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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XII - "O Boi Barrabil"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 2, Serpa, Fevereiro de 1903, Volume V, pp. 31 e 32

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


Ver in videos.sapo.pt

O Boi Barrabil

"Era uma vez um rei, que tinha um boieiro que muito estimava por ser muito verdadeiro; dizia o rei que o boieiro não sabia mentir e diziam os vassallos que elle uma vez pelo menos havia de faltar á verdade, ao que o rei retrucava - que não.

Havia na boiada um boi que o rei estimava muito e se chamava o boi barrabil. Quando o boeiro ia falar ao rei, este perguntava sempre: "Como está o boi barrabil?" Ao que respondia o boieiro sempre, - que estava bom. Os fidalgos tinham inveja de que o rei tratasse tão bem o homem, e começaram a querel-o indispôr com o rei; disseram que elle havia de arrancar o coração do boi barrabil e pregar uma mentira ao rei dizendo que o boi tinha morrido, - ao que o rei dizia que era impossível elle mentir, que havia de dizer a verdade.

Depois combinaram os fidalgos em ir uma das fidalgas estar com o boieiro e dizer-lhe que gostava muito do boi barrabil, etc., etc., e que lhe queria o coração. O homem ficou muito admirado da exigencia e disse-lhe que isso não fazia elle, e ella
- respondeu: "pensa n'isso e eu cá volto ámanhã."

O homem ficou pensativo em vista da formosura da fidalga, mas em todo o caso no outro dia tornou lhe a dizer - que não, que isso não fazia elle. Ella disse-lhe: "pensa bem, que eu ámanhã torno a vir e has de por força dar-me o coração do boi barrabil.

No outro dia não poude o homem ser superior áquella exigencia, tirou o coração ao boi e entregou-o á fidalga.


Ver in videos.sapo.pt

Depois d'ella se retirar começou a pensar no que tinha feito e como havia de dizer ao rei que o boi estava morto:

- "Pela manhã vou falar ao rei e digo-lhe: Salve Deus a Vossa Magestade.
- "Adeus, homem, então como estás?"
- "Eu bom, muito obrigado."
- "E o nosso boi barrabil?"
- "Ora, o nosso boi barrabil ia por uma ladeira abaixo, escorregou, cahiu e morreu; - mas nada, isto é mentira, isto não digo eu, vou-lhe dizer antes: Altura, alvura e formusura fez com que eu tirasse o coração ao boi barrabil: - bem, esta mentira está bem. E deitou-se a dormir.

No outro dia foi falar a Sua Magestade e na fórma do costume disse-lhe:
- "Salve Deus a Vossa Magestade."
- "Adeus, homem, como estás, e o nosso boi barrabil?"
- "Ora o nosso boi barrabil… o nosso boi barrabil…"
- "Então o que é, homem?"
- "Ora, saberá Vossa Magestade, altura, alvura e formosura fizeram com que eu tirasse o coração ao boi barrabil. Então disse o rei aos fidalgos:

- "Ganhei, o homem não sabe mentir, pensando que me pregava mentira, disse a verdade."

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.

ver também:
Ver também -
Contos Populares Alentejanos recolhidos da tradição oral, António
Thomaz Pires. Colectânea, edição crítica e introdução de Mário F. Lages, 2ª edição aumentada, Lisboa, 2004, 198 p. (Estudos e Documentos, 11) - ISBN 972-9045-01-1
in UCP - Universidade Católica Portuguea:ucp.pt/site/resources

 

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