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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


LENDA LOCAES
(Serpa)
Ladislau Piçarra
A COBRA DA QUINTA DO FIDALGO

In Tradição II vol. Anno VI, Nº 5, Abril de 1904, Volume VI, pp. 70

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]

LENDAS LOCAES

"A COBRA DA QUINTA DO FIDALGO"


Mapa de Serpa e arredores


A NOROESTE da villa de Serpa, vindo mesmo bater-lhe nos muros, estende-se uma larga porção de fertil terreno, cercado por uma solida parede de pedra e cal. Esta boa propriedade, composta na sua maior parte de terra limpa e d'algumas oliveiras, apresenta ao fundo, do lado occidental, um pequeno hortejo, restos duma horta que outr'ora ali existiu. A mesma propriedade pertence á illustre casa Ficalho e denomina-se a "Quinta do Fidalgo".
Noutros tempos foi esta quinta plantada de vinha, e a maneira como tal vinha acabou, é, conforme se conta, devéras caprichosa. Pois diz-se que, estando a dita quinta na posse do fidalgo Domingos de Mello, succedeu que, em certo dia, um criminoso se refugiou na mencionada vinha, para evitar a acção da justiça.
Não lhe valeu, porém, o privilegio do abrigo, porque ali mesmo as auctoridades o foram prender.
Domingos de Mello, indignado por lhe terem abusivamente invadido a propriedade, mandou arrancar a vinha, que - diz a tradição -até estava carregada d'uva.
Mas deixemos este curioso episodio, que trouxemos aqui accidentalmente, e passemos á historia da cobra da quinta".

***

Na alma ingenua do povo serpense ainda se abriga a crença de que, na chamada "Quinta do Fidalgo", existe uma cobra encantada, a qual, de tempos a tempos, faz a sua apparição perante os transeuntes. A lenda deste imaginario reptil é na verdade muito interessante, e, por isso, merece ficar registrada.

Eis a lenda:

A referida cobra apresenta uma grande cabelleira, os olhos são pretos e muito lindos; usa "cabello á rainha" e vive junto dumas figueiras componentes do supracitado hortejo.
Segundo o vulgo, trata-se aqui da transfiguração duma fidalga denominada Anna.

A cobra pode desencantar-se, mas para isso é necessario proceder a uma prática assaz desagradavel e melindrosa. Essa prática consiste no seguinte:

A pessoa que pretender realisar o desencanto, tem de bradar por Anna, que é, como já dissémos, o nome da fidalga encantada. A cobra, ouvindo este nome, ha d'apparecer sob a fórma dum touro dando grandes urros e querendo marrar. Se a pessoa que bradou por Anna não tiver medo, o touro retirar-se-ha, para voltar dahi a pouco transformado num cão preto. Se a mesma pessoa não se assustar por ver o cão preto, este ir-se-ha embora, e em seguida virá a cobra, que se lhe enroscará em volta da cintura e lhe dará um beijo na cara.
Ora, para que o encanto seja quebrado, é absolutamente necessario que a pessoa que levou o beijo continue a mostrar-se foita, aliaz é morta pela cobra.
Diz ainda a tradição, que a mencionada cobra apparece na manhã de S. João com um thesouro d'ouro e prata, para entregar á pessoa que a desencantar; e que, quando ella apparece a alguem, em sonhos, diz:
- "Eu não engano ninguem, quem tiver foiteza póde vir desencantar-me."

***

Como prova de que ainda hoje existe a crença popular a que nos vimos reportando, vamos descrever um facto succedido ha poucos annos. E' a historia duma rapariga, que julgou ver a celebre cobra na occasião em que seguia para a ceifa.
Foi o chorado conde de Ficalho, insigne collaborador desta revista, quem nos communicou o interessante caso que seguidamente publicâmos:

Em certa madrugada de verão, acompanhada de sua irmã e doutra rapariga, caminhava M. U., de 15 annos, natural de Serpa, pela estrada de circumvallação, na parte que margina a quinta da "Fidalga". Ao passarem a ponte do Pancáio, ouviram, M. U. e as companheiras, uma voz medonha, sahida dum vulto tendo cabeça de gente, o qual estava collocado junto do muro da referida quinta.
M. U. em razão do grande susto que apanhou, tolheram-se-lhe os movimentos, queria correr e não podia, ao passo que as duas companheiras rasgaram a fugir, gritando pelas outras ceifeiras do mesmo rancho, que marchava mais adiante. Por fim as duas raparigas que tinham debandado, houveram por bem esperar pela sua infeliz companheira, que, com enorme difficuldade, lá se foi arrastando até ao chafariz que fica quasi defronte das taes figueiras, atraz mencionadas. Mas, attingido esse funesto ponto, em vez de M. U. proseguir no seu caminho, quiz a fatalidade que os seus passos fossem embargados pela horrenda visão duma "cobra muito grossa com a cabeça duma pessoa". Nesse momento, M. U. perdeu os sentidos e caiu prostrada no chão. As duas companheiras, agarradas a ella, começaram a gritar até acudir gente. A victima da lugubre visão, amparada por duas pessoas, foi depois conduzida ao loca da ceifa, onde ceifou todo o dia, mas chorando sempre.
A' noite, quando regressava a casa, ao passar pelo mesmo sitio onde lhe apparecera a cobra, começou a gritar e desmaiou novamente, não rolando sobre o sólo, porque alguns homens que tambem vinham na sua companhia, a sustiveram.
Após esta tragica occorrencia, M. U. ficou tranzida de susto, que não a deixava, principalmente de noite.
O facto que acabamos de narrar, é, como os leitores bem vêem, um caso d' apparição, similhante aos que temos aqui publicado.
M. U., conforme tivemos occasião d'averiguar, é uma nevrotica hereditaria. E, segundo ella propria nos confessou, era sua avó quem lhe falára muito da famosa cobra encantada, ensinando lhe a maneira de a desencantar.
Em conclusão: M. U. quiz ganhar o fantastico thesouro d'oiro e prata, e o resultado foi pôr em evidencia, atravez da sua morbida sensibilidade, a romantica superstição popular, que em singelo estylo deixâmos consignada.

LADISLAU PIÇARRA.

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Ver também outras versões da lenda da Fidalga Ana, encantada em cobra in Arquivos de Serpa - por João Cabral

e «A Serpente do Rio Anas, por João Cabral, site da Universidade de Coimbra, Instituto de Esrudos Jornalísticos.

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Ver ainda as versões in cancioneiro de Serpa, de Maria Rita Ortigão Pinto Cortez, ed. Câmara Municipal de Serpa, 1994, pp. 346 a 349:as duas versão sobre "A origem do nome de Serpa":
1 - A Serpe do Rio Ana: que habitava nuns penedos na margem do rio ANA (Guadiana)…
2 - Lenda de Serpínea

A Serpe do Rio Ana

A origem do nome de Serpa":
- A Serpe do Rio Ana:
que habitava nuns penedos na margem do rio ANA (Guadiana)…

Existem duas lendas sobre as origens de Serpa e do seu nome.
Segundo uma delas, uma delas provém de uma grande serpente alada que em tempos remotos habitava nuns penedos na margem do rio Ana ou Anas, mais tarde chamado Guadiana pelos mouros.
A dita Serpe era senhora de toda esta região, e também sua protectora, correndo em auxílio do povo da charneca sempre que algum perigo o ameaçava.

Por isso, quando esses homens concentraram as suas habitações no cimo de um monte próximo, criando um núcleo que foi crescendo até se transformar numa povoação importante, eles deram-lhe o nome de Serpa e colocaram uma serpente alada no seu brasão d armas.

A segunda lenda sobre a fundação de Serpa é narrada a seguir…

Lenda de Serpínea

Não se sabe ao certo em que época foi fundada Serpa. Ela já existia com este nome no tempo dos Romanos, e durante a dominação áradbe chamou-se Sheberina. Diz uma lenda que esta vila foi fundada pelos Túrdelos, um povo da antiga Bética, proveniente dos Pirenéus .

Havia um rei dos Túrdelos, Cófilas, que tinha uma filha de rara beleza chamada Serpínea. Esta era requestada por rolante, rei dos Celtas, de quem não gostava e cuja proposta de casamento recusou, preferindo Orosiano, príncipe de um reino vizinho. Rolarte, despeitado, atacou esse reino, matando Orosiano, e jurou obter Serpínea, viva ou morta.

Cófilas resolveu fazer uma expedição para o Ocidente, procurando instalar-se longe dos Celtas e conseguir uma aliança com os Fenícios, que sabia frequentarem o litoral da Península. Acompanhado dos seus homens e levando a filha consigo, chegaram uma tarde a uma colina verdejante e arborizada, no sopé da qual se estendia uma imensa planície. Serpínea gostou tanto do local, que pediu ao pai para ali armarem o acampamento nessa noite, e para ali fundarem uma cidade que viesse a ser a nova capital da Turdetânia.

Nessa noite, Cófilas teve um sonho profético, em que o Ocidente e o Oriente se uniriam em Serpínia.

No dia seguinte os construtores lançaram mão à obra, e assim nasceu Serpe. Daqui, Cófilas partiu para novas expedições, dominando toda a região vizinha, e fundou outras cidades a Ocidente, atravessando o rio Ana, e encontrando-se finalmente com os Fenícios, que nos seus navios subiam este rio até ao ponto em que vieram a fundar Mirtilis. Estabeleceu-se um tratado de amizade, e embreve Serpínea ficava noiva do belo príncipe fenício Polípio. Porém, este teve que partir novamente em viagem, prometendo à inconsalável Serpínes regresasr depressa, para o casamento.

O rei Cófilas mandou construir para a filha, que era exímia caçadora, um castelo na serra que se estendia ao Sul de Serpe, onde ela passava longas temporadas, passeando pelo campo e caçando. O palácio ficava situado na margem duma ribeira. Chamava-se Castelo das Loendreiras, e possuía lindos jardins.

Foi ali que o cruel Rolarte, nunca esquecido do seu juramento, foi atacar os guerreiros de Cófilas, pretendendo raptar Serpínea. Esta, prevenida pela sua aia fiel que desconfiava de uns mercadores celtas recém-chegados, mandou pedir reforços a Serpe.Polípio também chegou providencialmente, salvando a noiva do seu perseguidor que, ferido de morte, foi arrastado pelas águas da ribeira.

Serpíne e Polípio casaram, o que foi motivo de grandes festejos. Porém, não puderam ficar aqui para sempre. Um dia, despediram-se da terra onde tinham sido tão felizes, e embarcaram em Mirtilis a caminho da longínqua Fenícia, onde viveram longos anos, muito felizes.

 

 

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