CONTOS & LENDAS
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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XIII - "A sogra enganada"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 2, Serpa, Fevereiro de 1903, Volume V, pp. 31 e 32

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]

almocreve-por-alvaro-pecegueiro-in-estudo-do-meio-3.ano
In azinhalalgarve.files.wordpress.com

A sogra enganada

"Era uma vez um almocreve, casado havia pouco tempo, e a mãe prometteu-lhe uma récua de machos se elle desse uma sova na mulher, para lhe ter respeito. Elle dizia que não tinha motivos para lhe bater, e dizia-lhe a mãe: "Motivos sempre ha; olha, em ella indo fazer a açorda, quando ella pizar o alho e saltar para o chão, ella há-de apanhal-o e deital-o para o gral, e então começas a ralhar e das-lhe uma sova."
Bem; elle no outro dia foi ver quando ella estava a pizar o alho, saltou-lhe effectivamente, mas ella em logar de o apanhar foi buscar o outro e disse: "Por causa de um alho não se desmancha uma alhada.". E d'esta maneira elle não lhe disse nada.

No outro dia foi a casa da mãe e esta perguntou se já tinha dada a sova, ao que elle respondeu que não, e contou o que se tinha passado.-"Pois olha, amanhã vae á praça, compra uns peixes e leva-os para casa, vae-te embora, não lhe digas como o queres e á noite, quando vieres, se ella os tiver fritos, diz lhe que os querias assados; e ahi tens jà um motivo para lhe bateres."

Elle assim fez: comprou os peixes, trouxe-os e não lhe disse nada. Ella quando viu o que elle tinha trazido ficou muito afflicta, porque não sabia como elle gostava; poz-se a pensar e disse para consigo: faço-lhos de differentes maneiras. Quando eram quasi horas de vir o marido pôz a meza, como era costume, e pôz os pratos com os peixes e tapou os pratos.

Quando veio, foram a cear; ella destapou um dos pratos e elle disse:
- "Então, fritos?" - e ella respondeu: "Encomo os querias, assados?"
- "Ora, assados!"
"Então como os querias?
- "Cozidos".
Ella destapou um dos pratos e disse:
- "Aqui os tens cozidos"

E elle: "Ora já vejo que é impossível o que a minha mãe quer!" e explicou-lhe o que era.
- "'E só isso? então arranja-se bem; olha, põe a albarda do burro no meio da casa e com um pau começa a bater-lhe; eu grito muito e chóro, fingindo que eu é que eu que estou levando a sova".

Assim fizeram; os visinhos, que ouviram aquelle lavarinto, começaram a bater-lhe á porta, mas elle não quiz abrir. Foram chamar a mãe, que viesse accudir á nora, que o marido a ia matar. Veio logo a mãe e começou muito zangada a dizer-lhe que abrisse a porta. Elles esconderam a albarda e a mulher deitou-se no meio da casa, fingindo que estava muito doente.
Aberta a porta, a mãe começou a ralhar muito com elle e disse-lhe:

"Pegue em sua mulher e leve-a para a cama, e venha comigo para trazer uma gallinha para lhe fazer caldos. E com a gallinha veio o dinheiro para os machos.

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.


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