|
CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
VII - "A viuva"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno IV, Nº 11, Serpa,
Novembro de 1902, Volume IV, pp. 174, 175, e 176
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
ver
in - fundacaocultural.ba.gov.br
- 1947
A
VIÚVA
"HAVIA
n'outro tempo uma mulher casada que tinha uma filha ainda
pequena. Ella era muito amiga de festas e de bailes, mas como
o marido era muito doente não podia sair e ir aos divertimentos,
e por isso tomou-lhe uma zanga tal que não o podia
ver.
Peorou o homem e já não se levantava. e ella
não queria saber d'elle. Só de vez em quando,
para as visinhas ouvirem, lhe dizia muito de rijo:
"Lourenço,
queres um caldinho?"
"Quero sim mulher".
Ella
então dizia-lhe devagarinho:
"Tem paciencia meu rico filho, meu rico menino, que agora
não há".
Depois
dizia para a filha:
"Zefa! vae ajudar a ver morrer teu pae, que no domingo
ha festa e tua mãe, se elle morrer, com certeza já
lá vae".
Morreu
o homem mesmo no domingo, e a mulher estava toda triste por
ter de chorar o marido e não poder ir á festa.
Tanto se lamentou por isto que uma visinha disse-lhe que ficava
chorando emquanto ella ia, mas que lhe daria em troca um al-queire
de centeio.
Acceitou
a viuva a proposta e foi logo vestir-se e arranjar-se e marchou
depois para a festa, que devia terminar com baile.

A
carpideira toda a noite andou á roda do defunto, que
estava estendido num esteirão, e ella fingindo que
chorava, dizia:
"Aqui
ando eu,
A chorar o alheio,
Por alqueire de centeio.
Ai meu bello marido morto!
Sirva-te isto de conforto!"
Assim
levou a carpideira toda a noite, emquanto a viuva se estava
divertindo, com a consciencia tranquilla, visto que o seu
dever outra o estava desempenhando.
Chegou
o dia e a viuva voltou para casa justamente quando a carpideira,
repetindo a lamentação, dizia:
"Aqui
ando eu
Chorando o alheio,
Por um alqueire de centeio!
E sabe Deus se será bem cheio!"
Ouvindo
isto, a viuva, tocando as castanholas e dançando em
volta do marido, rcspondeu logo:
"Cheio
e recheio!
Calcado e recalcado!
E ainda por cima
Um grande punhado.
E zus câ tã truz !
E zás câ tâ traz!
Bem hajam as festas!
E mais quem as faz!"
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
A Viúva Alegre - Joel Calheiros
|