CONTOS & LENDAS
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na LITERATURA POPULAR PORTUGUESA

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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
IV - "O Padre Ridículo"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno IV, Nº 10, Outubro de 1902, Volume IV, pp. 156, 157, 158 e 159

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


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O Padre Ridículo


"ERA uma vez um padre muito ridículo, e por isso em chegando proximo os fins dos mezes, arranjava sempre uma questão com os criados rapazolas que o serviam, e despedia-os sem lhes pagar; e assim ía sendo servido de graça.

Um dia um estudante fez uma aposta com os companheiros - de que era capaz de roubar o padre. Os outros apostaram que não; e elle para ganhar a aposta vestiu-se com fato muito velho, e á noite foi a casa do padre saber se queria um criado, accomodando-se com todas as condições que elle lhe impôz.

O padre estava assentado e mais a sua ama, a um bello lume de lenha, e disse ao rapaz que fosse tambem para ali.
O rapaz foi, e passado pouco tempo, diz-lhe o padre:
- "Então como me chamam por ahi a mim?"
- "Chamam-lhe o sr. padre prior."
- "Fortes parvos! Eu chamo-me papa-deuses."

O rapaz fez-se muito admirado.
- "E então a esta senhora?"
- "Ama do sr. prior."
- "Sucia de bestas! Esta é a Fugritatis."

Nova admiração do rapaz.
- "E isto?" - dizia elle indigitando o gato.
- "E' um gato."
- "Não; é o papa-ratos."
- "E isto?"
- "E' lume."
- "Não. São alumiantes."
- "E aquillo?"
- "São umas escadas."
- "Qual historia; são escrimonias."
- "E o que está nos paus da chaminé?"
- "São chouriços e paios."
- "Não digas tolices. São papas e cardeaes"
- "E isto?"
- "E' agua."
- "Não; isto chama-se - abundantes."


em: Forcalhos2/enchidos02.jpg

O rapaz tomou muito sentido em todos os nomes, e d'ali a pedaço diz:
- "Ora eu queria pedir um favor a V. S.ª"
- "Então o que é?"

- "E' que eu tenho sezões, e já estou com o frio (e n'isto batia com os dentes uns nos outros) e então se me deixasse dormir aqui, eu mesmo na lareira me deito.

O padre teve dó e deu a licença pedida.

D'ali a pouco a ama, que já tinha acabado de passar as contas, e dormindo no entrevalo dos padre-nossos e das ave-marias, lembrou ao padre que eram horas de se deitarem.
O padre que tambem já tinha completado a sua conta, despejando a longos tragos a borracha de vinho e comido o ultimo bocadinho de lombo assado no espêto ao bello lume, e encontrando-se tão quente por fóra como por dentro, resolveu ir deitar-se, deixando o rapaz ao lume a curtir a sezão, e lembrando-lhe que pela manhã tinha de ir ajudar-lhe á missa.

- "Vá vossa mercê descançado, que a essa hora já me tem passado a trabuzana, e estou leve como um coelho."

Tanto que o rapaz ouviu ressonar o padre e a ama, tirou a carne toda que estava na chaminé para am sacco que achou, e pôz diante da porta do quarto quantas cadeiras e mezas achou; atou uma porção de estôpa ao rabo do gato, que principiou a dar berros quando elle com um tição de lume lhe deitou fogo; e pondo o sacco da carne ás costas, foi bater á porta do quarto dizendo:

- "O' pápa-deuses! tira-te dos braços da Fugritatis, vae accudir ao papa-ratos que vae pelas escrimonias acima, cheio de alumiantes; accode-lhe com abundantes, que eu cá vou carregado de pápas e cardeaes.

Quando o padre, depois de ter quebrado o nariz nas cadeiras que estavam á porta do quarto, poude entrar na cosinha, ficou desesperado por aquelle marôto lhe ter roubado os seus bellos paios e chouriços. Mas por mais que procurou nunca soube quem tinha sido o espertalhão que o enganou, ganhando assim a aposta que tinha feito.

Seja Deus louvado
E o meu conto acabado,
Que não é bonito,
Mas é bem contado.

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.

 

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