CONTOS & LENDAS
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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
IX - "A gulosa"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 1, Serpa, Janeiro de 1903, Volume V, pp. 14, 15, e 16

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]

A GULOSA

"ERA d'uma vez um pescador que tinha uma mulher muito gulosa, de fórma que nunca fazia jantar para o marido, mas ella andava sempre a fazer coisinhas boas para comer, e o marido comia só pão com azeitonas ou fructa.

Um dia que o homem estava dizendo muito mal á sua vida por Deus lhe ter dado uma mulher assim, sendo elle tão trabalhador, quando puxou a rêde viu um peixe muito grande, mas quando elle o ia a apanhar, diz-lhe o peixe:


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"Não me toques, que sou o rei dos peixes e venho aqui para te valer nas tuas afflicções, visto que ainda ha pouco tanto te lastimavas."

"E' verdade - disse o pescador - sou muito infeliz, porque trabalho todo o anno e nunca tenho, ao menos um dia, um jantarsinho que me aqueça o estomago, porque a minha mulher não m'o quer fazer."

"Pois bem - lhe diz o peixe - aqui tens estas quatro bonecas, põe uma a cada canto da cosinha sem ella ver, e deixa que ámanhã já has de ter ceia." E o peixe desappareceu.

O pescador, tanto que foram horas, foi para casa e sem a mulher vêr collocou as bonecas, comeu alguma coisa com pão e foi-se deitar; e no outro dia levantou-se e saiu, como costumava.

Ella, quando lhe pareceu, levantou-se tambem, accendeu o lume e pôz a agua para o café; depois fritou uns ovos e quando estava o almoço feito assentou-se ao lume e disse:

"Estende-te, perna,
No rio está quem te governa;
Elle, se se quizer aquecer,
Vá beber vinho á taberna."

Começou a almoçar, mas assim que metteu o comer na bocca, ouve uma voz que dizia:


Remeter para - minerva.uevora.pt

"O que é aquillo?"
"E' comer!"
"Sem o marido?"
"Pois se a mulher é uma gulosa!

A mulher teve um grande susto.
Andou vendo por toda a casa, mas não viu nada.

Ainda com receio, mas mais tranquilla, voltou a querer almoçar, mas tornou a ouvir as mesmas vozes:

"O que é aquillo?"
"E' comer!"
"Sem o marido?"
"Pois se a mulher é uma gulosa!

D'esta vez não quiz mais saber do almoço e foi a fugir com medo! A fome apertava-a, por isso resolveu ir fazer umas batatas para a ceia, quando viesse o marido, e assim fez.

A' noite, assim que elle veio, foi ella logo sair-lhe ao encontro, dizendo-lhe:
"Anda marido, vem ceiar, que tu deves estar com vontade."

O marido ficou muito admirado, mas não fez perguntas. Comeram bem e no outro dia, quando elle saiu, recommendou-lhe ella
- "que viesse cedo, que lhe teria uma boa ceia."


Pensando, porém, que tivesse sido allucinação sua, tentou novamente almoçar á chaminé; mas, tal qual como no outro dia, ouviu as mesmas vozes e as mesmas perguntas. Emendou-se então.

Nunca mais comeu sem estar o marido, e viveram muito bem.


em: viajandonospensamentos.zip.net/arch2004-05-02...

Passado tempo o pescador levou as bonecas ao rei dos peixes, para elle emprestar a outro que precisasse d'ellas para o mesmo fim, - porque o que ha mais é gente gulosa.

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.

 

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