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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
XIII - "O Diabo e a sogra"
Por António ALEXANDRINO
(da Tradição oral - Brinches)


In Tradição I vol. Anno II, Nº 9, Serpa, Setembro de 1900, Volume II, pp. 142, 143 e Anno II, Nº 12, Serpa, Dezembro de 1900, Volume II, p. 191.

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


(img: in - blog.uncovering.org -)

"o Diabo e a sogra"

"ERA uma vez uma estalajadeira que tinha uma filha muito namoradeira, mas, desgraçadamente, para casar, ninguem a queria. Um bello dia, disse-lhe a mãe: "Ainda assim, tu não casarás, ainda que seja com o diabo?!

Ora, o diabo sabendo d'isto, apresentou-se um dia na estalagem, fingindo que era negociante, e começou a namorar a rapariga, pedindo-a logo em casamento. Como a mãe lhe disse que sim, casaram d'ali a pouco tempo. Está claro que o tratamento que elle dava á mulher, era como a pessoa (o diabo)! Effectivamente, quando elle saía a fazer alguma jornada, á volta, encerrava-se n'um quarto com a mulher, tirava a chave da porta, e lá vão estoiros para cima d'ella.

Em vista d'este mau tratamento, desconfiou a mãe que a filha estava casada com o diabo. E um dia disse á filha:
- "Parece-me, filha, que tu estás casada com o diabo; e nós havemos de saber isso com certeza."
Respondeu a filha:
- "Então como havemos nós de saber isso?"
- "Olha, pega n'este rosario de contas, e em elle se encerrando comtigo, que te comece a bater, atira-lhe com o rosario para cima, porque se for o diabo, foge com certeza; e deixa o resto por minha conta."

Effectivamente, no outro dia, quando o diabo chegou a casa, encerrou-se logo n'um quarto com a mulher. Mas a sogra, que andava desconfiada, assim que elle fechou a porta, pegou n'uma garrafa e numa rôlha e poz a bôca da garrafa ao buraco da fechadura da porta, que era a unica saída que tinha o quarto.

A filha, como já estava avisada, assim que elle lhe deu a primeira pancada, atirou-lhe logo com o rosário para cima. Mas como o diabo só podia fugir pelo buraco da fechadura, entrou, sem querer, para dentro da garrafa.

A velha assim que o apanhou dentro da garrafa, rolhou-a muito bem e foi deitá-la para umas moitas. Já se vê, que o diabo, vendo-se preso, só o que fazia era gritar: "Quem me tira d'aqui, que o faço feliz! quem me tira d'aqui, que o faço feliz!..."

Perto das moitas onde estava a garrafa, havia um caminho por onde já ninguém passava, porque ouviam gritar, e não viam pessoa nenhuma. Por acaso veiu ali dar um soldado, que perguntou qual era o caminho mais curto para a terra aonde elle se dirigia. Todos lhe disseram que havia um caminho, assim, assim, que era mais perto, mas que ninguem ia por elle, porque estava lá um medo; e disseram-lhe que medo era.

O soldado, ouvindo isto, disse: "pois é mesmo por esse caminho que eu hei d'ir". E marchou. Effectivamente, quando se approximou do tal logar, ouviu as taes vozes que lhe tinham dito, e foi-se chegando para ellas para ver o que era. Depois de buscar muito, encontrou dentro d'uma moita uma garrafa, d'onde saíam as vozes. Muito admirado, perguntou:

- "Então"que diabo é isto que está aqui dentro?!"
- "O' camarada, " - responde o diabo - "sou eu; sou o diabo que estou aqui encerrado. Se me soltares, faço-te feliz."
- "Então quem diabo te engarrafou?" - perguntou o soldado, cada vez mais admirado.
- "Foi minha sogra."
- "Então, de que maneira me hasde tu fazer feliz?
- "Olha, vou metter-me no corpo d'uma princeza, e só de lá sáio quando tu mandares; e como é uma princeza, com certeza que te hão de dar tudo quanto pedires. E se quizeres pódes ficar rico."
O soldado, depois d'ouvir estas palavras, soltou o diabo, que lhe pediu muito que não dissesse nada á sogra.

Passados dias, o soldado ouviu dizer que a princeza estava muito doente, e que ninguem atinava com a molestia. E, lembrando-se da fala que tinha tido com o diabo, apresentou-se em palacio e disse:
- "Eu sou capaz de curar a princeza, mas para isso é preciso que me dêem cá uma certa continha."
- "Dou-te o dobro do que tu pedes," - respondeu o rei - "se fores capaz de a curar."
- Bem, deixem-me só no quarto com ella, e d'aqui a um quarto d'hora, ou ainda menos, está curada."
"
EM vista da promessa do soldado, consentiram em que elle ficasse só com a princeza. Assim que o soldado se viu só, disse: "O' amigo! aqui estou a ver se cumpres a tua palavra."

O diabo saiu immediatamente do corpo da princeza, e esta apresentou-se logo curada, ficando todos pasmados do que viam.
O diabo foi dali metter-se no corpo doutra princeza, e o soldado, carregado de dinheiro, foi gosar dois meses de licença.

A segunda princeza, assim que o diabo lhe entrou no corpo, sentiu se logo, é claro, muito doente; e corno constasse, que no reino de tal havia um homem que já tinha curado uma princeza da mesma molestia, pediram ao rei dessa nação que lhes mandasse esse homem.

O rei mandou logo chamar o soldado e contou-lhe o que havia. O soldado não queria ir, mas o rei ordenou-lhe que marchasse, sob pena de morte.

O soldado, então não teve outro remedio senão marchar. Chegado a palacio, foi logo ao quarto da princeza, e, ficando só com ella, tratou de pedir ao diabo que saisse. O diabo, depois de muito instado, respondeu: "Eu não sáio porque não quero."

O soldado, ouvindo esta resposta, lembrou-se da sogra e disse ao rei: "Vossa Real Magestade ha de ordenar que ámanhã, pela manhã, repiquem todos os sinos, se puchem todos os foguetes que estiverem feitos, e salve toda a artilheria da cidade."
No outro dia, ao romper da manhã, o diabo, ouvindo tantos repiques, tantos foguetes e tantos tiros d'artilharia, perguntou:
- "O' soldado, então que novidades ha hoje na côrte?"
- "O que ha de ser…" - respondeu o soldado - "é a tua sogra que vem chegando ao palacio."

O diabo, apenas ouviu falar na sogra, safou-se logo, dizendo ao soldado; "Olha, amigo; arranja-te cá com ella, como puderes, que eu vou-me embora para onde nunca mais oiça falar em tal mulher."

(Da tradição oral - Brinches)
ANTONIO ALEXANDRINO

Ver "O diabo e seus parentes" in Jangada Brasil
in http://www.jangadabrasil.com.br/revista/abril65/pn65004a.asp

 

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