CONTOS & LENDAS
A ARTE DE enCANTAR
na LITERATURA POPULAR PORTUGUESA

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CONTOS & LENDAS

Serra da Estrela

ALENTEJO
uma TEIA infindável de Contos & Lendas

 

12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Os doze de Inglaterra

(Lusíadas, Canto VI, 43 - 69 - é o sétimo episódio inserido na Obra como:

1º Batalha do Salado - Canto III, 107 - 117;
2º Inês de Castro, Canto III, 118 - 135;
3º Aljubarrota, Canto IV, 28 - 44;
4º Velho do Restelo, Canto IV, 94 - 1004;
5º Veloso, Canto V, 30 - 36;
6º Adamastor, Canto V, 41 - 48; inclui a 4ª profecia;
7º Doze de Inglaterra, Canto VI, 43 - 69;
8º São Tomé, Canto X, 108 - 119.
I

Lusíadas - 7º Episódio - Os 12 de Inglaterra
Canto VI - desde o final do v. 39 a 70

39...
...
...
...

Remédios contra o sono buscar querem,
Histórias contam, casos mil referem.

40

"Com que melhor podemos, um dizia,
Este tempo passar, que é tão pesado,
Senão com algum conto de alegria,
Com que nos deixe o sono carregado?"
Responde Leonardo, que trazia
Pensamentos de firme namorado:
"Que contos poderemos ter melhores,
Para passar o tempo, que de amores?"

41

"Não é, disse Veloso, coisa justa
Tratar branduras em tanta aspereza;
Que o trabalho do mar, que tanto custa,
Não sofre amores, nem delicadeza;
Antes de guerra férvida e robusta
A nossa história seja, pois dureza
Nossa vida há de ser, segundo entendo,
Que o trabalho por vir me está dizendo."

42

Consentem nisto todos, e encomendam
A Veloso que conte isto que aprova.
"Contarei, disse, sem que me repreendam
De contar cousa fabulosa ou nova;
E porque os que me ouvirem daqui aprendam
A fazer feitos grandes de alta prova,
Dos nascidos direi na nossa terra,
E estes sejam os doze de Inglaterra.

43

"No tempo que do Reino a rédea leve
João, filho de Pedro, moderava,
Depois que sossegado e livre o teve
Do vizinho poder, que o molestava,
Lá na grande Inglaterra, que da neve
Boreal sempre abunda, semeava
A fera Erínis dura e má cizânia,
Que lustre fosse a nossa Lusitânia.

44

"Entre as damas gentis da corte Inglesa
E nobres cortesãos, acaso um dia
Se levantou discórdia em ira acesa,
Ou foi opinião, ou foi porfia.
Os cortesãos, a quem tão pouco pesa
Soltar palavras graves de ousadia,
Dizem que provarão, que honras e famas

45

"E que se houver alguém, com lança e espada,
Que queira sustentar a parte sua,
Que eles, em campo raso ou estacada,
Lhe darão feia infâmia, ou morte crua.
A feminil fraqueza Pouco usada,
Ou nunca, a opróbrios tais, vendo-se nua
De forças naturais convenientes,
Socorro pede a amigos e parentes.

46

"Mas como fossem grandes e possantes
No reino os inimigos, não se atrevem
Nem parentes, nem férvidos amantes,
A sustentar as damas, como devem.
Com lágrimas formosas e bastantes
A fazer que em socorro os Deuses levem
De todo o Céu, por rostos de alabastro,
Se vão todas ao duque de Alencastro.

47

"Era este Inglês potente, e militara
Com os Portugueses já contra Castela,
Onde as forças magnânimas provara
Dos companheiros, e benigna estrela:
Não menos nesta terra experimentara
Namorados afeitos, quando nela
A filha viu, que tinto o peito doma
Do forte Rei, que por mulher a toma.

48

"Este, que socorrer-lhe não queria,
Por não causar discórdias intestinas,
Lhe diz: - "Quando o direito pretendia
Do reino lá das terras Iberinas,
Nos Lusitanos vi tanta ousadia,
Tanto primor, e partes tão divinas,
Que eles sós poderiam, se não erro,
Sustentar vossa parte a fogo e ferro.

49

"E se, agravadas damas, sois servidas,
Por vós lhe mandarei embaixadores,
Que, por cartas discretas e polidas,
De vosso agravo os façam sabedores.
Também por vossa parto encarecidas
Com palavras de afagos e de amores
Lhe sejam vossas lágrimas, que eu creio
Que ali tereis socorro e forte esteio." -

50

"Destarte as aconselha o Duque experto,
E logo lhe nomeia doze fortes;
E por que cada dama um tenha certo,
Lhe manda que sobre eles lancem sortes,
Que elas só doze são; e descoberto
Qual a qual tem caído das consertes,
Cada uma escreve ao seu por vários modos,
E todas a seu Rei, e o Duque a todos.

51

"Já chega a Portugal o mensageiro;
Toda a corte alvoroça a novidade;
Quisera o Rei sublime ser primeiro,
Mas não lhe sofre a Régia Majestade.
Qualquer dos cortesãos aventureiro
Deseja ser, com férvida vontade,
F, só fica por bem-aventurado
Quem já vem pelo Duque nomeado.

52

"Lá na leal Cidade, donde teve
Origem (como é fama) o nome eterno
De Portugal, armar madeiro leve
Manda o que tem o leme do governo.
Apercebem-se os doze, em tempo breve,
De armas, e roupas de uso mais moderno,
De elmos, cimeiras, letras, e primores,
Cavalos, e concertos de mil cores.

53

"Já do seu Rei tomado têm licença
Para partir do Douro celebrado
Aqueles, que escolhidos por sentença
Foram do Duque Inglês experimentado.
Não há na companhia diferença
De cavaleiro destro ou esforçado;
Mas um só, que Magriço se dizia,
Destarte fala à forte companhia:

54

- "Fortíssimos consócios, eu desejo
Há muito já de andar terras estranhas,
Por ver mais águas que as do Douro o Tejo,
Várias gentes, e leis, e várias manhas.
Agora, que aparelho certo vejo,
(Pois que do mundo as coisas são tamanhas)
Quero, se me deixais, ir só por terra,
Porque eu serei convosco em Inglaterra.

55

- "E quando caso for que eu impedido
Por quem das cousas é última linha,
Não for convosco ao prazo instituído,
Pouca falta vos faz a falta minha:
Todos por mim fareis o que é devido;
Mas, se a verdade o espírito me adivinha,
Rios, montes, fortuna, ou sua inveja,
Não farão que eu convosco lá não seja."

56

"Assim diz, e abraçados os amigos,
E tomada licença, enfim se parte:
Passa Lião, Castela, vendo antigos
Lugares, que ganhara o pátrio Marte;
Navarra, com os altíssimos perigos
Do Perineu, que Espanha e Gália parte;
Vistas enfim de França as coisas grandes,
No grande empório foi parar de Frandes.

57

"Ali chegado, ou fosse caso ou manha,
Sem passar se deteve muitos dias:
Mas dos onze a ilustríssima companha
Cortam do mar do Norte as ondas frias.
Chegados de Inglaterra à costa estranha,
Para Londres já fazem todos vias.
Do Duque são com festa agasalhados,
E das damas servidos e amimados.

58

"Chega-se o prazo e dia assinalado
De entrar em campo já com os doze Ingleses,
Que pelo Rei já tinham segurado:
Armam-se de elmos, grevas e de arneses:
Já as damas têm por si, fulgente e armado,
O Mavorte feroz dos Portugueses;
Vestem-se elas de cores e de sedas,
De ouro e de jóias mil, ricas e ledas.

59

"Mas aquela, a quem fora em sorte dado
Magriço, que não vinha, com tristeza
Se veste, por não ter quem nomeado
Seja seu cavaleiro nesta empresa;
Bem que os onze apregoam, que acabado
Será o negócio assim na corte Inglesa,
Que as damas vencedoras se conheçam,
Posto que dois e três dos seus faleçam.

60

"Já num sublime e público teatro
Se assenta o Rei Inglês com toda a corte:
Estavam três e três, e quatro e quatro,
Bem como a cada qual coubera em sorte.
Não são vistos do Sol, do Tejo ao Batro,
De força, esforço e de ânimo mais forte
Outros doze sair, como os Ingleses,
No campo, contra os onze Portugueses.

61

"Mastigam os cavalos, escumando,
Os áureos freios com feroz semblante;
Estava o Sol nas armas rutilando
Como em cristal ou rígido diamante;
Mas enxerga-se num e noutro bando
Partido desigual e dissonante
Dos onze contra os doze: quando a gente
Começa a alvoroçar-se geralmente.

62

"Viram todos o rosto aonde havia
A causa principal do reboliço:
Eis entra um cavaleiro, que trazia
Armas, cavalo, ao bélico serviço.
Ao Rei e às damas fala, e logo se ia
Para os onze, que este era o grã Magriço;
Abraça os companheiros como amigos,
A quem não falta certo nos perigos.

63

"A dama, como ouviu que este era aquele
Que vinha a defender seu nome e fama,
Se alegra, e veste ali do animal de Hele,
Que a gente bruta mais que virtude ama.
Já dão sinal, e o som da tuba impele
Os belicosos ânimos, que inflama:
Picam de esporas, largam rédeas logo,
Abaixam lanças, fere a terra fogo.

64

"Dos cavalos o estrépito parece
Que faz que o chão debaixo todo treme;
O coração no peito, que estremece
De quem os olha, se alvoroça e teme:
Qual do cavalo voa, que não desce;
Qual, com o cavalo em terra dando, geme;
Qual vermelhas as armas faz de brancas;
Qual com os penachos do elmo açouta as ancas.

65

"Algum dali tomou perpétuo sono
E fez da vida ao fim breve intervalo;
Correndo algum cavalo vai sem dono
E noutra parte o dono sem cavalo.
Cai a soberba Inglesa de seu trono,
Que dois ou três já fora vão do vale;
Os que de espada vêm fazer batalha,
Mais acham já que arnês, escudo e malha.

66

"Gastar palavras em contar extremos
De golpes feros, cruas estocadas,
É desses gastadores, que sabemos,
Maus do tempo, com fábulas sonhadas.
Basta, por fim do caso, que entendemos
Que com finezas altas e afamadas,
Com os nossos fica a palma da vitória,
E as damas vencedoras, e com glória.

67

"Recolhe o Duque os doze vencedores
Nos seus paços, com festas e alegria;
Cozinheiros ocupa e caçadores
Das damas a formosa companhia,
Que querem dar aos seus libertadores
Banquetes mil cada hora e cada dia,
Enquanto se detêm em Inglaterra,
Até tornar à doce e cara terra.

68

"Mas dizem que, contudo, o grã Magriço,
Desejoso de ver as coisas grandes,
Lá se deixou ficar, onde um serviço
Notável à condessa fez de Frandes;
E como quem não era já noviço
Em todo trance, onde tu, Marte, mandes,
Um Francês mata em campo, que o destino
Lá teve de Torcato e de Corvino.

69

"Outro também dos doze em Alemanha
Se lança, e teve um fero desafio
Com um Germano enganoso, que com manha
Não devida o quis pôr no extremo fio."
Contando assim Veloso, já a companha
Lhe pede que não f aça tal desvio
Do caso de Magriço, e vencimento,
Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.

70

Mas, neste passo, assim prontos estando
Eis o mestre, que olhando os ares anda,
O apito toca; acordam despertando
Os marinheiros duma e doutra banda;
E porque o vento vinha refrescando,
Os traquetes das gáveas tomar manda:
"Alerta, disse, estai, que o vento cresce

Daquela nuvem negra que aparece."

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