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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XXXIX - "O parvo"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 5, Serpa,
Maio de 1903, Volume V, pp. 71 a 79 (série de 7 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

em: cocanha.blogspot
O
parvo
Era
uma vez uma mulher que tinha um filho parvo e chamava-se Manoel,
e morava ao pé de outra mulher que tinha uma filha
chamada Maria.
O
Manoel ia todas as manhãs visitar a Maria:
- Adeus, sôra Maria.
-Adeus, sôr Manel.
- Minha rosa branca.
- Meu fino papel.
E
ia-se embora o Manoel, sem dizer mais nada. Um dia disse para
a mãe que queria casar com a sôra Maria, e foi-lhe
perguntar se queria casar com elle.
Voltou
o Manoel muito triste, porque tinha levado cabaço.
E a mãe disse-lhe: Olha, diz-lhe palavrinhas doces.
No
outro dia foi:
- Adeus, sôra Maria.
- Adeus, sôr Manel.
- Minha rosa branca.
- Meu fino papel.
- Olhe: Assucar, marmellada, abobora, tudo palavrinhas doces.
- Fóra, estupido!
E
o Manoel veio ainda mais triste para casa.
E
a mãe disse-lhe:
"Não arranjaste nada, já vejo.
Olha,
diz-lhe palavrinhas assim cá de dentro."
No outro dia foi:
- Adeus, sôra Maria.
- Adeus, sôr ManeJ.
- Minha rosa branca.
- Meu fino papel.
-Olhe: Bofe, coração, figado, tripas, tudo palavrinhas
cá de dentro.
- Fora, bruto!
E
o Manoel voltou muito triste para casa.
Diz-lhe
a mãe:
"Olha, amanhã vae á missa, por onde vires
entrar muita gente entra tu tambem, e faz o que vires fazer."
Chegou
á egreja e vendo toda a gente a metter as mãos
na pia da agua benta metteu as suas tambem e começou
a revolver a agua, e disse:
"Ah! já comeram as sopas e deixaram o caldo; pois
que beba o caldo quem comeu as sopas."
E
foi-se ajoelhar atraz d'uma beata.
A
beata, de vez em quando beijava o chão, e elle beijava-o
tambem.
Atraz
d'elle estavam uns rapazes que o picaram quando ia beijar
outra vez o chão, e elle mette a mão ao bolso,
tira uma sovela e põe-se a picar a velha, dizendo:
"Pica, que já cá picam."
Depois
deram uma grande sova ao Manel, que veio muito triste para
casa; mas estava lá a Maria, que lhe disse ter-se resolvido
a casar com elle, e ficou muito contente.
E
disse-lhe a mãe:
- Temos de arranjar os bolos para o casamento; olha, pega
n'este sacco de trigo e diz ao moleiro que tire de cada alqueire
um selamim; não te esqueças.
- Não esqueço, - e foi dizendo caminho adiante:
- De cada alqueire um selamim; de cada alqueire um selamim.
Estavam
ali uns homens a semear trigo, e elle continuando:
-De cada alqueire um selamim
Os
homens deram-lhe uma grande descompostura.
- Então o que hei de dizer? - perguntou Manel.
- Deus queira que saia todo.
E
elle foi dizendo pelo caminho:
- Deus queira que saia todo; Deus queira que saia todo.
Encontrou um homem com dois ôdres d'azeite e um d'elles
estava rôto, e o azeite ia-se entornando. E elle:
- Deus queira que saia todo.
O
homem deu-lhe uma grande sova.
- Então o que hei de eu dizer?
- Deus queira que não saia nenhum.
- Sim sr., cá vou dizendo: Deus queira que não
saia nenhum; Deus queira que não saia nenhum.
Foi
ter a um atasqueiro onde estavam dois homens, que não
se podiam d'elle tirar. e elle:
- Deus queira que não saia nenhum
Um
d'elles lá se poude salvar e veio medil-o a pontapés.
- Então o que hei de eu dizer?
- Quem tirou um, que tire o outro.
- Sim sr., cá vou dizendo: Quem tirou um, que tire
o outro; quem tirou um, que tire o outro.
Vinha
um pobre homem sem um dos olhos, pela estrada. E o Manel:
- Quem tirou um, que tire o outro, quem tirou um, que tire
o outro
Sova
no caso.
- Então que hei de eu dizer?
- Não diga nada, vá calado até ao moinho.
Chegou
lá, poz o sacco no chão, não disse nada
e veio-se embora.
Chegou a casa e diz-lhe a mãe: "D'este o recado
ao moleiro?"
- Eu não dei recado, nem dei nada, levar é que
levei muito, fiz de tambor por essa estrada fóra, e
arrenego do casorio.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
Ver
adaptação (?):

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