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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
XV - "ERA-NÃO-ERA"
Por Luiz FREDERICO
(da Tradição oral, em Odivellas do Alemtejo)
(Serpa, 31-7-901)
In Tradição I vol. Anno III, Nº 8, Serpa,
Agosto de 1901, Volume III, pp. 124 e 125.
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

In - comcertezamente.wordpress
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ERA-NÃO-ERA
(nota)
Ao meu afilhadinho
Candido Xavier da Franca
"ERA-Não
ERA andava lavrando na serra
com um boi preto e outro calhandro.
Vieram-lhe novas que o pae tinha morrido e a mãe não
tinha nascido.
Foi tão grande o seu prazer que pôz os bois a
uma moita e o arado a comer.
Vae por um vai'abaixo, encontra um ninho de cartaxo, com ovos
de bastarda.
- Onde hei-de pôr os meus ovinhos?
Oh
debaixo da burrinha parda!
Sahiram-lhe dois galvões; e adonde haviam de ir poisar?
Numa arvore que dava avelans.
E enregou a jogar-lhe pedras e a cairem cebolas albarrans.
Foi vendel-as á villa a e fez um dinheirão.
A' volta dá com um meloal e entra a apanhar melões.
Vem de lá o dono e diz:
- Mancebo! que fazeis em faval alheio?
Atirou-lhe um melão, acertou-lhe com um torrão
no artelho,
e fez-lhe sangue tão vermelho que nem uma coalhada!
Seguindo
o seu caminho, chegou ás suas colmeias e não
deu contados os cortiços; foi contar as abelhas
faltava-lhe uma!
N'isto ouviu resmalhar em uma moita, e julgando que fosse
a abelha,
jogou-lhe com o machado.
Foi á busca do machado, mas não o encontrou.
Atiçou fogo na moita, queimou-se o machado e lá
appareceu por fim o cabo.
Voltou
para traz e foi á do professor, "que lhe fizesse
um machado.
Vae de lá o mestre ferreiro apresentou-lhe um anzol.
Que se havia elle lembrar? Lembrou-se de ir á pesca.
Quando sente morder no anzol. Puxa a linha e trouxe
um burro pelas orelhas, sem as ter!
Deixou o burro a comer, e foi ás colmeias outra vez.
Estava a moita feita em mel.
Tirou dois piolhos da cabeça, alvorou-os em dois coiros,
e com elles carregou o burro, depois de os encher de mel.
Ora a carga era muito pesada, e o burro ficou todo ferido.
O
Era-Não-Era, dizendo mal á sua vida, foi ter
com o alveitar.
O alveitar ensinou-lhe que pozesse em cima da chaga favas
torradas.
Vae elle, cuidando que o burro morria, pôz-lhe as favas
mesmo cruas, por ser assim mais depressa, e lá o deixou
no campo a pastar.
Passado
um anno voltou ao campo, e viu um grande faval nascido em
cima do burro.
Tratou logo de ir buscar uma foice para ceifar as suas favas;
mas quando ia começar o trabalho, viu lá dentro
um porco espinho.
Jogou-lhe com a foice, e o cabo entrou-lhe pelo rabo, com
licença dos senhores. Com o rabo o porco ceifava, com
as patas debulhava
e
d'esta maneira o Era-Não-Era
recolheu uma grande seara.
(Da
tradição oral. em Odivellas do Alemtejo.) Serpa,
31-7-901.
LUIZ
FREDERICO.

in - blog.cantocidadao
-
Nota:
Apresento aos pequeninos leitores d'estes contos, um escriptorsinho
de 11 annos, que se estreia na 'Tradição. O
Era-Não-Era alemtejano, como vão vêr,
tem o seu chiste particular. Eu sei d'outra variante, mais
pequena e menos engraçada, que ouvi no Algarve ha muitos
annos. E' assim:
"Era Não Era andava lavrando. Deu noticia que
o pai era morto e a mãe por nascer, e foi tão
grande o seu prazer que pôz os bois ás costas
e o arado a comer. Foi por um caminho que não sabia,
á busca duma capa que não tinha. Encontrou uma
amoreira e pôz-se a comer avelans. Vem de lá
o dono e diz: - O' seu maroto, que faz voce no faval alheio?
Elle desceu ao torrão, o outro atirou-lhe á
cabeça um melão, e sahiu-lhe o sangue pelos
calcanhares!"
MARIA VELLEDA.
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