CONTOS & LENDAS
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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XXXVIII - "Os dois compadres"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 5, Serpa, Maio de 1903, Volume V, pp. 71 a 79 (série de 7 contos)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]

Os dois compadres

"Era d'uma vez dois compadres, um era muito rico e o outro muito pobre, e este, querendo apanhar dinheiro ao rico, disse para a mulher:
- Olha, tu compras uma perdiz, eu vou á caça com o compadre e levo de cá um dos coelhos que ahi temos, e lá na caçada dou-lhe um recado para elle te vir cá trazer, que é para tu cosinhares a perdiz, e depois o compadre ha de querer comprar-me o coelho e eu peço muito dinheiro por elle.


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Assim foi; lá na caçada disse para o coelho:
- Olha, tu vae lá a minha mulher e diz-lhe que arranje uma perdiz guizada, e que faça conta com o nosso compadre.
Deu um sopapo no coelho e o coelho bateu a fugir.

O compadre já estava ancioso de vir para casa a ver se o coelho tinha dado o recado. Chegaram cá e diz o homem para a mulher:
- Então já tens a perdiz guizada? O nosso coelhinho trouxe cá o recado?
- Pois não havia de trazer! A perdiz está prompta, e fiz conta com o nosso compadre.

Diz o compadre, que era rico:
- Compadre, venda-me o seu coelho.
- Isso é que eu não vendo, que elle faz-me os meus mandadinhos todos.
- Compadre, venda-me o coelho, que eu dou-lhe muito dinheiro por elle.

Vendeu-lhe o coelho; já se sabe, um d'aquelles que tinha na coelheira.

A primeira vez que o compadre rico mandou o coelho a um recado, nunca mais lhe aprareceu.

Quando se ia acabando o dinheiro ao compadre pobre, disse este para a mulher:
- Temos de ver se arranjamos outra marosca para apanharmos bagos ao nosso compadre. Olha, tu arranjas a burra velha, eu junto-lhe dinheiro com a ração, e depois dizemos que ella faz muito dinheiro e que já somos muito ricos.


em: cravoecaneladegabriela.blogspot.com/2009_05_0...

Assim foi. Um dia, na caçada, o compadre rico reparou que a burra fazia dinheiro.
- Compadre, venda-me a burra.
- Isso não vendo eu, que já estou muito rico e quando preciso de dinheiro ella é que m'o dá. Não vendo. E não se lembra do coelho? Vendi-lh'o por uma bagatella e deixou-o logo fugir!

- Compadre, venda-me a burra.

Tanto teimou, que elle vendeu-lh'a e por muito dinheiro. Foi o compadre rico para casa, esteve arranjando a cavallariça e deitou uma boa racão á burra. Mas a burra não fazia' dinheiro. Passados dias foi ter com o compadre:
- Vossê enganou-me com a burra.
- Eu é que sou um grande tolo em lhe vender as cousas; não sabe tratar com ellas e depois diz que o engano. E' boa!

Ia-se outra vez acabando o dinheiro ao homem e diz para a mulher:
- Olha, tu arranjas um papo de peru, e mette-lhe dentro as tripas do mesmo peru, e põe o papo á cintura debaixo do avental, e eu dou te uma navalhada, no papo, está bem de ver, e tu cahes logo morta e com as tripas de fóra, toco depois n'uma gaitinha que vou comprar e tu levantaste logo ao som da gaitinha.

Convidou o compadre para ir á caça.
- O' mulher, arranja ahi o alforge, n'um instante.
- Não basta ser todos os dias esta sécca, senão n'um instante.
- Cala-te, cala-te, mulher, não me respingues.
- E ainda me hei-de calar? Pois não quero.

Arma-se uma grande briga e elle deu-lhe a navalhada. As tripas saltaram logo e a mulher cahiu redondamente. O compadre ficou todo affiicto:
-- Oh compadre! o que vossê fez! matou sua mulher.
- Não tem duvida, tenho aqui uma gaita que dá vida a mortos. Começou a tocar a gaitinha e a mulher levantou-se logo. Poz-se logo o compadre rico a dizer:
- Compadre, venda-me a gaita.
- Qual vender, nem qual diabo!


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E tudo era lembrar-lhe o coelho e mais a burra. Por fim vendeu a gaitinha.

Foi o compadre rico para casa, armou uma grande briga com a sua mulher e desata-lhe uma navalhada na barriga.

A mulher cahiu logo morta e elle poz-se a tocar a gaitinha, mas a mulher não se mexia.

Veio a justiça. Elle põz-se a contar o succedido com o compadre pobre, e levaram este preso.

No caminho os guardas quizeram descançar, amarraram o preso a uma arvore e deitaram-se a dormir a sésta.


em: pulpitocristao.com

Veio um pastor com uns carneiros e esteve-lhe a perguntar o que era.
- Ora, querem por força que eu case com a princeza, mas eu não quero, e digo que não quero, e por isso me levam prêso.

Diz-lhe o pastor:
- Anda, casa com a princeza, escusas de ir a morrer.

E diz-lhe o homem:
- Queres tu vir para o meu logar que eu vou para o teu?
- Pois quero.

E mudaram. Depois o pastor amarrado á arvore começou a dizer:
- Eu já quero, eu já quero.
- Já queres o que?
-Já quero casar com a princeza.
- Ora essa! Explica lá o teu dito.

E elle confessou tudo.
- Bem, disse a justiça, solte-se lá o homem e que vá em paz.

Elle marchou. O outro ia muito satisfeito com os carneiros. Encontrou o compadre rico, que lhe perguntou:
- Então tu nunca foste preso?
- Eu não, pois se a minha gaita dá vida a mortos, como hei-de eu ser prêso?
- Então esses carneiros, quem t'os deu?
- Ora, arranjei-os eu.
- Mas como?
- Olha, anda comigo que eu te ensino como nascem carneiros.


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Levou-o para o pé d'um pego, onde a agua era muito funda, e perguntou-lhe se queria um carneirinho ou um carneirão.

Elle disse queria um carneirão. Pegou n'elle e diz:

"Cada mergulhinho
Um carneirinho,
Cada mergulhão
Um carneirão."

E atirou com elle para dentro do pégo, e safou-se com o rebanho, que foi vender logo na feira de S. Matheus.

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.

 

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