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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
I - "Graças a Deus - ou - O
Homem Ruim"
(Recolha da Tradição oral)
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno IV, Nº 9, Setembro
de 1902, Volume IV, pp. 141, 142 e 143
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

in -
emagrecendocomsaude-tina.blogspot
Graças
a Deus ou O Homem Ruim
Graças a Deus para sempre,
Tenho a barriga cheia e toda a minha gente.
"Havia
n'outro tempo um homem muito ruim para a mulher e filhos,
e por isso os fazia passar fomes, batia-lhes, não lhes
dava falla, emfim, a pobre mulher vivia n'um tormento constante.
Tinha
elle por costume ser o primeiro que aviava o seu prato, com
pouca comida, e principiava logo a comer, de fórma
que, quando a mulher estava aviando o prato do terceiro ou
quarto filho, já elle tinha acabado, e então
tirava o prato que tinha o resto do jantar, que guardava n'um
armario, e dizia, á maneira das santas graças:
Graças
a Deus para sempre,
Tenho a barriga cheia e toda a minha gente.
A
mulher, coitadinha, tinha de comer só pão, para
que os filhos comessem o que ella tinha podido tirar do prato,
mas que era pouco para tantos. E elle como n'aquella occasião
comia pouco, depois vinha comer sósinho o que tinha
guardado. Assim succedia todos os dias e a todas as comidas,
até que um dia appareceu ali um compadre a quem a mulher,
cheia de desgosto, contou o que o marido lhe fazia e a má
vida que lhe dava, devido ao seu mau genio.
O compadre teve muito dó d'ella e dos filhos e prometteu-lhe
que o havia de ensinar.
Veio depois o marido e fez muitas festas ao compadre, convidando-o
para ficar em sua casa, etc., etc.
Chegou
a hora de jantar e o dono da casa fez o costume; mas quando
foi tirar o prato para ir guardar, depois de recitar a oração
costumada, diz-lhe o compadre: - Espere lá, compadre;
se vocemecê tem a barriga cheia, a minha e a das crianças
estão despejadas; e como vocemecê me convidou
para ficar na sua casa, não ha de ser para eu passar
fomes. - O outro envergonhou-se de tornar a assentar-se e
foi para o trabalho, e o compadre e a familia comêram
a fartar.
Depois
disse para a comadre:
- "Vocemecê não faça ceia, e deixe
o resto por minha conta".
Chegou a noite, e depois de terem estado um bocado á
lareira a conversar, foram-se todos deitar, mas no meio da
noite o dono da casa, que não podia com fóme,
chamou a mulher e disse-lhe:
- "O' mulher, plamôrdeus, vae-me fazer alguma coisa
para comer, que não posso estar com fome".
- "Ai hóme! o que te hei-de fazer a estas horas?
- "Faz-me umas papas".
Levantou-se
a pobre mulher, reanimou o lume e pôz o tacho da agua
a ferver com a farinha, mas quando estavam quasi promptas,
o compadre que tinha ficado na cosinha "para dormir mais
quente", atira com as meias sujas para dentro do tacho
que, estando mal seguro, tombou, e entornaram-se as pápas!
- "Ai compadre que me desgraçou!"
- "Então a comadre não estava fazendo barrella?
- "Não senhor, eram umas papas para o meu marido.
Então o que lhe hei de agora dizer?"
- "Ora, conte-lhe o meu engano." A mulher foi para
o quarto contar ao marido o que se passou, mas elle que tinha
muita fome diz-lhe:
- "O' mulher, tem paciencia, vae fazer-me um bolo de
amassadura, e coze-o no borralho."
- "Ora como hei de fazer isso, se o nosso compadre está
lá na cosinha, e se me vê ao lume faz-me alguma
pirraça."
- "Anda lá, experimenta."
A
mulher fez o bolo e foi cosêl-o; mas o compadre assim
que a viu, veio assentar-se ao lume, dizendo que não
podia dormir com frio, e pegando na tenaz, diz-lhe:

-
"Agora vou contar-lhe a minha historia: Olhe, comadre,
o meu pae era rico, mas nós quando elle morreu, eramos
14 irmãos, de maneira que teve de entrar a justiça
em casa, por causa das partilhas. Que desgraça nos
succedeu, minha comadre, Foi tudo dividido assim: bocado a
um, bocado a outro; a um as panellas, a outro os tachos, a
outro os pratos, por fim era já tão grande a
barafunda, que cada um tirava o que podia." - E a cada
quinhão de que faltava fazia um risco fundo com a tenaz
no bolo, com a cinza, que era impossivel comer-se!
A
pobre mulher, por mais que diligenciava evitar que elle estragasse
o bolo, nada poude conseguir, em vista do enthusiasmo com
que elle fazia os quinhões, e quando viu o estado em
que elle o pôz, disse: - "Ai, compadre da minha
alma! que era um bolo para meu marido!"
- "Ai, comadre, porque não m'o disse? E eu julgava
que era o formento que vocemecê estava fazendo!
- "Então agora o que lhe hei de eu dizer?
- "Ora, diga-lhe que dormiu e que o gato o comeu."
A
mulher isso lhe disse. O marido ficou desesperado, e como
não podia ficar assim, resolveu pôr ás
costas a albarda da burra e ir para o faval, comer favas cruas.
Assim fêz, mas o compadre, que o sentiu, pega n'uma
espingarda e vae atraz d'elle, e quando o apanhou a comer
as favas dispara um tiro. O homem assim que Isto ouve começa
a gritar: - "O' compadre, não atire que sou eu!"
O outro fez-se muito admirado e procurou-lhe o que estava
ali fazendo coberto com a albarda? Que elle tinha disparado
pensando que era um rapôsa que estivesse comendo as
favas.
-
"E' que como hontem não jantei como costumo e
nem ciei, não posso dormir com fome, e vocemecê
tem estragado o que minha mulher tem ido fazer para eu comer,
e por isso me vi obrigado a comer favas."
- "Ora muito bem; pois isso que lhe fiz hoje foi para
avaliar o que a sua mulher e os seus filhos passam com a sua
maldade de os fazer passar fóme. Agora que já
sabe o que isso custa, deve emendar se e deixar que a sua
familia encha a barriga."
O homem serviu-lhe a lição, e d'ahi em diante,
comiam todos a satisfazer, e elle já não dizia:
Graças
a Deus para sempre,
Tenho a barriga cheia e toda a minha gente.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
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