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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XL - "Dona Vintes"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 5, Serpa,
Maio de 1903, Volume V, pp. 71 a 79 (série de 7 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]
Dona
Vintes
"Era
uma vez um homem que tinha vinte filhas, e a mais moça
chamava-se Dona Vintes.
O
pae era mercador, e, tendo de ir para uma terra muito longe,
comprou um vestido côr de rosa a cada uma das filhas,
e disse-lhes que na sua ausencia, visto que não tinham
parentes, não abrissem a porta a ninguem, e que os
vestidos haviam de dizer-lhe como ellas se portavam.

em: tonssons.blogspot.com/
A
casa tinha uma varanda que dava para o jardim do rei, e no
jardim havia uma craveira muito bonita.
Uma
vez estava a Dona Vintes na varanda, e o principe, o filho
do rei, que gostava muito d'ella, perguntou-lhe se queria
um cravo da sua craveira, e ella respondeu que não
precisava dos seus cravos.
O
principe tratou de ver a maneira corno havia de apanhar a
Dona Vintes.
Disse
para um criado que se vestisse de velha e elle metteu-se n'uma
arca fechada por dentro, e o criado, levando a arca a cabeça,
bateu á porta da casa onde moravam as vinte filhas,
dizendo que era a avó d'ellas.
Appareceu
a mais velha de todas e foi dizer á Dona Vintes, que
estava a avó á porta, e ella respondeu: se não
tinha ouvido o que o pae tinha dito, que não tinham
parentes nenhuns.
A
velha, como a não deixavam entrar, pediu que lhe deixassem
ao menos ficar a arca, e que viria quando o pae voltasse da
viagem.
Disseram-lhe
que sim e ficou a arca em casa.
A
Dona Vintes era sempre a ultima a deitar se, por ser a menos
preguiçosa das suas irmans, e antes de se deitar contava-as
a todas; mas n'essa noite, contando-se a si, contou vinte
uma.
Levantou-se
muito cedo e foi pôr-se ao pé d'uma janella que
dava para o jardim do rei.
Quando
o principe se levantou, viu a Dona Vintes ao pé da
janella:
- Dona Vintes, por aqui?
- Mais de admirar é Vossa Alteza e veja o que vae no
seu jardim.
Foi-se
o principe a assomar e ella pegou-lhe pelas pernas e atirou-o
para o jardim.
O
principe ficou muito doente.
Passados
tempos as irmans de D. Vintes appeteceram comer peras do jardim
do rei.
D.
Vintes fez umas escadas de corda, desceu por ellas e colheu
19 peras, e o principe, que estava escondido para ver se a
podia apanhar, quando ella ia a subir pegou-lhe pelo tacão
de um sapato, e ella, assim que se sentiu presa, largou o
sapato e subiu mais que depressa.
D'outra
vez as irmans appeteceram laranjas do jardim do rei e D. Vintes
foi buscal-as, e, ao subir pela escada de corda, o principe
pegou-lhe na saia e ella rasgou esse pedaço da saia
e subiu mais que depressa.
D'outra
vez as irmans appeteceram maçans do jardim do rei,
e o principe pegou-lhe pela trança do cabello, e ella
cortou a trança e fugiu com as macans.
As
irmans adoeceram todas, e Dona Vintes disse ao principe que
tinha de ir buscar gallinhas ao gallinheiro do rei, e elle
disse-lhe que sim.
Queria
o principe que ella entrasse primeiro no gallinheiro, mas
ella fel-o entrar a elle.
Trouxe
as gallinhas e deixou o principe fechado no gallinheiro.
Depois
cada uma das irmans teve uma creança, e D. Vintes metteu
todas as creanças na mesma arca em que tinha ido o
principe, que ao tempo estava doente, pôz a arca á
cabeça e foi apregoar junto do palacio do rei:
Quem
quer comprar estas flores
Para o principe, que 'stá mal d'amores?
Uma
das criadas do palacio, assim que ouviu o pregão, foi
chamar a rainha, e a rainha mandou chamar a pregoeira, para
ver as flôres.
Dona
Vintes pôz-se á procura da chave da arca, mas
não lhe appareceu, e pediu que lhe deixassem ficar
alli a arca.
Depois
chegou o pae de D. Vintes e pediu que lhe mostrassem os vestidos
côr de rosa, e Dona Vintes foi buscar o seu vestido
e mostrou ao pae vinte vezes o mesmo vestido e o pae ficou
muito contente.
O
principe, assim que soube que tinha chegado o pae da Dona
Vintes, foi pedil-a, e o pae disse que era impossivel um principe
casar com uma rapariga pobre.
O
principe teimou e o pae deixou casar a filha, e ella mandou
fazer uma boneca de alcorce e á noite deitou-a na cama,
no logar d'ella, e metteu se debaixo da cama.
O
principe, com um cutello na mão para a matar, pôz-se-lhe
a dizer se não se lembrava do que lhe tinha feito,
e ella puchava por um cordel para a boneca dizer que sim com
a cabeça; se não se lembrava quando o mettera
no gallinheiro, - e a boneca disse que sim, e assim que ella
disse que sim, elle matou-a e saltou-lhe um bocado d'alcorce
para a boca, e elle abraçou-se á boneca, dizendo:
Dona
Vintes, Dona Vintes,
Tão doce na morte,
Tão amarga na vida,
Quem tal, crime fez
Merece já morrer.
E
ia-se tambem matar, quando a Donna Vintes lhe salta debaixo
da cama.
Seja
Deus louvado, que é meu conto acabado.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
Ver
- A Maria Sabida - Contos Populares de Évora,
na Revista Lusitana

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