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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XXII- "O baguinho de romã"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 3, Serpa,
Março de 1903, Volume V, pp. 40 a 47 (série
de 12 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

in - pequenos-jornalistas
O
baguinho de romã
"Era
uma vez um homem muito velho e tinha um filho que era muito
intelligente e queria ir aprender; depois foi para casa de
um homem a aprender artemagía, e o homem foi fazer
uma viagem por muitos dias.
O
rapaz chamava-se João e o homem entregou-lhe as chaves
das casas todas e disse-lhe:
- Abre as portas todas menos aquella, porque se lá
vaes, morres.
Elle
assim que o mestre se foi embora foi a primeira que abriu
e viu uma casa cheia de livros.

"Há livros e livros! - Toda a gente sabe
Quase se poderia até brincar - (parafraseando a velha
história de: há pássaros, passarões,
passarinhos, passaroucos, aves de gaiola e papagaios e cucos,
milharucos e pardais cada vez há mais) - dizendo que:
há livros, livrinhos, livrecos, calhamaços,
cartapácios, enciclopédias, alfarrábios,
dicionários, missais, almanaques, incunábulos,
manuais, e outros tantos mais
mas
a verdade é
que para cada um de nós há quase sempre - um
livro especial."
in - paula-travelho
Emquanto
o mestre para lá esteve, estudou de noite e de dia
e jà sabia tudo. Veio o mestre, elle estava sentado
ao sol na varanda e disse-lhe:
-Então, João, que fizeste?
- Estive sentado ao sol.
Depois
foi o homem fazer outra viagem ainda por mais dias e elle
fez se n'um pombo e foi a casa do pae esteve-lhe dizendo para
o ir buscar a casa do mestre; que elle havia de lhe apresentar
uma cesta com uma gallinha e muitos pintos e co-nhecer d'ali
o filho. Que o que estivesse mais encolhidinho, que esse era
o filho.
Veio
o mestre e disse-lhe:
- Então, João, que fizeste?
- Ora, estive sentado ao sol.
No
outro dia foi o homem buscar o filho, e elle apresentou-lhe
a cesta e disse-lhe:
- Se conheces d'ahi o teu filho, leva-o, e senão o
conheces fico com elle.
- Oh senhor! então eu trouxe-lhe o rapaz e apresenta
me pintos? Eu não quero pintos, quero o rapaz.
E
olhava para os pintos a ver se via o que estava encolhidinho.
Estava muito encolhido debaixo da aza da gallinha. Depois
elle disse, o homem:
-
E' aquelle. O mestre tirou-o de dentro da cesta e levou-o
lá dentro e fez-se n'um rapaz.
O
homem ficou muito contente e levou-o para casa. E elle disse
para o pae:
- Ganha muito dinheiro comigo porque eu já sei a arte
toda.

in - carva55.files.wordpress
Fez-se
n'um cavallo, o rapaz, e disse para o pae que o fosse vender
á feira e que lhe tirasse sempre o freio.
Andava
lá o mestre, conheceu logo o cavallo e quiz compral-o.
E
o homem queria-lhe tirar o freio, mas o mestre não
quiz.
Levou-o
lá para a cavallariça, com o freio, e deixou-o
para lá ficar.
E
depois foi lá um homem a dar agua aos outros cavallos
e deu-lhe tambem a elle e tirou-lhe o freio.
Veio
de lá o mestre todo zangado e vê o cavallo feito
n'um rapaz; ia a correr para o apanhar e o rapaz fez-se n'uma
rã e saltou logo para a agua; o mestre fez-se n'um
sapo para o ir apanhar; elle fez-se n'um pombo e foi voando;
o mestre fez-se n'uma aguia para o ir apanhar, e elle fez-se
n um annel e foi cahir no collo da princeza.

in - entaotoma.wordpress
A
princeza ficou louca de contente e o mestre teve de se ir
embora desgostoso.
A
princeza levou o anel para o quarto e tirou-o do dedo. Fez-se
logo n'um rapaz e a princeza ia a gritar e elle disse-lhe
que não gritasse, que elle que sabia muita arte.
E
depois a princeza disse- lhe:
-Já não te vás d'aqui embora; cá
te ha de vir de comer, não te ha de faltar nada.
Depois
o rei adoeceu. Foram lá muitos medicos. O mestre, que
soube, foi tambem, feito medico. Depois disse:
- Ponho o rei bom se me der um anel que a princeza traz na
mão esquerda.
O
rei disse-lhe que sim, e pôz-se logo bom. A princeza
não queria dar de maneira nenhuma o anel. Foi para
o quarto e disse ao rapaz o que succedia. E elle disse:
- Não se assuste; primeiro finja que não o quer
dar e depois atire comigo ao chão, com o anel, com
muita força.

in - apor.wordpress.jose-de-sousa-moura-girao
No
outro dia foi o mestre, o medico: Que queria o anel. Ella
primeiro não o queria dar, depois atirou-o ao chão
com muita forca e fez-se o anel n'uma romã muito aberta,
e o mestre fez-se n'uma gallinha com muitos pintos e comeu
a romã, e es-queceu-lhe um baguinho; o rapaz, só
do baguinho, fez-se n'uma raposa, e comeu a gallinha e os
pintos.
E
o rei deu-lhe como recompensa casar com a princeza.

E
casou, e estão muito satisfeitos, ainda hontem á
noite lá fui tomar chá, e tão certo como
estar o meu conto acabado.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.

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