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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XXVIII - "O diabo também não
é mau
"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 4, Serpa,
Abril de 1903, Volume V, pp. 60 a 64 (série de 8 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

O
diabo também não é mau
"Era
d'uma vez um sapateiro muito pobre e um dia comprou uma cautella
e sahiu-lhe a sorte grande.
O
homem ficou muito contente e mandou construir um palacio com
uma escada de 365 degraus.

viajeaqui
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O
homem que a fez enganou-se e fez 366 degraus.
Depois
foi um pintor a pintar as escadas com as imagens de todos
os santos, mas chegou ao ultimo degrau e não sabia
o que havia de pintar, sobrava lhe um degrau, e foi ao amo
a perguntar lhe o que havia de fazer.
-
Que pintasse o diabo, respondeu o homem.
O
pintor assim fez, pintou o diabo. Depois um criado ia todos
os dias acender uma lanterna ao santo d'esse dia; chegou ao
ultimo degrau e foi perguntar ao amo se queria que pozesse
a lanterna tambem ao diabo.
O
amo disse que sim, pois o diabo não fazia mal a ninguem,
e o criado pôz a luz ao diabo.
Ainda
sobrava muito dinheiro ao homem da sorte grande e quiz fazer
uma viagem.
Arranjou
um companheiro e foi. Esteve por lá muitos annos com
o companheiro e d'uma vez, quando ia d'uma terra para outra,
disse-lhe o companheiro:
- Então não trouxe nada para comermos?
- E' verdade, esqueceu-me.
- Então vamos aqui a uma estalagem.
Perguntaram se havia alguma cousa para se comer, e disseram-lhes
que havia só uns ovos.
- Pois venham os ovos.
Estiveram
comendo, e não os pagaram por esquecimento. Quando
chegaram lá áquella terra lembraram-se de que
não tinham pago os ovos.
- Deixal-o, á volta pagaremos.
Quando
voltaram foram á mesma estalagem e estiveram a comer,
e quando acabaram disseram para o estalajadeiro:
- Não nos conhece, não é verdade?
- Não conheço.
- Então não se lembra de uns sujeitos que ha
dias aqui estiveram a comer ovos fritos?
- Lembro-me, é verdade.
- Pois esquecemo-nos de pagar então os ovos, e agora
queremos pagal-os.
Disse-lhe
o estalajadeiro:
- E os senhores trazem dinheiro que chegue?
- A quantia não deve ser tão grande, que não
nos chegue o dinheiro.
O
homem pediu um desproposito pelos ovos.
Elles
ficaram assustados e o estalajadeiro disse:
- Então, dos ovos sahem os pintos, e as pintainhas,
estas em chegando a gallinhas põem ovos de que nascem
outros pintos e pintainhas, e assim por duvante, de maneira
que cada ovo dá um rendimento por hi além.
O
da sorte grande não quiz pagar, e veio para a cidade.
O
estalajadeiro foi-se a queixar.
Passados
dias um recado ao homem para ir ao tribunal.
Elle
foi muito encolhido, e estiveram-lhe dizendo que no outro
dia ao meio dia devia de lá estar para uma audiencia
e que levasse um advogado para o defender.
Elle
sahiu do tribunal e encontrou um homem muito bem preparado,
muito bem arranjado, que era o diabo em pessoa. Esteve-o cumprimentando
e disse-lhe: "Que soube que estava mettido n'um processo
e que ia procurar um advogado, e elle que se offerecia."
O homem acceitou. No outro dia ao meio dia foi o homem para
o tribunal, e o advogado sem apparecer; o juiz já muito
zangado, disse:
- Bem, fica a audiencia para amanhã, á hora
do meio dia.

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N'isto
entrou o advogado e o juiz perguntou-lhe porque se tinha demorado.
E elle disse: que sabia que a audiencia era ao meío
dia, mas tivera uma desordem com os criados e por isso não
podera vir mais cedo". Eu lhe conto o caso: "Eu
mandei cozer grãos para o jantar; os grãos não
se queriam cozer e os meus criados tambem não os queriam
comer, e foi por isso que eu fiz uma briga, até que
mandei semear os grãos."
Diz-lhe o juiz:
- Então, grãos depois de cozidos, semeiam-se?
- E ovos depois de fritos deitam pintos?
- E' verdade, está o homem livre, pode-se ir embora.
E
o homem agradeceu ao diabo, e este disse que lhe tinha accudido
por fazer tanto caso d'elle como fazia dos Santos.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
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