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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XXVII - "As Macacas"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 4, Serpa,
Abril de 1903, Volume V, pp. 60 a 64 (série de 8 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

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criatividade com histórias e contos
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As
Macacas
"ERA
d'uma vez um rei que tinha tres filhos e um d'elles era marranita
("pessoa que tem corcunda", in DLP, Porto Editora).

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Todos
queriam casar, mas o pae disse que fossem correr mundo, e
que, dos tres, casaria aquelle que trouxesse a bacia mais
bonita.
Partiram
e chegaram lá a um ponto onde havia tres estradas e
cada um foi para seu lado.
O
marranita foi andando, andando, e foi ter a um palacio. Vieram
abrir-lhe a porta muitas macacas, e uma muito pequenina não
o largou mais. Puzeram a mesa para o marranita comer, mas
elle poz se a chorar. Diz-lhe a macaquinha:
- Então porque está a chorar?
- Ora meu pae quer que eu lhe leve a bacia mais bonita que
houver.
- Não chore, aqui tem o caco das gallinhas.

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E
quando elle se foi embora metteram-lhe o caco das gallinhas
no alforge.
Chegou
lá ao sitio e já vinham os outros irmãos
com umas bacias muito bonitas, e o marranita muito triste
porque só levava o caco das gallinhas.
Foram
os tres para o palacio. Estava lá muita gente, muitos
fidalgos.
O
primeiro que se apresentou foi o mais velho, depois foi o
outro e o terceiro foi o marranita.
Apresentaram
as bacias, sendo a do mais velho de bronze e a do outro de
prata, mas o marranita não se atrevia a apresentar
o caco das gallinhas.

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O
rei teimou com elle, zangou-se, e o marranita viu-se obrigado
a saccar o caco das gallinhas que se transformou n'uma formosa
bacia d'oiro.
O
rei disse para os outros que quem casava era o marranita.
Elles
responderam que não, pois ainda faltava a toalha.
Pois
que fossem novamente correr mundo e que casaria quem trouxesse
a melhor toalha.
O
marranita correu logo ao tal palacio das macacas, e a macaquinha
deu lhe a rodilha da chaminé.
Chegou
o marranita ao sitio e já lá estavam os irmãos
com toalhas muito ricas. Foi tirar a rodilha da chaminé
para a mostrar aos irmãos e encontrou uma toalha côr
da rosa.

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Foram
para palacio. Todas as toalhas eram bonitas, mas a do marranita
era a melhor.
- Não ha remedio, disse o rei, quem casa é o
marranita.
E
encarregou o de escolher noiva e de a apresentar em palacio
dentro de tres dias.
O
marranita correu logo a casa das macacas, para ellas lhe escolherem
a Noiva.
-Vou eu, disse a macaquinha.

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/Carrada-de-Cortica
Poz-se
à porta um carro de cortiça e elle metteu-se
dentro com a macaquinha, e as outras macacas e ursos tudo
a tocar em instrumentos atraz do carro.
Chegaram
ao tal sitio e estavam lá os irmãos e fizeram
grande mangação d'elle.
Elle
zangou-se, apeou-se do carro e foi beber agua á fonte;
quando se voltou, já não viu os irmãos,
mas viu tudo transformado: as macacas e os ursos eram princezas
e principes e a rnacaquinha era a princeza mais bonita.
Os
dois irmãos iam a caminho do palacio dizendo:
"Ora o rnarranita, a trazer uma companhia de macacas!"

imaginacaoativa.wordpress-azulejos-portugueses-seculo-xvii
"Na azulejaria portuguesa, estas figuras
esculpidas foram transformadas em um motivo decorativo muito
utilizado não apenas no século XVII mas no seguinte
também."
"Exemplo de uma Macacaria, "o casamento da galinha",
existente no Palácio Fronteira, Lisboa. Todos os personagens
representados, exceptuando a noiva, são macacos."
E
riam muito; mas ficaram com grande inveja quando viram chegar
o marranita com a sua noiva, no meio de muitos principes e
princezas e n'um carro todo d'oiro, e serem recebidos pelo
rei com grandes honras.
Casou
o marranita, e acabou-se o conto das macacas.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
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A
remeter para o Corcunda de Notre Dame:
pt.wikipedia.org/wiki/Notre-Dame_de_Paris
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