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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
XIV - "O hortelão e o moço"
Por António ALEXANDRINO
(da Tradição oral - Brinches)
In
Tradição I vol. Anno III, Nº 3, Serpa,
Março de 1901, Volume III, pp. 45, 46; continua Anno
III, Nº 4, Serpa, Abril de 1901, Volume III, pp. 63,
64; continua: Anno III, Nº 5, Serpa, Maio de 1901, Volume
III, pp. 77, 78.
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
O
hortelão e o moço
"ERA
uma vez um velho que tinha muitos filhos. E como elles ganhavam
pouco, um dia os tres mais velhos disseram: "Nós
vamos correr fortuna." Pediram a benção
ao pae e marcharam juntos pelo mesmo caminho.
Chegados
a um certo ponto, viram que se apartavam tres caminhos. Pararam,
e o mais velho disse:
- "Eu, por ser o mais velho, vou pelo caminho da direita."
Diz o segundo:
- "E eu vou pelo do meio."
- "E eu, pelo da esquerda" - disse o terceiro.
E cada qual seguiu o seu caminho, depois de combinarem, que
se haviam de juntar todos os tres naquelle mesmo logar, dali
a um anno.
O mais
novo foi dar a uma horta. E o hortelão dessa horta
tinha uma filha muito bonita. O rapaz, assim que a viu, gostou
logo muito dela, e foi pedir trabalho ao hortelão.
O hortelão
olhou bem para elle e perguntou-lhe se elle sabia ler. O rapaz
sabia ler, mas respondeu que não sabia. O hortelão,
como o rapaz lhe disse que não sabia ler, concertou-o
logo por um anno, para môço da horta.

in
- submarino
Dahi a
dias o hortelão precisou sahir. E como o rapaz já
namorava a filha, sem o pae saber, pediu-lhe as chaves do
quarto onde estavam as sementes A rapariga com medo do pae,
não lh'as queria dar, mas elle tanto a attentou, dizendo-lhe
que era para semear umas flores, que ella sempre lh'as entregou.
O rapaz, assim que apanhou as chaves, abriu a porta e foi
á gaveta onde estavam as sementes, e encontrou lá
um livro d'artes (bruxarias), que era do hortelão.
O rapaz, vendo que as taes artes lhe podiam servir, tratou
de as aprender todas muito bem, e logo que acabou o anno despediu-se.
O hortelão não queria de maneira nenhuma que
o rapaz se fosse embora; e para o rapaz se ir embora, foi
preciso dar a sua palavra d'honra ao hortelão que iria
servi-lo no anno seguinte. Só assim conseguiu que o
amo lhe fizesse as conta!;. E o hortelão, em logar
duma soldada, deu-lhe duas.
O rapaz,
em seguida, marchou direito ao ponto em que tinha combinado
juntar se com os irmãos, e foi o que chegou primeiro.
Assim que chegaram os outros dois, disse o mais velho:
- "Eu, como mais velho, devo receber tudo quanto vocês
ganharam, para entregar ao nosso pae." O do meio disse
logo que não queria, e o mais novo disse:
- "Cada um entregue o que ganhou."
O irmão mais velho, então, obrigou o mais novo
a entregar-lhe tudo quanto levava.
QUANDO
chegaram a casa, foram à presença do pae, e
o filho mias velho entregou-lhe o dinheiro, dizendo que era
o ganho que elle tinha tido durante o anno. O filho do meio
fez o mesmo. E, como o filho mais novo nada entregasse, o
pae olhou para elle, e perguntou-lhe:
- " Então tu o que ganhaste?"
Diz o filho mais velho:
- "Esse maroto, tudo quanto ganhou, gastou-o em vinho
e no jogo."
O pae, suppondo que isto era verdade, perdeu a cabeça
e pô-lo no meio da rua.
O rapaz, quando o pae o poz na rua, começou a chorar
e a dizer que tudo aquillo era mentira; e foi a poder de muitos
pedidos da mãe que o pae o attendeu. Passados dias,
o rapaz, vendo que o pae já estava mais maduro (brando),
chamou-o e disse-lhe:
- "Ó pae, traga a nossa burrinha e uma gôrpêlha
(golpêlha), e verá como traz muito dinheiro."
O pae fez o que o filho lhe disse, e pelo caminho disse ainda
o rapaz:
- "Pae, eu faço-me num galgo, e toda a caça
que se levantar, hei de agarrá-la. No meio do matto
ha d'apparecer o rei, que anda numa caçaria com todos
os vassallos; d'ao pé do rei ha de levantar-se uma
lebre, e eu, em a agarrando, vou empinar-me ao cavalho delle,
para lh'a entregar. O rei ha de ficar muito contente e ha
de querer comprar-me. Vocemecê venda-me, mas peça
muito dinheiro e diga-lhe que a colleira não entra
na venda."
Effectivamente
aconteceu tal qual corno o rapaz tinha dito. O rei comprou
o cão, e o velho ficou com a colleira. O rei continuou
depois a caçar, e, ao levantar-se uma lebre, o cão
correu logo atraz della; mas ao dispôr (transpôr)
duma altura, o cão fez-se num rapaz e sentou-se numa
pedra. O rei, vendo que o cão não apparecia,
foi á busca delle, e, encontrando o rapaz sentado,
perguntou- lhe: - "O' rapaz, tu não viste passar
aqui um galgo correndo atraz duma lebre?" - "Eu
não senhor" - respondeu o rapaz. - "Eu tambem
só agora aqui cheguei."
O rei
continuou a procurar o cão, e o rapaz foi para casa.
No outro
dia, quando se levantou, pediu a benção ao pae
e disse :
- "Pae, nós agora vamos à feira. Eu faço-me
num cavallo, e vocemecê venda-me mas diga que é
com a condição do freio não entrar na
venda. Se vocemecê me vende com o freio mata-me."
O pae e o filho foram para a feira, e quando chegaram á
corredoira já o tal hortelão tambem lá
estava.
O hortelão,
assim que viu um cavallo tão bonito conheceu-o logo,
e chegando-se ao pé do velho, bateu-lhe com a mão
no hombro e perguntou:
- "O' vélhóte, vócê quer vender
o cavallinho?)
- " Quero sim senhor," - disse o dono - "mas
ha de dar-me tanto (a importancia), e o freio não entra
na venda."
- "Sem freio!..." - respondeu o hortelão
- "nem dado eu o quero. Agora com o freio, ainda m'obrigo
a dar esse dinheiro."
O velho, vendo que era uma boa venda que fazia, não
se importou com a recommendação que o filho
lhe tinha feito, e entregou o cavallo com o freio.
O hortelão
assim que se viu com as redeas na mão, fallou a dois
homens e disse-lhes:
- "O' rapazes isto aqui é bater sem dó,
como quem bate em centeio. E não o deixem chegar á
agua." Os homens, vendo que o cavallo era muito bonito,
só lhe bateram emquanto o dono esteve á vista.
E ao passarem ao pé dum pôço, o cavallo
não fazia senão rinchar, e o que queria era
chegar-se ao poço. Os homens, então, como já
não avistavam o dono, foram dar agua ao cavallo e tiraram-lhe
o freio. O cavallo, mal se viu sem o freio, fez-se num peixe
e saltou para dentro do pôço.
Mas o
hortelão, que já vinha perto, vendo o cavallo
fazer-se no peixe, fez-se tambem num pica-peixe e saltou do
mesmo modo para dentro do pôço. O rapaz, sentindo-se
perseguido, fez-se numa perdiz e voôu. lmmediatamente
o hortelão fez-se num gavião e começou
a voar atraz da perdiz. O rapaz, então, fez-se num
annel e foi cahir no collo duma rapariga que estava numa varanda,
a pentear-se.

in
- artmajeur
-
O hortelão,
em vista disto, fez-se logo num tendeiro e sento-se ao lado
da rapariga, dizendo-lhe que lhe vendesse aquelle annel. A
rapariga de maneira nenhuma queria vender o annel. E o hortelão,
vendo a teima da rapariga em não querer vender o annel,
disse-lhe; - "Então troque-o por este par de brincos
e mais este cordão." A rapariga, então,
disse que sim, e quando foi tirar o annel do dedo elle partiu-se
e fez-se numa roman já esbagulhada. O tendeiro depois
fez-se numa gallinha com pintos, e desataram a comer os bagos
da roman, um a um. Mas um dos bagos, que estava por traz do
pé da cadeira, fez-se numa zôrra (rapoza) e comeu
os pintos e a gallinha.
(Da tradição
oral - Brinches)
ANTONIO
ALEXANDRINO.
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