CONTOS & LENDAS
A ARTE DE enCANTAR
na LITERATURA POPULAR PORTUGUESA

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CONTOS & LENDAS

Serra da Estrela

ALENTEJO
uma TEIA infindável de Contos & Lendas

 

12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


Os doze de Inglaterra

(Lusíadas, Canto VI, 43 - 69 - é o sétimo episódio inserido na Obra como:

1º Batalha do Salado - Canto III, 107 - 117;
2º Inês de Castro, Canto III, 118 - 135;
3º Aljubarrota,
Canto IV, 28 - 44;
4º Velho do Restelo, Canto IV, 94 - 1004;
5º Veloso, Canto V, 30 - 36;
6º Adamastor, Canto V, 41 - 48; inclui a 4ª profecia;
7º Doze de Inglaterra, Canto VI, 43 - 69; (Clicar para LER)
8º São Tomé, Canto X, 108 - 119
. I

"Os doze de Inglaterra" - (algumas notas só para estudo e propostas? …
por Alfredo PRATT - in IV ano 1902 que se estende por 4 volumes, de Fevereiro a Julho de 1902, que acupam 16 páginas desta Revista «A TRADIÇÃO»:

Anno IV - Nº 2, Fevereiro de 1902, Volume IV: p. 17, 18, 20, 22, 23 +
Anno IV - Nº 3, Março de 1902, Volume IV: 33, 34, 36, 38 +
Anno IV - Nº 5, Maio de 1902, Volume IV: 65, 66, 68, 70 +
Anno IV - Nº 7, Julho de 1902, Volume IV: 97, 98, 100

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]

OS doze de Inglaterra

HOJE em dia já não resta a menor duvida de que é uma lenda aquella velha historia de doze portuguezes que, pelo facto de terem vencido em Inglaterra outros tantos inglezes, se ficaram chamando os doze de Inglaterra. Contam-na Luiz de Camões nos Lusíadas, pela bocca de Fernão Velloso, e Jorge Ferreira de Vasconcellos na sua Memoria dos cavalleiros da Tavola Rednda. A este serviu ella para melhor entretecer um capitulo do citado volume; áquelle deu-lhe amplo pretexto para um dos mais formosos episodios do seu glorioso poema, ainda que pese a José Agostinho de Macedo. Não reprova, porém, o tonsurado escriptor a citada historieta, pelo facto de ella ser fabulosa. Nada de isso. Elle expressa-se assim:

"Ora consideremos nos Luziadas o Episodio dos doze de Inglaterra. Em quanto á versificação, ás imagens, ao andamento, á força icastica, ou representativa, nada ha mais perfeito, apontado, e acabado em todo o Poema; em quanto á indole do Episodio, e á relação que deve conservar com a acção principal, nada ha mais defeituoso, pois nem d'ella dimana, nem a ella se refere. Não ha coiza acontecida no tempo da acção, não foi executada por nenhum dos seus agentes principaes, ou accessorios; em huma palavra, assim como foi aquella historia a contada, podia ser outra, pois entre os contadores e os ouvintes houve sua deliberação; Leonardo Ribeiro queria huma coiza, Fernão Velloso queria outra, e prevaleceu o parecer de Fernão Velloso. Seja embora verdadeira, ou fabulosa esta Historia de andante cavallaria, porque d'ella nenhum vestigio apparece em nossas Historias, e apenas nos Annaes de Flandres escriptos por Manuel Sueiro, aliás o infeliz Indio Manuel Fernandes de Villa Real,se acha algma noticia d'esta aventura; isso não he do caso, e não ha razão que a possa unir, ou fazer depender da acção do Descobrimento da India. He huma parte absolutamente estranha inserida n'aquelle corpo; e mais desculpa tem as turpitudes da Ilha encantada, e os sentimentos magoados de Isetis no martyrio do Apostolo S. Thomé, porque em fim tudo isso se refere ao Heroe, e mais agentes subalternos da acção, do que a destacada Historia dos doze de Inglaterra."
(in CENSURA DOS LUZIADAS, por José Agos tinho de Macedo - Lisboa. Anno de 1820. Tomo II, pag. 49 e 50.)

Onde Camões e Jorge Ferreira a foram buscar é que não está por em quanto averiguado. Pinheiro Chagas, inclinando-se a crer que ambos elles a houvessem copiado de alguma velha chronica desconhecida ou de alguma tradição meio olvidada, escreve o seguinte:

"Nada nos autorisa a acreditarmos na veracidade do facto; mas o que elle nos symbolisa bem é o espirito aventuroso dos Portuguezes que n'essa epoca appareciam por toda a parte onde havia façanhas a praticar, justas onde combater. Na Allemanha, na Inglaterra, em Flandres, em França, as chronicas extrangeiras nos mostram n'esse tempo cavalleiros Portuguezes a quebrarem lanças por Deus e por sua dama. Se desapparecem depois, mais talvez do que deviam, dos campos de batalha da Europa, é porque o seu amor das aventuras encontra amplo alimento nos descobrimentos, e nas conquistas". 1

Ora, no tempo de D. João I é que predominava essencialmente inflammado o espirito cavalleiresco. Os seus proprios filhos, de entre os quaes D. Duarte, D. Pedro, e D. Henrique, ardiam em desejos de ser armados cavalleiros. 2

(HISTORIA DE PORTUGAL, desde os tempos mais remotos até á actualidade, excripta, segundo o plano de F. Diniz,, por uma sociedade de homens de lettras. Lisboa. Vol. II, pag. 325. Nota 2.

"Ser armado cavalleiro equivalia, sem tirar nem pôr, ao acto de receber o grau da cavallaria. Isto vinha a ser uma cousa de grande importancia.

… p 100 (no final):

"Salienta-se tambem o vulto gigantesco de D. Alvaro Vaz de Almada por ter sido elle aquelle mesmo cavalleiro e amigo dedicado que, quando D. Pedro, seu velho camarada, lhe perguntou se estava resolvido a acompanhal-o na morte como sempre o acompanhara na vida, respondeu que era essa a sua firme resolução e que não tinha outro desejo que lhe fosse mais caro. Então elle e D. Pedro juraram juntamente não sobreviverem um ao outro. Este facto, porém, não ficou por aqui, porque para tornarem mais solemne e santo o seu juramento ambos elles commungaram e repetiram sobre a hostia aquella concordia. Este foi o ultimo lampejo da cavallaria expirante. Ora por isto e pelo que nos diz Pinheiro Chagas, se vê que as idéas exaltadas de cavallaria e de mysticismo, predominavam nos mais nobres espiritos da epocha, dando assim ao sentimento da amisade um caracter ethereo e grandioso que hoje parece pertencer exclusivamente ao amor."

ALFREDO DE PRATT.

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Ver também in: jaimemb.no.sapo.pt/murais/
Descrição:
(Os Lusíadas contados às crianças e lembrados ao povo, adaptação em prosa de João de Barros – Livraria Sá da Costa)

Descrição:
(in Os Lusíadas contados às crianças e lembrados ao povo,
adaptação em prosa de João de Barros – Livraria Sá da Costa)
 
    "Iam os nossos portugueses, nesse momento, descansados e bem dispostos.
    E tão descansados, tão descuidados dos possíveis perigos, que o nosso conhecido Veloso, marinheiro engraçado e esperto, a pedido dos seus companheiros começou a contar, para os distraír, a famosa história de Magriço ou dos «Doze de Inglaterra». Encostado à amurada do navio, à luz das estrelas, e enquanto a frota cortava as ondas serenas, Veloso falava, alegremente. E dizia:
    «No tempo de D. João I, quando o reino de Portugal já estava sossegado e liberto dos espanhóis, deu-se na Inglaterra uma grande questão entre doze damas e doze cavaleiros.
    «Tanto se envenenou essa questão, que por fim os cavaleiros declararam que as damas nem o nome de damas mereciam.
    «Grande injúria, já se sabe, injúria que elas não podiam perdoar. Mas não ficou aí o feio caso! Mais afirmaram os fidalgos ingleses que se alguém quisesse defender as damas do insulto recebido, ali estavam todos para matar com lança e espada os audaciosos que a tal se atrevessem.
    «E a verdade é que, entre os seus compatriotas, nenhum se atreveu a aceitar o desafio, receosos da valentia, da importância e do nome que tinham os cavaleiros insultadores...
    «As pobres damas, coitadas! choravam e maldiziam a sua triste sorte!
    «Não sabendo como se poderiam vingar da ofensa recebida, foram pedir conselho e ajuda ao Duque de Lencastre, guerreiro inglês que tinha combatido com os portugueses contra Castela, e cuja filha, D. Filipa, casara com D. João I.
    «O Duque de Lencastre, logo lhes aconselhou que chamassem cavaleiros da nossa terra para as desagravar, tanta ousadia, boa educação e coragem tinha conhecido e apreciado nos portugueses.
    «E indicou-lhes imediatamente o nome de doze bravos, seus amigos de Portugal, capazes de combaterem e morrerem por elas.
    «Mandam as senhoras inglesas um emissário a Lisboa, trazendo cartas de cada uma das damas par a cada um dos nossos valentes portugueses.
    «Chegam as cartas, com a notícia espantosa. E tanta indignação causou entre nós a conduta dos doze ingleses, que até o Rei D. João I desejava ir castigá-los...
    «Mas o Rei é o Rei: - tem de governar o seu povo, e não sai da sua terra quando lhe apetece...
    «Arma-se um navio no Porto e embarcam nele os fidalgos lusitanos.
    «Mas só onze, embarcaram. O mais valente, chamado Magriço, decidiu ir por terra, prometendo, no entanto aparecer no momento próprio. Queria dar o seu passeio, antes de chegar a Inglaterra.
    «Um belo dia, os onze portugueses desembarcam em Londres, onde são muito bem recebidos e tratados.
    «Aproxima-se a hora do combate. Ninguém tem medo, dos nossos. Só uma coisa os preocupa: - a demora de Magriço, que anda não se sabe por onde.
    «Parára na Flandres, e por lá se divertia, sempre lembrado, no entanto, do dia do torneio... Ou não fosse ele um leal e honrado português!
    «Mas o dia do torneio alvoreceu, e Magriço ainda não estava em Londres! A dama, a quem ele vinha defender, veste-se de luto, certa já de que não teria paladino.
    «Vai a côrte inglesa toda para o campo de combate. O Rei senta-se no seu trono e as outras pessoas à volta dele.
    «Os cavalos dos combatentes espumam já.
    «O sol rutila nas lanças. A ansiedade de todos é enorme.
    «Mas do lado dos ingleses há doze cavaleiros, e do nosso lado - só onze!...
    «Onde estaria, perguntam todos, o descuidado Magriço?
    «De repente, grande alvoroço se produz e toda a gente olha para a entrada do campo.
    «É Magriço que entra, montado no seu cavalo, vestido e pronto para o combate.
    «Cumprimenta o Rei, fala às damas, abraça os companheiros, que rejubilam, e toma lugar ao lado deles.
    «A sua dama logo ali mesmo se enfeita com luxuosos arminhos, que são adornos de festa.
    «Dá sinal a trombeta do combate e os cavaleiros espoream os cavalos, largam as rédeas, abaixam as lanças.
    «Faísca a terra sob as patas dos animais, que mordem os freios de ouro. O chão parece tremer todo, sacudido.
    «O coração de quem olha os cavaleiros estremece, tão violenta é a luta.
    «O aço das armas torna-se vermelho com o sangue do inimigo.
    «Uns, caíndo, parecem voar dos cavalos até ao chão...
    «Outros, derrubados e arrastados, açoitam com os penachos dos elmos as ancas dos ginetes...
    «Morrem alguns. O resto fica ferido. E, depois de porfiada peleja, os portugueses vencem inteiramente os adversários, com aprumo e galhardia raras.
    «A soberba inglesa sofreu assim um duro golpe, mas as damas ficaram desafrontadas da injúria sofrida, graças à coragem e audácia dos nossos, que não hesitaram em bater-se pela honra alheia...
    «Mais uma vez triunfou o espírito guerreiro e cavalheiresco, e a força invencível da gente da nossa terra. O Duque de Lencastre, para lhes agradecer, albergou no seu palácio os portugueses. E, enquanto eles não regressaram a Portugal, todos os dias lhes ofereceu divertimentos, bailes e jantares, onde nunca faltavam as doze damas. À volta, segundo contam, ainda Magriço e um seu companheiro tiveram alguns desafios, o primeiro na Flandres e o segundo na Alemanha. Não deixavam nunca de pôr à prova a sua valentia e destreza no manejo das armas...»
    Queria Veloso continuar a sua narração, quando o mestre do navio lhe pediu, e aos seus ouvintes, para estarem alerta...É que se anunciava já a tempestade que Baco projectara desencadear. ..
    De facto, uma nuvem negra corria sobre a frota, e o vento crescia com enorme violência."

 

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