CONTOS & LENDAS
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na LITERATURA POPULAR PORTUGUESA

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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
I - "Graças a Deus - ou - O Homem Ruim"
(Recolha da Tradição oral)
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno IV, Nº 9, Setembro de 1902, Volume IV, pp. 141, 142 e 143

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


in - emagrecendocomsaude-tina.blogspot

Graças a Deus ou O Homem Ruim…


Graças a Deus para sempre,
Tenho a barriga cheia e toda a minha gente.

"Havia n'outro tempo um homem muito ruim para a mulher e filhos, e por isso os fazia passar fomes, batia-lhes, não lhes dava falla, emfim, a pobre mulher vivia n'um tormento constante.

Tinha elle por costume ser o primeiro que aviava o seu prato, com pouca comida, e principiava logo a comer, de fórma que, quando a mulher estava aviando o prato do terceiro ou quarto filho, já elle tinha acabado, e então tirava o prato que tinha o resto do jantar, que guardava n'um armario, e dizia, á maneira das santas graças:

Graças a Deus para sempre,
Tenho a barriga cheia e toda a minha gente.

A mulher, coitadinha, tinha de comer só pão, para que os filhos comessem o que ella tinha podido tirar do prato, mas que era pouco para tantos. E elle como n'aquella occasião comia pouco, depois vinha comer sósinho o que tinha guardado. Assim succedia todos os dias e a todas as comidas, até que um dia appareceu ali um compadre a quem a mulher, cheia de desgosto, contou o que o marido lhe fazia e a má vida que lhe dava, devido ao seu mau genio.
O compadre teve muito dó d'ella e dos filhos e prometteu-lhe que o havia de ensinar.
Veio depois o marido e fez muitas festas ao compadre, convidando-o para ficar em sua casa, etc., etc.

Chegou a hora de jantar e o dono da casa fez o costume; mas quando foi tirar o prato para ir guardar, depois de recitar a oração costumada, diz-lhe o compadre: - Espere lá, compadre; se vocemecê tem a barriga cheia, a minha e a das crianças estão despejadas; e como vocemecê me convidou para ficar na sua casa, não ha de ser para eu passar fomes. - O outro envergonhou-se de tornar a assentar-se e foi para o trabalho, e o compadre e a familia comêram a fartar.

Depois disse para a comadre:
- "Vocemecê não faça ceia, e deixe o resto por minha conta".
Chegou a noite, e depois de terem estado um bocado á lareira a conversar, foram-se todos deitar, mas no meio da noite o dono da casa, que não podia com fóme, chamou a mulher e disse-lhe:
- "O' mulher, plamôrdeus, vae-me fazer alguma coisa para comer, que não posso estar com fome".
- "Ai hóme! o que te hei-de fazer a estas horas?
- "Faz-me umas papas".

Levantou-se a pobre mulher, reanimou o lume e pôz o tacho da agua a ferver com a farinha, mas quando estavam quasi promptas, o compadre que tinha ficado na cosinha "para dormir mais quente", atira com as meias sujas para dentro do tacho que, estando mal seguro, tombou, e entornaram-se as pápas!
- "Ai compadre que me desgraçou!"
- "Então a comadre não estava fazendo barrella?
- "Não senhor, eram umas papas para o meu marido. Então o que lhe hei de agora dizer?"
- "Ora, conte-lhe o meu engano." A mulher foi para o quarto contar ao marido o que se passou, mas elle que tinha muita fome diz-lhe:
- "O' mulher, tem paciencia, vae fazer-me um bolo de amassadura, e coze-o no borralho."
- "Ora como hei de fazer isso, se o nosso compadre está lá na cosinha, e se me vê ao lume faz-me alguma pirraça."
- "Anda lá, experimenta."

A mulher fez o bolo e foi cosêl-o; mas o compadre assim que a viu, veio assentar-se ao lume, dizendo que não podia dormir com frio, e pegando na tenaz, diz-lhe:

- "Agora vou contar-lhe a minha historia: Olhe, comadre, o meu pae era rico, mas nós quando elle morreu, eramos 14 irmãos, de maneira que teve de entrar a justiça em casa, por causa das partilhas. Que desgraça nos succedeu, minha comadre, Foi tudo dividido assim: bocado a um, bocado a outro; a um as panellas, a outro os tachos, a outro os pratos, por fim era já tão grande a barafunda, que cada um tirava o que podia." - E a cada quinhão de que faltava fazia um risco fundo com a tenaz no bolo, com a cinza, que era impossivel comer-se!

A pobre mulher, por mais que diligenciava evitar que elle estragasse o bolo, nada poude conseguir, em vista do enthusiasmo com que elle fazia os quinhões, e quando viu o estado em que elle o pôz, disse: - "Ai, compadre da minha alma! que era um bolo para meu marido!"
- "Ai, comadre, porque não m'o disse? E eu julgava que era o formento que vocemecê estava fazendo!
- "Então agora o que lhe hei de eu dizer?
- "Ora, diga-lhe que dormiu e que o gato o comeu."

A mulher isso lhe disse. O marido ficou desesperado, e como não podia ficar assim, resolveu pôr ás costas a albarda da burra e ir para o faval, comer favas cruas. Assim fêz, mas o compadre, que o sentiu, pega n'uma espingarda e vae atraz d'elle, e quando o apanhou a comer as favas dispara um tiro. O homem assim que Isto ouve começa a gritar: - "O' compadre, não atire que sou eu!"
O outro fez-se muito admirado e procurou-lhe o que estava ali fazendo coberto com a albarda? Que elle tinha disparado pensando que era um rapôsa que estivesse comendo as favas.

- "E' que como hontem não jantei como costumo e nem ciei, não posso dormir com fome, e vocemecê tem estragado o que minha mulher tem ido fazer para eu comer, e por isso me vi obrigado a comer favas."
- "Ora muito bem; pois isso que lhe fiz hoje foi para avaliar o que a sua mulher e os seus filhos passam com a sua maldade de os fazer passar fóme. Agora que já sabe o que isso custa, deve emendar se e deixar que a sua familia encha a barriga."
O homem serviu-lhe a lição, e d'ahi em diante, comiam todos a satisfazer, e elle já não dizia:

Graças a Deus para sempre,
Tenho a barriga cheia e toda a minha gente.

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.

 

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