|
CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XLI - "O Zé Estragado"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In
Tradição II vol. Anno V, Nº 5, Serpa, Maio
de 1903, Volume V, pp. 71 a 79 (série de 7 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

em: unicaeminha
O
Zé Estragado
Era
de uma vez um rei e uma rainha que não tinham filhos
e viviam muito desgostosos por isso, e um dia a rainha pediu
aos céus que tivesse um filho ou por Deus ou pelo Diabo.
E
teve uma filha pelo Diabo.
Quando
a filha chegou aos 18 annos teve uma doença de morte
e antes de morrer pediu ao pae que lhe mandasse sempre guardar
a sepultura por uma sentinella, todas as noites.
O
rei, que era o pae, assim lh'o prometteu, e assim o cumpriu;
mas de cada noite ella comia uma sentinella, e iam assim sendo
dizimados os soldados do rei.
Um
dia pertenceu a ir de sentinella um soldado a quem chamavam
o Estragado, mas este resolveu desertar a não ir de
guarda á sepultura, que era na egreja principal.
Ia
a caminho da deserção quando encontrou um pobresinho,
que era Nosso Senhor, e que lhe disse que fosse a guardar
a sepultura da menina, que ella que o não comia, e
que se pozesse elle detraz do altar-mór, que ahi não
lhe succedia perigo.
Elle
assim fez. A' meia noite sahiu a princesa da sepultura e disse:
"Sentinella, apparece! Selltinella apparece! Ai! que
meu pae já não me faz o que me prometteu!"
E
assim esteve a bradar até á uma hora em que
recolheu á sepultura.

em - cordis.com.br
O
soldado, de manhã cedo sahiu para o quartel, e foi
grande a admiração da soldadesca por não
ter sido comido o Zé Estragado.
De tarde o mesmo soldado foi a passear e encontrou o mesmo
pobresinho, que lhe disse que se pozesse na pia da agua benta
quando lhe tocasse outra vez a ir de sentinella á menina.
Quando
lhe tocou a vez, elle assim fez. A' meia noite sahiu a princeza
da sepultura a dizer:
"Soldado apparece! Soldado apparece!"
E
andava pela egreja em altos brados e quando d'uma vez chegou
a princeza perto da pia da agua benta o Zé Estragado
começa a lançar-lhe para cima agua da pia e
ella, a princeza, transforma-se logo no proprio Diabo e lança
a correr, a correr pela egreja, até que se sumiu pelo
buraco da fechadura da porta grande.
Seja
Deus louvado, está o meu conto acabado.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
----------------------------
Ver
recolha de
edição
crítica e introdução de Mário
F. Lages
CENTRO DE ESTUDOS DOS POVOS E CULTURAS DE EXPRESSÃO
PORTUGUESA
Contos Populares Alentejanos recolhidos da tradição
oral, António
Thomaz Pires. Colectânea, edição crítica
e introdução de Mário F. Lages
2ª edição aumentada, Lisboa, 2004, 198
p. (Estudos e Documentos, 11)
ISBN 972-9045-01-1 (com 114 contos
) - ucp.pt/site/resources/documents/CEPCEP
|