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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XXXV - "O Copo d'oiro"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 5, Serpa, Maio de 1903, Volume V, pp. 71 a 79 (série de 7 contos)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


fotos.sapo.pt

O Copo d'oiro

"Era uma vez um rei e uma rainha e viviam desgostosos porque não tinham filhos, e pediram a Deus que lhes desse um filho e que, quando o filho tivesse 18 annos, iria elle proprio a Roma sósinho pagar uma promessa. Foram ouvidos por Deus e ficaram muito contentes quando nasceu um principe.

Quando elle se ia aproximando dos seus 18 annos começaram os paes a andar tristes porque o filho tinha de ir sósinho a pagar a promessa.

O principe reparou na tristeza dos paes e um dia perguntou-lhes porque andavam tristes e elles contaram tudo. O principe disse que não estivessem tristes, que elle de boa vontade iria cumprir a promessa.

Chegado aos 18 annos preparou-se para ir a Roma, e a rainha, quando elle se despediu, deu-lhe um copo d'oiro e deu-lhe tres peras, dizendo-lhe que não as partisse sósinho, que as partisse acompanhado, e que só aceitasse por companheiro da viagem aquelle que lhe desse o bocado maior e nunca acompanhasse com aquelle que lhe desse o bocado mais pequeno.

O principe, quando sahiu de casa, no meio do caminho encontrou um homem ao pé d'uma fonte e pediu-lhe que partisse uma das peras, e o homem deu-lhe a parte mais pequena e não acompanhou com esse; encontrou outro junto de outra fonte e que lhe fez o mesmo, e á ultima pera encontrou, junto de outra fonte, outro homem e este deu-lhe o bocado maior e foi com este que elle acompanhou.

Fizeram-se amigos e foram ambos para Roma.

Em todas as hospedarias ficaram sempre no mesmo quarto, e quando foi da ultima hospedaria, á hora da ceia, o príncipe tirou o copo d'oiro para beber agua e a dona da casa não tirava os olhos de cima do copo, e o companheiro reparou n'isso.

E quando elles disseram que queriam dormir juntos, disse a dona da casa que não era costume n'aquella hospedaria dormirem duas pessoas no mesmo quarto, e elles ficaram muito tristes.

Cada um foi para o seu quarto, e pela noite adiante ella foi ao quarto do principe, matou o e tirou lhe o copo; depois escondeu o cavallo, e ao principe levou-o para uma estrumeira a enterrar.

Pela manhã, quando o companheiro se levantou e perguntou por elle, ella disse-lhe que tinha marchado, e elle ficou muito admirado e não acreditou.

Foi d'ali a casa do juiz, contou-lhe o que se tinha passado e a sua desconfiança de que havia crime por causa do copo d'oiro que era de muito valor.

O juiz disse-lhe que isso que se arranjava bem; que elle conhecia a mulher e lhe mandaria pedir uns copos emprestados, e assim fez.

A mulher, á primeira vez mandou uns copos de vidro, e como o juiz pediu mais copos ella mandou-lhe outros de crystal, e como o juiz pedisse ainda mais copos mandou-lhe uns de prata e entre elles um d'oiro, que era o tal.

O homem assim que o viu conheceu-o logo. A dona da casa foi logo prêsa e obrigada a dizer onde estava o principe e o seu cavallo.

Confessou tudo e o homem foi a desenterrar principe, e mesmo assim morto montou-o e segurou-o no cavallo do mesmo principe e foram a pagar a promessa.

Quando chegaram á egreja ficou o principe á porta montado no seu cavallo e elle foi a fazer oracão como se fosse o seu amigo, e deu-lhe vontade de olhar para traz e viu o principe a fazer oração e chorava, e conheceu ser isto um grande milagre, voltando depois ambos para suas casas.

Quando se despediram o principe deu-se a conhecer e queria levar o companheiro para o palacio, mas elle não aceitou, porque tambem ia para companhia de seus paes, que eram lavradores.

O principe disse-lhe que se n'algum tempo precisasse d'elle que o procurasse no reino de tal.

Passados annos os paes do companheiro morreram, e elle ficou muito pobre, e lembrou-se do offerecimento do principe.

Dirigiu-se ao palacio, disse que queria falar com o principe, este conheceu-o e valeu-lhe em tudo, assentando-o á sua mesa e tratando-o como irmão e não consentiu que elle sahisse mais do palacio onde ficou vivendo

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.

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