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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XXXVI - "A bicha"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 5, Serpa,
Maio de 1903, Volume V, pp. 71 a 79 (série de 7 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

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A
bicha
"Era
d'uma vez um homem que era viuvo, e tinha uma filha chamada
Mariquinhas, que era muito bonita.
O
homem trabalhava no campo, e a filha ia todos os dias levar-lhe
o jantar.
Um
dia ella foi mais cedo a levar-lh'o, e o homem tinha encontrado
um cacho d'uvas no campo e não era tempo de uvas, e
deu o cacho d'uvas á filha.
A
fillla não o quiz comer e arrecadou-o. O pae pensava
que ella que o tinha comido, mas ella tinha-o mettido dentro
d'uma gaveta, e a poder de tempo esqueceu-se que tinha alli
o cacho.
Uma
vez lembrou-se e foi abrir a gaveta para ver o cacho e encontrou
uma bicha pequenina ainda.
Deixou-a
crescer, não a quiz matar.

cuba.no.sapo.pt-cuba-talhas
Ja
estava tão grande que não cabía na gaveta
e metteu-a no pote do vinho, e todos os dias lhe ia levar
de comer.
O
pae um dia disse que já era tempo de se fazer o vinho,
e que fosse a filha arranjar o pote.

karolpoerner-visuais-sobre-adao-e-eva
Ella
foi a chorar para o pé da bicha logo que o pae sahiu,
e a bicha disse que não se ralasse, que ella que se
ia embora; mas que antes d'isso lhe havia de metter as mãos
na bocca, e que em se vendo n'alguma afflicção
que chamasse pela bicha.
Ella
metteu-lhe as mãos na bocca e foi-se lavar, e começou
logo a agua a transformar-se em sumo.
Um
dia disse ella para o pae que convidasse as primas e a familia
toda para irem lá jantar.
O
pae disse-lhe que sim, e a familia foi lá jantar.
Quando
se iam ássentar á mesa disse a Mariquinhas que
era costume lavarem-se as mãos antes de jantar.
Todos
as forarn lavar, deixando a agua muito preta; foi a Mariquinhas
a lavar-se e transformou se logo a agua em ouro.
As
primas ficaram todas muito contentes. Já todas queriam
tambem fazer ouro.
Depois
do jantar pozeram-se á janella, e ia passando pela
rua o criado do rei, que comprava ouro, e a Mariquinhas, que
já tinha muito ouro, chamou o homem e vendeu o, mas
faltava ainda algum para o peso, e foi buscar uma bacia, lavou-se
e fez o ouro que faltava. O criado do rei ficou todo admirado
e foi contar o caso ao rei.
O
rei quiz conhecer a menina e foi com o criado; este subiu
e o rei ficou na rua, pois tinha entregado uma carta ao criado
para entregar á menina.
Esta
leu a carta e mandou a resposta. E o rei quiz casar com a
Mariquinhas e foi pedil-a. As primas tinham muita inveja.
Depois
de tratado o casamento e depois da noiva estar muito bem vestida,
as primas tiraram-lhe os olhos e a mais feia d'ellas é
que foi casar com o rei, e levou arrecadados os olhos da Mariquinhas.
O
rei não gostava d'ella, e começou-lhe a perguntar
quando era que fazia ouro. - E' para a lua nova, respondeu
ella. Chegou a lua nova e perguntou-lhe quando fazia ouro.
- E' para o quarto crescente. Chegou o quarto crescente, e
tornou-lhe a perguntar. E ella disse:
- Ainda não é agora, é para o quarto
minguante.
A
Mariquinhas estava sem olhos, mas não se lembrava da
bicha, até que um dia lá se lembrou d'ella,
chamou pela bicha e ella appareceu-lhe logo, e esteve contando
á bicha o que lhe tinha acontecido. A bicha disse-lhe
que ainda ella havia de casar com o rei.

em: artes-viagens-sabores
-
Eu agora faço-me n'um homem, disse a bicha, bato tres
vezes com esta varinha de condão n'esta arvore, para
apparecer cheia de peras.
É
appareceu cheia de peras. Colheu-as e foi vendel-as.
Chegou
lá ao palacio e perguntaram-lhe porquanto vendia as
peras.
Elle
disse que não as vendia, que as dava em troca de olhos.
Foram tirar os olhos ao gato e deram-nos ao homem. Elle foi
para casa c disse:
- Mariquinhas, ainda aqui não trago os teus olhos,
porque a tua prima foi tirar os olhos ao gato e deu-mos.

abolsamia.pt
Pediu
outra vez á arvore maçans, e foi vender maçans.
Tornou
lá a chegar ao palacio, e perguntaram-lhe por quanto
vendia as maçans. Elle disse o mesmo, que as dava em
troca de olhos.
Deram-lhe
os olhos de Mariquinhas.
Elle
foi muito contente para casa e põe os olhos á
Mariquinhas, e com a varinha de condão fez construir
uma casa em frente do palacio do rei, e ainda mais bonito
que o palacio, casa para onde foi viver a Mariquinhas, e o
homem, isto é, a bicha, o criado d'ella.
O
rei ficou admirado d'aquella casa tão bonita, e perguntou
ao criado da Mariquinhas se podia lá ir, uma tarde.
O criado disse que sim, e o rei foi.
A
menina andou-lhe mostrando as casas todas e depois convidou
o rei para jantar.
O rei acceitou o convite e foram ambos lavar as mãos,
e a Mariquinhas transformou a agua em ouro.
Elle
ficou admirado e a Mariquinhas esteve-lhe contando tudo que
lhe tinham feito.
O
rei foi para o palacio, matou todos os que lá estavam
e veio casar com a Mariquinhas, e no dia do casamento desappareceu
o criado da Mariquinhas e ninguem mais o viu.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
Ver
sugestão -

educacaodeinfancia.com/e-peras-e-peras-e-peras-e-macas
"Esta
é uma óptima música, para falar com as
crianças das frutas, da sua diversidade e nomes."
Refrão:
E pêras e pêras e pêras e maçãs
Ameixas e uvas
Marmelos e romãs (Bis).
1)
Eu fui á quinta das peras (e pêras)
Eu fui lá colher maçãs (e pêras)
Veio de lá o homem das uvas:
Oh rapaz , olha as romãs.
(Refrão)
2)
Ao almoço me dão peras (e pêras)
Ao jantar peras me dão (e pêras)
Ai meu Deus, que já não posso
Com as pêras que me dão.
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