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Os doze de Inglaterra
(Lusíadas,
Canto VI, 43 - 69 - é o sétimo episódio
inserido na Obra como:
1º Batalha do Salado - Canto III, 107 - 117;
2º Inês de Castro, Canto III, 118 - 135;
3º Aljubarrota, Canto
IV, 28 - 44;
4º Velho do Restelo, Canto IV, 94 - 1004;
5º Veloso, Canto V, 30 - 36;
6º Adamastor, Canto V, 41 - 48; inclui a 4ª profecia;
7º
Doze de Inglaterra, Canto VI, 43 - 69; (Clicar
para LER)
8º São Tomé, Canto X, 108 - 119.
I
"Os
doze de Inglaterra" - (algumas notas só para estudo
e propostas?
por Alfredo PRATT - in IV ano 1902 que se estende por 4 volumes,
de Fevereiro a Julho de 1902, que acupam 16 páginas
desta Revista «A TRADIÇÃO»:
Anno
IV - Nº 2, Fevereiro de 1902, Volume IV: p. 17, 18, 20,
22, 23 +
Anno IV - Nº 3, Março de 1902, Volume IV: 33,
34, 36, 38 +
Anno IV - Nº 5, Maio de 1902, Volume IV: 65, 66, 68,
70 +
Anno IV - Nº 7, Julho de 1902, Volume IV: 97, 98, 100
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

OS
doze de Inglaterra
HOJE
em dia já não resta a menor duvida de que é
uma lenda aquella velha historia de doze portuguezes que,
pelo facto de terem vencido em Inglaterra outros tantos inglezes,
se ficaram chamando os doze de Inglaterra. Contam-na Luiz
de Camões nos Lusíadas, pela bocca de Fernão
Velloso, e Jorge Ferreira de Vasconcellos na sua Memoria dos
cavalleiros da Tavola Rednda. A este serviu ella para melhor
entretecer um capitulo do citado volume; áquelle deu-lhe
amplo pretexto para um dos mais formosos episodios do seu
glorioso poema, ainda que pese a José Agostinho de
Macedo. Não reprova, porém, o tonsurado escriptor
a citada historieta, pelo facto de ella ser fabulosa. Nada
de isso. Elle expressa-se assim:
"Ora
consideremos nos Luziadas o Episodio dos doze de Inglaterra.
Em quanto á versificação, ás imagens,
ao andamento, á força icastica, ou representativa,
nada ha mais perfeito, apontado, e acabado em todo o Poema;
em quanto á indole do Episodio, e á relação
que deve conservar com a acção principal, nada
ha mais defeituoso, pois nem d'ella dimana, nem a ella se
refere. Não ha coiza acontecida no tempo da acção,
não foi executada por nenhum dos seus agentes principaes,
ou accessorios; em huma palavra, assim como foi aquella historia
a contada, podia ser outra, pois entre os contadores e os
ouvintes houve sua deliberação; Leonardo Ribeiro
queria huma coiza, Fernão Velloso queria outra, e prevaleceu
o parecer de Fernão Velloso. Seja embora verdadeira,
ou fabulosa esta Historia de andante cavallaria, porque d'ella
nenhum vestigio apparece em nossas Historias, e apenas nos
Annaes de Flandres escriptos por Manuel Sueiro, aliás
o infeliz Indio Manuel Fernandes de Villa Real,se acha algma
noticia d'esta aventura; isso não he do caso, e não
ha razão que a possa unir, ou fazer depender da acção
do Descobrimento da India. He huma parte absolutamente estranha
inserida n'aquelle corpo; e mais desculpa tem as turpitudes
da Ilha encantada, e os sentimentos magoados de Isetis no
martyrio do Apostolo S. Thomé, porque em fim tudo isso
se refere ao Heroe, e mais agentes subalternos da acção,
do que a destacada Historia dos doze de Inglaterra."
(in CENSURA DOS LUZIADAS, por José Agos tinho de Macedo
- Lisboa. Anno de 1820. Tomo II, pag. 49 e 50.)
Onde
Camões e Jorge Ferreira a foram buscar é que
não está por em quanto averiguado. Pinheiro
Chagas, inclinando-se a crer que ambos elles a houvessem copiado
de alguma velha chronica desconhecida ou de alguma tradição
meio olvidada, escreve o seguinte:
"Nada
nos autorisa a acreditarmos na veracidade do facto; mas o
que elle nos symbolisa bem é o espirito aventuroso
dos Portuguezes que n'essa epoca appareciam por toda a parte
onde havia façanhas a praticar, justas onde combater.
Na Allemanha, na Inglaterra, em Flandres, em França,
as chronicas extrangeiras nos mostram n'esse tempo cavalleiros
Portuguezes a quebrarem lanças por Deus e por sua dama.
Se desapparecem depois, mais talvez do que deviam, dos campos
de batalha da Europa, é porque o seu amor das aventuras
encontra amplo alimento nos descobrimentos, e nas conquistas".
1
Ora,
no tempo de D. João I é que predominava essencialmente
inflammado o espirito cavalleiresco. Os seus proprios filhos,
de entre os quaes D. Duarte, D. Pedro, e D. Henrique, ardiam
em desejos de ser armados cavalleiros. 2
(HISTORIA
DE PORTUGAL, desde os tempos mais remotos até á
actualidade, excripta, segundo o plano de F. Diniz,, por uma
sociedade de homens de lettras. Lisboa. Vol. II, pag. 325.
Nota 2.
"Ser
armado cavalleiro equivalia, sem tirar nem pôr, ao acto
de receber o grau da cavallaria. Isto vinha a ser uma cousa
de grande importancia.
p 100 (no final):
"Salienta-se
tambem o vulto gigantesco de D. Alvaro Vaz de Almada por ter
sido elle aquelle mesmo cavalleiro e amigo dedicado que, quando
D. Pedro, seu velho camarada, lhe perguntou se estava resolvido
a acompanhal-o na morte como sempre o acompanhara na vida,
respondeu que era essa a sua firme resolução
e que não tinha outro desejo que lhe fosse mais caro.
Então elle e D. Pedro juraram juntamente não
sobreviverem um ao outro. Este facto, porém, não
ficou por aqui, porque para tornarem mais solemne e santo
o seu juramento ambos elles commungaram e repetiram sobre
a hostia aquella concordia. Este foi o ultimo lampejo da cavallaria
expirante. Ora por isto e pelo que nos diz Pinheiro Chagas,
se vê que as idéas exaltadas de cavallaria e
de mysticismo, predominavam nos mais nobres espiritos da epocha,
dando assim ao sentimento da amisade um caracter ethereo e
grandioso que hoje parece pertencer exclusivamente ao amor."
ALFREDO
DE PRATT.
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Ver
também in: jaimemb.no.sapo.pt/murais/
Descrição:
(Os Lusíadas contados às crianças e lembrados
ao povo, adaptação em prosa de João de
Barros Livraria Sá da Costa)

Descrição:
(in Os Lusíadas contados às crianças
e lembrados ao povo,
adaptação em prosa de João de Barros
Livraria Sá da Costa)
"Iam os nossos portugueses, nesse
momento, descansados e bem dispostos.
E tão descansados, tão descuidados
dos possíveis perigos, que o nosso conhecido Veloso,
marinheiro engraçado e esperto, a pedido dos seus companheiros
começou a contar, para os distraír, a famosa
história de Magriço ou dos «Doze de Inglaterra».
Encostado à amurada do navio, à luz das estrelas,
e enquanto a frota cortava as ondas serenas, Veloso falava,
alegremente. E dizia:
«No tempo de D. João I, quando
o reino de Portugal já estava sossegado e liberto dos
espanhóis, deu-se na Inglaterra uma grande questão
entre doze damas e doze cavaleiros.
«Tanto se envenenou essa questão,
que por fim os cavaleiros declararam que as damas nem o nome
de damas mereciam.
«Grande injúria, já
se sabe, injúria que elas não podiam perdoar.
Mas não ficou aí o feio caso! Mais afirmaram
os fidalgos ingleses que se alguém quisesse defender
as damas do insulto recebido, ali estavam todos para matar
com lança e espada os audaciosos que a tal se atrevessem.
«E a verdade é que, entre
os seus compatriotas, nenhum se atreveu a aceitar o desafio,
receosos da valentia, da importância e do nome que tinham
os cavaleiros insultadores...
«As pobres damas, coitadas! choravam
e maldiziam a sua triste sorte!
«Não sabendo como se poderiam
vingar da ofensa recebida, foram pedir conselho e ajuda ao
Duque de Lencastre, guerreiro inglês que tinha combatido
com os portugueses contra Castela, e cuja filha, D. Filipa,
casara com D. João I.
«O Duque de Lencastre, logo lhes
aconselhou que chamassem cavaleiros da nossa terra para as
desagravar, tanta ousadia, boa educação e coragem
tinha conhecido e apreciado nos portugueses.
«E indicou-lhes imediatamente o nome
de doze bravos, seus amigos de Portugal, capazes de combaterem
e morrerem por elas.
«Mandam as senhoras inglesas um emissário
a Lisboa, trazendo cartas de cada uma das damas par a cada
um dos nossos valentes portugueses.
«Chegam as cartas, com a notícia
espantosa. E tanta indignação causou entre nós
a conduta dos doze ingleses, que até o Rei D. João
I desejava ir castigá-los...
«Mas o Rei é o Rei: - tem
de governar o seu povo, e não sai da sua terra quando
lhe apetece...
«Arma-se um navio no Porto e embarcam
nele os fidalgos lusitanos.
«Mas só onze, embarcaram.
O mais valente, chamado Magriço, decidiu ir por terra,
prometendo, no entanto aparecer no momento próprio.
Queria dar o seu passeio, antes de chegar a Inglaterra.
«Um belo dia, os onze portugueses
desembarcam em Londres, onde são muito bem recebidos
e tratados.
«Aproxima-se a hora do combate. Ninguém
tem medo, dos nossos. Só uma coisa os preocupa: - a
demora de Magriço, que anda não se sabe por
onde.
«Parára na Flandres, e por
lá se divertia, sempre lembrado, no entanto, do dia
do torneio... Ou não fosse ele um leal e honrado português!
«Mas o dia do torneio alvoreceu,
e Magriço ainda não estava em Londres! A dama,
a quem ele vinha defender, veste-se de luto, certa já
de que não teria paladino.
«Vai a côrte inglesa toda para
o campo de combate. O Rei senta-se no seu trono e as outras
pessoas à volta dele.
«Os cavalos dos combatentes espumam
já.
«O sol rutila nas lanças.
A ansiedade de todos é enorme.
«Mas do lado dos ingleses há
doze cavaleiros, e do nosso lado - só onze!...
«Onde estaria, perguntam todos, o
descuidado Magriço?
«De repente, grande alvoroço
se produz e toda a gente olha para a entrada do campo.
«É Magriço que entra,
montado no seu cavalo, vestido e pronto para o combate.
«Cumprimenta o Rei, fala às
damas, abraça os companheiros, que rejubilam, e toma
lugar ao lado deles.
«A sua dama logo ali mesmo se enfeita
com luxuosos arminhos, que são adornos de festa.
«Dá sinal a trombeta do combate
e os cavaleiros espoream os cavalos, largam as rédeas,
abaixam as lanças.
«Faísca a terra sob as patas
dos animais, que mordem os freios de ouro. O chão parece
tremer todo, sacudido.
«O coração de quem
olha os cavaleiros estremece, tão violenta é
a luta.
«O aço das armas torna-se
vermelho com o sangue do inimigo.
«Uns, caíndo, parecem voar
dos cavalos até ao chão...
«Outros, derrubados e arrastados,
açoitam com os penachos dos elmos as ancas dos ginetes...
«Morrem alguns. O resto fica ferido.
E, depois de porfiada peleja, os portugueses vencem inteiramente
os adversários, com aprumo e galhardia raras.
«A soberba inglesa sofreu assim um
duro golpe, mas as damas ficaram desafrontadas da injúria
sofrida, graças à coragem e audácia dos
nossos, que não hesitaram em bater-se pela honra alheia...
«Mais uma vez triunfou o espírito
guerreiro e cavalheiresco, e a força invencível
da gente da nossa terra. O Duque de Lencastre, para lhes agradecer,
albergou no seu palácio os portugueses. E, enquanto
eles não regressaram a Portugal, todos os dias lhes
ofereceu divertimentos, bailes e jantares, onde nunca faltavam
as doze damas. À volta, segundo contam, ainda Magriço
e um seu companheiro tiveram alguns desafios, o primeiro na
Flandres e o segundo na Alemanha. Não deixavam nunca
de pôr à prova a sua valentia e destreza no manejo
das armas...»
Queria Veloso continuar a sua narração,
quando o mestre do navio lhe pediu, e aos seus ouvintes, para
estarem alerta...É que se anunciava já a tempestade
que Baco projectara desencadear. ..
De facto, uma nuvem negra corria sobre
a frota, e o vento crescia com enorme violência."
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