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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XI - Quem tirou o olho á rainha?"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 1, Serpa,
Janeiro de 1903, Volume V, pp. 14, 15, e 16
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
Quem
tirou o olho á rainha?
"Era
uma vez uma mulher que tinha duas filhas e todos os dias ia
á missa. As filhas, uma era Catharina e outra Mariquinhas.
Um
dia disse para a Catharina: "Vamos á missa",
e ella disse: "Vá vocemecê, que eu tenho
fome e a missa não enche barriga".
Foi
mãe e a outra filha á missa. Catharina tinha
fome e foi á varanda que dava para o jardim do rei,
que tinha uma pereira que dava para a varanda; as peras ainda
estavam verdes e ella, com a fome que tinha, mesmo verdes
as comia, e viu vir a rainha com um açafate de flores
e outro de doces e chegar a um tampo de pau e espalhar as
flores pelo chão e tirar o tampo e sahir um cão
que parecia o demonio e estar a metter os doces na boca do
demonio.
Catharina
deu-lhe tamanha zanga que atirou com uma pera ao olho da rainha
e l'ho tirou. A rainha, com as dores, metteu o demonio para
dentro e foi gritando que lhe tinham tirado o olho.
A
mãe de Catharina e a irmã vinham da missa muito
assustadas e disseram para a Catharina: "Ai, que tiraram
um olho á rainha!" - "Bem haja quem lh'o
tirou, que fui eu!"
- "Cala-te, Catharina, que estamos perdidas!"
- "Mãe, que estamos ganhadas!"
O
rei mandou deitar um pregão para ver quem tinha tirado
o olho á rainha; ninguem sabia quem tinha tirado o
olho á rainha.
O
rei vestiu-se de pobre e andou pedindo pelas portas a vêr
se ouvia alguma conversa; foi bater á porta de Catharina,
pediu uma esmola e ouviu a mãe e as filhas a dizer
quem tinha tirado o olho á rainha, e pediu que lhe
dessem gasalho aquella noute, porque não sabia onde
era a casa dos pobres.
A
mãe disse-lhe:
- "Perdõe por amor de Deus, tenho duas filhas
e não posso deixal-o cá dormir, nem lhe posso
dar esmola porque somos muito pobres". Mas o rei não
fazia senão teimar que o deixassem entrar, que estava
muito molhado. Catharina, com era muito decidida, disse para
o pobre:
- "Entre, pobresinho, a minha mãe não quer
senão missa, e caridade não tem nenhuma".
O
pobre entrou e foi-se pôr ao lume e disse:
- "Ai, assim que cheguei a esta terra, ouvi uma má
noticia: dizem que tiraram um olho á rainha".
Responde
a Catharina:
- "Bem haja quem lh'o tirou, que fui eu".
A
mãe dizia-lhe:
- "Cala-te, Catharina, que estamos perdidas".
- "Cale-se, mãe que estamos ganhadas".
O
rei, assim que isto ouviu, já não podia parar,
levantou-se e disse:
"Nada, já vejo que não posso aqui estar"
- e agradeceu e sahiu.
Foi
logo para o palacio e no outro dia mandou chamar as tres.
A
mãe e a Mariquinhas choravam muito, mas a Catharina
ria-se.
-
"Venha cá a mãe: Então você
sabe quem foi que tirou o olho á rainha?"
- "Saberá Vossa Real Magestade que não"
- "Então vá-se embora.
Venha
cá a Mariquinhas: Sabes quem tirou o olho á
rainha?
- "Saberá Vossa Real Magestade que não;
eu fui á missa com minha mãe e não soube
de nada."
-
"Venha cá a Catharina. Tu sabes quem tirou o olho
á rainha? "
- "Eu vou contar a Vossa Real Magestade" e depois
contou e o rei disse:
-
"Se fôr verdade o que tu dizes, caso comtigo e
mando matar a rainha".
Foi
o estado do rei todo atraz e ella disse ao rei que mandasse
fazer um lume ao pé do tampo de pau, e ella chegou
e tirou o tampo e sahiu o diabo e foi para o lume e rebentou.
Depois o rei e aquella gente toda voltaram para mandarem matar
a rainha e já ella se tinha atirado ao mar.
Depois, o rei casou com Catharina, que dizia á mãe
e á irmã:
"Se
não tirasse o olho
Não era eu rainha".
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
Ver também -
Contos Populares Alentejanos recolhidos da tradição
oral, António
Thomaz Pires. Colectânea, edição crítica
e introdução de Mário F. Lages, 2ª
edição aumentada, Lisboa, 2004, 198 p. (Estudos
e Documentos, 11) - ISBN 972-9045-01-1
in UCP - Universidade Católica Portuguea:ucp.pt/site/resources

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