CONTOS & LENDAS
A ARTE DE enCANTAR
na LITERATURA POPULAR PORTUGUESA

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CONTOS & LENDAS

Serra da Estrela

ALENTEJO
uma TEIA infindável de Contos & Lendas

 

12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
VII - "Letras e Trêtas"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno IV, Nº 11, Serpa, Novembro de 1902, Volume IV, pp. 174, 175, e 176

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


a remeter tb. para:
Contos Tradicionais Portugueses (Volume I de IV) recolhidos e comentados por Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira, Iniciativas Editoriais, Lisboa (sd) Edição Especial para a Livraria FIGUEIRINHAS - Porto, p. 3

Letras e Trêtas

"ERAM d'um vez uns lavradores que tinham dois filhos; um era estudante e o outro era cabreiro. Como o anno fosse mau pediram um moio de trigo emprestado ao compadre priôr, que era padrinho do filho que estudava; mas quando colheram a seara não pagaram o trigo, e assim foi correndo o tempo.

Sempre que iam á missa, desfaziam-se em desculpas com o padre por não terem ainda pago, e elle dizia-lhes sempre que arranjassem a sua vida e que pagassem quando podessem. Mas no outro domingo repetia-se a scena, até que afinal o pa-dre, já farto de os aturar, disse um dia ao pae: "Olhe compadre, diga ao meu afilhado que arranje uma mentira do tamanho do Padre-nosso, que já lhes perdôo a divida."

O velho ficou louco de contente e foi para casa dizer ao filho que, visto elle ter tantas letras, arranjasse a mentira quanto mais depressa melhor, para a ir dizer ao sr. padrinho, como elle desejava; mas o rapaz por mais que estudou, por mais que contava as palavras das mentiras que armava, não conseguia fazer uma do tamanho do Padre-nosso; n'umas sobravam, n'outras faltavam, até que declarou ao pae que não podia satisfazer o empenho do padrinho.

O pae ficou triste e muito zangado com o rapaz, dizendo que de nada lhe aproveitava o que o padrinho gastava com elle, visto não ser capaz de arranjar uma mentira.

N'um domingo em que estavam fallando sobre o caso, quando o outro filho veio a casa, disse este:
"Olha a grande coisa! ter que arranjar uma mentira do tamanho do Padre-nosso! Maior sou eu capaz de a arranjar, e ir dizel-a ó padrinho se vocemecê quizer!"
- O que dizes tu filho?! lhe diz a mãe. Pois tu astréveste?
- "Astrêvo sim senhora! Ora dê-me vocemecê licenca e lá verá."
- "Eu sei lá filho! Tu és amodos que assim tão brutinho, para ires fallar com aquella gente…"
- "Deixe lá mãe que uma pessoa, com'ó outro que diz, tamem não é tão parvo como ós da cidade pensam; ora verá."

Com estas e outras razões convenceu a mãe e o pae, e no domingo lá foi elle caminho da egreja para dizer ao sr. padrinho a mentira encommendada.

O padre, que já estava prevenido, logo que acabou de dizer a missa foi para a sacristia, com um amigo a quem contou o caso, esperar o rapaz. Este não se fez esperar e de chapeu na mão e acariciando a cabeça, como vulgarmente se usa no campo, chegou ao pé do padrinho, poz as mãos, pediu-lhe a benção e depois disse:

"Pois meu padrinho, eu tinha um colmeal tão grande! tão grande! que nem sabia o conto ós corticos! Um dia puz-me a contar as abelhas e faltava-me uma! Fui por esse mundo em pergunta da minha abelha e vae sr. padrinho (e n'isto batia uma forte palmada na perna do padre) estavam quinze lobos a comel-a! Eu atiro-lhes com uma ameixa (e traz - nova palmada) e matei-os todos! Mas só deixaram uma perninha da abelha. Pégo a torcel-a (outra palmada) não deitou nada; coméço a destrocel-a e deitou dez almudes de mel! (e nova palmada no padre, que já se encolhia!). Ora aqui estava eu sem ter onde deitar o mel! Fui ao monte buscar um burro, com licença de meu padrinho, (e traz - palmada) e carreguei o mel, mas pesava tanto que fez uma ferida nas ancas ó burro! Fui a casa de um alveitar que deitou na ferida um alqueire de favas! Ai meu padrinho! (e mais palmada - o padre já suava!) fez-se um ervilhal que apanhava tres leguas de grandeza_. Cahe-me nelle um porco-espinho que não se lhe viam de longe senão as unhas! Atiro-lhe com uma foice, espeto-lhe (com sua licença) o cabo no rabo e (palmada na perna do padre), ó meu rico padrinho, aquillo é que era bonito ver o porco!... Com as pernas ceifava, com a foice debulhava, com a bocca pregava cada assopro que cahia a palha para o chão e as ervilhas levava-as o vento! Quando se foram a medir deitaram dois moios de trigo e um poucochinho e foi assim que meu pae poude pagar ó meu padrinho… "

O pobre priôr, que tinha a perna derreada pelas palmadas, levantou-se logo e disse ao rapaz que estava perdoada a divida, com tanto que elle acabasse já a mentira, que era bem maior do que o Padre-nosso.
O rapaz foi logo levar a boa nova á mãe, que ficou louca de contente e convencida de que

Muitas vezes as trétas
Vaem mais que as letras.

E seja Deus louvado,
Está meu conto acabado.
Quem lá se viu
E' que lá se achou.
Beijinhos e abraços
P'ra quem o cantou.

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.

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Ver outras versões, por exemplo:

«A ENFIADA DE PETAS» por Teófilo Braga


Ficha Bibliográfica (visualização ISBD)
[649095]
BRAGA, Teófilo, 1843-1924
Contos tradicionaes do povo portuguez : com um estudo sobre a novellistica geral e notas comparativas / Theophilo Braga. - Porto : Livr. Universal, [19--]. - 2 v. em 1 ; 20 cm http://purl.pt/230
CDU 398.2=1(469) - PP. 187 E 188

Biblioteca Nacional Catálogo de obras digitalizadas - Contos tradicionais - 127 registos:
http://catalogo.bn.pt/

 

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