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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XI - Quem tirou o olho á rainha?"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 1, Serpa, Janeiro de 1903, Volume V, pp. 14, 15, e 16

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]

Quem tirou o olho á rainha?

"Era uma vez uma mulher que tinha duas filhas e todos os dias ia á missa. As filhas, uma era Catharina e outra Mariquinhas.

Um dia disse para a Catharina: "Vamos á missa", e ella disse: "Vá vocemecê, que eu tenho fome e a missa não enche barriga".

Foi mãe e a outra filha á missa. Catharina tinha fome e foi á varanda que dava para o jardim do rei, que tinha uma pereira que dava para a varanda; as peras ainda estavam verdes e ella, com a fome que tinha, mesmo verdes as comia, e viu vir a rainha com um açafate de flores e outro de doces e chegar a um tampo de pau e espalhar as flores pelo chão e tirar o tampo e sahir um cão que parecia o demonio e estar a metter os doces na boca do demonio.

Catharina deu-lhe tamanha zanga que atirou com uma pera ao olho da rainha e l'ho tirou. A rainha, com as dores, metteu o demonio para dentro e foi gritando que lhe tinham tirado o olho.

A mãe de Catharina e a irmã vinham da missa muito assustadas e disseram para a Catharina: "Ai, que tiraram um olho á rainha!" - "Bem haja quem lh'o tirou, que fui eu!"
- "Cala-te, Catharina, que estamos perdidas!"
- "Mãe, que estamos ganhadas!"

O rei mandou deitar um pregão para ver quem tinha tirado o olho á rainha; ninguem sabia quem tinha tirado o olho á rainha.

O rei vestiu-se de pobre e andou pedindo pelas portas a vêr se ouvia alguma conversa; foi bater á porta de Catharina, pediu uma esmola e ouviu a mãe e as filhas a dizer quem tinha tirado o olho á rainha, e pediu que lhe dessem gasalho aquella noute, porque não sabia onde era a casa dos pobres.

A mãe disse-lhe:
- "Perdõe por amor de Deus, tenho duas filhas e não posso deixal-o cá dormir, nem lhe posso dar esmola porque somos muito pobres". Mas o rei não fazia senão teimar que o deixassem entrar, que estava muito molhado. Catharina, com era muito decidida, disse para o pobre:
- "Entre, pobresinho, a minha mãe não quer senão missa, e caridade não tem nenhuma".

O pobre entrou e foi-se pôr ao lume e disse:
- "Ai, assim que cheguei a esta terra, ouvi uma má noticia: dizem que tiraram um olho á rainha".

Responde a Catharina:
- "Bem haja quem lh'o tirou, que fui eu".

A mãe dizia-lhe:
- "Cala-te, Catharina, que estamos perdidas".
- "Cale-se, mãe que estamos ganhadas".

O rei, assim que isto ouviu, já não podia parar, levantou-se e disse:
"Nada, já vejo que não posso aqui estar" - e agradeceu e sahiu.

Foi logo para o palacio e no outro dia mandou chamar as tres.

A mãe e a Mariquinhas choravam muito, mas a Catharina ria-se.

- "Venha cá a mãe: Então você sabe quem foi que tirou o olho á rainha?"
- "Saberá Vossa Real Magestade que não"
- "Então vá-se embora.

Venha cá a Mariquinhas: Sabes quem tirou o olho á rainha?
- "Saberá Vossa Real Magestade que não; eu fui á missa com minha mãe e não soube de nada."

- "Venha cá a Catharina. Tu sabes quem tirou o olho á rainha? "
- "Eu vou contar a Vossa Real Magestade" e depois contou e o rei disse:

- "Se fôr verdade o que tu dizes, caso comtigo e mando matar a rainha".

Foi o estado do rei todo atraz e ella disse ao rei que mandasse fazer um lume ao pé do tampo de pau, e ella chegou e tirou o tampo e sahiu o diabo e foi para o lume e rebentou.
Depois o rei e aquella gente toda voltaram para mandarem matar a rainha e já ella se tinha atirado ao mar.
Depois, o rei casou com Catharina, que dizia á mãe e á irmã:

"Se não tirasse o olho
Não era eu rainha".

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.


Ver também -
Contos Populares Alentejanos recolhidos da tradição oral, António
Thomaz Pires. Colectânea, edição crítica e introdução de Mário F. Lages, 2ª edição aumentada, Lisboa, 2004, 198 p. (Estudos e Documentos, 11) - ISBN 972-9045-01-1
in UCP - Universidade Católica Portuguea:ucp.pt/site/resources


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