CONTOS & LENDAS
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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XXII- "O baguinho de romã"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 3, Serpa, Março de 1903, Volume V, pp. 40 a 47 (série de 12 contos)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


in - pequenos-jornalistas

O baguinho de romã

"Era uma vez um homem muito velho e tinha um filho que era muito intelligente e queria ir aprender; depois foi para casa de um homem a aprender artemagía, e o homem foi fazer uma viagem por muitos dias.

O rapaz chamava-se João e o homem entregou-lhe as chaves das casas todas e disse-lhe:
- Abre as portas todas menos aquella, porque se lá vaes, morres.

Elle assim que o mestre se foi embora foi a primeira que abriu e viu uma casa cheia de livros.


"Há livros e livros! - Toda a gente sabe… Quase se poderia até brincar - (parafraseando a velha história de: há pássaros, passarões, passarinhos, passaroucos, aves de gaiola e papagaios e cucos, milharucos e pardais cada vez há mais) - dizendo que: há livros, livrinhos, livrecos, calhamaços, cartapácios, enciclopédias, alfarrábios, dicionários, missais, almanaques, incunábulos, manuais, e outros tantos mais … mas… a verdade é que para cada um de nós há quase sempre - um livro especial."
in - paula-travelho

Emquanto o mestre para lá esteve, estudou de noite e de dia e jà sabia tudo. Veio o mestre, elle estava sentado ao sol na varanda e disse-lhe:
-Então, João, que fizeste?
- Estive sentado ao sol.

Depois foi o homem fazer outra viagem ainda por mais dias e elle fez se n'um pombo e foi a casa do pae esteve-lhe dizendo para o ir buscar a casa do mestre; que elle havia de lhe apresentar uma cesta com uma gallinha e muitos pintos e co-nhecer d'ali o filho. Que o que estivesse mais encolhidinho, que esse era o filho.

Veio o mestre e disse-lhe:
- Então, João, que fizeste?
- Ora, estive sentado ao sol.

No outro dia foi o homem buscar o filho, e elle apresentou-lhe a cesta e disse-lhe:
- Se conheces d'ahi o teu filho, leva-o, e senão o conheces fico com elle.
- Oh senhor! então eu trouxe-lhe o rapaz e apresenta me pintos? Eu não quero pintos, quero o rapaz.

E olhava para os pintos a ver se via o que estava encolhidinho. Estava muito encolhido debaixo da aza da gallinha. Depois elle disse, o homem:

- E' aquelle. O mestre tirou-o de dentro da cesta e levou-o lá dentro e fez-se n'um rapaz.

O homem ficou muito contente e levou-o para casa. E elle disse para o pae:
- Ganha muito dinheiro comigo porque eu já sei a arte toda.


in - carva55.files.wordpress

Fez-se n'um cavallo, o rapaz, e disse para o pae que o fosse vender á feira e que lhe tirasse sempre o freio.

Andava lá o mestre, conheceu logo o cavallo e quiz compral-o.

E o homem queria-lhe tirar o freio, mas o mestre não quiz.

Levou-o lá para a cavallariça, com o freio, e deixou-o para lá ficar.

E depois foi lá um homem a dar agua aos outros cavallos e deu-lhe tambem a elle e tirou-lhe o freio.

Veio de lá o mestre todo zangado e vê o cavallo feito n'um rapaz; ia a correr para o apanhar e o rapaz fez-se n'uma rã e saltou logo para a agua; o mestre fez-se n'um sapo para o ir apanhar; elle fez-se n'um pombo e foi voando; o mestre fez-se n'uma aguia para o ir apanhar, e elle fez-se n um annel e foi cahir no collo da princeza.


in - entaotoma.wordpress

A princeza ficou louca de contente e o mestre teve de se ir embora desgostoso.

A princeza levou o anel para o quarto e tirou-o do dedo. Fez-se logo n'um rapaz e a princeza ia a gritar e elle disse-lhe que não gritasse, que elle que sabia muita arte.

E depois a princeza disse- lhe:
-Já não te vás d'aqui embora; cá te ha de vir de comer, não te ha de faltar nada.

Depois o rei adoeceu. Foram lá muitos medicos. O mestre, que soube, foi tambem, feito medico. Depois disse:
- Ponho o rei bom se me der um anel que a princeza traz na mão esquerda.

O rei disse-lhe que sim, e pôz-se logo bom. A princeza não queria dar de maneira nenhuma o anel. Foi para o quarto e disse ao rapaz o que succedia. E elle disse:
- Não se assuste; primeiro finja que não o quer dar e depois atire comigo ao chão, com o anel, com muita força.


in - apor.wordpress.jose-de-sousa-moura-girao

No outro dia foi o mestre, o medico: Que queria o anel. Ella primeiro não o queria dar, depois atirou-o ao chão com muita forca e fez-se o anel n'uma romã muito aberta, e o mestre fez-se n'uma gallinha com muitos pintos e comeu a romã, e es-queceu-lhe um baguinho; o rapaz, só do baguinho, fez-se n'uma raposa, e comeu a gallinha e os pintos.

E o rei deu-lhe como recompensa casar com a princeza.

E casou, e estão muito satisfeitos, ainda hontem á noite lá fui tomar chá, e tão certo como estar o meu conto acabado.

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.

 

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