza da mesma molestia, pediram ao rei dessa nação
que lhes mandasse esse homem.
O
rei mandou logo chamar o soldado e contou-lhe o que havia.
O soldado não queria ir, mas o rei ordenou-lhe que
marchasse, sob pena de morte.
O
soldado, então não teve outro remedio senão
marchar. Chegado a palacio, foi logo ao quarto da princeza,
e, ficando só com ella, tratou de pedir ao diabo que
saisse. O diabo, depois de muito instado, respondeu: "Eu
não sáio porque não quero."
O
soldado, ouvindo esta resposta, lembrou-se da sogra e disse
ao rei: "Vossa Real Magestade ha de ordenar que ámanhã,
pela manhã, repiquem todos os sinos, se puchem todos
os foguetes que estiverem feitos, e salve toda a artilheria
da cidade."
No outro dia, ao romper da manhã, o diabo, ouvindo
tantos repiques, tantos foguetes e tantos tiros d'artilharia,
perguntou:
- "O' soldado, então que novidades ha hoje na
côrte?"
- "O que ha de ser
" - respondeu o soldado
- "é a tua sogra que vem chegando ao palacio."
O
diabo, apenas ouviu falar na sogra, safou-se logo, dizendo
ao soldado; "Olha, amigo; arranja-te cá com ella,
como puderes, que eu vou-me embora para onde nunca mais oiça
falar em tal mulher."
(Da
tradição oral - Brinches)
ANTONIO ALEXANDRINO
Ver
"O diabo e seus parentes" in Jangada Brasil
in http://www.jangadabrasil.com.br/revista/abril65/pn65004a.asp
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