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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XXI - "O parvo"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 3, Serpa,
Março de 1903, Volume V, pp. 40 a 47 (série
de 12 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

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O
parvo
"Era
uma vez uma mulher que tinha um filho que era parvo. Um dia
não tinha nada que comer e tinha lá uma carga
de lenha e um pato, e deu-os ao filho para vender e disse-lhe:
- Pede tanto pela lenha como pelo pato.
O
filho assim fez. Chegou lá a uma villa, estava uma
mulher d'um almocreve e o almocreve tinha ido fazer uma viagem,
e ella tinha lá um hospede que era um padre.
E
depois a mulher quiz comprar o pato e perguntou ao rapaz quanto
queria por elle.
- O mesmo que pela lenha.
- Mas quanto queres tu pela lenha?
- O mesmo que por o pato.
O
padre disse á mulher que lhe désse o que lhe
parecesse. E depois o rapaz começou a chorar, e diz-lhe
a mulher:
- De que estás a chorar?
- Ainda não comi do meu pato.
- Oh rapaz, então tu vendeste o pato e queres comer
do pato?
- Mas é que eu ainda não me aqueci á
minha lenha.

http://www.imagensporfavor.com/tag/1/pato+danalt.htm
Depois
o padre disse:
- Deixe-o ficar para ahi, elle é parvo.
Ficou e estava n'aquella lamuria: "Ainda não comi
do meu pato; ainda não me aqueci à minha lenha".
Veio
o marido, e diz assim a mulher, antes de lhe abrir a porta:
- Então agora como ha de ser isto?
Diz-lhe o padre:
- Ora, escondo-me aqui para este entreforro.
-E então o rapaz?
- Vae tambem.

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O
rapaz lá no entreforro continuou na mesma lamuria e
o homem cá fóra dizia:
- Parece que temos coisa má em casa.
E
a mulher dizia:
- E' verdade, já ha bocadinho que estou a ouvir isto
e não posso saber o que é. Olha. se queres vou
chamar além o padre, o nosso compadre.
- Pois sim, vae.
E esteve contando ao compadre o que tinha em casa.
O
padre veio e andou benzendo as casas e chegou ao entreforro
onde estava o outro padre com o rapaz.
O
padre sahiu do buraco com o rapaz ás costas e o outro
correu atraz d'elle com um pau para bater-lhe, mas o padre
aparava as pancadas nas costas do rapaz, que berrava como
uma cabra, e safou-se da casa; e o rapaz lá foi para
casa da mãe todo choroso.
E
está o meu conto acabado.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
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