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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XL - "Dona Vintes"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 5, Serpa, Maio de 1903, Volume V, pp. 71 a 79 (série de 7 contos)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]

Dona Vintes

"Era uma vez um homem que tinha vinte filhas, e a mais moça chamava-se Dona Vintes.

O pae era mercador, e, tendo de ir para uma terra muito longe, comprou um vestido côr de rosa a cada uma das filhas, e disse-lhes que na sua ausencia, visto que não tinham parentes, não abrissem a porta a ninguem, e que os vestidos haviam de dizer-lhe como ellas se portavam.


em: tonssons.blogspot.com/

A casa tinha uma varanda que dava para o jardim do rei, e no jardim havia uma craveira muito bonita.

Uma vez estava a Dona Vintes na varanda, e o principe, o filho do rei, que gostava muito d'ella, perguntou-lhe se queria um cravo da sua craveira, e ella respondeu que não precisava dos seus cravos.

O principe tratou de ver a maneira corno havia de apanhar a Dona Vintes.

Disse para um criado que se vestisse de velha e elle metteu-se n'uma arca fechada por dentro, e o criado, levando a arca a cabeça, bateu á porta da casa onde moravam as vinte filhas, dizendo que era a avó d'ellas.

Appareceu a mais velha de todas e foi dizer á Dona Vintes, que estava a avó á porta, e ella respondeu: se não tinha ouvido o que o pae tinha dito, que não tinham parentes nenhuns.

A velha, como a não deixavam entrar, pediu que lhe deixassem ao menos ficar a arca, e que viria quando o pae voltasse da viagem.

Disseram-lhe que sim e ficou a arca em casa.

A Dona Vintes era sempre a ultima a deitar se, por ser a menos preguiçosa das suas irmans, e antes de se deitar contava-as a todas; mas n'essa noite, contando-se a si, contou vinte uma.

Levantou-se muito cedo e foi pôr-se ao pé d'uma janella que dava para o jardim do rei.

Quando o principe se levantou, viu a Dona Vintes ao pé da janella:
- Dona Vintes, por aqui?
- Mais de admirar é Vossa Alteza e veja o que vae no seu jardim.

Foi-se o principe a assomar e ella pegou-lhe pelas pernas e atirou-o para o jardim.

O principe ficou muito doente.

Passados tempos as irmans de D. Vintes appeteceram comer peras do jardim do rei.

D. Vintes fez umas escadas de corda, desceu por ellas e colheu 19 peras, e o principe, que estava escondido para ver se a podia apanhar, quando ella ia a subir pegou-lhe pelo tacão de um sapato, e ella, assim que se sentiu presa, largou o sapato e subiu mais que depressa.

D'outra vez as irmans appeteceram laranjas do jardim do rei e D. Vintes foi buscal-as, e, ao subir pela escada de corda, o principe pegou-lhe na saia e ella rasgou esse pedaço da saia e subiu mais que depressa.

D'outra vez as irmans appeteceram maçans do jardim do rei, e o principe pegou-lhe pela trança do cabello, e ella cortou a trança e fugiu com as macans.

As irmans adoeceram todas, e Dona Vintes disse ao principe que tinha de ir buscar gallinhas ao gallinheiro do rei, e elle disse-lhe que sim.

Queria o principe que ella entrasse primeiro no gallinheiro, mas ella fel-o entrar a elle.

Trouxe as gallinhas e deixou o principe fechado no gallinheiro.

Depois cada uma das irmans teve uma creança, e D. Vintes metteu todas as creanças na mesma arca em que tinha ido o principe, que ao tempo estava doente, pôz a arca á cabeça e foi apregoar junto do palacio do rei:

Quem quer comprar estas flores
Para o principe, que 'stá mal d'amores?

Uma das criadas do palacio, assim que ouviu o pregão, foi chamar a rainha, e a rainha mandou chamar a pregoeira, para ver as flôres.

Dona Vintes pôz-se á procura da chave da arca, mas não lhe appareceu, e pediu que lhe deixassem ficar alli a arca.

Depois chegou o pae de D. Vintes e pediu que lhe mostrassem os vestidos côr de rosa, e Dona Vintes foi buscar o seu vestido e mostrou ao pae vinte vezes o mesmo vestido e o pae ficou muito contente.

O principe, assim que soube que tinha chegado o pae da Dona Vintes, foi pedil-a, e o pae disse que era impossivel um principe casar com uma rapariga pobre.

O principe teimou e o pae deixou casar a filha, e ella mandou fazer uma boneca de alcorce e á noite deitou-a na cama, no logar d'ella, e metteu se debaixo da cama.

O principe, com um cutello na mão para a matar, pôz-se-lhe a dizer se não se lembrava do que lhe tinha feito, e ella puchava por um cordel para a boneca dizer que sim com a cabeça; se não se lembrava quando o mettera no gallinheiro, - e a boneca disse que sim, e assim que ella disse que sim, elle matou-a e saltou-lhe um bocado d'alcorce para a boca, e elle abraçou-se á boneca, dizendo:

Dona Vintes, Dona Vintes,
Tão doce na morte,
Tão amarga na vida,
Quem tal, crime fez
Merece já morrer.

E ia-se tambem matar, quando a Donna Vintes lhe salta debaixo da cama.

Seja Deus louvado, que é meu conto acabado.

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.

Ver - A Maria Sabida - Contos Populares de Évora,
na Revista Lusitana

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