|
UM
ANEXO com 3 TEXTOS a relacionar com
O
Copo d'oiro
(Pode voltar ao COPO
de OIRO)
CONTOS
POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XXXV - "O Copo d'oiro"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 5, Serpa,
Maio de 1903, Volume V, pp. 71 a 79 (série de 7 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

fotos.sapo.pt
VER
(A TAÇA DO REI DE TULE de Fialho
d'Almeida
- um extracto)

aaalb.esdg.pt-fialho_de_almeida
A
taça do rei de Tule
"O
rei de Tule era velho, e sobre velho, enfermiço e triste.
Sentindo avizinhar-se a morte, distribuiu pelos filhos as
suas terras e riquezas. E ficou sozinho e pobre num antigo
roqueiro castelo - o mar batia por baixo, minando cavernas
e invadindo as masmorras de entorno aos cataventos das torres,
gritavam as aves do temporal, e por salas de armas e corredores
ainda a desoras ressoavam as passadas duma corte dispersa
aos quatro ventos, vendo o rei sem território. O trôpego
monarca, chamando as forças que lhe restavam, vestiu-se
dos seus vestidos de gala, coroou ele mesmo os velhos longos
cabelos com a sua coroa de ferro, e arrancando do seio uma
taça preciosa, disse ao pajem lhe vazasse um velho
vinho do Reno. Triste é dizer a mágoa que o
rei exprimia ante essa taça que a amante lhe dera,
à volta de montear, a primeira vez que os dois tinham
falado a sós. E o rei, que então era mimoso
adolescente, curvado sobre o palafrém da amante, jurara
nunca profanar a taça em brindes libertinos, nos festins
do seu castelo roqueiro.
O
pajem deitou-lhe vinho, ao largo era já noite no mar
- ele, erguendo o braço trémulo, bebeu vagarosamente,
e havia nos seus olhos cansados, como no seio duma gruta marinha,
ossadas de antigas e abrasadoras paixões.
Mas
embalde o licor lhe circulava nos pergaminhos do corpo, à
mira de incender-lhe reminiscências da mocidade.
E
atirou a taça ao mar, do varandim rendilhado, por que
ninguém mais, bebendo por ela, viesse a conhecer os
segredos daquele amor de balada, feito de suspiros e raios
de lua, perfumes de laranjeira e baques de coração
espezinhado.
A
taça oscilou ligeiramente nas águas, fez umas
reviravoltas antes de seguir mar em fora, como uma gôndola
deserta que procura o gondoleiro.
E
o rei considerava em voz triste - quem mesmo velho pudera
guardar-te dia e noite, taça de amor por onde os meus
lábios beberam os vinhos generosos, por essas noites
perladas dos ecos das serenatas, dos perfumes festivais das
rosas, e da embriaguez dos profundos amores? ...Abandonaram-me
os meus cavaleiros e não me queixo, fugiram-me os cortesãos
e estou tranquilo: só a ideia de te deixar me atormenta,
pois tu guardas inteira e palpitante a história do
meu coração."
[...]
Fialho de Almeida, O País das Uvas (excerto),
Lisboa, Ulisseia, 1987
Antero de Quental

pracadapoesia.blogspot
A
Canção do Rei de Tule
Era uma vez um bom rei
Em Tule - essa ilha distante,
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de oiro de lei.
Era
um copo de oiro fino
Todo lavrado a primor;
Se fosse o cálix divino
Não lhe tinha mais amor.
Seus
tristes olhos leais
Não tinham outra alegria:
E só por ele bebia
Nos seus banquetes reais.
Chegada
a hora da morte
Põs-se o rei a meditar
Grandezas da sua sorte,
Seus reinos à beira-mar.
Deixava
um rico tesoiro,
Palácios, vilas, cidades;
De nada tinha saudades,
A não ser do copo de oiro.
No
castelo da devesa,
Naquelas salas sem fim,
Mandou armar uma mesa
Para o último festim.
Convidou
sem mais tardar
Os seus fiéis cavaleiros,
Para os brindes derradeiros
No castelo à beira-mar.
Então,
vazando-a de um trago,
E com entranhada mágua,
Pôs nas ondas o olhar vago
E atirou a taça à água.
Viu-a
boiar suspendida,
'Té que as ondas a levaram
Os olhos se lhe toldaram,
E não bebeu mais na vida!
Antero
de Quental (1870-1871)
Gomes Leal

Imagem
in - alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/
Nova
balada do Rei de Tule
Num
país nada vizinho...
Em Tule, até mui distante,
Houve outrora um rei farsante,
Um rei amigo do vinho.
Quando
a sua amante fiel
Mimosa e cheia de graça,
Morreu, deixou-lhe uma taça,
Que semelhava um tonel.
Era
tamanha a grandeza
Da taça que nada iguala.
- Ficava sempre, ao esgotá-la,
El-rei debaixo da mesa.
Quase
sempre ao lusco-fusco,
De noite, até horas mortas,
Folgava, as pernas já tortas,
Este rei velho e patusco!
E
noite d'agreste vento,
Na sua mais alta torre,
Pensando em que tudo morre,
Tratou do seu testamento.
A
sua amizade cega
Legava a todos dinheiro.
E a seu filho e seu herdeiro
Seu reino, seu povo... e a adega.
Da
sua amizade em prova,
A todos dava uma graça.
Só aquela enorme taça
Levava El-Rei para a cova!
Um
dia, os altos barões,
Fez juntar, para uma orgia,
Numa sala onde curtia
As suas indigestões.
E
ali, depois de libar...
Passados curtos momentos,
Começou a ver, aos ventos,
Os seus castelos dançar.
Assoma,
trocando o pé,
De taça em punho, à janela,
Mas nisto, tropeça... e ela
Vai levada da maré.
E
afunda-se... mas tal revés
Tomba o rei morto de mágoa.
- Era esta a primeira vez
Que a taça se enchia d'água!
Gomes
Leal, Claridades do Sul,
Mem Martins, Publicações Europa-América,
1999
|