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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
IX - "A gulosa"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 1, Serpa,
Janeiro de 1903, Volume V, pp. 14, 15, e 16
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

A
GULOSA
"ERA
d'uma vez um pescador que tinha uma mulher muito gulosa, de
fórma que nunca fazia jantar para o marido, mas ella
andava sempre a fazer coisinhas boas para comer, e o marido
comia só pão com azeitonas ou fructa.
Um
dia que o homem estava dizendo muito mal á sua vida
por Deus lhe ter dado uma mulher assim, sendo elle tão
trabalhador, quando puxou a rêde viu um peixe muito
grande, mas quando elle o ia a apanhar, diz-lhe o peixe:

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"Não
me toques, que sou o rei dos peixes e venho aqui para te valer
nas tuas afflicções, visto que ainda ha pouco
tanto te lastimavas."
"E'
verdade - disse o pescador - sou muito infeliz, porque trabalho
todo o anno e nunca tenho, ao menos um dia, um jantarsinho
que me aqueça o estomago, porque a minha mulher não
m'o quer fazer."
"Pois
bem - lhe diz o peixe - aqui tens estas quatro bonecas, põe
uma a cada canto da cosinha sem ella ver, e deixa que ámanhã
já has de ter ceia." E o peixe desappareceu.
O
pescador, tanto que foram horas, foi para casa e sem a mulher
vêr collocou as bonecas, comeu alguma coisa com pão
e foi-se deitar; e no outro dia levantou-se e saiu, como costumava.
Ella,
quando lhe pareceu, levantou-se tambem, accendeu o lume e
pôz a agua para o café; depois fritou uns ovos
e quando estava o almoço feito assentou-se ao lume
e disse:
"Estende-te,
perna,
No rio está quem te governa;
Elle, se se quizer aquecer,
Vá beber vinho á taberna."
Começou
a almoçar, mas assim que metteu o comer na bocca, ouve
uma voz que dizia:
   
Remeter para - minerva.uevora.pt
"O
que é aquillo?"
"E' comer!"
"Sem o marido?"
"Pois se a mulher é uma gulosa!
A
mulher teve um grande susto.
Andou vendo por toda a casa, mas não viu nada.
Ainda
com receio, mas mais tranquilla, voltou a querer almoçar,
mas tornou a ouvir as mesmas vozes:
   
"O
que é aquillo?"
"E' comer!"
"Sem o marido?"
"Pois se a mulher é uma gulosa!
D'esta
vez não quiz mais saber do almoço e foi a fugir
com medo! A fome apertava-a, por isso resolveu ir fazer umas
batatas para a ceia, quando viesse o marido, e assim fez.
A'
noite, assim que elle veio, foi ella logo sair-lhe ao encontro,
dizendo-lhe:
"Anda marido, vem ceiar, que tu deves estar com vontade."
O
marido ficou muito admirado, mas não fez perguntas.
Comeram bem e no outro dia, quando elle saiu, recommendou-lhe
ella
- "que viesse cedo, que lhe teria uma boa ceia."
   
Pensando, porém, que tivesse sido allucinação
sua, tentou novamente almoçar á chaminé;
mas, tal qual como no outro dia, ouviu as mesmas vozes e as
mesmas perguntas. Emendou-se então.
Nunca
mais comeu sem estar o marido, e viveram muito bem.

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Passado
tempo o pescador levou as bonecas ao rei dos peixes, para
elle emprestar a outro que precisasse d'ellas para o mesmo
fim, - porque o que ha mais é gente gulosa.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
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