CONTOS & LENDAS
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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XXVIII - "O diabo também não é mau…"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 4, Serpa, Abril de 1903, Volume V, pp. 60 a 64 (série de 8 contos)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]

O diabo também não é mau…

"Era d'uma vez um sapateiro muito pobre e um dia comprou uma cautella e sahiu-lhe a sorte grande.

O homem ficou muito contente e mandou construir um palacio com uma escada de 365 degraus.


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O homem que a fez enganou-se e fez 366 degraus.

Depois foi um pintor a pintar as escadas com as imagens de todos os santos, mas chegou ao ultimo degrau e não sabia o que havia de pintar, sobrava lhe um degrau, e foi ao amo a perguntar lhe o que havia de fazer.

- Que pintasse o diabo, respondeu o homem.

O pintor assim fez, pintou o diabo. Depois um criado ia todos os dias acender uma lanterna ao santo d'esse dia; chegou ao ultimo degrau e foi perguntar ao amo se queria que pozesse a lanterna tambem ao diabo.

O amo disse que sim, pois o diabo não fazia mal a ninguem, e o criado pôz a luz ao diabo.

Ainda sobrava muito dinheiro ao homem da sorte grande e quiz fazer uma viagem.

Arranjou um companheiro e foi. Esteve por lá muitos annos com o companheiro e d'uma vez, quando ia d'uma terra para outra, disse-lhe o companheiro:
- Então não trouxe nada para comermos?
- E' verdade, esqueceu-me.
- Então vamos aqui a uma estalagem.
Perguntaram se havia alguma cousa para se comer, e disseram-lhes que havia só uns ovos.
- Pois venham os ovos.

Estiveram comendo, e não os pagaram por esquecimento. Quando chegaram lá áquella terra lembraram-se de que não tinham pago os ovos.
- Deixal-o, á volta pagaremos.

Quando voltaram foram á mesma estalagem e estiveram a comer, e quando acabaram disseram para o estalajadeiro:
- Não nos conhece, não é verdade?
- Não conheço.
- Então não se lembra de uns sujeitos que ha dias aqui estiveram a comer ovos fritos?
- Lembro-me, é verdade.
- Pois esquecemo-nos de pagar então os ovos, e agora queremos pagal-os.

Disse-lhe o estalajadeiro:
- E os senhores trazem dinheiro que chegue?
- A quantia não deve ser tão grande, que não nos chegue o dinheiro.

O homem pediu um desproposito pelos ovos.

Elles ficaram assustados e o estalajadeiro disse:
- Então, dos ovos sahem os pintos, e as pintainhas, estas em chegando a gallinhas põem ovos de que nascem outros pintos e pintainhas, e assim por duvante, de maneira que cada ovo dá um rendimento por hi além.

O da sorte grande não quiz pagar, e veio para a cidade.

O estalajadeiro foi-se a queixar.

Passados dias um recado ao homem para ir ao tribunal.

Elle foi muito encolhido, e estiveram-lhe dizendo que no outro dia ao meio dia devia de lá estar para uma audiencia e que levasse um advogado para o defender.

Elle sahiu do tribunal e encontrou um homem muito bem preparado, muito bem arranjado, que era o diabo em pessoa. Esteve-o cumprimentando e disse-lhe: "Que soube que estava mettido n'um processo e que ia procurar um advogado, e elle que se offerecia." O homem acceitou. No outro dia ao meio dia foi o homem para o tribunal, e o advogado sem apparecer; o juiz já muito zangado, disse:
- Bem, fica a audiencia para amanhã, á hora do meio dia.


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N'isto entrou o advogado e o juiz perguntou-lhe porque se tinha demorado. E elle disse: que sabia que a audiencia era ao meío dia, mas tivera uma desordem com os criados e por isso não podera vir mais cedo". Eu lhe conto o caso: "Eu mandei cozer grãos para o jantar; os grãos não se queriam cozer e os meus criados tambem não os queriam comer, e foi por isso que eu fiz uma briga, até que mandei semear os grãos."
Diz-lhe o juiz:
- Então, grãos depois de cozidos, semeiam-se?
- E ovos depois de fritos deitam pintos?
- E' verdade, está o homem livre, pode-se ir embora.

E o homem agradeceu ao diabo, e este disse que lhe tinha accudido por fazer tanto caso d'elle como fazia dos Santos.

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.

 

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