CONTOS & LENDAS
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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
VII - "A viuva"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno IV, Nº 11, Serpa, Novembro de 1902, Volume IV, pp. 174, 175, e 176

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]

ver in - fundacaocultural.ba.gov.br - 1947

A VIÚVA

"HAVIA n'outro tempo uma mulher casada que tinha uma filha ainda pequena. Ella era muito amiga de festas e de bailes, mas como o marido era muito doente não podia sair e ir aos divertimentos, e por isso tomou-lhe uma zanga tal que não o podia ver.
Peorou o homem e já não se levantava. e ella não queria saber d'elle. Só de vez em quando, para as visinhas ouvirem, lhe dizia muito de rijo:

"Lourenço, queres um caldinho?"
"Quero sim mulher".

Ella então dizia-lhe devagarinho:
"Tem paciencia meu rico filho, meu rico menino, que agora não há".

Depois dizia para a filha:
"Zefa! vae ajudar a ver morrer teu pae, que no domingo ha festa e tua mãe, se elle morrer, com certeza já lá vae".

Morreu o homem mesmo no domingo, e a mulher estava toda triste por ter de chorar o marido e não poder ir á festa. Tanto se lamentou por isto que uma visinha disse-lhe que ficava chorando emquanto ella ia, mas que lhe daria em troca um al-queire de centeio.

Acceitou a viuva a proposta e foi logo vestir-se e arranjar-se e marchou depois para a festa, que devia terminar com baile.

A carpideira toda a noite andou á roda do defunto, que estava estendido num esteirão, e ella fingindo que chorava, dizia:

"Aqui ando eu,
A chorar o alheio,
Por alqueire de centeio.
Ai meu bello marido morto!
Sirva-te isto de conforto!"

Assim levou a carpideira toda a noite, emquanto a viuva se estava divertindo, com a consciencia tranquilla, visto que o seu dever outra o estava desempenhando.

Chegou o dia e a viuva voltou para casa justamente quando a carpideira, repetindo a lamentação, dizia:

"Aqui ando eu
Chorando o alheio,
Por um alqueire de centeio!
E sabe Deus se será bem cheio!"

Ouvindo isto, a viuva, tocando as castanholas e dançando em volta do marido, rcspondeu logo:

"Cheio e recheio!
Calcado e recalcado!
E ainda por cima
Um grande punhado.
E zus câ tã truz !
E zás câ tâ traz!
Bem hajam as festas!
E mais quem as faz!"

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.



A Viúva Alegre - Joel Calheiros

 

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