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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XXXV - "O Copo d'oiro"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 5, Serpa,
Maio de 1903, Volume V, pp. 71 a 79 (série de 7 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

fotos.sapo.pt
O
Copo d'oiro
"Era
uma vez um rei e uma rainha e viviam desgostosos porque não
tinham filhos, e pediram a Deus que lhes desse um filho e
que, quando o filho tivesse 18 annos, iria elle proprio a
Roma sósinho pagar uma promessa. Foram ouvidos por
Deus e ficaram muito contentes quando nasceu um principe.
Quando
elle se ia aproximando dos seus 18 annos começaram
os paes a andar tristes porque o filho tinha de ir sósinho
a pagar a promessa.
O
principe reparou na tristeza dos paes e um dia perguntou-lhes
porque andavam tristes e elles contaram tudo. O principe disse
que não estivessem tristes, que elle de boa vontade
iria cumprir a promessa.
Chegado
aos 18 annos preparou-se para ir a Roma, e a rainha, quando
elle se despediu, deu-lhe um copo d'oiro e deu-lhe tres peras,
dizendo-lhe que não as partisse sósinho, que
as partisse acompanhado, e que só aceitasse por companheiro
da viagem aquelle que lhe desse o bocado maior e nunca acompanhasse
com aquelle que lhe desse o bocado mais pequeno.
O
principe, quando sahiu de casa, no meio do caminho encontrou
um homem ao pé d'uma fonte e pediu-lhe que partisse
uma das peras, e o homem deu-lhe a parte mais pequena e não
acompanhou com esse; encontrou outro junto de outra fonte
e que lhe fez o mesmo, e á ultima pera encontrou, junto
de outra fonte, outro homem e este deu-lhe o bocado maior
e foi com este que elle acompanhou.
Fizeram-se
amigos e foram ambos para Roma.
Em
todas as hospedarias ficaram sempre no mesmo quarto, e quando
foi da ultima hospedaria, á hora da ceia, o príncipe
tirou o copo d'oiro para beber agua e a dona da casa não
tirava os olhos de cima do copo, e o companheiro reparou n'isso.
E
quando elles disseram que queriam dormir juntos, disse a dona
da casa que não era costume n'aquella hospedaria dormirem
duas pessoas no mesmo quarto, e elles ficaram muito tristes.
Cada
um foi para o seu quarto, e pela noite adiante ella foi ao
quarto do principe, matou o e tirou lhe o copo; depois escondeu
o cavallo, e ao principe levou-o para uma estrumeira a enterrar.
Pela
manhã, quando o companheiro se levantou e perguntou
por elle, ella disse-lhe que tinha marchado, e elle ficou
muito admirado e não acreditou.
Foi
d'ali a casa do juiz, contou-lhe o que se tinha passado e
a sua desconfiança de que havia crime por causa do
copo d'oiro que era de muito valor.
O
juiz disse-lhe que isso que se arranjava bem; que elle conhecia
a mulher e lhe mandaria pedir uns copos emprestados, e assim
fez.
A
mulher, á primeira vez mandou uns copos de vidro, e
como o juiz pediu mais copos ella mandou-lhe outros de crystal,
e como o juiz pedisse ainda mais copos mandou-lhe uns de prata
e entre elles um d'oiro, que era o tal.
O
homem assim que o viu conheceu-o logo. A dona da casa foi
logo prêsa e obrigada a dizer onde estava o principe
e o seu cavallo.
Confessou
tudo e o homem foi a desenterrar principe, e mesmo assim morto
montou-o e segurou-o no cavallo do mesmo principe e foram
a pagar a promessa.
Quando
chegaram á egreja ficou o principe á porta montado
no seu cavallo e elle foi a fazer oracão como se fosse
o seu amigo, e deu-lhe vontade de olhar para traz e viu o
principe a fazer oração e chorava, e conheceu
ser isto um grande milagre, voltando depois ambos para suas
casas.
Quando
se despediram o principe deu-se a conhecer e queria levar
o companheiro para o palacio, mas elle não aceitou,
porque tambem ia para companhia de seus paes, que eram lavradores.
O
principe disse-lhe que se n'algum tempo precisasse d'elle
que o procurasse no reino de tal.
Passados
annos os paes do companheiro morreram, e elle ficou muito
pobre, e lembrou-se do offerecimento do principe.
Dirigiu-se
ao palacio, disse que queria falar com o principe, este conheceu-o
e valeu-lhe em tudo, assentando-o á sua mesa e tratando-o
como irmão e não consentiu que elle sahisse
mais do palacio onde ficou vivendo
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
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