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LENDA LOCAES
(Serpa)
Ladislau Piçarra
A COBRA DA QUINTA DO FIDALGO
In
Tradição II vol. Anno VI, Nº 5, Abril de
1904, Volume VI, pp. 70
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
LENDAS
LOCAES
"A
COBRA DA QUINTA DO FIDALGO"

Mapa de Serpa e arredores
A NOROESTE da villa de Serpa, vindo mesmo bater-lhe nos muros,
estende-se uma larga porção de fertil terreno,
cercado por uma solida parede de pedra e cal. Esta boa propriedade,
composta na sua maior parte de terra limpa e d'algumas oliveiras,
apresenta ao fundo, do lado occidental, um pequeno hortejo,
restos duma horta que outr'ora ali existiu. A mesma propriedade
pertence á illustre casa Ficalho e denomina-se a "Quinta
do Fidalgo".
Noutros tempos foi esta quinta plantada de vinha, e a maneira
como tal vinha acabou, é, conforme se conta, devéras
caprichosa. Pois diz-se que, estando a dita quinta na posse
do fidalgo Domingos de Mello, succedeu que, em certo dia,
um criminoso se refugiou na mencionada vinha, para evitar
a acção da justiça.
Não lhe valeu, porém, o privilegio do abrigo,
porque ali mesmo as auctoridades o foram prender.
Domingos de Mello, indignado por lhe terem abusivamente invadido
a propriedade, mandou arrancar a vinha, que - diz a tradição
-até estava carregada d'uva.
Mas deixemos este curioso episodio, que trouxemos aqui accidentalmente,
e passemos á historia da cobra da quinta".
***
Na
alma ingenua do povo serpense ainda se abriga a crença
de que, na chamada "Quinta do Fidalgo", existe uma
cobra encantada, a qual, de tempos a tempos, faz a sua apparição
perante os transeuntes. A lenda deste imaginario reptil é
na verdade muito interessante, e, por isso, merece ficar registrada.
Eis
a lenda:

A
referida cobra apresenta uma grande cabelleira, os olhos são
pretos e muito lindos; usa "cabello á rainha"
e vive junto dumas figueiras componentes do supracitado hortejo.
Segundo o vulgo, trata-se aqui da transfiguração
duma fidalga denominada Anna.
A
cobra pode desencantar-se, mas para isso é necessario
proceder a uma prática assaz desagradavel e melindrosa.
Essa prática consiste no seguinte:
A
pessoa que pretender realisar o desencanto, tem de bradar
por Anna, que é, como já dissémos, o
nome da fidalga encantada. A cobra, ouvindo este nome, ha
d'apparecer sob a fórma dum touro dando grandes urros
e querendo marrar. Se a pessoa que bradou por Anna não
tiver medo, o touro retirar-se-ha, para voltar dahi a pouco
transformado num cão preto. Se a mesma pessoa não
se assustar por ver o cão preto, este ir-se-ha embora,
e em seguida virá a cobra, que se lhe enroscará
em volta da cintura e lhe dará um beijo na cara.
Ora, para que o encanto seja quebrado, é absolutamente
necessario que a pessoa que levou o beijo continue a mostrar-se
foita, aliaz é morta pela cobra.
Diz ainda a tradição, que a mencionada cobra
apparece na manhã de S. João com um thesouro
d'ouro e prata, para entregar á pessoa que a desencantar;
e que, quando ella apparece a alguem, em sonhos, diz:
- "Eu não engano ninguem, quem tiver foiteza póde
vir desencantar-me."
***
Como
prova de que ainda hoje existe a crença popular a que
nos vimos reportando, vamos descrever um facto succedido ha
poucos annos. E' a historia duma rapariga, que julgou ver
a celebre cobra na occasião em que seguia para a ceifa.
Foi o chorado conde de Ficalho, insigne collaborador desta
revista, quem nos communicou o interessante caso que seguidamente
publicâmos:
Em
certa madrugada de verão, acompanhada de sua irmã
e doutra rapariga, caminhava M. U., de 15 annos, natural de
Serpa, pela estrada de circumvallação, na parte
que margina a quinta da "Fidalga". Ao passarem a
ponte do Pancáio, ouviram, M. U. e as companheiras,
uma voz medonha, sahida dum vulto tendo cabeça de gente,
o qual estava collocado junto do muro da referida quinta.
M. U. em razão do grande susto que apanhou, tolheram-se-lhe
os movimentos, queria correr e não podia, ao passo
que as duas companheiras rasgaram a fugir, gritando pelas
outras ceifeiras do mesmo rancho, que marchava mais adiante.
Por fim as duas raparigas que tinham debandado, houveram por
bem esperar pela sua infeliz companheira, que, com enorme
difficuldade, lá se foi arrastando até ao chafariz
que fica quasi defronte das taes figueiras, atraz mencionadas.
Mas, attingido esse funesto ponto, em vez de M. U. proseguir
no seu caminho, quiz a fatalidade que os seus passos fossem
embargados pela horrenda visão duma "cobra muito
grossa com a cabeça duma pessoa". Nesse momento,
M. U. perdeu os sentidos e caiu prostrada no chão.
As duas companheiras, agarradas a ella, começaram a
gritar até acudir gente. A victima da lugubre visão,
amparada por duas pessoas, foi depois conduzida ao loca da
ceifa, onde ceifou todo o dia, mas chorando sempre.
A' noite, quando regressava a casa, ao passar pelo mesmo sitio
onde lhe apparecera a cobra, começou a gritar e desmaiou
novamente, não rolando sobre o sólo, porque
alguns homens que tambem vinham na sua companhia, a sustiveram.
Após esta tragica occorrencia, M. U. ficou tranzida
de susto, que não a deixava, principalmente de noite.
O facto que acabamos de narrar, é, como os leitores
bem vêem, um caso d' apparição, similhante
aos que temos aqui publicado.
M. U., conforme tivemos occasião d'averiguar, é
uma nevrotica hereditaria. E, segundo ella propria nos confessou,
era sua avó quem lhe falára muito da famosa
cobra encantada, ensinando lhe a maneira de a desencantar.
Em conclusão: M. U. quiz ganhar o fantastico thesouro
d'oiro e prata, e o resultado foi pôr em evidencia,
atravez da sua morbida sensibilidade, a romantica superstição
popular, que em singelo estylo deixâmos consignada.
LADISLAU
PIÇARRA.
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Ver também outras versões da lenda da Fidalga
Ana, encantada em cobra in Arquivos de Serpa - por João
Cabral
e
«A
Serpente do Rio Anas, por João Cabral, site da
Universidade de Coimbra, Instituto de Esrudos Jornalísticos.
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Ver
ainda as versões in cancioneiro de Serpa, de Maria
Rita Ortigão Pinto Cortez, ed. Câmara Municipal
de Serpa, 1994, pp. 346 a 349:as duas versão sobre
"A origem do nome de Serpa":
- A Serpe do Rio Ana: que habitava nuns penedos na margem
do rio ANA (Guadiana)
- Lenda de Serpínea

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