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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
VII - "Letras e Trêtas"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno IV, Nº 11, Serpa,
Novembro de 1902, Volume IV, pp. 174, 175, e 176
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

a
remeter tb. para:
Contos Tradicionais Portugueses (Volume I de IV) recolhidos
e comentados por Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira,
Iniciativas Editoriais, Lisboa (sd) Edição Especial
para a Livraria FIGUEIRINHAS - Porto, p. 3
Letras
e Trêtas
"ERAM
d'um vez uns lavradores que tinham dois filhos; um era estudante
e o outro era cabreiro. Como o anno fosse mau pediram um moio
de trigo emprestado ao compadre priôr, que era padrinho
do filho que estudava; mas quando colheram a seara não
pagaram o trigo, e assim foi correndo o tempo.
Sempre
que iam á missa, desfaziam-se em desculpas com o padre
por não terem ainda pago, e elle dizia-lhes sempre
que arranjassem a sua vida e que pagassem quando podessem.
Mas no outro domingo repetia-se a scena, até que afinal
o pa-dre, já farto de os aturar, disse um dia ao pae:
"Olhe compadre, diga ao meu afilhado que arranje uma
mentira do tamanho do Padre-nosso, que já lhes perdôo
a divida."
O
velho ficou louco de contente e foi para casa dizer ao filho
que, visto elle ter tantas letras, arranjasse a mentira quanto
mais depressa melhor, para a ir dizer ao sr. padrinho, como
elle desejava; mas o rapaz por mais que estudou, por mais
que contava as palavras das mentiras que armava, não
conseguia fazer uma do tamanho do Padre-nosso; n'umas sobravam,
n'outras faltavam, até que declarou ao pae que não
podia satisfazer o empenho do padrinho.
O
pae ficou triste e muito zangado com o rapaz, dizendo que
de nada lhe aproveitava o que o padrinho gastava com elle,
visto não ser capaz de arranjar uma mentira.
N'um
domingo em que estavam fallando sobre o caso, quando o outro
filho veio a casa, disse este:
"Olha a grande coisa! ter que arranjar uma mentira do
tamanho do Padre-nosso! Maior sou eu capaz de a arranjar,
e ir dizel-a ó padrinho se vocemecê quizer!"
- O que dizes tu filho?! lhe diz a mãe. Pois tu astréveste?
- "Astrêvo sim senhora! Ora dê-me vocemecê
licenca e lá verá."
- "Eu sei lá filho! Tu és amodos que assim
tão brutinho, para ires fallar com aquella gente
"
- "Deixe lá mãe que uma pessoa, com'ó
outro que diz, tamem não é tão parvo
como ós da cidade pensam; ora verá."
Com
estas e outras razões convenceu a mãe e o pae,
e no domingo lá foi elle caminho da egreja para dizer
ao sr. padrinho a mentira encommendada.
O
padre, que já estava prevenido, logo que acabou de
dizer a missa foi para a sacristia, com um amigo a quem contou
o caso, esperar o rapaz. Este não se fez esperar e
de chapeu na mão e acariciando a cabeça, como
vulgarmente se usa no campo, chegou ao pé do padrinho,
poz as mãos, pediu-lhe a benção e depois
disse:
"Pois
meu padrinho, eu tinha um colmeal tão grande! tão
grande! que nem sabia o conto ós corticos! Um dia puz-me
a contar as abelhas e faltava-me uma! Fui por esse mundo em
pergunta da minha abelha e vae sr. padrinho (e n'isto batia
uma forte palmada na perna do padre) estavam quinze lobos
a comel-a! Eu atiro-lhes com uma ameixa (e traz - nova palmada)
e matei-os todos! Mas só deixaram uma perninha da abelha.
Pégo a torcel-a (outra palmada) não deitou nada;
coméço a destrocel-a e deitou dez almudes de
mel! (e nova palmada no padre, que já se encolhia!).
Ora aqui estava eu sem ter onde deitar o mel! Fui ao monte
buscar um burro, com licença de meu padrinho, (e traz
- palmada) e carreguei o mel, mas pesava tanto que fez uma
ferida nas ancas ó burro! Fui a casa de um alveitar
que deitou na ferida um alqueire de favas! Ai meu padrinho!
(e mais palmada - o padre já suava!) fez-se um ervilhal
que apanhava tres leguas de grandeza_. Cahe-me nelle um porco-espinho
que não se lhe viam de longe senão as unhas!
Atiro-lhe com uma foice, espeto-lhe (com sua licença)
o cabo no rabo e (palmada na perna do padre), ó meu
rico padrinho, aquillo é que era bonito ver o porco!...
Com as pernas ceifava, com a foice debulhava, com a bocca
pregava cada assopro que cahia a palha para o chão
e as ervilhas levava-as o vento! Quando se foram a medir deitaram
dois moios de trigo e um poucochinho e foi assim que meu pae
poude pagar ó meu padrinho
"
O
pobre priôr, que tinha a perna derreada pelas palmadas,
levantou-se logo e disse ao rapaz que estava perdoada a divida,
com tanto que elle acabasse já a mentira, que era bem
maior do que o Padre-nosso.
O rapaz foi logo levar a boa nova á mãe, que
ficou louca de contente e convencida de que
Muitas
vezes as trétas
Vaem mais que as letras.
E
seja Deus louvado,
Está meu conto acabado.
Quem lá se viu
E' que lá se achou.
Beijinhos e abraços
P'ra quem o cantou.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
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Ver
outras versões, por exemplo:
«A
ENFIADA DE PETAS» por Teófilo
Braga

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Ficha
Bibliográfica (visualização ISBD)
[649095]
BRAGA, Teófilo, 1843-1924
Contos tradicionaes do povo portuguez : com um estudo
sobre a novellistica geral e notas comparativas / Theophilo
Braga. - Porto : Livr. Universal, [19--]. - 2 v. em
1 ; 20 cm http://purl.pt/230
CDU 398.2=1(469) - PP. 187 E 188
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Biblioteca
Nacional Catálogo de obras digitalizadas - Contos
tradicionais - 127 registos:
http://catalogo.bn.pt/ |
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