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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XIII - "A sogra enganada"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 2, Serpa,
Fevereiro de 1903, Volume V, pp. 31 e 32
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

almocreve-por-alvaro-pecegueiro-in-estudo-do-meio-3.ano
In azinhalalgarve.files.wordpress.com
A
sogra enganada
"Era
uma vez um almocreve, casado havia pouco tempo, e a mãe
prometteu-lhe uma récua de machos se elle desse uma
sova na mulher, para lhe ter respeito. Elle dizia que não
tinha motivos para lhe bater, e dizia-lhe a mãe: "Motivos
sempre ha; olha, em ella indo fazer a açorda, quando
ella pizar o alho e saltar para o chão, ella há-de
apanhal-o e deital-o para o gral, e então começas
a ralhar e das-lhe uma sova."
Bem; elle no outro dia foi ver quando ella estava a pizar
o alho, saltou-lhe effectivamente, mas ella em logar de o
apanhar foi buscar o outro e disse: "Por causa de um
alho não se desmancha uma alhada.". E d'esta maneira
elle não lhe disse nada.
No
outro dia foi a casa da mãe e esta perguntou se já
tinha dada a sova, ao que elle respondeu que não, e
contou o que se tinha passado.-"Pois olha, amanhã
vae á praça, compra uns peixes e leva-os para
casa, vae-te embora, não lhe digas como o queres e
á noite, quando vieres, se ella os tiver fritos, diz
lhe que os querias assados; e ahi tens jà um motivo
para lhe bateres."
Elle
assim fez: comprou os peixes, trouxe-os e não lhe disse
nada. Ella quando viu o que elle tinha trazido ficou muito
afflicta, porque não sabia como elle gostava; poz-se
a pensar e disse para consigo: faço-lhos de differentes
maneiras. Quando eram quasi horas de vir o marido pôz
a meza, como era costume, e pôz os pratos com os peixes
e tapou os pratos.
Quando
veio, foram a cear; ella destapou um dos pratos e elle disse:
- "Então, fritos?" - e ella respondeu: "Encomo
os querias, assados?"
- "Ora, assados!"
"Então como os querias?
- "Cozidos".
Ella destapou um dos pratos e disse:
- "Aqui os tens cozidos"
E
elle: "Ora já vejo que é impossível
o que a minha mãe quer!" e explicou-lhe o que
era.
- "'E só isso? então arranja-se bem; olha,
põe a albarda do burro no meio da casa e com um pau
começa a bater-lhe; eu grito muito e chóro,
fingindo que eu é que eu que estou levando a sova".
Assim
fizeram; os visinhos, que ouviram aquelle lavarinto, começaram
a bater-lhe á porta, mas elle não quiz abrir.
Foram chamar a mãe, que viesse accudir á nora,
que o marido a ia matar. Veio logo a mãe e começou
muito zangada a dizer-lhe que abrisse a porta. Elles esconderam
a albarda e a mulher deitou-se no meio da casa, fingindo que
estava muito doente.
Aberta a porta, a mãe começou a ralhar muito
com elle e disse-lhe:
"Pegue
em sua mulher e leve-a para a cama, e venha comigo para trazer
uma gallinha para lhe fazer caldos. E com a gallinha veio
o dinheiro para os machos.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.

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