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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
XIV - "O hortelão e o moço"
Por António ALEXANDRINO
(da Tradição oral - Brinches)

In Tradição I vol. Anno III, Nº 3, Serpa, Março de 1901, Volume III, pp. 45, 46; continua Anno III, Nº 4, Serpa, Abril de 1901, Volume III, pp. 63, 64; continua: Anno III, Nº 5, Serpa, Maio de 1901, Volume III, pp. 77, 78.

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]

O hortelão e o moço

"ERA uma vez um velho que tinha muitos filhos. E como elles ganhavam pouco, um dia os tres mais velhos disseram: "Nós vamos correr fortuna." Pediram a benção ao pae e marcharam juntos pelo mesmo caminho.

Chegados a um certo ponto, viram que se apartavam tres caminhos. Pararam, e o mais velho disse:
- "Eu, por ser o mais velho, vou pelo caminho da direita."
Diz o segundo:
- "E eu vou pelo do meio."
- "E eu, pelo da esquerda" - disse o terceiro.
E cada qual seguiu o seu caminho, depois de combinarem, que se haviam de juntar todos os tres naquelle mesmo logar, dali a um anno.

O mais novo foi dar a uma horta. E o hortelão dessa horta tinha uma filha muito bonita. O rapaz, assim que a viu, gostou logo muito dela, e foi pedir trabalho ao hortelão.

O hortelão olhou bem para elle e perguntou-lhe se elle sabia ler. O rapaz sabia ler, mas respondeu que não sabia. O hortelão, como o rapaz lhe disse que não sabia ler, concertou-o logo por um anno, para môço da horta.


in - submarino

Dahi a dias o hortelão precisou sahir. E como o rapaz já namorava a filha, sem o pae saber, pediu-lhe as chaves do quarto onde estavam as sementes A rapariga com medo do pae, não lh'as queria dar, mas elle tanto a attentou, dizendo-lhe que era para semear umas flores, que ella sempre lh'as entregou. O rapaz, assim que apanhou as chaves, abriu a porta e foi á gaveta onde estavam as sementes, e encontrou lá um livro d'artes (bruxarias), que era do hortelão. O rapaz, vendo que as taes artes lhe podiam servir, tratou de as aprender todas muito bem, e logo que acabou o anno despediu-se. O hortelão não queria de maneira nenhuma que o rapaz se fosse embora; e para o rapaz se ir embora, foi preciso dar a sua palavra d'honra ao hortelão que iria servi-lo no anno seguinte. Só assim conseguiu que o amo lhe fizesse as conta!;. E o hortelão, em logar duma soldada, deu-lhe duas.

O rapaz, em seguida, marchou direito ao ponto em que tinha combinado juntar se com os irmãos, e foi o que chegou primeiro. Assim que chegaram os outros dois, disse o mais velho:
- "Eu, como mais velho, devo receber tudo quanto vocês ganharam, para entregar ao nosso pae." O do meio disse logo que não queria, e o mais novo disse:
- "Cada um entregue o que ganhou."
O irmão mais velho, então, obrigou o mais novo a entregar-lhe tudo quanto levava.

QUANDO chegaram a casa, foram à presença do pae, e o filho mias velho entregou-lhe o dinheiro, dizendo que era o ganho que elle tinha tido durante o anno. O filho do meio fez o mesmo. E, como o filho mais novo nada entregasse, o pae olhou para elle, e perguntou-lhe:
- " Então tu o que ganhaste?"
Diz o filho mais velho:
- "Esse maroto, tudo quanto ganhou, gastou-o em vinho e no jogo."
O pae, suppondo que isto era verdade, perdeu a cabeça e pô-lo no meio da rua.
O rapaz, quando o pae o poz na rua, começou a chorar e a dizer que tudo aquillo era mentira; e foi a poder de muitos pedidos da mãe que o pae o attendeu. Passados dias, o rapaz, vendo que o pae já estava mais maduro (brando), chamou-o e disse-lhe:
- "Ó pae, traga a nossa burrinha e uma gôrpêlha (golpêlha), e verá como traz muito dinheiro." O pae fez o que o filho lhe disse, e pelo caminho disse ainda o rapaz:
- "Pae, eu faço-me num galgo, e toda a caça que se levantar, hei de agarrá-la. No meio do matto ha d'apparecer o rei, que anda numa caçaria com todos os vassallos; d'ao pé do rei ha de levantar-se uma lebre, e eu, em a agarrando, vou empinar-me ao cavalho delle, para lh'a entregar. O rei ha de ficar muito contente e ha de querer comprar-me. Vocemecê venda-me, mas peça muito dinheiro e diga-lhe que a colleira não entra na venda."

Effectivamente aconteceu tal qual corno o rapaz tinha dito. O rei comprou o cão, e o velho ficou com a colleira. O rei continuou depois a caçar, e, ao levantar-se uma lebre, o cão correu logo atraz della; mas ao dispôr (transpôr) duma altura, o cão fez-se num rapaz e sentou-se numa pedra. O rei, vendo que o cão não apparecia, foi á busca delle, e, encontrando o rapaz sentado, perguntou- lhe: - "O' rapaz, tu não viste passar aqui um galgo correndo atraz duma lebre?" - "Eu não senhor" - respondeu o rapaz. - "Eu tambem só agora aqui cheguei."

O rei continuou a procurar o cão, e o rapaz foi para casa.

No outro dia, quando se levantou, pediu a benção ao pae e disse :
- "Pae, nós agora vamos à feira. Eu faço-me num cavallo, e vocemecê venda-me mas diga que é com a condição do freio não entrar na venda. Se vocemecê me vende com o freio mata-me." O pae e o filho foram para a feira, e quando chegaram á corredoira já o tal hortelão tambem lá estava.

O hortelão, assim que viu um cavallo tão bonito conheceu-o logo, e chegando-se ao pé do velho, bateu-lhe com a mão no hombro e perguntou:
- "O' vélhóte, vócê quer vender o cavallinho?)
- " Quero sim senhor," - disse o dono - "mas ha de dar-me tanto (a importancia), e o freio não entra na venda."
- "Sem freio!..." - respondeu o hortelão - "nem dado eu o quero. Agora com o freio, ainda m'obrigo a dar esse dinheiro."
O velho, vendo que era uma boa venda que fazia, não se importou com a recommendação que o filho lhe tinha feito, e entregou o cavallo com o freio.

O hortelão assim que se viu com as redeas na mão, fallou a dois homens e disse-lhes:
- "O' rapazes isto aqui é bater sem dó, como quem bate em centeio. E não o deixem chegar á agua." Os homens, vendo que o cavallo era muito bonito, só lhe bateram emquanto o dono esteve á vista. E ao passarem ao pé dum pôço, o cavallo não fazia senão rinchar, e o que queria era chegar-se ao poço. Os homens, então, como já não avistavam o dono, foram dar agua ao cavallo e tiraram-lhe o freio. O cavallo, mal se viu sem o freio, fez-se num peixe e saltou para dentro do pôço.

Mas o hortelão, que já vinha perto, vendo o cavallo fazer-se no peixe, fez-se tambem num pica-peixe e saltou do mesmo modo para dentro do pôço. O rapaz, sentindo-se perseguido, fez-se numa perdiz e voôu. lmmediatamente o hortelão fez-se num gavião e começou a voar atraz da perdiz. O rapaz, então, fez-se num annel e foi cahir no collo duma rapariga que estava numa varanda, a pentear-se.


in - artmajeur -

O hortelão, em vista disto, fez-se logo num tendeiro e sento-se ao lado da rapariga, dizendo-lhe que lhe vendesse aquelle annel. A rapariga de maneira nenhuma queria vender o annel. E o hortelão, vendo a teima da rapariga em não querer vender o annel, disse-lhe; - "Então troque-o por este par de brincos e mais este cordão." A rapariga, então, disse que sim, e quando foi tirar o annel do dedo elle partiu-se e fez-se numa roman já esbagulhada. O tendeiro depois fez-se numa gallinha com pintos, e desataram a comer os bagos da roman, um a um. Mas um dos bagos, que estava por traz do pé da cadeira, fez-se numa zôrra (rapoza) e comeu os pintos e a gallinha.

(Da tradição oral - Brinches)

ANTONIO ALEXANDRINO.

 

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