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- MRita Cortez - in Cancioneiro de Serpa, 1994

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- MRita Cortez - in Cancioneiro de Serpa, 1994,
p. 342 e 343
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O
MILAGRE DA TRONCANITA
LADISLAU PIÇARRA.
(Relato
de um caso invulgar em Serpa lembrado num ex-voto (pequeno
quadro), atribuído como milagre a Nossa e Senhora de
Guadalupe)
In
Tradição II vol. Anno VI, Nº 2, Serpa,
Fevereiro de 1904, Volume VI, pp. 25 a 26 (Relato de um milagre
atribuído à Senhora de Guadalupe)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
O
MILAGRE DA TRONCANITA


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- MRita Cortez - in Cancioneiro de Serpa, 1994, p. 342
(ver
texto completo clicando na img do texto abaixo)
AINDA
ha bem poucos annos, via-se mendigar pelas ruas de Serpa uma
velhinha octogenaria, chamada Maria de Guadalupe Troncanita.
A
velha Troncanita, como vulgarmente a designavam, tornára-se
celebre, porque, em sua humilde pessoa, havia-se operado um
grande milagre, tão extraordinario esse milagre que
ficára profundamente gravado na memoria do povo serpense,
e até figura numa das nossas selectas escolares.
A
historia do maravilhoso acontecimento tive eu a dita d'ouvir
da propria bôca de Troncanita, em novembro de 1897,
contando ella nessa occasião 88 annos d'edade approximadamente.
Essa historia contou-m'a a pobre velhinha muito commovida,
com a voz tremula e entrecortada de lagrimas. Evidentemente,
as suas palavras não occultavam o menor disfarce.
Passemos
á interessante narração:
Teriam
decorrido uns 39 annos, - disse-me a velha Troncanita, - falleceu
lhe uma filha casada, que deixou na orfandade uma creancita
do sexo masculino, tendo apenas 3 dias d'edade. A Troncanita,
muito afflicta por causa do seu infeliz netinho, pois não
encontrava quem o amamentasse, de mãos postas e joelhos
no chão, durante tres semanas, pediu a Nossa Senhora
de Guadalupe que "lhe deparasse uma ama" para aquelle
innocentinho. E com fé tão ardente foram proferidos
seus rogos, que um bello dia, estando Troncanita a lavar uns
cueiros do neto, no tanque da horta dos "Pisões",
onde ella era hortelôa, sentiu os peitos apoiados, e,
ordenhando-os immediatamente, viu com grande pasmo que dambos
esguichava em abundancia o leite providencial.
Quando
este facto succedeu, já havia onze annos que Troncanita
tinha dado á luz o ultimo filho, e, por conseguinte,
desde ha muito que o seu leite seccára. Nestas condições,
é fácil de calcular o assombro que um tal fenomeno
produziria no espirito publico!
A noticia espalhôu-se rapidamente, e muita gente correu
logo a casa de Troncanita para certificar-se de visu de tão
singular occorrencia. Com effeito, a mystica e carinhosa avó
lá estava alimentando o neto com o seu proprio leite.
A
secreção lactea nos seios apparentemente atrofiados
de Troncanita, era uma realidade que ninguem podia contestar;
o que, porém, surprehendia toda a gente, eram as circumstancias
anormaes em que se produzia aquella funcção
organica. Comtudo, o facto ali estava patente aos olhos de
todos, e tão impressivo que passou - como era naturalíssimo
- á tradicão oral.
O mesmo acontecimento acha-se commemorado num pequeno e modestissimo
quadro, existente na ermida da Guadalupe, cuja pintura representa,
dum lado N. S. de Guadalupe com o menino Jesus, e, do outro,
Maria Troncanita aleitando o neto, tendo ao pé de si
um cão grande, que sempre a acompanhava. Entre estas
duas pinturas, destaca-se uma pequena gravura representando
uma mesa sobre a qual se vê um crucifixo.
Por baixo lê-se o seguinte distico:
-
"Este quadro representa o portentoso milagre que fes
N. S. de Guadalupe em obsequio de um menino que ficou sem
mãi a poucos dias de ter nasido, é neto de Maria
Troncanita, e foi o dia des de outubro de 1868, que vendo
o menino sem sus-tento pediu de todo coração
a N. S. a dita avô do menino mulher de 50 annos, que
lhe deparasse quem lhe desse de mamar, e ao poco tempo foi
tanta a abundancia de leite que teve a sua avô, que
já ficava satifeito."


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- MRita Cortez - in Cancioneiro de Serpa, 1994,
p. 343
(ver
texto completo clicando na img do texto)
*
Convém
notar que a lactaçâo de que vimos falando, não
se limitou a um fenomeno fugaz, que apparecesse e desapparecesse
como que por encanto; pelo contrario, manteve-se por um longo
periodo de 14 mezes, que tantos foram os que durou a amamentação,
e ao fim dos quaes morreu a creanca.
Por mais extraordinario e anómalo que pareça
este facto, não podemos deixar de considerá-lo
como authentico, visto que razão alguma se nos apresenta
em contrario. Todavia, não é caso unico, outros
identicos a sciencia registra. Apontam-se até alguns
factos excepcionaes de mulheres que tiveram leite capaz de
amamentar, embora essas mulheres nunca tivessem concebido.
No proprio homem tem-se manifestado já a secreção
lactea. (*) Mas, nem por isso, o caso de Troncanita deixa
de ser muito interessante, revelando-se como um effeito da
suggestão religiosa.
Psychologicamente, explica-se pela incontestavel influencia
que as imagens e as ideias exercem sobre as funcções
da vida vegetativa.
A ideia da amamentação que tão intensamente
agitava Maria Troncanita, é que, indubitavelmente,
actuou por intermedio dos nervos sobre os elementos histologicos
das glandulas mammarias, fazendo-as segregar o almejado leite.
LADISLAU
PIÇARRA.
(*)
J. Béclard - Traité Élémentaire
de Physiologie, 7.é éditon, p. 706.
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