CONTOS & LENDAS
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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XV - "O Sonho"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 3, Serpa, Março de 1903, Volume V, pp. 40 a 47 (série de 12 contos)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


O Sonho

"ERA uma vez um rei que tinha tres filhas e todos os dias lhes perguntava o que tinham sonhado, e uma vez a mais nova disse-lhe que tinha sonhado que ainda havia de ser rainha, dar beijamão, e que havia de recusar a mão ao pae.

O pae, assim que a filha lhe disse isto, nunca mais a poude ver, e pensou em matal-a.

Um dia mandou preparar um trem, mandou metter a filha dentro e disse ao creado que a levasse para um escampado e que a matasse e que lhe levasse a lingua d'ella.

Ella levava um canzinho. Ao chegar ao escampado, o creado mandou-a descer do trem e disse-lhe:
- Real senhora, o seu pae manda-me matal-a, mas eu tenho muita pena de a matar e não a mato; mato antes o canzinho e levo-lhe a lingua.

Ella disse:
- Mata-me.

Mas elle matou o cão, tirou-lhe a lingua e foi-se embora, deixando a princeza no escampado. O pae quando recebeu a lingua ficou muito satisfeito.

A princeza anoitecia e amanhecia nos campos e um dia metteu-se n'um bosque muito fechado onde não havia senão bichos, e tão farta estava de viver que ia ter mesmo com os bichos para a tragarem; mas os bichos cheiravam-n'a e fugiam d'ella, e ella dizia:

- Sou tão má que até os bichos fogem de mim!

Uma noite viu ao longe uma luz e foi direito a ella. Foi ter a um palacio e, como estava a chover, entrou e escondeu-se de traz do portão. A' hora da meia noite viu entrar um gigante muito feio, e ella teve tanto medo que tapou a cara.

O gigante assim que entrou, disse:
- Cheira-me aqui a carne humana; e disse-lhe: Levanta-te.

E ella levantou-se, e depois ajoelhou e pediu-lhe perdão.
- Quem te trouxe aqui? - A minha desgraça, - respondeu ella.
- E quem és tu?

Ella cantou-lhe o que se tinha passado com o pae. E depois o gigante mandou-a subir e levou-a a uma casa onde havia todas as qualidades de comida e fêl-a comer.

Depois levou-a a um quarto com uma cama preparada e disse-lhe:
- Este quarto é o da menina; aqui ninguem lhe ha de tocar; a menina fica sendo minha filha e amanhã lhe digo o serviço que ha de fazer. E foi-se embora.

No outro dia quando se levantou appareceu-Ihe o gigante e disse-lhe que fosse almoçar.

Depois do almoço disse-lhe que lhe queria dar um serviço a fazer e levou-a a uma casa que estava rodeada de gaiollas de passarinhos.
- O serviço que te dou a fazer, é tratar d'estes passarinhos todos, mas cautela não deixes fugir algum.

Estava lá um de que ella gostou muito, e levava horas esquecidas a brincar com elle; mas um dia fugiu-lhe e ella teve um grande desgosto; chorou todo o dia e á noite veio o gigante e disse-lhe:
- Que tens tu, estás doente?
- Não, meu pae, não estou doente, o que tenho é um grande desgosto porque o passarinho verde fugiu.
- Não tenhas desgosto, que eu é que lhe dei licença; mais tarde tu o verás.

Um dia chegou um cavalheiro ao palacio e bateu á porta.

Ella disse-lhe que não lhe abria a porta porque não estava lá o pae.

Depois veio o pae e levou o cavalheiro para a sala, chamou-a a ella e disse-lhe:
- Este senhor vem a pedir-te para casar, é o principe de tal parte.

Depois trataram do casamento; o gigante era rei de sete reinados e no dia do casamento deu quatro á filha e fez convite para todos os reis irem ao casamento.

No dia do casamento o principe apresentou-se todo vestido de verde e ella lembrou-se do passarinho que tinha fugido, o qual passarinho era o principe que estava ali encantado.

O principe e a princeza, que já eram reis, subiram, depois do casamento, ao throno, e todos os convidados foram beijar a mão á rainha, onde tambem foram as irmans d'ella e o pae, e quando este ia a beijar a mão, ella recusou a mão ao pae, e a elle deu-lhe um desmaio e cahiu das escadas do throno, e depois aclarou-se tudo.

Seja Jesus louvado, que é meu conto acabado.

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.

(Relacionar à frente com o nº 17 - O Passarinho Verde - e...)

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