CONTOS & LENDAS
A ARTE DE enCANTAR
na LITERATURA POPULAR PORTUGUESA

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CONTOS & LENDAS

Serra da Estrela

ALENTEJO
uma TEIA infindável de Contos & Lendas

 

12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 

UM ANEXO com 3 TEXTOS a relacionar com

O Copo d'oiro
(Pode voltar ao COPO de OIRO)

CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XXXV - "O Copo d'oiro"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 5, Serpa, Maio de 1903, Volume V, pp. 71 a 79 (série de 7 contos)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


fotos.sapo.pt

VER
(A TAÇA DO REI DE TULE de Fialho d'Almeida
- um extracto)


aaalb.esdg.pt-fialho_de_almeida

A taça do rei de Tule

"O rei de Tule era velho, e sobre velho, enfermiço e triste. Sentindo avizinhar-se a morte, distribuiu pelos filhos as suas terras e riquezas. E ficou sozinho e pobre num antigo roqueiro castelo - o mar batia por baixo, minando cavernas e invadindo as masmorras de entorno aos cataventos das torres, gritavam as aves do temporal, e por salas de armas e corredores ainda a desoras ressoavam as passadas duma corte dispersa aos quatro ventos, vendo o rei sem território. O trôpego monarca, chamando as forças que lhe restavam, vestiu-se dos seus vestidos de gala, coroou ele mesmo os velhos longos cabelos com a sua coroa de ferro, e arrancando do seio uma taça preciosa, disse ao pajem lhe vazasse um velho vinho do Reno. Triste é dizer a mágoa que o rei exprimia ante essa taça que a amante lhe dera, à volta de montear, a primeira vez que os dois tinham falado a sós. E o rei, que então era mimoso adolescente, curvado sobre o palafrém da amante, jurara nunca profanar a taça em brindes libertinos, nos festins do seu castelo roqueiro.

O pajem deitou-lhe vinho, ao largo era já noite no mar - ele, erguendo o braço trémulo, bebeu vagarosamente, e havia nos seus olhos cansados, como no seio duma gruta marinha, ossadas de antigas e abrasadoras paixões.

Mas embalde o licor lhe circulava nos pergaminhos do corpo, à mira de incender-lhe reminiscências da mocidade.

E atirou a taça ao mar, do varandim rendilhado, por que ninguém mais, bebendo por ela, viesse a conhecer os segredos daquele amor de balada, feito de suspiros e raios de lua, perfumes de laranjeira e baques de coração espezinhado.

A taça oscilou ligeiramente nas águas, fez umas reviravoltas antes de seguir mar em fora, como uma gôndola deserta que procura o gondoleiro.

E o rei considerava em voz triste - quem mesmo velho pudera guardar-te dia e noite, taça de amor por onde os meus lábios beberam os vinhos generosos, por essas noites perladas dos ecos das serenatas, dos perfumes festivais das rosas, e da embriaguez dos profundos amores? ...Abandonaram-me os meus cavaleiros e não me queixo, fugiram-me os cortesãos e estou tranquilo: só a ideia de te deixar me atormenta, pois tu guardas inteira e palpitante a história do meu coração."

[...]


Fialho de Almeida, O País das Uvas (excerto),
Lisboa, Ulisseia, 1987


Antero de Quental


pracadapoesia.blogspot

A Canção do Rei de Tule


Era uma vez um bom rei
Em Tule - essa ilha distante,
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de oiro de lei.

Era um copo de oiro fino
Todo lavrado a primor;
Se fosse o cálix divino
Não lhe tinha mais amor.

Seus tristes olhos leais
Não tinham outra alegria:
E só por ele bebia
Nos seus banquetes reais.

Chegada a hora da morte
Põs-se o rei a meditar
Grandezas da sua sorte,
Seus reinos à beira-mar.

Deixava um rico tesoiro,
Palácios, vilas, cidades;
De nada tinha saudades,
A não ser do copo de oiro.

No castelo da devesa,
Naquelas salas sem fim,
Mandou armar uma mesa
Para o último festim.

Convidou sem mais tardar
Os seus fiéis cavaleiros,
Para os brindes derradeiros
No castelo à beira-mar.

Então, vazando-a de um trago,
E com entranhada mágua,
Pôs nas ondas o olhar vago
E atirou a taça à água.

Viu-a boiar suspendida,
'Té que as ondas a levaram
Os olhos se lhe toldaram,
E não bebeu mais na vida!

Antero de Quental (1870-1871)


Gomes Leal


Imagem in - alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/

Nova balada do Rei de Tule

Num país nada vizinho...
Em Tule, até mui distante,
Houve outrora um rei farsante,
Um rei amigo do vinho.

Quando a sua amante fiel
Mimosa e cheia de graça,
Morreu, deixou-lhe uma taça,
Que semelhava um tonel.

Era tamanha a grandeza
Da taça que nada iguala.
- Ficava sempre, ao esgotá-la,
El-rei debaixo da mesa.

Quase sempre ao lusco-fusco,
De noite, até horas mortas,
Folgava, as pernas já tortas,
Este rei velho e patusco!

E noite d'agreste vento,
Na sua mais alta torre,
Pensando em que tudo morre,
Tratou do seu testamento.

A sua amizade cega
Legava a todos dinheiro.
E a seu filho e seu herdeiro
Seu reino, seu povo... e a adega.

Da sua amizade em prova,
A todos dava uma graça.
Só aquela enorme taça
Levava El-Rei para a cova!

Um dia, os altos barões,
Fez juntar, para uma orgia,
Numa sala onde curtia
As suas indigestões.

E ali, depois de libar...
Passados curtos momentos,
Começou a ver, aos ventos,
Os seus castelos dançar.

Assoma, trocando o pé,
De taça em punho, à janela,
Mas nisto, tropeça... e ela
Vai levada da maré.

E afunda-se... mas tal revés
Tomba o rei morto de mágoa.
- Era esta a primeira vez
Que a taça se enchia d'água!

Gomes Leal, Claridades do Sul,
Mem Martins, Publicações Europa-América, 1999

 

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