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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XII - "O Boi Barrabil"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 2, Serpa,
Fevereiro de 1903, Volume V, pp. 31 e 32
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

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O
Boi Barrabil
"Era
uma vez um rei, que tinha um boieiro que muito estimava por
ser muito verdadeiro; dizia o rei que o boieiro não
sabia mentir e diziam os vassallos que elle uma vez pelo menos
havia de faltar á verdade, ao que o rei retrucava -
que não.
Havia
na boiada um boi que o rei estimava muito e se chamava o boi
barrabil. Quando o boeiro ia falar ao rei, este perguntava
sempre: "Como está o boi barrabil?" Ao que
respondia o boieiro sempre, - que estava bom. Os fidalgos
tinham inveja de que o rei tratasse tão bem o homem,
e começaram a querel-o indispôr com o rei; disseram
que elle havia de arrancar o coração do boi
barrabil e pregar uma mentira ao rei dizendo que o boi tinha
morrido, - ao que o rei dizia que era impossível elle
mentir, que havia de dizer a verdade.
Depois
combinaram os fidalgos em ir uma das fidalgas estar com o
boieiro e dizer-lhe que gostava muito do boi barrabil, etc.,
etc., e que lhe queria o coração. O homem ficou
muito admirado da exigencia e disse-lhe que isso não
fazia elle, e ella
- respondeu: "pensa n'isso e eu cá volto ámanhã."
O
homem ficou pensativo em vista da formosura da fidalga, mas
em todo o caso no outro dia tornou lhe a dizer - que não,
que isso não fazia elle. Ella disse-lhe: "pensa
bem, que eu ámanhã torno a vir e has de por
força dar-me o coração do boi barrabil.
No
outro dia não poude o homem ser superior áquella
exigencia, tirou o coração ao boi e entregou-o
á fidalga.

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Depois
d'ella se retirar começou a pensar no que tinha feito
e como havia de dizer ao rei que o boi estava morto:
-
"Pela manhã vou falar ao rei e digo-lhe: Salve
Deus a Vossa Magestade.
- "Adeus, homem, então como estás?"
- "Eu bom, muito obrigado."
- "E o nosso boi barrabil?"
- "Ora, o nosso boi barrabil ia por uma ladeira abaixo,
escorregou, cahiu e morreu; - mas nada, isto é mentira,
isto não digo eu, vou-lhe dizer antes: Altura, alvura
e formusura fez com que eu tirasse o coração
ao boi barrabil: - bem, esta mentira está bem. E deitou-se
a dormir.
No
outro dia foi falar a Sua Magestade e na fórma do costume
disse-lhe:
- "Salve Deus a Vossa Magestade."
- "Adeus, homem, como estás, e o nosso boi barrabil?"
- "Ora o nosso boi barrabil
o nosso boi barrabil
"
- "Então o que é, homem?"
- "Ora, saberá Vossa Magestade, altura, alvura
e formosura fizeram com que eu tirasse o coração
ao boi barrabil. Então disse o rei aos fidalgos:
-
"Ganhei, o homem não sabe mentir, pensando que
me pregava mentira, disse a verdade."
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
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também:
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Contos Populares Alentejanos recolhidos da tradição
oral, António
Thomaz Pires. Colectânea, edição crítica
e introdução de Mário F. Lages, 2ª
edição aumentada, Lisboa, 2004, 198 p. (Estudos
e Documentos, 11) - ISBN 972-9045-01-1
in UCP - Universidade Católica Portuguea:ucp.pt/site/resources
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