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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XLI - "O Zé Estragado"
Por A. Thomaz Pires
Elvas

In Tradição II vol. Anno V, Nº 5, Serpa, Maio de 1903, Volume V, pp. 71 a 79 (série de 7 contos)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


em: unicaeminha

O Zé Estragado

Era de uma vez um rei e uma rainha que não tinham filhos e viviam muito desgostosos por isso, e um dia a rainha pediu aos céus que tivesse um filho ou por Deus ou pelo Diabo.

E teve uma filha pelo Diabo.

Quando a filha chegou aos 18 annos teve uma doença de morte e antes de morrer pediu ao pae que lhe mandasse sempre guardar a sepultura por uma sentinella, todas as noites.

O rei, que era o pae, assim lh'o prometteu, e assim o cumpriu; mas de cada noite ella comia uma sentinella, e iam assim sendo dizimados os soldados do rei.

Um dia pertenceu a ir de sentinella um soldado a quem chamavam o Estragado, mas este resolveu desertar a não ir de guarda á sepultura, que era na egreja principal.

Ia a caminho da deserção quando encontrou um pobresinho, que era Nosso Senhor, e que lhe disse que fosse a guardar a sepultura da menina, que ella que o não comia, e que se pozesse elle detraz do altar-mór, que ahi não lhe succedia perigo.

Elle assim fez. A' meia noite sahiu a princesa da sepultura e disse:
"Sentinella, apparece! Selltinella apparece! Ai! que meu pae já não me faz o que me prometteu!"

E assim esteve a bradar até á uma hora em que recolheu á sepultura.


em - cordis.com.br

O soldado, de manhã cedo sahiu para o quartel, e foi grande a admiração da soldadesca por não ter sido comido o Zé Estragado.
De tarde o mesmo soldado foi a passear e encontrou o mesmo pobresinho, que lhe disse que se pozesse na pia da agua benta quando lhe tocasse outra vez a ir de sentinella á menina.

Quando lhe tocou a vez, elle assim fez. A' meia noite sahiu a princeza da sepultura a dizer:
"Soldado apparece! Soldado apparece!"

E andava pela egreja em altos brados e quando d'uma vez chegou a princeza perto da pia da agua benta o Zé Estragado começa a lançar-lhe para cima agua da pia e ella, a princeza, transforma-se logo no proprio Diabo e lança a correr, a correr pela egreja, até que se sumiu pelo buraco da fechadura da porta grande.

Seja Deus louvado, está o meu conto acabado.

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.

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edição crítica e introdução de Mário F. Lages
CENTRO DE ESTUDOS DOS POVOS E CULTURAS DE EXPRESSÃO PORTUGUESA
Contos Populares Alentejanos recolhidos da tradição oral, António
Thomaz Pires. Colectânea, edição crítica e introdução de Mário F. Lages
2ª edição aumentada, Lisboa, 2004, 198 p. (Estudos e Documentos, 11)
ISBN 972-9045-01-1 (com 114 contos…) - ucp.pt/site/resources/documents/CEPCEP

 

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