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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XXXVIII - "Os dois compadres"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 5, Serpa,
Maio de 1903, Volume V, pp. 71 a 79 (série de 7 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
Os
dois compadres
"Era
d'uma vez dois compadres, um era muito rico e o outro muito
pobre, e este, querendo apanhar dinheiro ao rico, disse para
a mulher:
- Olha, tu compras uma perdiz, eu vou á caça
com o compadre e levo de cá um dos coelhos que ahi
temos, e lá na caçada dou-lhe um recado para
elle te vir cá trazer, que é para tu cosinhares
a perdiz, e depois o compadre ha de querer comprar-me o coelho
e eu peço muito dinheiro por elle.

http://www.divertire.com.br/educacional/sopadepalavras/
Assim
foi; lá na caçada disse para o coelho:
- Olha, tu vae lá a minha mulher e diz-lhe que arranje
uma perdiz guizada, e que faça conta com o nosso compadre.
Deu um sopapo no coelho e o coelho bateu a fugir.
O
compadre já estava ancioso de vir para casa a ver se
o coelho tinha dado o recado. Chegaram cá e diz o homem
para a mulher:
- Então já tens a perdiz guizada? O nosso coelhinho
trouxe cá o recado?
- Pois não havia de trazer! A perdiz está prompta,
e fiz conta com o nosso compadre.
Diz
o compadre, que era rico:
- Compadre, venda-me o seu coelho.
- Isso é que eu não vendo, que elle faz-me os
meus mandadinhos todos.
- Compadre, venda-me o coelho, que eu dou-lhe muito dinheiro
por elle.
Vendeu-lhe
o coelho; já se sabe, um d'aquelles que tinha na coelheira.
A
primeira vez que o compadre rico mandou o coelho a um recado,
nunca mais lhe aprareceu.
Quando
se ia acabando o dinheiro ao compadre pobre, disse este para
a mulher:
- Temos de ver se arranjamos outra marosca para apanharmos
bagos ao nosso compadre. Olha, tu arranjas a burra velha,
eu junto-lhe dinheiro com a ração, e depois
dizemos que ella faz muito dinheiro e que já somos
muito ricos.

em: cravoecaneladegabriela.blogspot.com/2009_05_0...
Assim
foi. Um dia, na caçada, o compadre rico reparou que
a burra fazia dinheiro.
- Compadre, venda-me a burra.
- Isso não vendo eu, que já estou muito rico
e quando preciso de dinheiro ella é que m'o dá.
Não vendo. E não se lembra do coelho? Vendi-lh'o
por uma bagatella e deixou-o logo fugir!
-
Compadre, venda-me a burra.
Tanto
teimou, que elle vendeu-lh'a e por muito dinheiro. Foi o compadre
rico para casa, esteve arranjando a cavallariça e deitou
uma boa racão á burra. Mas a burra não
fazia' dinheiro. Passados dias foi ter com o compadre:
- Vossê enganou-me com a burra.
- Eu é que sou um grande tolo em lhe vender as cousas;
não sabe tratar com ellas e depois diz que o engano.
E' boa!
Ia-se
outra vez acabando o dinheiro ao homem e diz para a mulher:
- Olha, tu arranjas um papo de peru, e mette-lhe dentro as
tripas do mesmo peru, e põe o papo á cintura
debaixo do avental, e eu dou te uma navalhada, no papo, está
bem de ver, e tu cahes logo morta e com as tripas de fóra,
toco depois n'uma gaitinha que vou comprar e tu levantaste
logo ao som da gaitinha.
Convidou
o compadre para ir á caça.
- O' mulher, arranja ahi o alforge, n'um instante.
- Não basta ser todos os dias esta sécca, senão
n'um instante.
- Cala-te, cala-te, mulher, não me respingues.
- E ainda me hei-de calar? Pois não quero.
Arma-se
uma grande briga e elle deu-lhe a navalhada. As tripas saltaram
logo e a mulher cahiu redondamente. O compadre ficou todo
affiicto:
-- Oh compadre! o que vossê fez! matou sua mulher.
- Não tem duvida, tenho aqui uma gaita que dá
vida a mortos. Começou a tocar a gaitinha e a mulher
levantou-se logo. Poz-se logo o compadre rico a dizer:
- Compadre, venda-me a gaita.
- Qual vender, nem qual diabo!

http://www.gaitadefole.com/desenhos/devil3.jpg
E
tudo era lembrar-lhe o coelho e mais a burra. Por fim vendeu
a gaitinha.
Foi
o compadre rico para casa, armou uma grande briga com a sua
mulher e desata-lhe uma navalhada na barriga.
A
mulher cahiu logo morta e elle poz-se a tocar a gaitinha,
mas a mulher não se mexia.
Veio
a justiça. Elle põz-se a contar o succedido
com o compadre pobre, e levaram este preso.
No
caminho os guardas quizeram descançar, amarraram o
preso a uma arvore e deitaram-se a dormir a sésta.

em: pulpitocristao.com
Veio
um pastor com uns carneiros e esteve-lhe a perguntar o que
era.
- Ora, querem por força que eu case com a princeza,
mas eu não quero, e digo que não quero, e por
isso me levam prêso.
Diz-lhe
o pastor:
- Anda, casa com a princeza, escusas de ir a morrer.
E
diz-lhe o homem:
- Queres tu vir para o meu logar que eu vou para o teu?
- Pois quero.
E
mudaram. Depois o pastor amarrado á arvore começou
a dizer:
- Eu já quero, eu já quero.
- Já queres o que?
-Já quero casar com a princeza.
- Ora essa! Explica lá o teu dito.
E
elle confessou tudo.
- Bem, disse a justiça, solte-se lá o homem
e que vá em paz.
Elle
marchou. O outro ia muito satisfeito com os carneiros. Encontrou
o compadre rico, que lhe perguntou:
- Então tu nunca foste preso?
- Eu não, pois se a minha gaita dá vida a mortos,
como hei-de eu ser prêso?
- Então esses carneiros, quem t'os deu?
- Ora, arranjei-os eu.
- Mas como?
- Olha, anda comigo que eu te ensino como nascem carneiros.

mundodeimagens-locais-ribeira-da-asseca-e-o-pego-do-inferno
Levou-o
para o pé d'um pego, onde a agua era muito funda, e
perguntou-lhe se queria um carneirinho ou um carneirão.
Elle
disse queria um carneirão. Pegou n'elle e diz:
"Cada
mergulhinho
Um carneirinho,
Cada mergulhão
Um carneirão."
E
atirou com elle para dentro do pégo, e safou-se com
o rebanho, que foi vender logo na feira de S. Matheus.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
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