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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XV - "O Sonho"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 3, Serpa,
Março de 1903, Volume V, pp. 40 a 47 (série
de 12 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

O
Sonho
"ERA
uma vez um rei que tinha tres filhas e todos os dias lhes
perguntava o que tinham sonhado, e uma vez a mais nova disse-lhe
que tinha sonhado que ainda havia de ser rainha, dar beijamão,
e que havia de recusar a mão ao pae.
O
pae, assim que a filha lhe disse isto, nunca mais a poude
ver, e pensou em matal-a.
Um
dia mandou preparar um trem, mandou metter a filha dentro
e disse ao creado que a levasse para um escampado e que a
matasse e que lhe levasse a lingua d'ella.
Ella
levava um canzinho. Ao chegar ao escampado, o creado mandou-a
descer do trem e disse-lhe:
- Real senhora, o seu pae manda-me matal-a, mas eu tenho muita
pena de a matar e não a mato; mato antes o canzinho
e levo-lhe a lingua.
Ella
disse:
- Mata-me.
Mas
elle matou o cão, tirou-lhe a lingua e foi-se embora,
deixando a princeza no escampado. O pae quando recebeu a lingua
ficou muito satisfeito.
A
princeza anoitecia e amanhecia nos campos e um dia metteu-se
n'um bosque muito fechado onde não havia senão
bichos, e tão farta estava de viver que ia ter mesmo
com os bichos para a tragarem; mas os bichos cheiravam-n'a
e fugiam d'ella, e ella dizia:
-
Sou tão má que até os bichos fogem de
mim!
Uma
noite viu ao longe uma luz e foi direito a ella. Foi ter a
um palacio e, como estava a chover, entrou e escondeu-se de
traz do portão. A' hora da meia noite viu entrar um
gigante muito feio, e ella teve tanto medo que tapou a cara.
O
gigante assim que entrou, disse:
- Cheira-me aqui a carne humana; e disse-lhe: Levanta-te.
E
ella levantou-se, e depois ajoelhou e pediu-lhe perdão.
- Quem te trouxe aqui? - A minha desgraça, - respondeu
ella.
- E quem és tu?
Ella
cantou-lhe o que se tinha passado com o pae. E depois o gigante
mandou-a subir e levou-a a uma casa onde havia todas as qualidades
de comida e fêl-a comer.
Depois
levou-a a um quarto com uma cama preparada e disse-lhe:
- Este quarto é o da menina; aqui ninguem lhe ha de
tocar; a menina fica sendo minha filha e amanhã lhe
digo o serviço que ha de fazer. E foi-se embora.
No
outro dia quando se levantou appareceu-Ihe o gigante e disse-lhe
que fosse almoçar.
Depois
do almoço disse-lhe que lhe queria dar um serviço
a fazer e levou-a a uma casa que estava rodeada de gaiollas
de passarinhos.
- O serviço que te dou a fazer, é tratar d'estes
passarinhos todos, mas cautela não deixes fugir algum.
Estava
lá um de que ella gostou muito, e levava horas esquecidas
a brincar com elle; mas um dia fugiu-lhe e ella teve um grande
desgosto; chorou todo o dia e á noite veio o gigante
e disse-lhe:
- Que tens tu, estás doente?
- Não, meu pae, não estou doente, o que tenho
é um grande desgosto porque o passarinho verde fugiu.
- Não tenhas desgosto, que eu é que lhe dei
licença; mais tarde tu o verás.
Um
dia chegou um cavalheiro ao palacio e bateu á porta.
Ella
disse-lhe que não lhe abria a porta porque não
estava lá o pae.
Depois
veio o pae e levou o cavalheiro para a sala, chamou-a a ella
e disse-lhe:
- Este senhor vem a pedir-te para casar, é o principe
de tal parte.
Depois
trataram do casamento; o gigante era rei de sete reinados
e no dia do casamento deu quatro á filha e fez convite
para todos os reis irem ao casamento.
No
dia do casamento o principe apresentou-se todo vestido de
verde e ella lembrou-se do passarinho que tinha fugido, o
qual passarinho era o principe que estava ali encantado.
O
principe e a princeza, que já eram reis, subiram, depois
do casamento, ao throno, e todos os convidados foram beijar
a mão á rainha, onde tambem foram as irmans
d'ella e o pae, e quando este ia a beijar a mão, ella
recusou a mão ao pae, e a elle deu-lhe um desmaio e
cahiu das escadas do throno, e depois aclarou-se tudo.
Seja
Jesus louvado, que é meu conto acabado.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
(Relacionar
à frente com o nº 17 - O
Passarinho Verde - e...)
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